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(A) :: Milton Hatoum, os anos 70 e a Ditadura Militar no Brasil: "Tudo começou ali. Todas as nossas desgraças"

Milton Hatoum, os anos 70 e a Ditadura Militar no Brasil: "Tudo começou ali. Todas as nossas desgraças"

A publicação do segundo volume da trilogia “O Lugar Mais Sombrio” serviu de mote para uma conversa sobre as memórias do autor da ditadura e sobre o impacto do regime na história moderna brasileira.

Rita Cipriano
text
Tomás Silva
photography

Quando tinha 15 anos, Milton Hatoum e um amigo trocaram Manaus, no estado do Amazonas, pela capital brasileira, Brasília. Milton Hatoum queria estudar Arquitetura, o amigo Cinema, mas a mudança, que só deveria trazer coisas boas aos dois jovens, acabou por tornar-se algo semelhante a um pesadelo. No final dos anos 60, Brasília era o centro da Ditadura Militar brasileira, que tinha sido instaurada em 1964 na sequência de um golpe de Estado que derrubou o governo do Presidente João Goulart, eleito democraticamente. A cidade, que continuava a ser alvo de um grande e pioneiro projeto de construção, que a devia transformar num exemplo para todo o Brasil, era onde a brutalidade do regime era sentida com mais força. Um dos principais alvos era a comunidade estudantil, uma das vozes mais ativas na luta contra a ditadura e a repressão. Alunos e professores eram constantemente perseguidos e presos. Alguns deles desapareceram sem deixar rasto e, até hoje, não se sabe o que lhes aconteceu.

Milton Hatoum foi preso, pela primeira vez, em Brasília. Depois disso, mudou-se para São Paulo, onde ingressou na Faculdade de Arquitetura. Voltou a ser preso nessa cidade em 1977, durante uma manifestação de estudantes, e decidiu deixar o Brasil. Viveu primeiro em Espanha e depois em França. Foi em 1980, quando vivia entre Madrid e Barcelona, que teve a ideia de escrever um romance sobre o que estava a acontecer no Brasil. Mas as memórias do que tinha vivido eram demasiado recentes, e o arquiteto tornado escritor acabou por abandonar o projeto e por focar-se naquele que viria a ser o seu primeiro romance, Relato de um certo Oriente, passado no Amazonas da sua infância. Publicado em 1989, após o seu regresso ao Brasil, o livro de ficção valeu-lhe o primeiro de três Jabuti, o mais importante prémio literário brasileiro. Foram precisos 30 anos para que Milton Hatoum retomasse a ideia que lhe tinha surgido em Madrid, ainda que com alguma reticência, pois, como admitiu em entrevista ao Observador, tinha receio de desenterrar “certas feridas”. Brasília tinha-lhe deixado um trauma, que só muito tempo depois conseguiu ultrapassar.

Os três livros que compõem a trilogia O Lugar Mais Sombrio foram escritos, como um só romance, entre 2008 e 2016. O primeiro volume, A Noite da Espera, saiu em 2017, no Brasil e também em Portugal, pela Companhia das Letras. O segundo, Pontos de Fuga, foi publicado no Brasil em 2019, mas só agora ficou disponível para os leitores portugueses. O terceiro, Dança de Enganos, já se encontra à venda nas livrarias no Brasil, mas só chegará a Portugal durante o próximo ano. No seu conjunto, os três livros contam a história de Martim, um jovem estudante de Arquitetura com temperamento de poeta, e do seu grupo de amigos, primeiro em Brasília e depois em São Paulo, que procuram um sentido para a vida durante um período particularmente duro da história brasileira.

A recente publicação de Pontos de Fuga em Portugal serviu de mote para uma conversa durante a qual Milton Hatoum recordou o tempo da Ditadura Militar, o impacto que teve na sua vida, mas também no Brasil, quando foram implantadas várias medidas que tiveram efeito duradouro e que estão na origem de muitos dos problemas que afetam o país ainda hoje.

Pontos de Fuga é o segundo volume de uma trilogia que fala de forma mais direta sobre a Ditadura Militar no Brasil, um tema que surge em alguns dos seus outros livros. O que é que o faz regressar a esse período?
A minha experiência pessoal. A minha geração viveu dos 12 aos 30 anos sob a ditadura. Pensei em escrever esta trilogia pela primeira vez em 1980, quando saí do Brasil. No final de 1979, ganhei uma bolsa do Instituto Ibero-americano de Cooperação em Madrid, que nem sei se ainda existe, para estudar Literatura e Língua Espanhola. Comecei a esboçar esta trilogia em Madrid e depois em Barcelona, mas percebi que os acontecimentos [que queria retratar] eram muito recentes. Ainda faziam parte da minha experiência recente, e isso não é bom para a ficção. E aí, comecei a escrever Relato de um Certo Oriente, que foi o meu primeiro romance. Esperei três décadas para voltar a esta trilogia, que, originalmente, era um livro único, que escrevi entre 2008 e 2016. Mas eu e os editores brasileiros da Companhia das Letras decidimos dividi-lo em três, porque seria um volume com mais de 800 páginas e acho que era um exagero publicar um livro tão grande. Então, dividi-o em três. Publiquei o primeiro volume em 2017 e, quando fiz a revisão do segundo, percebi que tinha de reescrever alguns trechos em função dos acontecimentos políticos no Brasil — o trágico governo de extrema-direita que criou uma disfunção, que foi uma ameaça à democracia brasileira. Então, alguns dos diálogos e reflexões do segundo volume foram alterados ou acrescentados em função dessa mudança, por exemplo, a voz do Nortista, uma personagem que fala do movimento cíclico de autoritarismo e democracia, dessa alternância na América Latina, não só no Brasil, porque isso estava a acontecer também na Argentina e em outros países, como o Paraguai, a Bolívia, desse continente em chamas, que é a América do Sul ou Latina. O terceiro volume é muito diferente desses dois — é um livro de memórias da mãe do Martim. Ela desaparece num certo momento.

Este livro acaba precisamente com a possibilidade de ela ressurgir no terceiro volume.
Acaba com um poema de Jorge Luís Borges. A memória…

… Só faz sentido depois do esquecimento.
Isso. E antes, tem outro poema do Borges, um pouquinho alterado.

Existem muitas referências a Borges.
Muitas.

Porquê?
Leio Borges desde a juventude. Desde o tempo em que estudava Arquitetura na Universidade de São Paulo que sou leitor de Borges e de outros escritores e poetas latino-americanos. Borges foi uma referência muito forte na minha formação enquanto leitor. E outro escritor que, de algum modo, me influenciou foi Goethe, com um romance de formação, um género que foi criado por ele, Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister. É um romance extraordinário. Sempre gostei de romances de formação porque falam da passagem da juventude para a maturidade. Foi isso que tentei fazer nestes dois volumes, que contam a história desse grupo de personagens jovens, primeiro em Brasília, num momento muito duro, muito bruto da ditadura, de 1968 a 1971, e depois em São Paulo, durante toda a década de 1970, quando já são estudantes universitários e estão à procura de um sentido para a vida. E “os pontos de fuga” [título do segundo livro da trilogia] são esses destinos diferentes, em que cada um tenta dar um sentido à vida. Com personagens com dicção própria. Cada personagem, masculina ou feminina, tem a sua forma de escrita, o seu pensamento, os seus sonhos, empasses…

E as suas influências literárias.
Sim. Há muitas referências a poetas, romancistas e dramaturgos. É a formação moral, sentimental, intelectual e política de uma geração que estava a tentar libertar-se de vários preconceitos dentro da célula familiar, e também de uma repressão maior, que era a do Estado. Há uma relação entre o núcleo familiar, às vezes muito repressivo no Brasil daquele momento, e o Estado. Há uma cena em que uma personagem é delatada pela própria mãe e é presa a mando dela numa clínica. É uma personagem lésbica — a Laísa —, que depois foge para a Rondônia e vai viver para a tribo dos nambiquaras. Isso aconteceu com uma amiga, que morava comigo na mesma república de estudantes. Demorei muito para escrever [a trilogia], porque sou lento. O meu ritmo é amazónico. Não só este romance — demorei dez anos a escrever Os Dois Irmãos. Não para escrever, mas para pensar — nas personagens, no que queria. Sou muito lento. Não para ler. Leio com muita rapidez, mas escrevo com muita lentidão.

"Muita gente em São Paulo, no sudeste brasileiro, não tem ideia de como foi a repressão em Brasília. Era o centro do poder e a repressão era muito bruta. O meu colégio, a universidade, foram invadidos várias vezes pela polícia. Colegas, estudantes, professores foram presos. O maior líder estudantil daquela época, Honestino Guimarães, foi assassinado em 1973, no Rio de Janeiro. É um dos desaparecidos. Ninguém sabe onde está o corpo dele."

O facto de se ter inspirado nos seus tempos na universidade e em histórias reais, como a dessa sua amiga, fez com que o processo fosse ainda mais lento? Porque tinha de processar as suas memórias e emoções desse período?
Sim. E a pesquisa também. A conversa com amigos daquela época, com sobreviventes.

Quis saber do que é que eles se lembravam?
Eles tinham diários guardados, que me deram. Sobretudo dois amigos, uma que é atriz e um outro que saiu de Manaus comigo, aos 15 anos. Quando fomos morar em Brasília, deixámos Manaus, a família, os amigos. E são quase três horas de viagem de avião. Dá para atravessar a Europa [risos]. Esses amigos também foram presos e ela, sobretudo, foi muito torturada. Ela tinha diários [daquele tempo] e deu-me tudo. Abriu o baú e disse: “Pode usar o que você quiser”. Mas praticamente não usei nada. Não usei as coisas que ela escreveu, porque precisava de inventar também. Mas foi importante para perceber [o que aconteceu]. A Dinah, a namorada do Martinho, foi um pouco inspirada nessa minha amiga. E depois revisitei Brasília porque, quando saí de Brasília em 1971, decidi nunca mais voltar. Fui detido lá quando tinha 16 anos e a cidade me traumatizou. Mas voltei 30 anos depois, em 2000, para lançar Os dois irmãos, e encontrei uma cidade diferente, e eu também já era outro, e reconciliei-me com Brasília. Visitei os lugares onde costumava acampar, as cachoeiras do cerrado, as grutas. Os lugares muito bonitos fora de Brasília. Enfim, tudo isso levou tempo. E eu sentia-me muito inseguro, também, para escrever este livro, esta trilogia.

Porquê?
Para não tocar em certas feridas.

Suas ou dos outros?
Minhas, sobretudo. Foi difícil sair da minha cidade e deixar tudo, porque aos 15 anos… Eu era quase..

Uma criança.
Quase uma criança. Lembro-me que, muito tempo depois, minha mãe disse-me: “Arrependi-me de ter deixado você ir embora, porque perdemos um filho adolescente. Não convivemos com você durante um período que é importante”. Mas eu queria estudar Arquitetura. E fui com esse amigo de Manaus, que hoje é cineasta, um documentarista importante no Brasil. Morámos juntos e depois cada um foi para um lugar diferente. Eu fui para São Paulo e ele continuou em Brasília. Enfim, são momentos decisivos na sua vida. Você uma decisão que muda a sua vida, o seu destino. Você não sabe, mas a mudança já está implícita nessa decisão. Em São Paulo, estudei Arquitetura. Não pude estudar em Brasília, porque o liceu onde estudava foi fechado pelo General [Emílio Garrastazu] Médici [terceiro Presidente durante o período da Ditadura Militar]. Era um colégio que ficava ao lado do campus da Universidade de Brasília. Era aquilo a que a gente chama no Brasil “colégio de aplicação”, uma espécie de cobaia para o ensino público.

Preparava os alunos para a universidade?
Isso. Era um projeto do antropólogo Darcy Ribeiro e de Anísio Teixeira, um grande educador e pedagogo brasileiro, que morreu tragicamente, ninguém sabe em que circunstâncias [foi encontrado morto no Rio de Janeiro em 1971]. E era um colégio de aplicação. Tinha 350 alunos, 60 professores, salas com oito a dez estudantes, um laboratório de fotografia, curso de cinema… Era uma coisa para ser aplicada no Brasil todo.

Porque Brasília foi criada com essa ideia, não foi? Como um exemplo do que o Brasil deveria ser.
Era o futuro.

Até em termos arquitetónicos.
Exatamente. Era um projeto para o Brasil. Muito claro, muito bem determinado, pensado. Tudo isso acabou com o toque militar de recolher.

No primeiro livro da trilogia, A noite da espera, mostra de forma muito clara que Brasília era o centro da ditadura. Era o local onde a repressão era mais sentida.
Sim. Muita gente em São Paulo, no sudeste brasileiro, não tem ideia de como foi a repressão em Brasília. E era como você disse — era o centro do poder e a repressão era muito bruta. O meu colégio, a universidade, foram invadidos várias vezes pela polícia. Colegas, estudantes, professores foram presos. O maior líder estudantil daquela época, Honestino Guimarães, foi assassinado em 1973, no Rio de Janeiro. É um dos desaparecidos. Ninguém sabe onde está o corpo dele. Inclusive, esse meu amigo, que saiu comigo de Manaus, [Aurélio Michiles,] acabou de lançar um documentário chamado “Honestino” sobre a vida dele, com muitos depoimentos. Então, Brasília era o olho do furacão, como se diz. E eu, quando o meu colégio foi fechado, fui morar em São Paulo.

Em Pontos de Fuga, várias personagens de Brasília acabam por ir viver para São Paulo. O que é que São Paulo representava naquela altura? Era um local de fuga?
Sim, para mim foi uma fuga. São Paulo sempre foi uma metrópole. Em Brasília, havia muitos espaços abertos e, quando havia uma manifestação de estudantes, era muito fácil para a polícia cercá-los e reprimi-los. Não havia lugares para fugir; não havia ruas, ruelas e becos. O espaço era muito, muito vasto, cerrado, e bastava cercar. A repressão agia com muita eficácia.

É uma cidade que quase parece que foi construída para ser vigiada.
É, mas…

Não era isso que tinham em mente quando a construíram, mas a própria estrutura permitia isso.
Sim, permitia, mas achavam que não haveria um golpe de Estado. Esse espaço aberto era um espaço democrático.

É muito irónico, não é?
É irónico. Terrivelmente irónico.

Uma cidade que devia ser um símbolo da democracia tornou-se precisamente o contrário.
Tornou-se refém da repressão. E São Paulo… Bom, tinha a Universidade de São Paulo, que é, ainda hoje, uma das melhores universidades da América Latina e uma das cem melhores do mundo. Ingressei para estudar Arquitetura e, a meio do curso, percebi que queria ser escritor. Mas, enfim… Como é que ia viver disso? [risos] Ainda trabalhei como arquiteto, durante dois anos, e fui professor de História da Arquitetura numa universidade no interior de São Paulo, numa cidade chamada Taubaté, que fica na estrada para o Rio de Janeiro, a três horas de ónibus de São Paulo. Foi o meu primeiro emprego com carteira assinada, como a gente diz no Brasil. Trabalhei também num escritório de arquitetura e fui jornalista freelancer de uma revista que ainda existe.

Do que é que gostou mais? De ser arquiteto ou jornalista.
Gostei mais do jornalismo [risos] porque queria escrever. O editor perguntou-me: “O que é que você quer fazer?”. Eu disse: “Tudo. O que você sugerir, eu faço”. Fiz de tudo — resenhas de livros, de peças de teatro, de exposições de arte visual, reportagens… Cobri o primeiro grande encontro de evangélicos [no Brasil], no Estádio do Pacaembu [em São Paulo]. Foi uma loucura… Já naquela época.

Isso foi em que ano?
Foi em 1978. Trinta mil pessoas, muito pobres, no estádio. E aquele discurso louco, de expulsar o demónio do corpo. E depois… Queria sair do Brasil. Fui detido em São Paulo em setembro de 1977, durante uma grande manifestação, um encontro de estudantes, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Fui preso com outros 800 estudantes e professores.

A sua prisão em Brasília também aconteceu durante uma manifestação?
Sim. Fui preso por um colega que eu achava que era um delator… O livro fala sobre os amigos delatores. Depois dessa prisão [em São Paulo], decidi sair do Brasil. Consegui uma bolsa de um instituto espanhol e fui para Madrid no final de 1979. Depois, passei o ano de 1980 entre Madrid e Barcelona. Depois, vivi muitos anos em Paris.

"A literatura como uma forma de conhecer a realidade, e também nós mesmos, é fundamental para a nossa formação porque tornamo-nos capazes de distinguir muito bem os discursos falseados dos discursos mais condizentes com uma leitura da realidade, e com a leitura da História, também. Isso falta aos jovens. Nesse sentido, acho que a literatura pode ser, também, uma forma de emancipação. E não estou a falar de direita ou de esquerda. Estou a falar apenas de uma formação humanista."

Nesse tempo, Paris era tal e qual como descreve no livro? Um local de encontro de exilados de diferentes países da América Latina?
Havia muitos, muitos [exilados]. Era um sítio de encontro de expatriados que queriam sair da América do Sul porque não queriam continuar a viver sob uma ditadura. [Havia pessoas do] Uruguai, Argentina, Paraguai, Bolívia. E lá, participei num grupo que no romance se chama CLAR — Círculo Latino-Americano de Resistência. A gente reunia-se, tal como está no livro. Discutíamos, fazíamos boletins, que distribuíamos, panfletagens, passeatas. Mas eu não era um militante, um ativista ligado a uma célula no Brasil.

Era um pouco como o Martim?
Era. O Martim não é um ativista. Seria muito óbvio escrever sobre um protagonista que fosse ativista. O Martim é um poeta, e o drama dele — o drama sentimental e moral — é a mãe, primeiro a separação e depois o seu desaparecimento. É isso que o assombra.

Ele vive obcecado com o desaparecimento da mãe, Lina.
Com o destino da mãe, que, às vezes, associa ao destino da namorada [Dinah], que é presa e torturada. É a mãe que é o centro do livro, do drama interior dele. Ao mesmo tempo, quis explorar alguns temas que estavam muito latentes na minha geração — a repressão familiar, sexual; racial, também.

A questão dos povos indígenas.
Sim, os povos indígenas. Por isso há essas duas personagens, essas duas raparigas lésbicas, que vão viver para a Rondônia com os nambiquaras. É o início da ocupação da Amazónia por colonos do sudeste e do sul, das primeiras madeireiras, as empresas que devastam a floresta.

É o início do ataque à Amazónia?
É o início, por causa da rede de estradas que os militares construíram a partir da década de 1970. E foi fatal. Foi fatal para a destruição da floresta. Porque quando se abre uma estrada na floresta, criam-se polos de ocupação e destruição — mineradoras, madeireiras, fazendas de soja, de gado… Foi o início disso, nos anos 70. Começou assim. E hoje… Hoje está complicado… Publiquei nessa altura o meu primeiro livro, um livrinho de poesia, que, felizmente, foi esquecido.

Mas está a lembrá-lo.
[risos] Porque é inevitável na minha vida. Era um livro de poesia e textos com fotos da Amazónia tiradas por três amigos fotógrafos paulistas, que tinham visitado a Amazónia. Quando estudava Arquitetura, fizemos uma exposição na Faculdade de Arquitetura com fotos e textos e, depois, publicámos um livrinho, que se chama Amazonas: palavras e imagens de um rio em ruínas. Os meus textos já eram muito pessimistas. Isso em 1978, quando apenas 1% da floresta tinha sido devastada, ou seja, zero. A floresta estava praticamente intacta nessa altura. Os meus amigos diziam que era um pessimista. Não era, apenas fazia uma leitura do que podia acontecer por causa dessas rodovias — a Perimetral Norte [que atravessa vários municípios do estado de Roraima, no extremo norte do Brasil, onde fica a Amazónia], a Transamazónica [que liga o estado de Paraíba, no nordeste, ao do Amazonas, na outra ponta da região norte do país], que estavam rasgando a floresta amazónica. E, de facto, foi o que aconteceu.

Podemos, então, dizer que foi nos anos 70, durante a Ditadura Militar, que começou a nascer o Brasil que existe hoje?
Exato. Tudo começou ali. Todas as nossas desgraças.

Não é só a questão da Ditadura Militar em si.
Não, é também o que ela provocou — a ocupação irracional e predadora dos biomas do Brasil, não só da Amazónia, mas também do Cerrado, da Mata Atlântica, e a destruição da educação pública, que era muito boa. Sou filho da escola pública. Os primeiros livros que li em Manaus, os livros dos cursos de francês, de latim e de inglês, que frequentava, eram oferecidos pelo Ginásio Amazonense Dom Pedro II, que era um liceu tradicional, que ficava num edifício neoclássico enorme no centro de Manaus, que aparece em Os dois irmãos, aliás. Isso foi destruído, e o desmonte da escola pública de qualidade tem consequências graves até hoje. E o governo anterior, desse homem [Jair Bolsonaro] que está hoje preso por vários crimes, quis retomar esse autoritarismo e dar um golpe de Estado. Fomos salvos por um triz, como se costuma dizer. Foram quatro anos de pesadelo. Acho que romance também fala sobre esse porvir, sobre esse futuro duvidoso.

Fala também sobre essas leituras de qualidade, que eram incentivadas pela escola pública, mesmo em cursos que não estavam diretamente relacionados com literatura, como era o caso de Arquitetura. Por exemplo, em A Noite da Espera, fala sobre um professor de Linguagem Estética que punha os alunos a ler Schiller, Schlegel e Hegel.
Havia uma formação humanista. Isso acabou no mundo, acho. Foi banida da formação dos jovens, e é assim que o fascismo aparece. No Brasil, e creio que também em Portugal, muitos jovens apoiam a extrema-direita porque não tiveram uma formação humanista. É gravíssimo. Quando, aos 13 anos de idade, li Vidas Secas, de Graciliano Ramos, percebi que havia outro Brasil. Para os padrões brasileiros, Manaus era uma cidade relativamente pequena, com 300 mil habitantes, mas era um mundo de excesso — de abundância de água, de fruta, de peixe. Não havia essa miséria. Ainda não havia televisão em Manaus, então, eu não sabia o que era a miséria nordestina. Quando li Vidas Secas, percebi que havia um outro Brasil — esse Brasil dos retirantes [que vão viver para outra região em busca de melhores condições de vida], dos sertanejos miseráveis; dessa região árida, seca e sem estudos. Então, foi um romance fundamental na minha vida. Falei sobre Vidas Secas durante o discurso [de posse como membro] da Academia Brasileira de Letras [em abril deste ano]. Foi uma homenagem às minhas professoras de Manaus, a Vidas Secas e à literatura. Foi um livro formador para mim, do ponto de vista da leitura, de uma realidade social, geográfica e histórica, mas também, e isso não é menos importante, do modo de narrar, da linguagem e do discurso indireto livre, que é a voz do inconsciente, na terceira pessoa, sem que haja um narrador com uma visão superior. [Em Vida Secas,] a fala dos retirantes da família do Fabiano é elaborada a partir de dentro, da visão interior das personagens. Portanto, não é falseada. A minha professora soube conduzir muito bem a leitura crítica do romance e isso foi determinante para que depois, inconscientemente, pensasse também na literatura como uma forma de inventar outros mundos. Essa leitura da literatura como uma forma de conhecer a realidade, e também nós mesmos, é fundamental para a nossa formação porque tornamo-nos capazes de distinguir muito bem os discursos falseados dos discursos mais condizentes com uma leitura da realidade, e com a leitura da História, também. Isso falta aos jovens. Nesse sentido, acho que a literatura pode ser, também, uma forma de emancipação. E não estou a falar de direita ou de esquerda. Estou a falar apenas de uma formação humanista.

"O romance narra a trajetória de uma personagem masculina ou feminina que não dá certo. Fala sobre o momento da vida em que aparece o demónio [risos]. O diabo é uma metáfora para questões que podem ser materiais, físicas ou sentimentais. Em algum momento, essa vida, que seguia de forma normal, é, de repente, perturbada por alguma coisa e não dá certo. Essa é a história do romance. É a incompletude de um desejo."

E a escrita?
A escrita é fundamental porque é uma linguagem altamente elaborada que nos leva a conhecer esse outro mundo, inventado, e essas relações humanas, que são a verdade possível da literatura. Qual é a verdade da literatura? Não é uma verdade ontológica que ninguém sabe qual é. É a verdade das relações humanas, dos conflitos sociais e interiorizados, dos nossos anseios, frustrações e sonhos. E isso tudo contado por um narrador ou narradora. É esse o segredo técnico da literatura. Hoje, com o celular, as redes sociais, o TikTok e mais não sei o quê, a literatura está a perder espaço, porque a literatura exige concentração. De todas as artes, a literatura é a que mais exige tempo e concentração. Não se consegue ler Camões em meia-hora. Não se pode ler A Montanha Mágica, Grande Sertão: Veredas ou O Ensaio Sobre a Cegueira em pouco tempo. A literatura é a arte da paciência, tanto para quem escreve como para quem lê. Aliás, é a paciência que nos define. A reflexão e a paciência.

Diz sempre que é um pessimista. Como é que olha para o mundo agora e para o Brasil em particular?
O meu pessimismo é mais na ficção, porque a ficção não pode ser otimista.

Porquê?
Porque, caso contrário, não é ficção. Se for otimista…

Não nos faz refletir tanto?
Não. E não aprofunda as contradições e os impasses. Desde o seu início, o romance narra a trajetória de uma personagem masculina ou feminina que não dá certo. Fala sobre o momento da vida em que aparece o demónio [risos]. O diabo é uma metáfora para questões que podem ser materiais, físicas ou sentimentais. Em algum momento, essa vida, que seguia de forma normal, é, de repente, perturbada por alguma coisa e não dá certo. Essa é a história do romance. É a incompletude de um desejo. Isso está em qualquer romance, e impossibilita um final feliz. O final feliz existe nas telenovelas brasileiras, em que tem de se dar a 50 milhões de pessoas um desfecho feliz. Um grande exemplo disso, tão bonito, é aquele breve romance de Dostoiévski, Noites Brancas, sobre um solitário, que, aliás, não tem nome. Ele encontra uma rapariga e se apaixona por ela. Ela está à espera de alguém que prometeu voltar e que não volta. Ele entusiasma-se com a possibilidade de o outro não voltar, e ela parece também enamorar-se dele. Em certo momento, quando tudo parece que vai dar certo, o outro volta. No fim, ele termina com uma frase linda. Diz algo assim: “Abençoada seja você, que me deu esse instante de júbilo, que é para a vida toda”.