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Deportações, violência e xenofobia na África do Sul. A vaga de protestos contra a imigração africana

Com níveis de desemprego históricos, África do Sul vive situação social agitada. Imigrantes africanos são apontados como principais culpados — e há milícias a fazer buscas ilegais de porta a porta.

José Carlos Duarte
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O Presidente sul-africano tinha agendada uma viagem ao Gana no início de agosto. Na semana passada, o Governo ganês decidiu adiá-la, enviando uma ríspida nota para Pretória: “É melhor adiar esta visita, devido ao clima atual em redor da xenofobia”. O gabinete do Presidente sul-africano Cyril Ramaphosa tentou desvalorizar o incidente, garantindo que continua a manter relações cordiais com a “nação irmã” para continuar a “avançar a agenda africana”. O embaraço diplomático revela, no entanto, a gravidade de uma realidade que está a prejudicar a reputação da África do Sul: uma vaga de protestos contra imigrantes vindos de países africanos como o Gana, a Nigéria, Moçambique ou a Somália.

Milícias populares que procuram porta a porta migrantes não documentados para os prender, nos subúrbios das grandes cidades. Deportações forçadas com aprovação do Governo. Protestos com slogans xenófobos que duram há meses. Violência nas ruas que já provocou mortos. A África do Sul atravessa uma realidade cada vez mais complexa e hostil à imigração africana. O país que derrotou o sistema do apartheid vê-se agora a braços com manifestações violentas e que assumem uma natureza xenófoba. As promessas de unidade e da “Nação Arco-Íris” de Nelson Mandela parecem ter-se evaporado.

Com o fim do isolamento internacional em 1994, muitos africanos decidiram emigrar para a África do Sul, que sempre foi encarada como um dos motores económicos da África subsaariana. Atualmente, entre a população sul-africana de 65 milhões de habitantes existem quase três milhões de imigrantes, ainda que muitos não estejam em situação regularizada e não figurem nas estatísticas oficiais. Muitos vieram na viragem para a década de 2000, em que as promessas de Nelson Mandela e do seu partido — o Congresso Nacional Africano (ANC, sigla em inglês) — pareciam estar a concretizar-se: a classe média cresceu substancialmente, os indicadores económicos melhoraram e as feridas do apartheid pareciam estar a sarar. A população negra sentia que podia entrar pela primeira vez no elevador social.

Em 2026, a realidade alterou-se significativamente. Economicamente, o país recuou em vários indicadores e a taxa de desemprego fixou-se nuns históricos 32,7%. A precariedade asfixia principalmente os jovens entre os 15 e os 24 anos, faixa etária onde o desemprego atinge os 60%. Ao mesmo tempo, o fosso entre os mais ricos e pobres aprofunda-se: 85% da riqueza está concentrada em 10% da população, enquanto mais de metade da população sobrevive abaixo da linha de pobreza.

São os negros que vivem nas periferias das grandes cidades que economicamente sentem mais dificuldades. Muitos ainda vivem nas chamadas townships, uma herança do sistema do apartheid. Na altura, a população branca precisava de mão de obra barata para trabalhos urbanos e empurrou os negros para as margens de Joanesburgo, Pretória ou a Cidade do Cabo. É precisamente nessas localidades que muitos imigrantes decidiram fixar-se, abrindo frequentemente pequenas lojas de conveniência — as spaza shops — ou trabalhando em pequenos biscates.

Num contexto de escassez, instalou-se a narrativa de que os estrangeiros vieram “roubar empregos” e contribuir para uma economia informal que prejudica ainda mais a qualidade de vida dos sul-africanos. Alavancada por políticos populistas, a população olha assim com cada vez mais desconfiança para os imigrantes africanos. No entanto, o fenómeno não é assim tão linear: existe uma profunda desilusão com a classe política, a par de uma frustração muito específica — a de que o potencial da África do Sul está a ser roubado por outros africanos, que muitos, no país, ainda olham com um sentimento de superioridade.

O fenómeno da xenofobia que “não é novo” na África do Sul — e a nuance da “afrofobia”

Uma nação “arco-íris” onde não existisse distinção entre raças, credos ou nacionalidades. Foi este o projeto político que Nelson Mandela tentou implementar na África do Sul no pós-apartheid. A euforia do fim do regime que segregava negros e brancos deu à comunidade internacional a ideia de que o país trilhava um novo caminho. Porém, isso nem sempre era a realidade. Os preconceitos e os estigmas de décadas não desapareceram do dia para a noite — foram antes empurrados para debaixo do tapete.

Em declarações ao Observador, Jonathan Crush, fundador do Southern African Migration Programme e professor na Balsillie School of International Affairs, diz que os “protestos atuais” contra a imigração estão longe de ser um “fenómeno novo” na sociedade sul-africana. “São a mais recente manifestação, um pouco mais organizada, da tremenda xenofobia que assola o país desde os anos 90 e que nunca foi efetivamente combatida pelo Governo, muito menos reconhecida como um problema para um país que se tenta reintegrar económica e politicamente em África, após o fim do apartheid”, explica.

Durante o regime do apartheid, a elite branca não se via como parte integrante de África e procurava apresentar a África do Sul como uma exceção no continente. À medida que os países africanos conquistavam a independência, Pretória foi ficando cada vez mais isolada diplomaticamente, o que ainda contribuía mais para a sensação de que era diferente. Portugal — durante o Estado Novo — era um dos poucos aliados, sendo que os sul-africanos chegaram a prestar apoio logístico e militar às tropas portuguesas na guerra colonial, em Angola e Moçambique.

"São a mais recente manifestação, um pouco mais organizada, da tremenda xenofobia que assola o país desde os anos 90 e que nunca foi efetivamente combatida pelo Governo, muito menos reconhecida como um problema para um país que se tenta reintegrar económica e politicamente em África após o fim do apartheid."
Jonathan Crush, fundador do Southern African Migration Programme e professor na Balsillie School of International Affairs, sobre a vaga de protestos

Tudo isto gerou o “mito do excecionalismo sul-africano”, como o definem vários especialistas: a ideia de que a África do Sul é “mais avançada” e não partilha a mesma história dos restantes países africanos, tantas vezes associados à pobreza e à falta de desenvolvimento. Ao Observador, David Everatt, professor de Sociologia na Universidade de Witwatersrand em Joanesburgo, refere que a xenofobia no país se baseia numa “longa história” de distanciamento em relação ao “outro, ao que vem de fora, ao estrangeiro, às pessoas de outras raças e, principalmente, de outros grupos étnicos”.

“É uma sociedade muito traumatizada”, prossegue David Everatt. Se durante o regime do apartheid havia esse distanciamento face ao restante continente, com Nelson Mandela — e principalmente pelo seu sucessor, Thabo Mbeki —, havia uma filosofia inversa: a do “renascimento africano”. Esta visão bebia diretamente do pan-africanismo, um movimento político e social de solidariedade que defende a união e a autodeterminação de todos os povos e países africanos.

Sou africano. Nasci das pessoas do continente de África. A dor dos conflitos violentos que as pessoas da Libéria, da Somália, do Sudão, do Burundi e da Argélia [vivem] é uma dor que também carrego”, declarou Thabo Mbeki, num célebre discurso no Parlamento sul-africano, em que defendeu o “renascimento africano”. “A deplorável vergonha da pobreza, do sofrimento e da degradação humana no meu continente é uma desgraça que nós partilhamos.”

"Sou africano. Nasci das pessoas do continente de África. A dor dos conflitos violentos que as pessoas da Libéria, da Somália, do Sudão, do Burundi e da Argélia [vivem] é uma dor que também carrego."
Thabo Mbeki, ex-Presidente da África do Sul

Discursos como este melhoraram a reputação da África do Sul no continente após o apartheid, mas Jonathan Crush explica que a xenofobia, principalmente contra os migrantes negros, nunca desapareceu. O problema nunca foi assumido pelas autoridades e, mesmo agora, segundo o especialista, “os políticos sul-africanos continuam a negar que a xenofobia existe, apesar de as sondagens mostrarem que os sul-africanos estão entre os mais hostis a estrangeiros no mundo”.

Um estudo de opinião do Human Sciences Research Council, realizado em 2025 e publicado em maio de 2026, corrobora as palavras de Jonathan Crush: 42% dos inquiridos (a maioria) defendem que o país não devia acolher qualquer imigrante. Este sentimento de insatisfação é particularmente notório entre a classe baixa, em que metade da população (50%) acredita que as fronteiras deviam estar totalmente fechadas — um salto considerável de 21 pontos percentuais face aos dados de 2018.

Mas há uma nuance importante nestes dados: não se trata de xenofobia contra todos os imigrantes. Ela é dirigida particularmente a africanos e negros, enquanto a população europeia (incluindo portuguesa) e norte-americana não é normalmente alvo deste fenómeno. Nos subúrbios das grandes cidades, existe até um termo pejorativo usado para rebaixar os africanos negros: makwerekwere, uma expressão que ridiculariza o sotaque daqueles que vêm de outros países de África.

Ibrahim Abdullah, professor no Departamento de História e Estudos Africanos na Fourah Bay College da Universidade da Serra Leoa, acredita — como outros especialistas — que o termo certo para descrever o que se passa na África do Sul é “afrofobia”: “Não é apenas medo do estrangeiro; é hostilidade ao ‘estrangeiro africano’. Torna os africanos em intrusos, parasitas, criminosos e descartáveis”. A linguagem é “ridicularizada” e o sotaque é “barulho”.

Este medo do estrangeiro africano parece entrar em rota de colisão direta com a narrativa de uma elite política que ainda se orgulha de estar a curar as feridas do apartheid. E esta afrofobia incomoda profundamente os restantes países do continente, muitos dos quais sentem uma enorme ingratidão. Governos como os do Gana, da Nigéria, de Angola e de Moçambique (após se tornarem independentes de Portugal) apoiaram ativamente os movimentos de libertação contra a segregação racial; em 2026, veem os seus próprios cidadãos a serem maltratados e perseguidos em território sul-africano.

A Nigéria — país que ajudou a organizar viagens clandestinas a Nelson Mandela — já declarou precisamente esse mal-estar. A ministra dos Negócios Estrangeiros nigeriana, Bianca Ojukwu, lembrou os sacrifícios que muitos no país fizeram para livrar a África do Sul do regime do apartheid: “A Nigéria investiu bastante, investiu fundos e recursos para ajudar a África do Sul. Agora, os nossos cidadãos estão a ser assediados, as suas casas roubadas e estão a ser cometidos crimes contra eles”.

"A Nigéria investiu bastante, investiu fundos e recursos para ajudar a África do Sul. Agora, os nossos cidadãos estão a ser assediados, as suas casas roubadas e estão a ser cometidos crimes contra eles."
Bianca Ojukwu, ministra dos Negócios Estrangeiros nigeriana

As condições de vida dos sul-africanos: a situação explosiva

Numa sociedade que David Everatt diz ainda estar a viver com os “traumas” que ficaram da época do apartheid, gerou-se uma situação explosiva entre os mais pobres, que sobrevivem ainda para mais num contexto difícil: o país “enfrenta uma das maiores taxas de desemprego do mundo e o nível de desigualdade mais elevado do mundo”.

“O que pensámos que ia acontecer? Que os pobres iam ficar de braços cruzados, década após década, ao ver os ricos a tornarem-se mais ricos através de meios crescentemente corruptos? Iam apenas aceitar?”, questiona David Everatt, colocando o foco nas condições de vida da população sul-africana. O mesmo especialista elenca a falta de habitação, a intensa concorrência nas townships, a contínua dependência de mão de obra barata e as profundas divisões socioeconómicas como principais problemas.

Em declarações ao Observador, Loren Landau, professor de Imigração e Desenvolvimento da Universidade de Oxford e antigo presidente do Consórcio para Refugiados e Migrantes na África do Sul, assinala que a vaga anti-imigração é fruto de uma “crise de fé profunda e sistemática” — e a desigualdade económica e o desemprego são as facetas mais visíveis. “Passaram-se 30 anos desde que a Constituição após o apartheid prometeu não apenas liberdade política, mas também segurança e transformação económica.” Isso acabou por nunca acontecer, o que gerou ressentimento entre os sul-africanos.

"O que pensávamos que ia acontecer? Que os pobres iam ficar de braços cruzados, década após década, ao ver os ricos a tornarem-se mais ricos através de meios crescentemente corruptos? Iam apenas aceitar?"
David Everatt, professor de Sociologia na Universidade de Witwatersrand em Joanesburgo

“Após três décadas, a população enfrenta dificuldades e poucas perspetivas de melhorar a curto prazo”, continua Loren Landau. Para muitos sul-africanos, o projeto construído em redor da imagem de Nelson Mandela e do ANC falhou: a prosperidade económica continua a ser uma miragem no país que é considerado o motor económico da África subsariana. A corrupção tornou-se um fenómeno transversal, os mais ricos acumulam fortunas e as desigualdades raciais prevalecem, mesmo que de forma mais discreta.

Loren Landau enfatiza precisamente que a “corrupção e a incompetência estão generalizadas” na África do Sul, sendo que “os cidadãos estão a questionar o próprio sistema”. “Os sul-africanos estão indignados e exigem medidas. Estão inseridos num sistema económico e político sobre o qual têm pouca influência”, aponta o professor universitário. O sonho e as promessas da “nação colorida” deram lugar à frustração, à desilusão e à revolta.

Neste terreno pantanoso marcado pelo ressentimento, o docente universitário em Oxford indica que os sul-africanos estão a “seguir ordens de uma máquina política bem financiada e manipuladora”, que direciona a raiva contra os imigrantes. March and March: este é o nome de uma organização fundada em 2024 — e liderada pela ativista Jacinta Ngobese-Zuma — que foi criada para combater a imigração ilegal. Tem organizado manifestações e tem sido uma voz ativa a pressionar o Governo a levar a cabo deportações massivas.

Para além disso, David Everatt lembra o “contexto global”. Em todo o mundo, existem líderes que “culpam os imigrantes por tudo”. E a África do Sul, com uma memória histórica de discriminação e numa situação económica vulnerável, não ficou fora desta tendência e é um terreno fértil para “partidos políticos” mais à direita usarem as mesmas narrativas. Tal como nas manifestações do mesmo molde em 2008, existe, declara o especialista, uma “mistura tóxica” de que “oportunistas cobardes” se aproveitam.

“Há uma base sólida de raiva e culpa para alimentar esta situação, mas existe um movimento nacional financiado — que providencia autocarros, roupa, comida, transporte de milhares de pessoas para diferentes cidades”, diz David Everatt, que atira que os movimentos anti-imigração “estão a atiçar o fogo”. “E está a funcionar”, sentencia o especialista sul-africano.

Neste momento, o MK, partido fundado pelo ex-presidente Jacob Zuma após a rutura com o ANC e que é a terceira força política com mais lugares no Parlamento, é uma das vozes mais ativas contra a imigração. Apesar das suas raízes no movimento de libertação e de defender políticas económicas à esquerda, o partido tem adotado um discurso em que associa a imigração ao desemprego e à criminalidade. O partido ActionSA também tem colocado a questão migratória no centro do seu discurso político. E até a Patriotic Alliance — que integra o Governo de unidade nacional formado após as eleições de 2024 — apresenta uma retórica dura sobre a imigração.

No entanto, num país marcado por uma elevada desconfiança em relação aos partidos políticos, têm sido movimentos de mobilização como a March and March a assumir o protagonismo na retórica anti-imigração. Apesar de não ter expressão partidária, a ativista Jacinta Ngobese-Zuma tem pressionado o Governo a adotar medidas mais duras. A 30 de junho, por exemplo, exigiu: “Nos próximos seis meses, estamos a pedir que os nossos recursos nacionais sejam usados para tirar os imigrantes ilegais fora deste país. De prédio em prédio — todos devem ir embora.

Sem ceder às vozes radicais, mas mantendo um discurso contra a xenofobia. Como reage o Governo sul-africano?

Cyril Ramaphosa lidera o ANC, o histórico partido de Nelson Mandela, desde 2017. Na presidência da África do Sul há oito anos, o Presidente viu o seu partido perder a maioria absoluta no Parlamento nas eleições de 2024 — algo inédito na breve história democrática sul-africana. Atualmente, o país mantém um Governo de unidade nacional, uma megacoligação onde também está a Democratic Alliance (DA), o rival histórico do ANC, de matriz liberal e mais à direita.

Para manter uma maioria parlamentar após as eleições de 2024, Cyril Ramaphosa foi obrigado a negociar alianças com vários partidos, alguns dos quais apresentam uma retórica anti-imigração, como a Patriotic Alliance. O país deixou de ser controlado em exclusivo pelo ANC, que sempre se associou ao pan-africanismo. A realidade política sul-africana é agora diferente: o Presidente sul-africano lidera uma coligação que inclui forças abertamente críticas dos imigrantes, ao mesmo tempo que não fica indiferente à existência de um forte sentimento negativo em relação à imigração entre parte significativa da população sul-africana.

“A resposta do Governo é uma mistura de ‘lei e ordem’ com ‘como é que parecemos firmes e duros e não perdemos votos com isto?'”, resume David Everatt. O caráter eleitoralista tem ganhado mais peso este ano, uma vez que a África do Sul tem marcadas eleições locais para novembro de 2026. Oficialmente, Cyril Ramaphosa tem condenado a xenofobia, exigindo que as milícias populares parem com as perseguições nas townships e com a violência nas ruas. Contudo, o Presidente tem prometido endurecer as exigências nas fronteiras e tem dado luz verde a deportações cada vez mais massivas.

Publicamente, Cyril Ramaphosa tem insistido que, na África do Sul, “não há lugar para sexismo, para a xenofobia, para a afrofobia ou para outro qualquer tipo de intolerância”. Ao mesmo tempo, promete que o Governo vai “agir contra as forças que estão a explorar as preocupações” da população “sobre imigração ilegal” para avançarem as suas “agendas políticas, pessoas e criminais”. “Não podemos permitir que grupos usem as preocupações legítimas dos sul-africanos para desestabilizar o país ao incitar à violência”, assegurou o chefe de Estado.

Em simultâneo, o Presidente sul-africano garante que não haverá tolerância para o vigilantismo, um fenómeno que está cada vez mais presente na África do Sul e que consiste em milícias populares a procurarem imigrantes de porta a porta nos subúrbios das grandes cidades, sem mandados policiais ou das autoridades oficiais. Para Cyril Ramaphosa, é uma “traição da ordem constitucional”.

Sobre a ação do Governo e de Cyril Ramaphosa, por um lado, Loren Landau destaca ao Observador que o Executivo não “lançou este movimento” contra imigrantes. Por outro, acredita o especialista, tem “apoiado e encorajado os protestos e a violência”. “Para além do seu desrespeito generalizado pelos cidadãos — com corrupção, condescendência e incompetência —, alimentou esses movimentos através de omissões”, critica, recordando que, desde 2008, o Executivo “não fez nada para responsabilizar gangsters e criminosos”.

No entender de Loren Landau, a imigração é também usada como um bode expiatório pelo Governo de Cyril Ramaphosa. Não são apenas os movimentos anti-imigração que o fazem. O especialista acusa o Executivo do Presidente sul-africano de “amplificar as vozes” contra os imigrantes para “distrair” os sul-africanos “da corrupção e da incompetência”.

Mantendo um tom abertamente crítico das ações do Executivo de Cyril Ramaphosa, o especialista considera que o Governo sul-africano “assistiu sem fazer nada, enquanto a polícia permitia que os manifestantes bloqueassem clínicas e escolas, ou arrancassem pessoas das suas casas e locais de trabalho”. “Disse aos imigrantes que deviam sair do país e que deveriam regressar às comunidades que os ameaçavam. Falhou ao condenar o discurso de ódio agora normalizado em todo o país”, atira, sentenciando: “Como líderes com um mandato constitucional, eles puseram a sua sobrevivência política à frente dos interesses do país, da região e do povo”.

"Para além do seu desrespeito generalizado pelos cidadãos — com corrupção, condescendência e incompetência —, [o Governo] alimentou estes movimentos através de omissões."
Loren Landau, professor de Imigração e Desenvolvimento da Universidade de Oxford e antigo presidente do Consórcio para Refugiados e Migrantes na África do Sul

Para Loren Landau, não restam dúvidas de que o Executivo é “fundamentalmente culpado” pela atual vaga anti-imigração. Mesmo reconhecendo que o Governo preveniu a violência em larga escala a 30 de junho — dia em que movimentos radicais organizaram protestos massivos para exigir a saída imediata de todos os imigrantes não regularizados —, o especialista culpa-o por permitir que “gangsters continuem a controlar as townships” e que milhares de pessoas tenham sido obrigadas a abandonar a África do Sul à pressa.

Jonathan Crush apresenta um prisma diferente e coloca o ónus nos manifestantes e nas organizações anti-imigração. “Exigem que o Governo prenda e deporte a maioria dos migrantes, apesar das evidências de que contribuem significativamente para a economia do país”, começa por dizer, recordando que os sucessivos Governos do ANC nunca foram brandos com a imigração, ao contrário do que alegam os manifestantes.

“Tentaram-se deportações em massa nas décadas de 1990 e 2000, quando mais de três milhões de imigrantes foram deportados numa tentativa falhada de desencorajar a imigração dos países vizinhos. A política não teve sucesso na altura e provavelmente não o terá novamente agora“, preconiza o especialista, que assinala que muitas críticas dos movimentos anti-imigração não estão bem fundamentadas.

África do Sul volta a tornar-se um pária no seu próprio continente?

Durante o apartheid, o regime da África do Sul encontrava-se isolado e era mal visto pela maioria dos países africanos. No continente, Pretória era considerada um pária devido à sua política de segregação racial. Após as guerras coloniais e já independentes, Angola e Moçambique apoiaram movimentos de libertação que pressionavam o regime sul-africano. A Nigéria e o Gana prestaram apoio político, diplomático e logístico a várias organizações que trabalhavam no mesmo sentido.

Esse estatuto de pária terminou com o fim do regime do apartheid. A África do Sul passou a integrar diversas organizações internacionais, como a União Africana (em que entrou em 1994), e melhorou substancialmente as suas relações com os restantes países do continente, aproximando-se de vários deles. A defesa do multilateralismo tornou-se uma das marcas da nova política externa de Pretória, que procurou manter boas relações com os seus vizinhos africanos e em todo o mundo.

Em 2010, a África do Sul juntou-se aos BRICS, um marco encarado como um grande sucesso da diplomacia do país. Passou a integrar o grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China, afirmando-se como uma das principais economias emergentes do mundo. Foi um motivo de orgulho, mas também de algum distanciamento em relação ao restante continente africano. Afinal, era o único país de África a integrar este bloco, que procurava afirmar-se como contraponto à influência do G8 (antes da expulsão da Rússia, na sequência da anexação da Crimeia).

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Uma década e meia depois, a reputação de Pretória entre os parceiros africanos volta a ficar comprometida pelas mais recentes manifestações contra imigrantes e pelo teor de afrofobia. Em Moçambique, por exemplo, na semana passada, um grupo de turistas sul-africanos foi expulso de um restaurante do país, em retaliação contra o tratamento que os moçambicanos enfrentam na África do Sul.

Entre os países africanos, aumenta a desconfiança e alguns ameaçam agir diplomaticamente. Após dois nigerianos terem morrido em circunstâncias ainda por apurar na semana passada, o Ministério dos Negócios Estrangeiros nigeriano acusou as autoridades da África do Sul de não agirem. “Se a situação continuar a persistir, todas as opções mantêm-se em cima da mesa, algumas das quais serão colocadas em prática se esta tendência provocadora não for endereçada.”

Na mesma linha, a Frelimo — partido do poder em Moçambique —, já veio condenar a “onda de xenofobia que se verifica na República da África do Sul”. Essa situação coloca em causa “os esforços coletivos em manter relações históricas saudáveis, entre os dois países, a região Austral de África e continente africano, em geral”. Outros países têm também equacionado reconsiderar as relações diplomáticas com Pretória.

A reputação da África do Sul está a sofrer um duro golpe . A ministra da Justiça, Mmamoloko Kubayi, já admitiu que a imagem do país pode sair prejudicada. “A maioria dos artistas sul-africanos atuam neste continente e muitos deles estão a ver os seus concertos a serem cancelados”, apontou a governante, acrescentando que as empresas nacionais também estão a ser afetadas.

A “imagem” de marca do país — outrora a “nação arco-íris” — é cada vez mais contestada no continente. Com o desemprego em níveis históricos e profundas desigualdades sociais, a África do Sul vê os imigrantes africanos como um dos principais culpados pela situação social que o país enfrenta. Condicionado pela vontade popular, o Governo sul-africano é acusado de agir tarde e sem grande vontade para resolver o fenómeno, que foi desvalorizado ao longo de décadas.

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