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(A) :: Depois do cisma tradicionalista, Igreja Católica tem em mãos o problema alemão. A próxima rutura pode vir do lado progressista?

Depois do cisma tradicionalista, Igreja Católica tem em mãos o problema alemão. A próxima rutura pode vir do lado progressista?

Na Igreja Católica alemã, um projeto reformista progressista está à beira da conclusão. Roma alertou para a possibilidade de uma rutura com a unidade da Igreja — dilacerada pelo cisma tradicionalista.

João Francisco Gomes
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O “não” do Vaticano demorou menos de três meses — e aprofundou ainda mais o ambiente de crise entre Roma e Berlim que se vive na Igreja Católica há mais de uma década. No final de março deste ano, os bispos católicos alemães lançaram à Santa Sé uma solicitação inédita: queriam um indulto que permitisse que, na Alemanha, os leigos pudessem, em circunstâncias excecionais, passar a proclamar a homilia durante a missa. O pedido não surgiu do vácuo: ao longo dos últimos anos, a Igreja Católica alemã, maioritariamente dominada pela ala progressista, tem vindo a passar por um complexo e controverso processo de reorganização interna marcado por propostas reformistas que incluem a bênção ritual de casais de pessoas do mesmo sexo, a revisão do celibato dos padres, a abertura a diferentes identidades de género e a transformação radical das lógicas de poder e autoridade dentro da Igreja.

O pedido relativo às homilias enquadra-se justamente neste último ponto, que tem sido um eixo decisivo da reforma alemã. Na base está a denúncia do clericalismo, uma visão distorcida do poder e da autoridade dentro da Igreja que, ao longo dos séculos, colocou os membros do clero numa espécie de casta à parte dos outros fiéis, detentora da exclusividade do poder dentro da Igreja. O Papa Francisco chegou mesmo a considerar o clericalismo como a grande mancha que permitiu a propagação dos abusos sexuais no interior da Igreja. Para o combater, tanto Francisco como o seu sucessor, Leão XIV, têm procurado dissociar o poder da pertença ao clero — por exemplo, nomeando leigos para ocupar cargos de topo da Cúria Romana que, tradicionalmente, sempre haviam sido ocupados por clérigos.

Os bispos alemães queriam ir um passo mais longe: se, na Igreja, há leigos mais bem preparados do que alguns padres para explicar o sentido das leituras bíblicas de uma missa, porque não deixá-los subir ao púlpito durante a celebração? Se na assembleia estiver um leigo licenciado em Teologia, com mais pergaminhos académicos para ensinar determinado aspeto da fé cristã, porque é que terá de ser o padre a manter o poder de falar livremente aos fiéis todas as semanas? Se o padre local não for especialmente bom orador e não souber cativar aqueles que estão presentes, não poderia um leigo mais bem preparado assumir a responsabilidade pela pregação semanal?

Para o Vaticano, não.

Numa carta de cinco páginas, com data de 17 de junho de 2026, o cardeal inglês Arthur Roche, prefeito do Dicastério para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, o organismo do Vaticano que supervisiona as questões relacionadas com a liturgia, explicou que era impossível aprovar o pedido alemão. Roche lembrou que as normas do Direito Canónico impedem explicitamente que seja um leigo a fazer a homilia de uma missa e que essa regra não é “meramente disciplinar”, mas está relacionada com “a natureza teológica e litúrgica da homilia”, que é “inseparavelmente ligada à proclamação do Evangelho e à presidência da celebração, e constitui um exercício específico do munus docendi confiado ao ministro ordenado”. Por outras palavras: pregar na missa não é o mesmo que dar uma conferência de teologia, mas é um exercício particular da missão do clero de ensinar os fiéis, mesmo que haja clérigos sem especiais competências para o fazer.

“Critérios como o facto de um fiel leigo ter uma formação teológica superior ou melhor capacidade de comunicação, por muito valiosos que possam ser em si mesmos, não podem justificar que se confie a homilia a essa pessoa”, diz o Vaticano. “Nem isto é meramente uma questão de competência teológica. Para o padre, a preparação e proclamação da homilia fazem parte integral do seu ministério presbiteral e da sua espiritualidade e não podem ser separadas dele.”

Olhada isoladamente, esta carta até pode parecer uma simples tomada de posição do Vaticano numa matéria disciplinar, sem grande importância para a vida da maior organização religiosa do mundo. Mas a nega do Vaticano aos bispos alemães é mais um espinho na relação entre Roma e Berlim, cada vez mais tensa — e, numa altura em que a Igreja alemã aguarda outra decisão crítica da parte da Santa Sé, parece indiciar que o Vaticano está pouco inclinado a ceder às ideias dos bispos alemães. Até porque a Igreja Católica acaba de passar por um cisma dramático, protagonizado pela Fraternidade Sacerdotal de São Pio X (FSSPX), grupo ultra-tradicionalista que ordenou quatro bispos sem a autorização do Papa. Os envolvidos na celebração ilícita foram excomungados automaticamente — e a FSSPX foi declarada cismática.

https://observador.pt/2026/07/01/tradicionalistas-consumam-cisma-com-roma-o-maior-sacrificio-que-deus-nos-pode-pedir-e-sermos-tratados-como-rebeldes/

Mas o risco de divisão não vem apenas do lado tradicionalista: há vários anos que o espectro do cisma também paira sobre a Igreja alemã. Quando foi eleito, em maio de 2025, o Papa Leão XIV assumiu como prioridade interna a preservação da unidade da Igreja Católica, sob ameaça num contexto de forte polarização em que não é possível excluir a existência de fraturas nos dois extremos. Até porque o que afasta os alemães de Roma vai muito além do simples pedido de homilias feitas por leigos, agora recusado: algumas das propostas dos bispos alemães tocam em alguns pontos nevrálgicos da doutrina e da disciplina da Igreja e, como o Vaticano tem alertado múltiplas vezes, se forem para a frente podem mesmo abrir cisões irreversíveis na Igreja Católica.

Uma década de tensão

A origem das tensões latentes entre os bispos alemães e Roma remonta, pelo menos, ao ano da eleição do Papa Francisco. Em 2013, a Igreja Católica debatia-se já com a crise dos abusos sexuais de menores, sofria ainda as consequências dos escândalos financeiros do Vaticano e enfrentava uma crescente polarização interna perante os avanços do mundo secular em assuntos fraturantes como os direitos LGBT, o aborto, a eutanásia e a moral sexual e familiar. Bento XVI renunciou ao papado justamente numa altura em que se sentia sem forças para enfrentar a sucessão de crises — e a entrada em cena do Papa Francisco viria a aprofundar ainda mais algumas divisões entre as alas mais progressistas e os setores mais conservadores da Igreja.

Logo em 2014, o Papa Francisco convocou um sínodo de bispos centrado no tema da família — e os registos dos votos dessas sessões de discussão no Vaticano mostram uma Igreja profundamente dividida em assuntos como a questão da homossexualidade e o divórcio. Depois do sínodo, a divisão intensificou-se com a publicação da exortação apostólica Amoris Laetitia, documento assinado pelo Papa Francisco sobre os temas discutidos pelos bispos. Foi nesse texto que o Papa argentino incluiu a infame nota de rodapé que lançou o caos. Nela, Francisco admitia que, em algumas circunstâncias, pessoas divorciadas que tinham voltado a casar pelo civil podiam comungar na missa. A frase acendeu a polémica e aprofundou o fosso entre conservadores e progressistas (uma dicotomia imperfeita, mas ainda assim útil). O Papa não escapou sequer a acusações de heresia e às críticas lançadas por um grupo de cardeais ultraconservadores, que consideraram que Francisco lançava a confusão no mundo católico. A Igreja portuguesa não ficaria de fora da polémica, com o então cardeal patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, a apelar aos divorciados que praticassem a abstinência sexual.

Ao mesmo tempo que a Igreja global começava a dar sinais de crescente fratura em torno destes temas e mergulhava em convulsão, na Alemanha a Igreja Católica estava sob forte escrutínio devido à crise dos abusos. Na sequência das denúncias que mancharam a imagem da Igreja, os bispos encomendaram um relatório independente a uma comissão de especialistas. O resultado sairia em setembro de 2018 com números impressionantes: entre 1946 e 2014, pelo menos 1.670 membros do clero tinham abusado de pelo menos 3.677 crianças. O impacto do relatório provocou um êxodo em massa de católicos. “Muitas pessoas já não acreditam em nós”, sintetizou na altura o cardeal Reinhard Marx, um dos bispos mais progressistas da Europa e presidente da Conferência Episcopal Alemã.

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Perante a crise, os bispos alemães lançaram uma iniciativa a que chamaram “Caminho Sinodal”. Em causa estava, como o Observador escreveu em 2021, um projeto de renovação da Igreja Católica alemã. Inspirado no modelo do Sínodo dos Bispos no Vaticano, o “Caminho Sinodal” foi um projeto ainda mais ambicioso do que o romano. Seria um conjunto de várias assembleias ao longo dos anos seguintes, com participação não apenas dos bispos, mas também dos leigos, representados pelo Comité Central dos Católicos Alemães, com o objetivo de debater, conceber e aprovar resoluções para transformar a Igreja Católica alemã. Logo no arranque do projeto, em 2019, o cardeal Marx fez estalar a polémica ao dizer que as decisões do “Caminho Sinodal” seriam vinculativas. A agenda das assembleias — que incluía temas como o celibato dos padres, a moral sexual, o poder e a autoridade do clero, a participação das mulheres na liderança da Igreja e os direitos LGBT — permitia antever os problemas, numa Igreja fortemente dominada pelo setor mais progressista e urgentemente necessitada de reconstruir uma relação de confiança com a sociedade alemã depois da crise dos abusos.

A proposta fez soar os alarmes no Vaticano. Logo em junho de 2019, o Papa Francisco publicou uma carta aberta aos católicos alemães para pedir cautela no processo, dizendo que era necessário evitar a tentação de “crer que os problemas presentes e futuros viriam exclusivamente de reformas puramente estruturais, orgânicas ou burocráticas” e que uma transformação da Igreja não podia acontecer “exclusivamente como reação a dados ou exigências externas”. Francisco avisou mesmo: “Cada vez que a comunidade eclesial tentou sair sozinha dos seus problemas, confiando e focando-se exclusivamente nas suas forças ou nos seus métodos, na sua inteligência, na sua vontade ou no seu prestígio, acabou por aumentar e perpetuar os males que tentava resolver.”

Seguiu-se um aviso formal do Vaticano, assinado pelo cardeal Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos. Nessa carta endereçada especificamente ao cardeal Marx, Ouellet afirmou que os planos dos bispos alemães eram “eclesiologicamente inválidos” e que as deliberações e resoluções das assembleias previstas não teriam força de lei na Igreja Católica. O cardeal Marx apressou-se a viajar para Roma para tentar resolver o que descreveu como mal-entendidos — e o “Caminho Sinodal” avançou mesmo. Entre 2019 e 2023 decorreram as cinco assembleias plenárias do projeto, apoiado pela maioria dos bispos alemães. O contexto particular da Alemanha ajuda a perceber esta realidade: no país, cuja maioria cristã se divide ao meio entre protestantes e católicos, a visão liberal da religião é maioritária e a possibilidade de abrir as igrejas a casais homossexuais ou de colocar as mulheres em cargos de liderança é largamente vista como óbvia e natural.

Os primeiros alertas de Roma foram cautelosos — mas, por todo o mundo, começaram a multiplicar-se os avisos para a possibilidade de o projeto alemão conduzir a um cisma. Um dos alertas mais vocais veio dos EUA, onde o arcebispo de Denver, Samuel Aquila, escreveu taxativamente: “Infelizmente, desenvolvimentos recentes na Igreja na Alemanha, liderados pelo cardeal Marx e pela maioria dos bispos alemães, arriscam danificar a unidade da Igreja universal. Estes bispos e um considerável grupo de leigos planeiam fazer um sínodo com votações vinculativas sobre a mudança de assuntos doutrinários, como a ordenação de mulheres, a bênção de uniões homossexuais e tópicos relacionados com a sexualidade.” E até na Alemanha, o grupo minoritário dos bispos conservadores também começou a posicionar-se contra. O cardeal Rainer Maria Woelki, um dos rostos do conservadorismo no país, disse mesmo que “o pior resultado seria se o Caminho Sinodal conduzisse a um cisma com a Igreja universal”.

"O pior resultado seria se o Caminho Sinodal conduzisse a um cisma com a Igreja universal."
Cardeal Rainer Maria Woelki

No início de 2021, um dos debates mais fraturantes no universo católico era a possibilidade de a Igreja abençoar uma união entre duas pessoas do mesmo sexo — mesmo que não lhe chamasse casamento nem usasse o mesmo tipo de ritual. O Papa Francisco tinha defendido a possibilidade de união civil entre pessoas do mesmo sexo, como modo de as proteger juridicamente, mas alguns meses depois a Congregação para a Doutrina da Fé veio dizer publicamente que a Igreja Católica não tinha a possibilidade de “abençoar as uniões de pessoas do mesmo sexo”. A posição do Vaticano foi adotada num momento em que em alguns lugares começavam a surgir propostas para regulamentar um rito para abençoar casais homossexuais. Na Alemanha, a tomada de posição do Vaticano foi mal recebida — e um grupo de padres católicos anunciou que iria desobedecer-lhe, lançando um projeto para abençoar “pessoas que se amam” em várias igrejas do país, numa clara afronta à hierarquia.

Pelo meio, continuaram as assembleias do “Caminho Sinodal” alemão, com estes temas no centro da agenda — e com o Vaticano cada vez mais preocupado. Uma declaração formal publicada em julho de 2022 foi especialmente sintomática desta preocupação. Um dos temas mais espinhosos das assembleias do “Caminho Sinodal”, além dos assuntos fraturantes relacionados com a moral sexual e familiar, era a questão da governação eclesiástica. Os alemães pretendiam criar uma espécie de “comité sinodal” permanente, formado por bispos, padres e leigos, destinado a governar a Igreja Católica no país — sobrepondo-se, aparentemente, à autoridade dos bispos e da Conferência Episcopal. O Vaticano mostrou-se alarmado e afirmou taxativamente que “o ‘Caminho Sinodal’ na Alemanha não tem a faculdade de obrigar os bispos e os fiéis a assumir novos modos de governo e novas abordagens de doutrina e de moral”. Mais: “Não seria lícito iniciar nas dioceses, antes de um acordo concertado ao nível da Igreja universal, novas estruturas oficiais ou doutrinas que representariam uma ferida para a comunhão eclesial e uma ameaça à unidade da Igreja.” As referências à comunhão e à unidade davam conta do tom sério do aviso: uma decisão que pusesse em causa a autoridade própria dos bispos, considerados sucessores dos apóstolos de Jesus Cristo, podia, no limite, levar a um cisma.

No mesmo ano, os bispos alemães viajaram em conjunto até Roma para a habitual visita ad limina, uma obrigação periódica de todos os bispos do mundo. A visita alemã de 2022 ficou claramente marcada pela controvérsia em torno do “Caminho Sinodal”. Nem mesmo a versão trazida a público pelo Vatican News esconde que esse foi o tema central do encontro, nem que o Vaticano alertou os alemães para os perigos de tentar correr em pista própria, ignorando a realidade global da Igreja. Na sequência deste encontro, e sem conseguir convencer os bispos alemães a desistirem do “Caminho Sinodal”, o Vaticano tentou uma última medida: propôs uma moratória ao processo reformista em curso.

Com o fim do “Caminho Sinodal” à vista (a assembleia final estava prevista para março de 2023), o próprio Papa Francisco interveio. Numa entrevista à Associated Press em janeiro de 2023, criticou duramente o projeto alemão, sublinhando que “a experiência alemã não ajuda” e alertando para os perigos da ideologia. “Aqui, o perigo é o de que algo de muito ideológico se infiltre. Quando a ideologia se envolve nos processos da Igreja, o Espírito Santo vai para casa, porque a ideologia se sobrepõe ao Espírito Santo”, disse o Papa, cada vez mais em rota de colisão com o cardeal Marx — homem que, em 2015, tinha dito publicamente que a Igreja alemã não era “uma filial de Roma”, mas que continuava a ser um dos conselheiros mais próximos de Francisco, integrando inclusivamente o famoso C9 (o conselho de nove cardeais conselheiros criado pelo Papa Francisco).

A Santa Sé redobrou os esforços para impedir a deriva progressista da Igreja alemã, publicando as intervenções que dois cardeais de topo do Vaticano — os prefeitos das congregações da Doutrina da Fé e dos Bispos — haviam feito durante a visita dos bispos alemães a Roma. As intervenções tornadas públicas mostraram que o tom da reunião de novembro foi muito mais tenso do que antes se imaginava: o Vaticano deixou mesmo sérios avisos relativamente à “comunhão da Igreja” e à “dúvida e confusão” que seriam lançadas entre os fiéis. Por fim, já em janeiro de 2023, o Vaticano tomou formalmente a decisão de proibir os bispos alemães de criarem o conselho sinodal que pretendiam implementar.

Estes apelos terão tido pouco efeito. Em março de 2023, chegou finalmente a última assembleia plenária do “Caminho Sinodal” alemão, com as votações finais e a aprovação, por bispos e leigos, das resoluções da iniciativa. No total, foram publicados oito documentos, todos fortemente polémicos. Um, intitulado “cerimónias de bênção para casais que se amam”, passava a permitir a bênção ritual de casais de pessoas do mesmo sexo e admitia explicitamente a “reavaliação da homossexualidade como uma variante normativa da sexualidade humana”. Outro permitia que o campo do género fosse deixado em branco nos documentos do batismo, por exemplo em crianças intersexo, e foi lido como uma abertura da Igreja aos debates sobre a identidade de género. Um terceiro documento era uma resolução que instruía os bispos alemães a fazerem lóbi em Roma pela ordenação diaconal de mulheres, enquanto uma outra resolução determinava a criação de normas para proteger as mulheres de crimes sexuais no contexto eclesiástico. Outro documento determinava a formulação de um pedido à Santa Sé para que os leigos “qualificados” pudessem passar a fazer a homilia nas missas, com o objetivo de promover uma Igreja menos centrada no poder do clero (o pedido que foi agora negado pelo Vaticano). Não menos controversas foram duas resoluções sobre o sacerdócio: uma sobre os desafios contemporâneos à formação dos padres, incluindo no domínio afetivo e sexual, e outro que continha uma proposta no sentido de eliminar a obrigatoriedade do celibato dos padres. Por fim, os delegados sinodais aprovaram um documento com dez medidas para prevenir o abuso sexual de menores.

Os documentos aprovados pelo “Caminho Sinodal” alemão tocam em praticamente todas as guerras culturais internas da Igreja Católica — os abusos, as assimetrias de poder do clero, os direitos LGBT, o papel das mulheres, o celibato, a identidade de género — e abordam-nas a todas pela perspetiva mais progressista. A única medida que acabou por cair, por pressão do Vaticano, foi justamente a criação dos “conselhos sinodais” em todas as paróquias e dioceses. Em contrapartida, foi decidida a criação de um “comité sinodal” precisamente para, ao longo dos três anos seguintes, estudar a possibilidade de criar um conselho sinodal a nível nacional, composto por bispos e leigos, para conduzir os destinos da Igreja Católica alemã.

A caminho do cisma?

Ao longo dos últimos três anos, o clima de conflitualidade entre a Igreja alemã e o Vaticano só se aprofundou — e a discórdia em torno da possibilidade de os leigos passarem a fazer as homilias na missa é, na verdade, o menor dos problemas. Temas como o casamento entre pessoas do mesmo sexo e, principalmente, a questão da autoridade são centrais para o Vaticano e podem, no limite, conduzir a uma cisão irremediável. Na origem de todo este processo está a crise dos abusos sexuais de menores e a machadada que deu na confiança das sociedades contemporâneas na Igreja — já o teólogo checo Tomáš Halík advertia, em 2020, que a crise dos abusos podia ter, no século XXI, um papel análogo ao que a crise das indulgências teve no século XVI ao desencadear a Reforma Protestante, o último grande cisma da história do Cristianismo.

Apesar da larga maioria progressista entre os bispos alemães, mesmo dentro da Igreja alemã não se pode falar de uma total unanimidade. Há pelo menos quatro bispos conservadores que têm representado a principal frente de oposição interna ao projeto reformista dos bispos alemães: Rainer Maria Woelki (Colónia), Gregor Maria Hanke (Eichstätt), Stefan Oster (Passau) e Rudolf Voderholzer (Regensburg). Em junho de 2023, por exemplo, estes quatro bispos votaram contra o projeto da Conferência Episcopal Alemã de criar um sistema de financiamento do comité sinodal, o organismo que deveria preparar a implementação do tal conselho sinodal permanente. Uma vez que era necessário um voto unânime, os bispos alemães tiveram de encontrar alternativas.

Pelo caminho, o Vaticano continuava a dar sinais de preocupação com o caminho seguido em Berlim. No verão de 2023, uma delegação de bispos alemães viajou até Roma para uma reunião com cardeais da Cúria Romana, destinada a dar seguimento às discussões iniciadas na visita ad limina do ano anterior. Os dois lados concordaram em continuar a debater os pontos de discórdia ao longo do tempo. Mas, à boleia de novas polémicas no seio do projeto alemão (particularmente a demissão de quatro teólogas alemãs envolvidas no processo), o Papa Francisco voltou a intervir com palavras duras, lamentando que a Igreja alemã tenha dado passos “que ameaçam desviar-se cada vez mais do caminho comum da Igreja universal”.

Em fevereiro de 2024, pouco antes da assembleia plenária da Conferência Episcopal Alemã, o Vaticano lançou um novo alerta, exigindo que os bispos alemães retirassem da agenda daquela reunião a votação dos estatutos do já infame comité sinodal. O alerta vinha em tom de ameaça: se os alemães avançassem com a aprovação dos estatutos, Roma interviria. Seguir-se-iam novas reuniões entre os bispos alemães e o Vaticano, das quais resultaram dois comunicados conjuntos. No primeiro, em março de 2024, os dois lados concordaram em manter canais abertos de comunicação para garantir que qualquer projeto eclesial na Alemanha seguia as regras universais da Igreja Católica. No segundo, em junho, ficou definido que o comité sinodal até poderia implementar um novo organismo permanente, mas tinha de mudar de nome e, mesmo que servisse para promover a participação dos leigos nos processos de tomada de decisão da Igreja, tinha de ficar claro que esse novo organismo nunca poderia estar acima nem sequer ao mesmo nível que a Conferência Episcopal. A autoridade dos bispos tinha de ficar salvaguardada.

"Na Europa do Norte, já estão a publicar rituais para abençoar ‘pessoas que se amam’, é a forma que têm de o expressar, que vão especificamente contra o documento que o Papa Francisco aprovou."
Papa Leão XIV

Todos estes desenvolvimentos ocorreram ao mesmo tempo que, em Roma, chegava à fase final o inédito Sínodo sobre a Sinodalidade, a iniciativa do Papa Francisco que trouxe para o centro do debate interno da Igreja alguns dos temas mais fraturantes (incluindo os da moral sexual e da participação das mulheres), bem como os modelos de governação da Igreja (com o Papa a promover uma Igreja mais horizontal, com maior participação dos leigos e menos centrada no poder clerical). Ainda assim, o sínodo acabaria por terminar com os principais temas polémicos fora da agenda — o que frustrou o setor mais progressista da Igreja. Na Alemanha, mesmo os passos significativos dados pelo Papa Francisco eram insuficientes.

Já no final de 2024, com base nas discussões tidas entre os bispos alemães e o Vaticano, o comité sinodal redesenhou o projeto para o novo organismo permanente, agora batizado como “Conferência Sinodal”. Como combinado em Roma, os alemães deveriam, depois, submeter os estatutos dessa “Conferência Sinodal” ao Vaticano, com o objetivo de receber uma aprovação à experiência. Mas em abril de 2025, poucos dias antes da morte do Papa Francisco, a situação de tensão, aparentemente pacificada, voltaria a agudizar-se quando a Conferência Episcopal Alemã e o Comité Central dos Católicos Alemães, as duas organizações que promoveram o “Caminho Sinodal”, distribuíram o documento “Bênçãos para Casais que Se Amam”. Citando a declaração Fiducia Supplicans (documento em que o Papa Francisco admitiu que os membros do clero podiam abençoar duas pessoas homossexuais que vivem em conjunto, desde que essa bênção não se assemelhasse ao rito do casamento e não fosse feita em contexto litúrgico), a Igreja alemã voltava a ir vários passos mais longe do que o já polémico texto do Papa Francisco: o documento distribuído em abril de 2025 era, na essência, um guia para a celebração de rituais litúrgicos destinados a abençoar casais de pessoas do mesmo sexo e outros casais em situações consideradas pela Igreja como “irregulares”.

O documento provocou nova divisão interna na Igreja alemã, com pelo menos cinco bispos a rejeitarem aplicá-lo. Mas a publicação do guia alemão também contribuiu para adensar as divisões dentro da Igreja a nível global sobre o verdadeiro alcance do documento publicado no ano anterior pelo Papa Francisco, entretanto sucedido pelo Papa Leão XIV (que, como cardeal, integrou a delegação do Vaticano que negociou com os alemães no ano anterior). Numa entrevista dada em setembro de 2025, o novo pontífice procurou clarificar a questão, dizendo que a Igreja Católica não aprova o casamento entre pessoas do mesmo sexo nem tem uma versão alternativa do rito do casamento para pessoas do mesmo sexo. No entender de Leão XIV, a única coisa que Francisco procurou fazer foi garantir que a Igreja não negava uma bênção que fosse pedida por duas pessoas homossexuais que viviam juntas — desde que ficasse garantido que essa bênção dada às pessoas não representava uma aprovação da sua união familiar. Na entrevista, Leão XIV deixou claro que estava a pensar no caso alemão: “Na Europa do Norte, já estão a publicar rituais para abençoar ‘pessoas que se amam’, é a forma que têm de o expressar, que vão especificamente contra o documento que o Papa Francisco aprovou.”

O presidente da Conferência Episcopal Alemã, o bispo Georg Bätzing, viu-se forçado a vir a público defender o guia publicado pelos bispos alemães e a garantir que não estava em causa qualquer desobediência a Roma. Mas, depois da polémica com o guia para a bênção de casais do mesmo sexo, o projeto alemão para a criação de uma Conferência Sinodal continuou e recentrou a controvérsia no tema mais espinhoso de todos: a questão da autoridade. Abdicar da autoridade suprema dos bispos sobre a Igreja abriria precedentes e levantaria questões não só na Alemanha, mas em toda a Igreja Católica — e seria o tipo de decisão que, no limite, poderia conduzir a uma cisão interna. Em novembro de 2025, os bispos alemães reuniram-se pela quarta vez em Roma com representantes do Vaticano, e poucos dias depois o comité sinodal aprovou por unanimidade os estatutos da nova Conferência Episcopal, estrutura composta por 81 elementos: 27 bispos, 27 representantes do Comité Central dos Católicos Alemães e 27 outros membros eleitos. Os quatro bispos conservadores que, desde o início, se opuseram ao projeto ficaram de fora — e um deles até recusou participar na assembleia que se seguiu à aprovação dos estatutos.

Entretanto, com o fim do mandato de Georg Bätzing à frente da Conferência Episcopal Alemã, os bispos alemães elegeram o bispo Heiner Wilmer como novo líder — e a imprensa especializada rapidamente especulou que o perfil mais moderado de Wilmer poderia ajudar a colocar água na fervura e a pacificar as relações com Roma. Em março deste ano, Wilmer visitou o Papa Leão XIV em Roma e apresentou-lhe os estatutos da Conferência Sinodal, para que o Vaticano os possa analisar e aprovar à experiência. Ao fim de uma década de polémicas em torno de alguns dos assuntos mais controversos da vida da Igreja Católica, o projeto reformista alemão entrou numa fase decisiva: a aprovação institucional do novo organismo até poderá contribuir para pacificar as relações eclesiais entre Roma e Berlim, mas tudo dependerá do modo como a Conferência Sinodal verdadeiramente atuar na Igreja alemã. A maioria dos bispos alemães estava de acordo com os primeiros planos e há agora muitas perguntas em aberto, a começar por esta: uma perspetiva radical da sinodalidade, que distribui o poder e a autoridade pelos leigos, poderá ou não fazer implodir a Igreja Católica como a conhecemos, assente na autoridade do Papa em comunhão com os bispos de todo o mundo, replicando a autoridade primitiva de Pedro e dos discípulos de Jesus?

Os bispos alemães procuraram sempre vincar a ideia de que o seu processo se enquadrava no processo mais alargado de promoção da sinodalidade na Igreja Católica a nível global, de forma a encontrar uma legitimação por parte do Vaticano. Contudo, o projeto alemão acabou por querer dar um passo que Roma nunca poderia aceitar: a criação de uma estrutura de poder acima dos bispos. Fazê-lo seria, no contexto católico, usurpar o lugar da única autoridade que está, teoricamente, acima dos bispos: o próprio Papa.

A situação é, para já, de impasse. Os bispos alemães ainda esperam a decisão sobre a aprovação ou não, à experiência, por parte do Vaticano, dos estatutos da Conferência Sinodal. Esse será o momento decisivo para perceber se os bispos alemães tentarão forçar a barra e entrar ou não em rutura com Roma. Desde março, porém, os sinais que têm chegado do Vaticano em relação à Alemanha não são propriamente positivos. Além da já mencionada rejeição do pedido para que os leigos pudessem passar a fazer as homilias na missa, também a questão das bênçãos para casais de pessoas do mesmo sexo voltou a criar polémica.

Em abril deste ano, o cardeal Reinhard Marx, que esteve na origem de todo o processo reformista na Alemanha, publicou uma instrução para que os padres da sua diocese (Munique e Freising) aplicassem o tal guia para as bênçãos de uniões homossexuais e facilitassem o acesso de casais de pessoas do mesmo sexo a celebrações litúrgicas destinadas a abençoar a sua união. Alguns dias depois, o Vaticano voltou a encostar os bispos alemães à parede, tornando público um documento que tinha sido mantido em segredo durante um ano e meio: uma carta, com data de novembro de 2024, em que o Dicastério para a Doutrina da Fé rejeitava categoricamente a proposta dos bispos alemães de passar a introduzir, na Igreja Católica alemã, ritos para abençoar casais de pessoas do mesmo sexo, uma vez que podiam ser lidos como uma legitimação, por parte da Igreja, dessa realidade. A carta não foi tornada pública na altura — e os bispos alemães desafiaram o Vaticano, lançando em abril de 2025 o polémico guia.

A decisão do Vaticano de divulgar agora a carta de 2024 deixou os bispos alemães numa posição ainda mais fragilizada, especialmente numa altura em que aguardam ainda a aprovação dos estatutos da nova e controversa Conferência Sinodal. Com a Igreja Católica ainda na ressaca de um cisma consumado por uma das franjas mais conservadoras e tradicionalistas do Catolicismo, o Vaticano sabe que a ameaça da divisão interna não vem apenas de um dos extremos: o modo como gerir as tensões crescentes na Alemanha ditará se também do lado progressista surgirá um cisma. O Papa Francisco chegou a avisar que o risco de uma rutura era real, em palavras célebres num encontro com jesuítas: “Na Alemanha, já há uma Igreja Evangélica muito boa. Não precisamos de duas.” A bola está agora do lado do Vaticano, que estará a ponderar tanto os riscos de aprovar como os de chumbar o projeto alemão. Resta saber o que farão os bispos alemães em cada um dos casos.