(c) 2023 am|dev

(A) :: Locarno 2026: Basil da Cunha na competição, Edgar Pêra fora de concurso

Locarno 2026: Basil da Cunha na competição, Edgar Pêra fora de concurso

“O Jacaré”, rodado na Reboleira, fecha um tríptico e concorre pelo Leopardo de Ouro a par de Hong Sangsoo e Denis Côté, enquanto que “Guerrilha no Asfalto”, de Edgar Pêra, passa fora de concurso.

Francisco Ferreira
text

O Jacaré, quarta longa-metragem de Basil da Cunha (n.1985), integra o lote de 17 obras que vão disputar, em Agosto (entre os dias 5 e 15), o Leopardo de Ouro de Locarno, anunciou o festival na manhã desta quinta-feira, pela voz do seu director artístico, Giona A. Nazzaro. O filme sucede a Até Ver a Luz (2013), O Fim do Mundo (2019) e Manga d’Terra (que também competira em Locarno, em 2023) e fecha com os dois últimos um tríptico dedicado ao bairro da Reboleira, Amadora, onde o cineasta luso-suíço se instalou há 18 anos e, entretanto, constituiu família (é pai de uma criança de nove meses).

Basil tem um método de trabalho peculiar e sem paralelo no cinema nacional, cruzando o cinema de género com um olhar rigoroso sobre uma realidade dura e um bairro que, entretanto, se foi desintegrando — mas como em tempos ele disse ao autor destas linhas, “eu nunca tive medo da Reboleira, só tive e continuo a ter medo da polícia.” Desta vez, a ficção de O Jacaré começa com “um assalto que termina da pior forma: um carro despista-se no coração do bairro, o assaltante é preso e os 180 mil euros roubados desaparecem sem deixar rasto (…)”, lê-se na sinopse fornecida à imprensa, que deixa antever uma entrada ano cinema de acção. “Todos acreditam saber onde está o dinheiro e todos querem encontrá-lo primeiro. As histórias cruzam-se numa sucessão de encontros inesperados, traições, humor e violência. E, no meio deste caos, começa a correr um boato impossível: há quem garanta ter visto um jacaré a vaguear pelas ruas da Reboleira.”

Ao telefone com o Observador, o cineasta nascido em Morges, à beira do lago Léman, confirmou que este filme nasceu da vontade de filmar a Reboleira “uma última vez, lado a lado com a comunidade cabo-verdiana que o habita” e onde, ao longo destes anos, “várias gerações cresceram diante da câmara”, tal como se lê na nota de intenções que o cineasta nos enviou depois do telefonema. “É uma last dance, outro filme coral [como Manga d’Terra já o tinha sido], com um assalto que corre mal a servir de pretexto para seguirmos uma série de grupos de personagens que vão interagir. Nunca houve tantas personagens num filme meu. Acho que o resultado está muito próximo da Blaxploitation enquanto género, uma coisa muito série B, passada no verão, com acção e humor. Rodámos na urgência, em 2024, um ano depois da estreia do Manga d’Terra, numa altura em que a Reboleira já praticamente não existia [pelas demolições]. Foi uma corrida contra o tempo, reformulámos a produção e fomos buscar imensa gente que lá morava e já tinha ido embora. Assim recriámos a Reboleira. Há uma nostalgia alegre no filme, foi-nos possível reviver o que o bairro costumava ser.”

Para Basil, será um regresso à competição de Locarno depois da obra anterior, protagonizada pela cantora e compositora Eliana Rosa, companheira do cineasta que também volta a entrar no novo trabalho. A produção é novamente luso-suíça, entre a Thera Production e a Continue Walking, com direcção de fotografia do DP habitual de Basil, Patrick Tresch. São, obviamente, boas notícias para o cinema português, num ano em que Berlim e Cannes não seleccionaram longas-metragens lusas. Basil da Cunha terá como concorrentes os novos filmes do sul-coreano Hong Sangsoo (Nowhere to Lay my Eyes) ou do canadiano Denis Côté (Violence du corps de l’autre), numa competição que, à semelhança do que aconteceu em Cannes 2026, preferiu a renovação à consagração, apostando numa nova leva de artistas com pouca experiência em palcos desta grandeza.

Edgar Pêra também regressa ao Ticino: guerrilha cinematográfica nos anos das FP-25

Guerrilha no Asfalto é uma ficção ancorada na realidade sobre um “tempo utópico da democracia portuguesa” — desde logo pela base no livro homónimo de 1992, Guerrilha no Asfalto – As FP25 e o Tempo Português, de Manuel Ricardo Sousa — mas, conhecendo a obra de Edgar Pêra, não é de esperar qualquer tipo de abordagem convencional, independentemente da fonte. O que se sabe? Que decorre no início dos anos 80, partindo de um estudante envolvido numa organização radical e que acaba linchado pela população após assaltar um banco (é curiosa esta coincidência do assalto ao banco com o filme de Basil), ainda que o filme oscile entre a tragédia, a comédia e a sátira destas guerrilhas e dos episódios em que se envolveram.

Segundo a nota que nos enviou a produção (o filme resulta de uma nova colaboração entre Edgar Pêra e a Bando à Parte, de Rodrigo Areias), Guerrilha no Asfalto é uma tragicomédia meta-cinematográfica “que desfoca as linhas entre o idealismo político e o cinematográfico, acompanhando a desastrosa história de uma célula de guerrilha amadora dos anos 1980 e o caótica tentativa de a transformar em filme nos anos 1990.” Na verdade, Edgar Pêra “já anda a fazer este filme há 40 anos”, contou ao Observador Rodrigo Areias, “e a história desta ficção também documenta essa tentativa, o processo de fazer cinema em Portugal e a dificuldade que isso implica. O filme tem muitas camadas, entre a História e a própria vivência dele, enquanto pessoa e artista. Há material de arquivo dos anos 80 e 90 filmado pelo Edgar e cruzado com uma rodagem de ficção muito recente, com actores, personagens e cenas de acção.” No elenco estão Victoria Guerra, Ana Bustorff, Nuno Nolasco, Nuno Preto, Ivo bastos, Albano Jerónimo e Miguel Borges, entre outros (e aparições de Terence McKenna, que Pêra filmou várias vezes ao longo do seu percurso.)

https://vimeo.com/1206793496/0c97bdd3ea

“Quisemos fazer um filme punk a partir daquele livro”, rematou Areias, “cujos direitos para uma adaptação cinematográfica eu comprei há vários anos. Como filme punk que é, o Edgar e eu chegámos então a um acordo para não ultrapassarmos os 77 minutos de duração, em rima com o ano de 1977 e o lançamento do Never Mind the Bollocks, dos Sex Pistols. No fundo, o Edgar vai fazer uma transferência do princípio da guerrilha política do Portugal pós-democrático para a guerrilha cinematográfica que, pelo seu trabalho, ele mantém viva até hoje.”

“E tem inteligência artificial?” — perguntámos a Areias, sabendo do interesse pioneiro de Pêra no assunto? “Claro que tem. Coisas doidas. E com muita piada. Juntam-se ao 35mm, ao 16mm, ao Super 8, ao HI-8 e às câmaras de telemóvel. Tudo o que possas imaginar!”

A participação da Bando à Parte em Locarno não se fica contudo por Guerrilha no Asfalto já que a empresa de Areias co-produziu, numa parceria com o norte-americano Fred Riedel, a curta musical Ranaldo/Singer — Against the Light, realizada por Riedel — uma curta de realidade virtual em 3D com Lee Ranaldo, guitarrista e compositor dos Sonic Youth e artista experimental.

No programa Open Doors está Time to Change, curta de 7 minutos de Pocas Pascoal e produção luso-angolana que, antes de Locarno, será exibida em Vila do Conde, na próxima edição do Curtas.

Fora de concurso destacamos Seize moments de ma vie, um documentário de Albert Serra sobre Ingrid Caven, assim como novas curtas de Ben Rivers e da dupla Caroline Poggi e Jonathan Vinel.

Numa edição que homenageará as actrizes Isabella Rossellini, Asia Argento e Virginie Efira, o realizador Darren Aronofsky, o produtor islandês Sigurjón Sighvatsson e o caracterizador e aderecista norte-americano Rick Baker, Locarno dedica a sua célebre retrospectiva do ano à infâme lista negra da Hollywood dos anos 50, que baniu, nos tempos do Macartismo, artistas como John Garfield, Joseph Losey, Dalton Trumbo, Dorothy Parker, Richard Wright ou Charles Chaplin. A retrospectiva vai intitular-se Red & Black – Hollywood Left and the Blacklist e decorrerá, como é hábito, no Cinema Rex, junto à Piazza Grande.

Já o programa anunciado para a mesma praça, ex-libris da cidade ticinesa, caprichou em obras recentemente restauradas que se tornaram clássicos: Coração Selvagem, de David Lynch, Danças com Lobos, de Kevin Costner e Taxi Driver, no ano que assinala o 50.º aniversário desta obra-prima de Martin Scorsese.

Eis a lista dos 17 filmes a concurso:

Alberi Erranti, de Salvatore Mereu (Itália)

Nowhere to Lay My Eyes, de Hong Sangsoo (Coreia do Sul)

Brave New Love, de Maria Bäck (Dinamarca/Suécia/Grécia)

Lejos de los árboles, de Meritxell Colell Aparício (Espanha/Perú/Itália)

You Don’t Belong Here, de Florin Serban (Roménia)

D’ici là, de Sarah Leonor (França)

Rehmat, de Gurvinder Singh (Índia/França)

O Jacaré, de Basil da Cunha (Portugal/Suíça)

Manhunt, de Wayne Wapeemukwa (Canadá)

I Rarely Wake Up Dreaming, de Isabelle Stever (Alemanha/Ucrânia)

Ketticè, de Giovanni Tortorici (Itália)

Violence du corps de l’autre, de Denis Côté (Canadá)

Hearing, de Lê Bâo (Vietname/Singapura/Noruega/França)

Objet a, de Ann Oren (Alemanha/Luxemburgo/Grécia)

A Margem do Rio, de Matheus Farias e Enock Carvalho (Brasil/Alemanha)

The House on the Moon, de Nelson Yeo (Singapura/Taiwan/Alemanha/Indonésia)

Princesa Burro, de Cristóbal León e Joaquín Cociña (Chile/ França/Uruguai/Alemanha/Países Baixos

O autor escreve segundo a antiga ortografia.