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(A) :: A água que corre na rua sem parar, as puxadas e o boom de piscinas. Alguma coisa tem de estar "muito mal na raiz" na crise hídrica de Almada

A água que corre na rua sem parar, as puxadas e o boom de piscinas. Alguma coisa tem de estar "muito mal na raiz" na crise hídrica de Almada

Um conjunto de fatores deixou Almada sem saber quando e onde a água vai correr. Das condutas antigas à pressão sazonal, passando por furos ilegais, há um muito que explica como se chegou aqui.

Marina Ferreira
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João Porfírio
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Ana Suspiro
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Ilda pára o carro junto a um grupo de funcionários dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada que trabalham num terreno com uma retroescavadora. “Como moradora da Caparica, as pessoas não estão devidamente esclarecidas”, diz, visivelmente indignada, a uma das funcionárias que tenta acalmar os ânimos da residente através da janela semiaberta do veículo. “Quero saber quem é que licencia os três furos que estão a aguardar aprovação”, questiona a residente, que critica a “fraca” comunicação dos serviços camarários e da sua liderança política desde que a crise no abastecimento de água se adensou em Almada. É-lhe respondido que o processo depende de várias fases e não só da autarquia.

“Imagine o que é chegar a casa e não poder tomar banho… se as pessoas não entenderem o que se passa ficam cada vez mais zangadas”, garante ao Observador, justificando a sua decisão de abordar diretamente os funcionários que, tal como confirmado por fonte oficial da Câmara Municipal de Almada, realizaram esta quinta-feira três ações de fiscalização: na Charneca de Caparica, na Fonte da Telha e perto do bairro da Penajóia, junto ao qual Ilda parou o carro para pedir justificações aos profissionais no terreno.

A moradora da Caparica, que não se atravessa com uma causa única para a crise hídrica, faz questão de dar nota das fugas de água que vê com frequência nas ruas da Caparica. “Há algumas que ficam 24 sobre 24 horas a correr“, garante. “Houve alturas em que a água esteve meses a correr, isso implica desperdiçar muito”, garante ainda, recordando o momento em que uma vizinha lhe ligou para a avisar que tinha o carro em perigo por estar junto a uma destas ruturas.

“Rebenta aqui, rebenta ali”, descreve, reconhecendo que não tem conhecimentos técnicos para perceber a que se deve toda esta água à superfície. Uma coisa é certa, alguma coisa tem de estar “muito mal na raiz” para justificar as constantes perdas de água, considera. De acordo com dados oficiais da Câmara Municipal de Almada, o número de ruturas de adutoras registadas em 2025 foi de 56. Em 2026, registaram-se, até ao momento, 14.

Ao Observador, José Vieira, engenheiro especializado em hidráulica e membro do conselho de supervisão da Ordem dos Engenheiros, destaca o problema das “condutas envelhecidas” em Almada. “Uma zona como esta, com uma população flutuante grande no verão, vai influenciar muito a pressão de água”, adiciona.

“Com o aumento de consumo, se os sistemas não estão preparados para aguentar esse tipo de incremento durante vários períodos consecutivos, o sistema vai perdendo a sua margem operacional”, esclarece, mencionando a capacidade dos reservatórios do sistema de abastecimento público que Inês de Medeiros afirmou estarem a 10% de capacidade esta quarta-feira.

Se tivermos um consumo muito grande, vamos perdendo pressão. E perdendo pressão vamos tendo zonas mais periféricas da rede e zonas mais altas em que começa a haver falta de água, porque ela não chega lá. Para mim esse é o principal indicador”, garante. A acrescer à pressão sazonal, garante que a “degradação maior das condutas gera mais perdas e mais fugas” como aquelas a que Ilda diz assistir com frequência.

A tempestade perfeita acontece juntando as condutas antigas ao aumento do caudal justificado pela subida do consumo sazonal que culmina na diminuição das reservas e na maior perda de água.

“Há uma degradação maior das condutas que gera mais perdas e mais fugas. E as pessoas, sabendo que existe dificuldade, vão procurar alternativas por si próprias“, alerta ainda, referindo-se às puxadas clandestinas de água.

Filipe Duarte Santos, professor da Universidade de Lisboa e especialista em alterações climáticas, explica ao Observador que enquanto Lisboa é abastecida sobretudo pela barragem de Castelo de Bode e por algumas captações no Tejo, a península de Setúbal, onde está Almada, depende de captações (furos) a partir de um aquífero que, apesar de ter uma grande dimensão, tem sido usado intensivamente e está a níveis mais baixos. Uma consequência dessa degradação é a intrusão salina (água do mar) nos recursos hídricos, refere.

"Com o aumento de consumo, se os sistemas não estão preparados para aguentar esse tipo de incremento durante vários períodos consecutivos, o sistema vai perdendo a sua margem operacional"
José Vieira, engenheiro especializado em hidráulica e membro do conselho de supervisão da Ordem dos Engenheiros

O especialista esclarece que num sistema municipal como o de Almada sabe-se a água que sai dos reservatórios e a água que é faturada, ainda que seja preciso esperar pelo pagamento que tem uma cadência mensal. É necessário fazer uma análise detalhada do cruzamento desses dados e perceber qual é a dimensão da água que não foi faturada. Mais difícil é, no entanto, perceber onde é que, ao longo do sistema, essa água é perdida.

Filipe Duarte Santos diferencia dois tipos de fugas de água. As fugas “físicas” que correspondem a ruturas nas condutas e à água que se perde no sistema subterrâneo. E as fugas “fictícias” que correspondem a água consumida pelos clientes finais, mas que não é paga. “Por todo o país existem intervenções feitas por utilizadores para desviarem a água para proveito próprio sem ser faturada. São mais difíceis de detetar e é preciso que as câmaras tenham capacidade de monitorização dessas situações e de fiscalização”, esclarece.

Câmara nega que “puxadas” ilegais de água sejam foco do problema de Almada. Em Penajóia a água foi cortada

Foi para acabar com uma destas “fugas fictícias” que esta quinta-feira a Câmara Municipal de Almada realizou o que chamou de “ação de fiscalização” no bairro da Penajóia. No outro lado da estrada do bairro de construção ilegal, uma máquina retroescavadora e vários funcionários dos SMAS de Almada fecharam o furo clandestino que alimentava várias casas. Como explica José Vieira, bastará, à partida, terra para tapar a puxada ilegal de água.

Mas foi a própria presidente da Câmara Municipal de Almada, Inês de Medeiros, a rejeitar, esta quinta-feira, que os atuais problemas de abastecimento de água sejam causados por roubos. “Haverá certamente puxadas ilegais”, reconheceu. Mas notou que “as zonas mais críticas e mais pobres” do concelho “reduziram o consumo de água“.

A autarquia destaca os dados referentes a Raposo e Monte de Caparica, bem como do Pragal em que, em 2025 e 2026, o consumo de água até diminuiu 4,6%.

Mesmo assim, a decisão camarária foi a de avançar com o encerramento do furo que abastecia várias famílias a viver no bairro. Ana (nome fictício), uma das moradoras do bairro, abre a porta ao Observador e mostra como uma mangueira, que ativa através de uma torcedura, ainda tem água corrente enquanto os trabalhos decorrem do outro lado da rua. “A Câmara não dá condições, nós já pedimos, queremos luz e água como deve ser. Queremos água em condições“, garante, justificando aquela opção como um último recurso.

O vizinho do lado, Ivaldino, não tem a mesma água corrente em casa, mas tem à porta um reservatório que leva uma tonelada de água (1000 litros). Naquela zona do bairro, quase todas as unidades de habitação têm um depósito destes à porta. Para a sua família de três pessoas serve para dois meses. “Se não temos água, temos de recorrer à que há”, admite. E entende que cortar a água ali não é a solução para os atuais problemas, ainda por cima tendo em conta que a água que chega a cada casa ou barraca não é canalizada.

“Todo o ser humano precisa de luz e água e não estamos aqui porque queremos”, lamenta. Há dois anos que vive naquela casa, que construiu com a ajuda de família e amigos por não ter capacidade de pagar uma renda. Há vezes em que o segurança privado enche o reservatório com recurso ao furo que a Câmara agora fechou, mas também já comprou água de camiões-cisterna que a vendem por “40 euros” para encher na totalidade o reservatório de 1000 litros. Ivaldino diz que estaria disposto a pagar a conta da água desde que a ligação fosse disponibilizada pela autarquia, pedido que os moradores do bairro fazem há vários anos.

Esta água no exterior de várias casas e barracas do bairro serve para tudo: higiene pessoal, lavar a louça, cozinhar, mas Ivaldino não a usa para beber. José Vieira alerta precisamente para o perigo de consumir esta água captada ilegalmente. “Quem controla a qualidade dessa água?”, questiona.

E explica que furos como este, que são feitos geralmente por não profissionais de forma clandestina, não havendo maneira de testar a qualidade da água, fazem também eles, na medida da captação, diminuir a água disponível no subsolo. “Temos uma toalha de água subterrânea, se eu fizer um furo, essa toalha, ao captar a água, baixa um bocadinho. Se eu fizer um furo ao lado, também vai baixar um bocadinho, e assim sucessivamente. E quantos mais furos eu fizer, mais ela baixa”, explica.

Ou seja, a “sobre-exploração das águas subterrâneas” afeta o equilíbrio natural que é garantido pela chuva que enche os reservatórios. “Se nós estivermos a extrair água e não estivermos a repor nenhuma, que é o caso no verão, o que vai acontecer é que isso afeta todos os outros [furos]”, refere, incluindo os que servem para abastecer a rede pública.

O “boom” de construção na Charneca da Caparica (que vem com piscinas atreladas) e a rega de campos de golfe

Não só na Penajóia, mas também na Charneca de Caparica e na Fonte da Telha foram realizadas ações de fiscalização para o fecho de furos ilegais e análise de outras irregularidades, conforme informou fonte oficial da autarquia de Almada ao Observador.

A mesma fonte revela que, no dia anterior, os serviços da autarquia tinham já estado a “ver piscinas, áreas não cobertas por rede pública, e a recolher amostras de identificação da presença de cloro” em várias zonas. Ou seja, a fiscalizar captações de água ilegal para encher piscinas e outro tipo de infraestruturas que dependam deste recurso.

E foi para estas e outras localidades que Inês de Medeiros se virou, em detrimento dos bairros mais pobres. “Neste momento os maiores consumos estão, de facto, nas zonas mais usadas durante o verão, na Costa de Caparica, na Charneca e na Sobreda”, referiu a autarca socialista, notando que esta é a “zona onde tem havido mais construção”, não excluindo mesmo a possibilidade de que a perda de água “se deva à flexibilização que foi imposta aos municípios referente às regras de licenciamento.”

Diogo Mira, responsável político do Bloco de Esquerda em Almada e morador na Charneca de Caparica, nota ao Observador que o “boom de construção” naquela zona decorreu nos últimos anos a grande velocidade. Numa das ruas pelas quais o Observador passou esta quinta-feira são muitas as casas de construção recente. Muitas outras estão neste momento a ser construídas.

“Se não aumentamos a capacidade de arranjar água no concelho, e ao mesmo tempo estamos a licenciar mais casas com piscina, que vão colocar mais pressão na rede, é normal que em algum momento a rede entre em colapso”, diz o político local, sem deixar de notar que a construção de vivendas na Charneca de Caparica “não é a raiz única do problema”.

“Almada tem taxas de perda de água de perto de 40%, porque os executivos do PS e do PSD falharam perentoriamente naquela que é a sua responsabilidade de garantir que os ramais de água e que a própria infraestrutura dos SMAS seja renovada e desenvolvida”, afirma. E o erro fatal, aponta, foi o “atraso” em antecipar o que estava para vir.

"É muito importante que as pessoas saibam que as zonas mais críticas e mais pobres do nosso concelho reduziram o consumo de água. Neste momento os maiores consumos estão de facto nas zonas mais usadas durante o verão, que é na Costa da Caparica, na Charneca e na Sobreda"
Inês de Medeiros, presidente da Câmara Municipal de Almada

Além das piscinas, que são construídas a par de muitas das novas casas, há outra fonte de consumo de água na Caparica e Sobreda. “Estas zonas têm campos de golfe que exigem muita água”, garante o bloquista.

E deixa uma crítica à promoção que, ao longo de anos, foi feita da zona para promover o comércio e alojamento locais: “Depois de sucessivos anos a vender Almada como um destino turístico, levando a que cheguem a estar cá um milhão de pessoas por dia, é normal que uma infraestrutura de abastecimento de água que há anos que carece de investimento não consiga responder às necessidades de um concelho que fica sobrelotado durante o verão.”

Os poços de “200 anos” que abastecem a agricultura nas Terras da Costa sem precisar da rede pública

A cerca de cinco quilómetros da zona nobre para construção na Costa de Caparica fica uma grande área reservada à prática agrícola: as Terras da Costa. César conduz um trator por caminhos de terra batida, entre os campos em que se cultiva milho de um lado e couves do outro. Os sistemas de rega que ali são utilizados, garante, nada têm a ver com a rede pública de água.

Esta “água salobra só é usada para regar”, garante, e diz que, ao contrário daquilo que a Câmara já chegou a garantir, a água vem do mar, acabando por se dessalinizar naturalmente. Não é potável precisamente por não ser tratada artificialmente: passa apenas pelo processo natural que a torna salobra e própria para regar.

César guia-nos até à sua produção, não muito longe dali, onde privilegia o cultivo de batata, e muitos outros legumes, como tomates e beringelas “que não precisam de tanta água”, e é lá que mostra ao Observador os vários poços centenários que já serviram para recolher água “ao balde”, mas que agora têm sistemas mais sofisticados — como bombas — que o ajudam no processo de rega das suas terras agrícolas. Muita dela, consoante o cultivo em causa, é feita gota a gota.

“Estamos em cima de um lençol freático maravilhoso que nos permite esta gestão dos recursos, que são geridos há mais de dois séculos desta forma”, afirma ao Observador Sónia Alves, presidente da Associação Agrária para a Proteção Ambiental da Costa de Caparica (AAPACC), e mulher de César, que com ele explora aqueles terrenos.

A presidente da associação garante que “não há qualquer relação direta com a falta de água” em Almada e estes poços, que “nem são considerados furos” pela sua antiguidade. “Não existe qualquer relação entre a falta de água e a agricultura nas Terras da Costa, até porque nós não regamos com a água da rede“, nota ainda.

Lamenta, até, que a autarquia não consiga colocar pontos de água da rede a cerca de 50 pessoas que naquela zona já os requisitaram, uma vez que a “água do aquífero é boa para a rega, mas para consumo humano e para os animais beberem não serve”. Assim, a água da rede torna-se essencial para estas explorações, que durante o dia têm várias pessoas a trabalhar e a depender de água potável, sem a ter canalizada.

Mas é também sobre a atual qualidade da água da rede que José Vieira faz questão de deixar um alerta, admitindo que a primeira preocupação de quem passa longos períodos com a água cortada não é a sua segurança. “Não ouvi falar disto em lado nenhum, mas quando há intermitência de abastecimento, que é o caso [de Almada] nesse pára/arranca a qualidade da água fica diferente”, afirma o especialista em recursos hídricos.

“Quando se pára o abastecimento, se houver ruturas, o que acontece é que a pressão é mais baixa e a terra ou outros detritos entram no sistema”, explica. Quando o sistema é reiniciado, como tem acontecido após os cortes noturnos anunciados pela autarquia — usados para armazenar água — a pressão aumenta muito e acaba por arrastar as impurezas que acabam a passar pelas torneiras dos almadenses, sempre que não há cortes.