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A "imprevidência" de comprar ações "incomodou" governador do Banco de Portugal que fez "ato de contrição"

Teve uma mais-valia de 3.361 euros que doou à Make a Wish. Mas a imprevidência incomodou o governador do Banco de Portugal, que assume ter feito um erro.

Alexandra Machado
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Álvaro Santos Pereira foi chamado ao Parlamento para falar da compra das ações que realizou já quando era governador do Banco de Portugal. Assumiu que foi um erro e que fez o seu “ato de contrição”. Já vendeu todos os títulos e as mais-valias de 3.361 euros foram doadas à Make a Wish — tendo Paulo Núncio, do CDS, ainda salientado que pagará IRS por elas.

Particularmente crítico, o PS, pela voz de Carlos Pereira, acusou o governador de ter caído “num pântano de ética e de hipocrisia”, por não ter cumprido as regras e, assim, ter colocado em causa a credibilidade do Banco de Portugal. Também o Chega questionou sobre o beliscar da credibilidade do banco central e da sua própria para se manter à frente da instituição. Sobre esta questão não houve resposta.

O governador, no entanto, realçou várias vezes ter cometido um erro e assumiu o “mal-entendido” pelas regras — não percebeu que não podia comprar ações de empresas não financeiras. Aliás, assume que não colocou o dinheiro em fundos de investimento de ações porque estes têm títulos de empresas financeiras e, nem indiretamente, queria estar exposto a essas sociedades. As regras “permitem investimento em fundos de ações, optei por não o fazer porque eles têm 20 a 25% de ações financeiras”, declarou aos deputados.

https://observador.pt/especiais/santos-pereira-foi-informado-de-regras-mas-investiu-achando-que-so-nao-podia-comprar-acoes-da-banca-mais-valia-com-galp-e-outras-sera-doada/

Assim, já a exercer funções de governador, comprou ações da Galp, reforçou na Jerónimo Martins e ainda adquiriu títulos da Navigator e da Nestlé. O perfil de empresas levou Carlos Pereira, ao mesmo tempo que dizia que não acusava o governador de inside trading, a sugerir que Santos Pereira tinha comprado títulos de empresas que ganhavam com a inflação — energia e alimentação — tema que debatia em reuniões do Banco Central Europeu. “O senhor governador tomou posse a 6 de outubro. A 7 de dezembro foi a uma reunião do BCE e nesse mesmo dia comprou ações da Galp. Não estamos a falar de inside information, mas no mesmo dia em que participa numa reunião do BCE, cujos temas são fáceis de compreender, de inflação, energia, crise energética, crise alimentar, é muito estranho que não ache anormal que depois de sair dessa reunião adquira ações da Galp e passados uns tempos compre Jerónimo Martins”.

“Empresas não financeiras, fora do perímetro de regulação do Banco de Portugal, das quais não temos qualquer tipo de informações qualificadas”, admitiria antes Santos Pereira que depois recordou que na reunião de dezembro de 2025 ainda não se falava da guerra do Médio Oriente, que começou mais tarde, em fevereiro de 2026. Os temas passavam pela inteligência artificial e pelos ajustamentos no mercado de capitais, essencialmente.

As ações compradas com “fundos próprios” já foram vendidas. O governador doou o valor arrecadado e assume que lhe foram explicadas as regras de investimentos antes de comprar ações, mas que não entendeu que não podia comprar ações que não fossem do setor financeiro. Foi, declarou, um equívoco e “um erro de interpretação”.

O processo, “tendo nascido de um mal-entendido, é prova que os mecanismos de controlo do BCE e BdP funcionam”, declarou Santos Pereira, que ainda realçou que declarou essas compras proativamente ao BCE e à Entidade de Transparência. O BCE detetou, então, essa “imprevidência”, como lhe chamou Santos Pereira. “Ninguém lamenta essa imprevidência mais do que eu. Ninguém ficou mais incomodado do que eu. Fui eu que proativamente informei o BCE e a Entidade de Transparência”.

E, perante isso, e dizendo que leva as “questões da ética muito a sério”, perguntou ao comité de ética do BCE “quão grave era esta situação”, mas, segundo disse, o Banco Central Europeu declarou a questão resolvida.

Mas para Santos Pereira haveria uma consequência. “Não é totalmente verdade que não fui penalizado. Penalizei-me a mim próprio e na imagem junto da opinião pública”, diz Santos Pereira, acrescentando: “Fiz o meu ato de contrição, assumi as minhas culpas e o meu erro. A nível de transparência os portugueses conhecem melhor a minha situação financeira, e faço-o com gosto, e não escondo nada. Foi um erro. Quem nunca cometeu um erro, ótimo, eu sou humano, cometo erros”.

Foi também por essas declarações que se ficou a saber que Santos Pereira pediu um crédito ao Banco de Portugal para comprar um carro. “Tinha acabado de chegar a Portugal, quis comprar um carro para a família”, declarou aos deputados.