Quase um ano depois de uma investigação do Observador ter revelado que a nova sede do Banco de Portugal (BdP) iria custar muito mais do que os 191,9 milhões de euros anunciados pela instituição então liderada por Mário Centeno, que a escolha dos terrenos da antiga Feira Popular já tinham sido chumbada em julho de 2022 pelos técnicos do banco central e que Centeno e os restantes administradores do BdP assinaram um contrato-promessa vinculativo dois meses antes de o então governador abandonar funções, apesar de terem sido avisados de várias contigências graves com o projeto — quase um ano depois, o assunto continua vivo.
Álvaro Santos Pereira, que substituiu Mário Centeno, revelou esta quinta-feira em audiência na Comissão de Economia e Finanças que o Conselho de Administração do Banco de Portugal aprovou um memorando de entendimento com o Grupo Fidelidade que altera o projeto anteriormente acordado. Grosso modo, em vez de o BdP comprar dois edifícios, passa a adquirir um edifício e o custo baixa de 191,99 milhões de euros para cerca de 165 milhões de euros. Entre reduções na atual fase de construção, e na fase posterior de acabamentos, Santos Pereira garante que há uma poupança global.
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Santos Pereira não deixou de criticar indiretamente Centeno por ter assinado um contrato-promessa que vinculava o banco central a dois meses do final do seu mandato e revelou um intervalo para o custo final previsto para obra: entre 217 e os 227 milhões de euros, a preços de hoje.
Mário Centeno, que foi ouvido de seguida (e pela segunda vez) sobre um projeto em que fez questão de lançar a primeira pedra sem que existisse nada edificado acima do solo, censurou a revelação do custo final previsto para a obra (“o valor final a Deus pertence”, tinha dito Centeno em setembro de 2025), contestou a alteração promovida por Santos Pereira e colocou em causa que levasse a poupanças (tendo o apoio do grupo parlamentar do PS nesse ponto) com recurso a sucessivas ironias que meteram um célebre anúncio televisivo da Mini e secretárias de 80 centimetros.
Pormenor curioso: os seis administradores que estiveram ao lado de Mário Centeno na aprovação de um contrato-promessa que o então governador fez muita questão de assinar, são os mesmos seis administradores que aprovam agora as alterações negociadas por Álvaro Santos Pereira.
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Pelo meio, o deputado Paulo Núncio (CDS) pediu a intervenção do Ministério Público a todos os factos revelados neste caso e fez uma acusação nova: ligou o negócio da venda dos terrenos da Feira Popular pela Câmara Municipal de Lisboa liderada pelo PS à Fidelidade “por 45% acima do valor de licitação” com o primeiro superávite obtido por Centeno enquanto ministro das Finanças. É neste terreno que se está a construir a nova sede do banco central.
As alterações ao projeto: um edifício em vez de dois e uma poupança de 35 milhões
E, de repente, o projeto da futura sede do Banco de Portugal (BdP) para Entrecampos conheceu uma profunda reformulação, anunciada pelo atual governador, Álvaro Santos Pereira, na Comissão de Orçamento e Finanças, da Assembleia da República. Na prática, há uma anulação da solução anteriormente definida e a aposta numa nova direção na solução de Entrecampos, numa decisão tomada por “unanimidade” do conselho de administração do banco central, que tem os mesmos membros que já estavam com Centeno.
O projeto contratualizado no mandato do Mário Centeno como governador do BdP, em 2025, com a Fidelidade — o promotor do projeto — por 191,99 milhões de euros previa a aquisição dos edifícios A2 e A3, no estado ‘core and shell’ (tosco), do complexo imobiliário que está a crescer no centro de Lisboa. Agora, de dois edifícios o BdP, por decisão do Conselho de Administração liderado por Álvaro Santos Pereira, passa a ficar apenas num edifício, sendo uma opção distinta da anteriormente assumida: o A1, por um valor de cerca de 165 milhões de euros. Ou seja, há aqui uma redução direta de cerca de 27 milhões de euros.
De acordo com as mudanças anunciadas pelo atual governador, existe igualmente uma redução de aproximadamente 10 milhões de euros nos custos do ‘fit out’ do projeto, isto é, na escolha de acabamentos e materiais. O governador apontou para um intervalo entre os 52 e os 62 milhões de euros em custos para esta fase no edifício A1 e estimou que o ‘fit out’ para os edifícios A2 e A3 se situaria entre os 63 e os 73 milhões de euros.
O que é o core & shell e o fit out?
O ‘core & shell’ consiste num edifício (dois edifícios, no caso) ’em tosco’ que podem incluir paredes, cobertura, janelas e outras características essenciais para a estruturação da edificação. No caso da nova sede do Banco de Portugal, as fachadas totalmente acabadas pelo exterior e interior fazem parte do contrato.
Já o ‘fit out’ diz respeito, de forma muito resumida, aos acabamentos. Ou seja, às pinturas, pavimento final, acabamentos interiores, instalação de elevadores e plataformas e outras infraestruturas interiores, mobiliário e loiças, entre muitas outras questões de pormenor que são obrigatórias num projeto com esta complexidade.
Conforme o Observador avançou em julho de 2025, não só com base em documentação interna do BdP a que teve acesso, mas também por contactso com arquitetos com conhecimento sobre a matéria e pelos cálculos sobre a área (29.000 m2, segundo os relatórios da Ficope) e o valor por m2 para o ‘fit-out’ fornecido ao BdP por um dos seus consultores (1.485 euros/m2), existia um acréscimo mínimo no investimento na nova sede de cerca de 43 milhões de euros — um valor que não tinha sido contabilizado no anúncio do memorando de entendimento e contrato de promessa compra e venda (CPCV), que apontava para 191,99 milhões de euros.
Contudo, e tendo em conta as exigências elevadas de qualidade dos materiais e acabamentos de um cliente com os requisitos do Banco de Portugal, fontes do mercado imobiliário colocaram a hipótese de o valor por m2 para o ‘fit out’ chegar a um máximo de 3.000 euros/m2. O que faria com que o investimento do banco central aumentasse mais 87 milhões de euros. Assim, o custo final da obra da nova sede poderia ficar num intervalo entre 235 milhões a quase 280 milhões de euros.
Desta feita, com um investimento de 165 milhões de euros no edifício A1 e uma estimativa de custos no ‘fit out’ entre 52 e 62 milhões de euros, estará em causa um custo global da nova sede do BdP de 217 a 227 milhões de euros.
“Temos uma ideia mais realista das necessidades, com a posterior adequação funcional do edifício. As possíveis alterações do calendário serão mais do que poupadas”, referiu, destacando opções mais simples no ‘fit out’ e acrescentando: “A nova solução permitirá uma poupança de 35 milhões de euros. A isto chama-se uma gestão prudente“. Uma frase que não deixa de conter uma crítica indireta a Centeno.
A defesa comum da solução de Entrecampos
A opção por Entrecampos no lote de várias localizações possíveis para a futura sede do BdP levantou bastantes dúvidas. De tal forma que numa reunião de trabalho no dia 5 de julho de 2022, a localização de Entrecampos para a nova sede foi chumbada por falta de viabilidade técnica, por, alegadamente, não cumprir “requisitos basilares” de segurança, que incluíam a existência de lojas externas ao banco, o acesso do parque de estacionamento e a partilha de serviços de apoio (central de segurança, torres de arrefecimento, etc.).
Contudo, em 2025, seria mesmo a aposta de Mário Centeno para a decisão de um ‘sonho’ que há décadas era discutido dentro do banco central — uma nova sede em Lisboa que permitisse concentrar os funcionários num único local. E uma escolha que, na audição realizada em 25 de setembro sobre o tema, o ex-governador justificou, ao alegar que “não é o mesmo projeto de julho de 2022” que tinha sido ‘chumbado’.
A escolha dessa localização foi, porém, acompanhada de vários alertas. Os relatórios de due diligence dos assessores do Banco de Portugal para o projeto — Sérvulo (assessor jurídico) e Ficope (assessor de engenharia) — mostraram uma análise detalhada do projeto original da Fidelidade para os edifícios da Parcela A e a profundidade das alterações que teriam de ser feitas. Entre as ‘red flags‘ (bandeiras vermelhas, um termo habitual em relatórios de compliance) e as condições de “alto risco”, os relatórios da Sérvulo e da Ficope chegaram a um total de 16 contingências graves ou muito graves. Os riscos, assegurou Centeno na primeira audição sobre o tema, estavam salvaguardados e seriam superados, com as devidas adaptações.
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No entanto, Álvaro Santos Pereira saiu também em defesa da escolha de Entrecampos, ao entender que não existe uma alternativa viável nesta fase ao BdP. “Concluimos que a solução de Entrecampos é a melhor neste momento para o BdP. Não existe uma solução com a dimensão e as condições para acolher os trabalhadores do BdP em Lisboa.
O investimento será coberto em grande parte com a libertação de imóveis. Iremos aliená-los assim que seja possível. Permitirá poupar ao ano 11 milhões de euros. Serão 220 milhões de euros ao fim de 20 anos”, vincou.
O governador do BdP reiterou que a “concentração de serviços é fundamental” para a nova sede e destacou as vantagens que serão alcançadas com a centralização: “Os colaboradores estão espalhados por quatro localizações (em Lisboa). Estarmos todos no mesmo local vai permitir uma melhor gestão dos recursos e ajudará também a promover a cultura organizacional. Favorecerá a atração e retenção de talento. Nenhum dos atuais edifícios ocupados permite esta centralização. E apenas a sede é propriedade do Banco, os restantes têm custos significativos”, sinalizou.
A centralização dos trabalhadores, o espaço e as “20 ou 30 pessoas num mini”
Um dos aspetos polémicos nesta audição prendeu-se com a capacidade do novo projeto para acolher os cerca de 1.500 trabalhadores do Banco de Portugal que estão atualmente dispersos por quatro locais de Lisboa. Embora o objetivo de concentração se mantenha, haverá determinadas serviços que irão permanecer na atual sede na Baixa de Lisboa, como a tesouraria. Em paralelo, questionou-se se a redução da área, com a aposta no edifício A1 em detrimento dos edifícios A2 e A3 (que tinham cerca de 29.000 m2 de área útil), poderá albergar todos os funcionários do BdP.
Álvaro Santos Pereira assegurou que o edifício A1 “é o maior dos três edifícios naquele complexo” e que “todas as pessoas que trabalham em Lisboa vão ficar na nova sede”, descartando uma pressão para a mobilidade regional dos trabalhadores, apesar de ter defendido que há dezenas de elementos que expressaram esse desejo de sair de Lisboa.
“Mesmo que não houvesse mobilidade regional, este edifício é suficiente para albergar toda a gente que trabalha em Lisboa. O Banco de Portugal tinha 1.433 pessoas. Neste edifício vamos ter várias possibilidades, mas mesmo num cenário com mais gabinetes conseguimos pôr toda a gente neste edifício. Que não haja dúvidas de que esta solução foi bem pensada”, reforçou, na sequência de críticas lançadas pelo deputado socialista Carlos Pereira.
Por sua vez, Mário Centeno recorreu ao humor para colocar em causa a opção anunciada por Álvaro Santos Pereira, num raciocínio que incluiu os jogos de futebol nos estádios de antigamente, desafios tentados em programas de televisão ou o tamanho das secretárias a escolher para o ‘recheio’ do edifício.
“Abandonámos o peão há muitos anos no futebol. Quando comecei a ir ao futebol ficávamos em pé. Não cabíamos muitos mais? A lógica é a mesma. Naqueles programas de televisão também metiam 20 ou 30 pessoas num mini. Depois não sei se respiram”, gracejou o ex-governador do BdP, em relação à decisão do Conselho de Administração agora liderado por Álvaro Santos Pereira.
E prosseguiu: “O A1 é mais pequeno do que a soma do A2 e o A3. Nos longos meses que estudou [esta solução], o BdP não cabia no A1. Agora, se em vez de termos secretárias de 1,20m ou 1,40m e tivermos secretárias de 80 centímetros, até cabem lá ‘dois bancos de Portugal’“, ironizou.
A guerra de números, a segurança e o “poder negocial” do Banco de Portugal
191,99 milhões de euros, 165 milhões de euros, 35 milhões de euros, 100 milhões de euros (em 50 anos) 11 milhões de euros (num ano) ou 220 milhões (em 20 anos). Todos estes números foram atirados por Álvaro Santos Pereira e Mário Centeno nas audições seguidas desta quinta-feira no Parlamento, deixando evidente uma ‘guerra de números’ a propósito dos custos e das poupanças na nova sede do BdP, às quais se juntaram, sobretudo, o CDS no ataque ao anterior projeto e o PS nas críticas às mudanças hoje anunciadas.
O atual governador invocou uma “gestão prudente” para anunciar a aposta no edifício A1 por 165 milhões de euros e antecipou custos no respetivo ‘fit out’ de 52 a 62 milhões de euros, uma opção distinta daquela que foi seguida em 2025 por Mário Centeno, quando anunciou a aquisição dos edifícios A2 e A3 por 191,99 milhões de euros, sem revelar que era apenas em ‘tosco’ e com custos ainda por somar em relação ao ‘fit out’.
E isso, segundo Mário Centeno, foi um erro claro do seu sucessor. “O governador perdeu hoje poder negocial, porque entregou a sua capacidade para pagar (ao mercado)“, atirou.
O ex-governador reiterou ter sido transparente e que “a transparência é um valor absolutamente essencial”, mas sublinhou que há ainda uma incerteza nos números e que, ao serem previamente anunciados, representam uma perda para o BdP e para as contas públicas. Isto para explicar o facto de o comunicado do Banco de Portugal de 2 de maio de 2025, por si ordenado, ter apresentado o valor de 191,9 milhões de euros como único valor para a obra.
“Não vou transigir um milímetro nesta minha visão”, considerou, recuperando a sua polémica expressão “A Deus pertence” a propósito do valor final: “Todos sabemos o que quer dizer. Entre o momento em que se começa a pensar e o momento em que acaba medeiam meses, anos e ainda hoje, nem eu, nem o atual governador conseguimos identificar. Podemos ser mais ou menos crentes, mas há milhares de decisões que vão ser tomadas e influenciar o preço. Se aparecer com um número, estou a entregar esse número ao mercado. E Deus passa a ser o mercado”, resumiu.
Já sobre as poupanças anuais, Centeno tinha anteriormente previsto uma otimização na ordem dos 10 milhões de euros com a centralização operacional. Álvaro Santos Pereira foi ligeiramente mais longe e apontou aos 11 milhões de euros anuais e a 220 milhões em 20 anos.
“Aquela poupança milagrosa que agora existe… eu já tinha trazido de 10 milhões de euros por ano. Parece que agora são 11 milhões”, disse, sem deixar de insistir na defesa do contrato anterior: “Aquele valor dos 190 milhões cobria todos os custos e o promotor [Fidelidade] era responsável por todos os custos supervenientes”, afirmou, omitindo os custos da fase de ‘fit out’ (acabamentos) que Santos Pereira calculou que, no caso do projeto de Centeno, estariam no intervalo entre os 63 e os 73 milhões de euros.
A manutenção da tesouraria do BdP na baixa foi também alvo de debate, com Santos Pereira a apontar a um custo de cerca de um milhão de euros anuais, enquanto Centeno situou essa despesa nos dois milhões de euros, traçando um impacto para os “50 anos de vida útil do investimento” na nova sede. “Em 50 anos são 100 milhões de euros”, disse. E enquanto os deputados de PSD e CDS destacaram a poupança de 35 milhões de euros com a reformulação do projeto, o PS não hesitou em apontar ao atual governador um “buraco” de 65 milhões de euros ao longo das próximas décadas por causa da não concentração da tesouraria.
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E nem a segurança faltou na troca de acusações, com o deputado socialista Carlos Pereira a enfatizar que a “anterior solução incluía todos os serviços” e questionando as garantias de segurança na reformulação, ironizando até com a uma ‘Casa de Papel’ no BdP, em alusão à conhecida série espanhola da Netflix sobre o assalto à Casa da Moeda de Espanha.
Todavia, o governador do Álvaro Santos Pereira foi inequívoco: “A segurança vai aumentar. Anteriormente tínhamos verticalidade total no edifício A2, mas no A3 tínhamos lojas que não eram do BdP. No A1 não há lojas de ninguém, a segurança aumentou. Não há partilha de espaços”, enfatizou. A questão das lojas e da partilha de espaços era precisamente um dos alertas de segurança que os assessores técnicos contratados pelo Banco de Portugal tinham alertado.
Sem perda de sinal e sem auditoria da Inspeção-Geral de Finanças
Nas sucessivas alterações anunciadas e números que foram sendo conhecidos ao longo da audição de Álvaro Santos Pereira, uma dúvida emergiu: com a renegociação do contrato, o BdP iria ou não perder o sinal de 57 milhões de euros pagos à Fidelidade pelo projeto da nova sede? A questão até aventada pelo deputado do CDS Paulo Núncio, o mais crítico do anterior projeto determinado no mandato de Mário Centeno, mas Álvaro Santos Pereira desfez quaisquer equívocos que pudessem restar sobre essa matéria.
“Perder o sinal só acontece num cenário limite, se o BdP quisesse quebrar o contrato. Trabalhámos como da primeira vez num memorando de entendimento em que estamos a acautelar juridicamente as preocupações das duas partes e a acertar o preço. Estaremos a trabalhar nas próximas semanas no aditamento ao Contrato-Promessa de Compra e Venda, os valores estão já todos tomados em linha de conta neste memorando de entendimento”, começou por explicar o governador do BdP.
https://observador.pt/2025/07/22/ministro-das-financas-pede-auditoria-a-igf-sobre-nova-sede-do-banco-de-portugal/
Mais à frente na audição, Santos Pereira foi ainda mais claro: “A obra está a andar bem. Não há perda de sinal nenhum“.
Da mesma forma que recusou uma perda de sinal, o atual governador foi também muito claro a afastar a ideia de uma auditoria pela Inspeção-Geral das Finanças (IGF) ao negócio em torno da nova sede do BdP, algo que já tinha manifestado anteriormente.
A polémica desvendada pela investigação do Observador levou então o ministro das Finanças, Miranda Sarmento, a pedir uma auditoria à IGF sobre a operação de construção do novo edifício do banco central em Entrecampos, com Santos Pereira a avisar que o supervisor bancário não pode ser auditado por “instituições controladas politicamente”, como é o caso da IGF (na dependência do Ministério das Finanças).
Santos Pereira já tinha afirmado publicamente que o Banco de Portugal só pode ser sujeito a auditorias internas ou a auditorias do Banco de Portugal, revelando esta quinta-feira que o Banco Central Europeu deu um respaldo à sua posição.
“Assim que recebemos as indicações de pedidos da IGF sobre informações, enviámos ao gabinete do sr. Ministro das Finanças [Joaquim Miranda Sarmento]. Depois, a IGF pediu mais informações, o que se parecia muito com uma auditoria. O BdP perguntou ao Banco Central Europeu (BCE) se a IGF podia fazer auditoria e o BCE disse que «não», que a IGF não tem competência para esta auditoria”, observou.
No entanto, deixou a porta aberta ao escrutínio do Tribunal de Contas. “O BdP está interessado em transparência total e junto do Tribunal de Contas estamos disponíveis para fazer esse esclarecimento”, notou.
O ataque do CDS e o pedido de investigação do MP às “gravíssimas suspeitas de conluio”
O arranque da audição ao ex-governador do Banco de Portugal Mário Centeno ficou a cargo do centrista Paulo Núncio, que apontou “gravíssimas suspeitas de conluio” e pediu uma “investigação até às últimas consequências” por parte do Ministério Público.
O deputado do CDS fez uma ligação entre os 274 milhões de euros pagos pela Fidelidade pelos terrenos da antiga Feira Popular na compra em hasta pública à Câmara Municipal de Lisboa, ao excedente orçamental do Estado em 2019, num tempo em que Mário Centeno era ministro das Finanças.
De seguida, aludiu a um suposto “conluio” pelo negócio que Mário Centeno, já como governador do BdP, fez com a Fidelidade para a construção da nova sede, em 2025.
“Em 2019, a Fidelidade comprou o terreno da Feira Popular por 45% acima do valor de licitação. Qual é a relação entre a compra da Fidelidade e o excedente de 2019? É que o excedente foi de 0,1%. O valor pago pela Fidelidade foi decisivo para que Mário Centeno tenha celebrado o primeiro excedente orçamental. Sem a Fidelidade não teria havido excedente orçamental”, disse.
Núncio afirmou ainda que “anos depois, o governador Mário Centeno decide comprar à Fidelidade parte do projeto. Um negócio da China para uma empresa privada com dinheiros públicos: sempre com os mesmos protagonistas, à última hora. São gravíssimas suspeitas de conluio que têm de ser investigadas até às últimas consequências”.
Para Mário Centeno, a intervenção do deputado do CDS foi preenchida por “incorreções, inverdades e alucinações”, repudiando qualquer ligação entre os dois negócios e ridicularizando o raciocínio de Paulo Núncio. “O excedente orçamental de 2019 foi conseguido em quase 100 mil milhões de euros de despesa pública. É ridículo do ponto de vista aritmético ver qualquer ligação. Diz que o negócio foi com o Estado… As câmaras não são Estado. Ai não sabe a estrutura do Estado?”, questionou.
O deputado Marco Claudino (PSD) recordou a Mário Centeno que as autarquias contam, de acordo com as regras do Eurostat, para o perímetro orçamental das contas públicas e da dívida pública.
Apesar de mais de uma hora de audição, o deputado centrista voltaria à carga na reta final. “Não há dúvida: a operação de 2019 está intimamente ligada à operação de 2025. As suas fraquíssimas respostas reforçam a ideia de que há gravíssimas ideias de conluio neste negócio. É fundamental que o MP analise toda a documentação do BdP para apurar responsabilidades criminais neste processo”.
Os vários deputados do PS que intervieram na audição, como Carlos Santos Pereira e António Mendonça Mendes, criticaram a “teoria da conspiração” de Paulo Núncio e pediram ao deputado do CDS para não ser “preguiçoso” e apresentar a “respetiva denúncia criminal” nos serviços do Ministério Público.