Mais de cinco meses depois de anunciar, numa entrevista televisiva, a criação de um movimento para proteger o capital político acumulado nas eleições presidenciais, João Cotrim Figueiredo ainda não apresentou equipa, ainda não fez eventos e deixou a formalização do “Portugal em Frente” para a rentrée.
Passaram meses desde que o candidato a Belém, que ficou em terceiro lugar e à porta de uma passagem à segunda volta, revelou a intenção de constituir um movimento cívico e apartidário, mas foi numa resposta no Twitter que Cotrim desfez parte do mistério: “O movimento, com 18 mil portugueses inscritos, está formalmente constituído, chama-se Portugal em Frente e terá a sua apresentação na rentrée política após o verão.”
https://twitter.com/jcf_liberal/status/2074495183530373486
Formalmente, tendo em conta o documento que o Observador consultou, trata-se de uma associação que ficou registada como “Associação Movimento 2031 — Portugal em Frente”. Foi constituída no dia 13 de março de 2026 — quase dois meses após o anúncio, a 23 de janeiro — e tem apenas dois fundadores: João Cotrim Figueiredo e Bernardo Blanco, ex-deputado da IL que dirigiu a campanha às presidenciais.
Enquanto o movimento surge congelado — pelo menos publicamente —, a Iniciativa Liberal avança com os “Fóruns do Futuro”, um ciclo de debates com a sociedade civil para discutir as reformas que pretende para o país. A iniciativa do iLab, o gabinete de estudos da IL, arranca no dia 29 de setembro, em Lisboa, com uma discussão sobre Saúde, que vai contar com o ex-ministro Adalberto Campos Fernandes, com Francisco Goiana da Silva, ex-vogal da Direção Executiva do SNS, com o bastonário da Ordem dos Enfermeiros, Luís Barreira, e com Miguel Peliteiro, médico no Hospital São João que integra a lista Forbes 30 under 30.
Além disso, a IL vai ter mais cinco fóruns planeados sobre Inteligência Artificial, Habitação, Reforma da Administração do Estado, Segurança Social e Reforma Fiscal. As discussões vão acontecer em vários locais do país nos próximos meses.
Questionado sobre o nome, que já tinha sido usado na corrida a Belém, e a parecença ao Portugal à Frente (PàF) de Passos Coelho, Bernardo Blanco assegura que o nome nasce da questão que inquieta quem tem ligações ao movimento: “Para onde queremos levar Portugal? Em Frente, sem medo do futuro, prontos a conquistá-lo.” Já Cotrim confirma, no programa Explicador da Rádio Observador, que não mandou qualquer mensagem a Passos para se juntar ao movimento: “Não fazia sentido.”
Ainda que tenha defendido que “o segredo é a alma do negócio” e que em setembro haverá novidades, Cotrim adianta que há possibilidade de haver pessoas da IL nos órgãos do movimento e que conseguiu atrair políticos que não estão no ativo. Será, sublinha, “gente do mais alto gabarito” porque este “não é um movimento para divertir”, deixando a garantia de que são pessoas com credibilidade nas suas áreas e que o objetivo é que consigam “influenciar a agenda mediática e política”.
Cotrim pretende um movimento “totalmente aberto a pessoas de todas as escolhas políticas”, e, por isso mesmo, não exclui o Chega ou pessoas associadas ao Chega “em determinadas circunstâncias”, desde que a pessoa seja “capaz” e tenha “carácter”.
Crente de que nenhum dos partidos maiores tem vontade de fazer “reformas a sério” por não ter capacidade e não querer “assumir os riscos inerentes”, o liberal considera que “a mudança da vontade dos partidos tem de ser feita através da opinião pública” e que, por isso, o movimento “tem de saber influenciar a opinião pública”.
E, tal como sempre foi apanágio da IL, Cotrim quer levar para a associação que criou “uma componente de inteligência, irreverência e novidade na comunicação” para que seja possível “mudar a perspetiva das pessoas sobre a novidade das reformas”.
Segundo Blanco, a direção de futuro é exatamente a “visão partilhada por todos os que aderiram a este movimento, que têm um espírito mais reformista, tendo ou não experiência política, pertencendo ou não a partidos políticos”.
Movimento ainda sem nomes
Até ao momento, à exceção dos dois fundadores, não foram reveladas quaisquer personalidades associadas ao movimento. Porém, Cotrim e Blanco asseguram que os convites para a direção e para o conselho consultivo, o órgão de natureza estratégica da associação, já foram iniciados e que os nomes serão anunciados em setembro. Também as parcerias internacionais vão ser reveladas nessa altura.
Tendo em conta a curta comunicação de Cotrim nas redes sociais, a associação Portugal à Frente vai, como se de um partido político se tratasse, ter “a sua apresentação na rentrée política após o verão”. Em declarações ao programa Explicador, da Rádio Observador, Cotrim esclarece que “não houve oportunidade de fazer antes” do verão e que não faz sentido fazer nas férias, mas assegura: “Não quero roubar palco às rentrées, isto não é um partido.”
Mesmo sendo “apartidária”, a associação (até pela data escolhida para o nome oficial — “Movimento 2031”) continua a ser vista como uma preparação para uma segunda corrida de Cotrim a Belém daqui a cinco anos. E no momento do anúncio, o ex-candidato não confirmou, mas também não afastou a hipótese.
A verdade é que, na corrida a Belém, João Cotrim Figueiredo quase triplicou o resultado da Iniciativa Liberal numa candidatura presidencial em nome próprio, com 903.201 votos e o terceiro lugar. E os mais próximos do ex-presidente da IL acreditam que tem sido mais capaz do que o partido que representa para unir várias direitas, como comprovaram os estudos pós-eleitorais — em que ficou claro que Cotrim foi buscar grande parte dos votos aos eleitores da AD.
Cotrim quer “força ativa no debate público”
De acordo com o documento consultado pelo Observador, a associação tem sede na Avenida da República, em Lisboa, é “constituída por livre iniciativa da sociedade civil e é independente e apartidária” e tem como objetivo “mobilizar os cidadãos para a participação cívica e política, dando voz à parte da sociedade civil que está interessada em construir um Portugal mais moderno, mais otimista e mais ambicioso, inserido num espaço europeu e internacional aberto e democrático, e influenciar o debate público e a agenda política, a nível nacional, europeu e internacional”.
De resto, Cotrim pretende não só organizar eventos, seminários e conferências que contribuam para “influenciar o debate público e a agenda político-mediática”, mas também ter comunidades online e offline para “partilha de informação entre associados de modo a que estes possam ser uma força ativa no debate público”.
Tendo em conta os estatutos, a associação terá uma direção, uma Assembleia Geral e uma mesa associada a este órgão, um Conselho Consultivo e um Fiscal Único. E os sócios do movimento terão de pagar quotas, um valor decidido em Assembleia Geral — pelo que os 18 mil inscritos terão de formalizar a inscrição assim que for possível se quiserem ser sócios ativos.
Já a direção, pode ou não ser remunerada pelo exercício do cargo — uma decisão que vai caber à Assembleia Geral ou à comissão por esta instituída. E tem de reunir, pelo menos, uma vez por trimestre.
O movimento de Cotrim também pretende desenvolver iniciativas, projetos e formas de “cooperação europeia e internacional”, em que se procura uma “troca de ideias, boas práticas e experiência em matéria de governação, inovação política, desenvolvimento económico e social e liberdades fundamentais”. Assim, haverá também “relações e intercâmbio com instituições congéneres, nacionais e internacionais”.
“Visto Assim” perde muito mais do que ganha
Cotrim não apresentou só um movimento para capitalizar os 900 mil votos que teve nas presidenciais, deu um passo em frente naquela que é vista como uma forma de ganhar visibilidade e aceitou um lugar de comentador na SIC Notícias, aos domingos, num programa em nome próprio: “Visto Assim” — onde, todas as semanas, o ex-presidente da IL e eurodeputado do partido analisa assuntos nacionais e internacionais.
Mas os números não têm sido propriamente famosos para Cotrim. Ainda que o programa vá para o ar numa altura em que muitos interessados em política costumam estar a ver o “Isto é gozar com quem trabalha”, de Ricardo Araújo Pereira, o liberal perdeu as audiências de 13 dos 21 programas. Em cinco deles o jornal estava a ganhar quando Cotrim entrou e perdeu espectadores.
Por outro lado, das oito vezes em que venceu, Cotrim conseguiu virar as audiências em cinco programas — o jornal vinha a perder e recuperou para uma vitória nas audiências.