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NOS Alive, dia 1: Nick Cave, o bom Adamastor

Por mais que os tenhamos visto ao vivo, o australiano e os seus Bad Seeds conseguem sempre criar uma íntima e rara comunhão rock'n'roll. A primeira noite do festival foi deles, inevitavelmente.

André Filipe Antunes
text
Inês Lacerda
photography

Quando a grandiosidade é a norma, corre o risco de virar rotina para quem está frequentemente na sua presença. Uma sensação de “já vimos isto” toma conta, por muito bom que “isto” seja, porque a novidade perde-se, o brilho de uma ocasião especial desaparece. O maior elogio que se pode fazer a Nick Cave é que, mesmo depois de tantas atuações, tantos cumes, vê-lo ao vivo continua a ser um momento único. No primeiro dia de NOS Alive, o australiano deu uma lição de rock de primeira água, mais de duas horas e um alinhamento extraordinário de canções que deixaram as dezenas de de milhares aglomerados no Passeio Marítimo de Algés rendidos à evidência: Cave e os seus Bad Seeds são gigantes. Bons gigantes.

Foi um primeiro dia de festival dividido entre duas gerações, as linhas delineadas entre os dois principais cabeças de cartaz: se os “OGs” tinham em Cave o seu redentor, os mais novos foram atraídos a Algés à boleia dos Twenty One Pilots, dupla norte-americana que se tem afirmado como das mais bem sucedidas bandas do rock mainstream na última década – ainda que a mescla de sonoridades seja ampla e bastante difícil de categorizar, mas já lá iremos.

Álvaro Covões, homem-forte da promotora Everything is New, prometeu para esta 18.ª edição um festival cada vez mais apostado em afirmar-se como evento “cultural”, não apenas “musical” (ainda que a música seja naturalmente o prato forte). Para fortalecer a dinâmica, além da continuidade do Palco Comédia, o NOS Alive 2026 estreia o Palco Literário, dedicado a conversas com autores para aguçar o apetite antes da música e dos concertos. Valter Hugo Mãe e Pedro Chagas Freitas foram os convidados do primeiro dia; o segundo acabou já por falar para uma plateia semi-vazia, com o palco principal a abrir praticamente ao mesmo tempo e o congestionamento de eventos nos vários pólos de interesse a obrigar os festivaleiros a fazerem escolhas. Os livros ficaram para depois.

Pouco após umas 21h00 ainda em claro horário de verão, coube então ao sacerdote Nick Cave conduzir as massas rumo ao pôr-do-sol. A abertura, frenética ao som de Get Ready for Love evidencia desde logo a estonteante energia do australiano em palco, muito longe de aparentar os 68 anos de vida e mais de cinquenta de carreira que já leva. Em From Her to Eternity percorre todo o palco, corre, vai ao piano, volta e aproxima-se do público ao qual dá a mão e sobre o qual se apoia. Portugal adora Nick Cave e o músico parece retribuir o sentimento, quanto mais não seja pela frequência dos seus concertos em solo nacional – já são quase duas dezenas, quatro nos últimos quatro anos –, as duas partes alimentando-se da energia uma da outra rumo a uma qualquer catarse coletiva provocada pela música.

“Fucking Lisbon”, diz agradado, como dirá várias vezes ao longo da noite. Em Wild God, as harmonias do coro em palco são coisa de levitação; logo de seguida, pede ao público que seja o coro em Oh Children, belíssima melodia e letra, porventura conhecida de muitos pela sua aparição num dos filmes de Harry Potter. Apesar de visitante frequente, Cave desculpa-se por não saber falar a língua de Camões, ele que até já foi casado com a brasileira Viviane Carneiro. “Como é que se diz ‘belíssimo’ em português?” questiona, antes de oferecer o próprio nome como resposta, um esgar de quem sabe estar perante um público concordante.

A beleza é o próprio quem a exalta em Carnage, sobre as memórias da infância, e em Joy, sentimento simples onde tanta coisa cabe, como a admissão de Cave de ter acordado com os blues (a tristeza), e um pedido de perdão e salvação a um poder superior:

“I jumped up like a rabbit and fell down to my knees / 
I called out all around me, said have mercy on me, please”

Em 2026, conhecemo-lo bem e às suas obsessões literárias recorrentes: Deus, a morte, um imaginário de anjos e demónios e a capacidade permanente de os seres humanos se redimirem a si mesmos. Talvez também por isso os seus concertos tenham qualquer coisa de religioso, um sermão ao altar da música onde os não-crentes também são convertidos, criando uma íntima e rara comunhão.

Seguimos pelos grandes êxitos, de Henry Lee (cantada em dueto com Janet Remus, voz de apoio de Cave a fazer as vezes de PJ Harvey), a Weeping Song onde o músico brinca com a plateia num padrão de palmas rápidas, aos incontornáveis hinos de Red Right Hand (a de Peaky Blinders, sim, mas também de Gritos e Os Ficheiros Secretos, para aqueles que se lembram dos anos 90) e Jubilee Street. O ponto alto está guardado para o fim: “Vamos acabar com esta, é longa”, promete o australiano antes de se lançar para Hollywood, praticamente quinze minutos versando sobre perda, luto e paz e o estranho conforto na ideia universal da morte (difícil não ler notas autobiográficas sobre o falecimento do filho de Cave). O primeiro adeus é um falso alarme, todos o sabem; ainda não chegou a hora. O regresso a palco dos Bad Seeds presenteia-nos com You Better Run e Wide Lovely Eyes (o vocalista dedicou-a à mulher: “é a canção preferida dela, porque é sobre ela”). Pelas 23h30 já a noite caiu sobre a margem do Tejo e é tempo para a despedida, com o incontornável Into My Arms, apenas Nick Cave e o piano a iluminar a noite. “Obrigado, Lisboa. Vemo-nos outra vez um destes dias”, despede-se.

Do circo voador dos Twenty One Pilots ao charme de Matt Berninger

“Deixem sair os velhotes!”, grita uma festivaleira após o final do concerto, em pleno movimento pendular com os jovens que ao mesmo tempo acorrem ao Palco NOS: ainda falta uma hora, mas já é tempo de guardar lugar para os Twenty One Pilots. Vai ser preciso resistir, já que os rapazes que fecham o espaço nobre deste primeiro dia só sobem ao palco à 00h30, assim estipula o alinhamento. Quando finalmente o fazem, o vocalista Tyler Joseph explode subitamente de dentro de uma estrutura, numa entrada espalhafatosa e que condiz com o que aí vem durante a hora e meia seguinte.

Se o teatro de Nick Cave é sobretudo construído na base da música e dos artistas em palco, o duo do midwest dos EUA aposta sobretudo na pirotecnia visual, uma cacofonia de projeções em videowall, chamas e fogo de artifício constantes. Por vezes é excessivo, por vezes dá a sensação de estar a compensar qualquer coisa em falta – mas reconheçamos que existe talento aqui. Desde logo, o leque de géneros-influência é avassalador: a abertura, Overcompensate, assume uma lógica de construção pertencente à eletrónica; Stand up Straight abre como rock sujo, quase Ramones; Nico and the Niners recorda a proeza lírica de Eminem, e o rap é de resto omnipresente no trabalho musical da banda; e pelo meio há ainda notas de uma pop-rock açucarada, digna de êxitos da rádio como Heathens, Ride ou Stressed Out.

Como explicar o sucesso da banda? Há, por um lado, uma clara identificação lírica com temas como a depressão, a ansiedade e as inseguranças interiores, tão caros à Geração Z. Por outro, não há como negar que a dupla composta por Jospeh e pelo baterista Josh Dun dá um espetáculo digno do termo, repleto de acrobacias, interações com o público e momentos genuinamente surpreendentes, como quando Dun sai do palco e sobe a uma estrutura a mais de 20 metros de altura, destapando um segundo kit de bateria e lançando-se no solo de Drum Show, ou quando o vocalista traz ao palco um dos seguranças do evento para ajudar com o refrão de Ride.

“Safámo-nos bem?”, pergunta Tyler Joseph ao público no final daquela que foi a segunda atuação da banda em Portugal (a primeira aconteceu em 2019). O entusiasmo da plateia, mesmo em cima das 02h00, parece confirmar o sucesso da aposta. As gerações mais novas também têm de construir os seus ídolos, aqueles que serão os clássicos daqui a 20 ou 30 anos. Se os Twenty One Pilots o serão, não sabemos, mas que passaram no teste desta quinta-feira, passaram.

Retrocedendo na fita do tempo do festival e, porque não, da história recente do rock, os A Perfect Circle trouxeram ao NOS Alive 2026 um travo do rock pesado de há duas décadas. Fronteados por Maynard James Keenan, vocalista dos Tool, o supergrupo que conta ainda com membros e ex-membros de bandas como os Smashing Pumpkins ou os Eagles of Death Metal apresentou um set curto, de cerca de 50 minutos, mas ainda assim cheio de pujança. Destaque para The Outsider, do já-clássico álbum Thirteenth Step (2003), bem como uma rendição de Counting Bodies Like Sheep to the Rhythm of the War Drums, originalmente um protesto direto contra Bush e a guerra no Iraque, cuja ressonância não diminui passados todos estes anos.

Nota ainda para o palco Heineken, que acolheu neste primeiro dia duas vedetas em contextos pouco usuais: por volta das 18h00, os californianos Dogstar subiram ao palco, com o baixista Keanu Reaves a concentrar a maior parte das atenções numa tenda à pinha, menos pela música e mais pela curiosidade em ver o Neo de Matrix (ou o Johnny Utah de Ruptura Explosiva, escolham) ao vivo em Algés.

Mais à noite, depois do triunfo de Nick Cave, foi a vez de Matt Berninger, líder dos The National, subir ao palco secundário em nome próprio para apresentar temas do seu trabalho a solo. Não estão lá os irmãos Dessner, mas a sonoridade será sempre familiar a quem acompanhe a face mais visível do trabalho de Berninger, ou mesmo a quem apenas o conheça das colaborações com Taylor Swift em Folklore e Evermore).

One More Second será talvez o tema mais reconhecido do alinhamento – foi certamente o que arrancou maior reação do público – mas também há No Love, que abriu o alinhamento, Distant Axis com a sua metáfora de separação, ou Nowhere Special, as longas passagens de spoken word o produto de várias “letras péssimas” que Berninger deitou fora e depois recuperou, de acordo com o próprio. Não é fácil atuar entre dois cabeças de cartaz – mais a mais numa tenda longe de estar cheia, dada a concentração junto ao palco principal que ocorria à mesma hora para aguardar os Twenty One Pilots – mas o experiente cantor deu bem conta do recado e proporcionou um final de noite descontraído, numa edição do NOS Alive que continua sexta e sábado.