Algumas crianças parecem permanentemente ligadas à corrente. Correm pela casa, interrompem todas as conversas, esquecem aquilo que lhes foi pedido agora mesmo, não ficam cinco minutos sossegadas. Para os pais, há um momento em que surge a dúvida: será apenas uma criança cheia de energia ou será que tem Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA)?
As preocupações dos pais nunca devem ser desvalorizadas, mas, neste caso, muito do que os inquieta pode fazer parte do desenvolvimento normal: a região do cérebro responsável pelo planeamento, controlo de impulsos, tomada de decisões e autorregulação está em desenvolvimento até aos 25 anos, aproximadamente, pelo que, durante a infância, ainda é bastante imatura.
É por isso que, quando comparadas com um adulto, as crianças são impulsivas, têm dificuldade em manter a atenção, regular as emoções, controlar o comportamento. E são muito mais ativas.
“A infância é, por definição, uma fase de movimento, curiosidade e descoberta”, diz a pedopsiquiatra Inês Barroca, habituada a ouvir estas preocupações dos pais em consulta. “A energia, a vontade de explorar e alguma impulsividade fazem parte do processo de crescimento.” Isso significa que uma criança saudável é, à partida, uma criança ativa. É esperado e normal “que corra, salte, trepe, que tenha ‘explosões’ quando está cansada ou frustrada, que mostre entusiasmo com vigor em contextos de maior excitação, que interrompa os adultos ou precise de orientação para se lembrar de várias tarefas”.
À medida que o processo de desenvolvimento se vai fazendo, estas capacidades vão melhorando. Até ao pré-escolar, explica Inês Barroca, é também esperado que as crianças tenham dificuldade em permanecer focadas durante muito tempo. Com a entrada no primeiro ciclo, pelos seis anos, começam progressivamente a surgir competências que permitem maior concentração e menor agitação. Assim, exemplifica a médica, da mesma forma que é natural que uma criança mais pequena não aguente muito tempo a ler um livro ou a ver um programa de televisão, de um adolescente já é esperada outra capacidade de concentração nestas situações.
“Uma metáfora útil é pensar na atenção e no autocontrolo como um músculo que vai ganhando força ao longo do desenvolvimento”, diz a pedopsiquiatra. “Não esperamos que uma criança pequena consiga levantar o mesmo peso que um adolescente. Da mesma forma, também não devemos esperar que consiga manter o mesmo nível de concentração, paciência ou controlo dos impulsos.”
Então, quando faz sentido suspeitar de PHDA? A resposta não está na quantidade de energia, explica Inês Barroca. “Uma criança [só] enérgica consegue concentrar-se quando algo é importante ou interessante, melhora com regras consistentes, adapta o comportamento a diferentes contextos, tem dificuldades ocasionais, mas funciona adequadamente na escola, em casa e nas relações sociais.”
Por outro lado, o facto de uma criança ter capacidade de concentração em algumas tarefas não exclui este diagnóstico. Este é, aliás, um dos aspetos que mais alimenta alguns mitos: “Uma criança pode conseguir ficar uma hora concentrada a construir legos ou a jogar um videojogo e, ainda assim, ter PHDA.” O problema não é uma incapacidade absoluta de prestar atenção, mas sim a dificuldade em regular a atenção de acordo com as exigências de cada situação.
A PHDA – que se estima que afete entre 5 e 7% das crianças em idade escolar, de acordo com a maioria dos estudos – é caracterizada por dificuldades persistentes de atenção, hiperatividade e/ou impulsividade “que interferem de forma significativa com o funcionamento da criança que são desproporcionais para a idade, persistem ao longo do tempo e manifestam-se em vários contextos, com impacto no desempenho escolar, social ou familiar.”
Quando os pais têm dúvidas sobre alguns comportamentos ou sobre a relevância deste impacto, vale sempre a pena procurar ajuda. O primeiro passo pode ser uma conversa com o médico de família ou com o pediatra que, se necessário, encaminhará a criança para uma consulta especializada onde pode ser feita uma avaliação por profissionais com formação nesta área – normalmente psiquiatras da infância e adolescência (pedopsiquiatras), pediatras do desenvolvimento ou psicólogos clínicos.
No entanto, enquanto esse processo decorre há estratégias que podem fazer a diferença no dia a dia da família já que, diz Inês Barroca, “muitas estratégias úteis para crianças com PHDA beneficiam todas”:
- Criar rotinas previsíveis, sobretudo ao nível dos horários e do sono;
- Dar instruções simples, claras e uma de cada vez;
- Dividir as tarefas mais longas em pequenos passos, mais fáceis de cumprir;
- Reduzir distrações quando a criança precisa de se concentrar;
- Valorizar o esforço, recorrendo ao elogio e ao reforço positivo (mais do que à crítica);
- Cuidar da relação antes de corrigir o comportamento, evitando que a interação se resuma a ordens, críticas e conflitos;
- Reservar todos os dias alguns minutos para brincar, conversar ou fazer uma atividade agradável em conjunto.
Inês Barroca é psiquiatra da infância e da adolescência na Unidade Local de Saúde de Lisboa Ocidental e no PIN – Partners in Neuroscience, dedicando-se, entre outras áreas, às perturbações do neurodesenvolvimento.