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(A) :: Veterano, apanhador de ostras e protagonista de polémicas. Queda de Graham Platner pode levar democratas a rejeitarem estratégia populista

Veterano, apanhador de ostras e protagonista de polémicas. Queda de Graham Platner pode levar democratas a rejeitarem estratégia populista

Graham Platner foi recrutado por progressistas no Maine e teve ascensão meteórica. Acusado de violação, põe ponto final na campanha e obriga democratas a ponderar se apostas arriscadas valem a pena.

Madalena Moreira
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Um homem com uma camisola cinzenta simples, óculos escuros e barba conduz um pequeno barco junto à costa. O mesmo homem, de fato de mergulho, apanha ostras. Sentado dentro de um café, de braços tatuados à mostra, ouve atentamente uma mulher. Uma voz grave e rouca fala sobre as maravilhas e as dificuldades de viver no estado do Maine, ao som de uma música digna de um filme de ação. Foi assim que, no dia 19 de agosto de 2025, Graham Platner se apresentou ao mundo da política, como candidato pelo Partido Democrata ao lugar da senadora republicana Susan Collins.

https://twitter.com/grahamformaine/status/1957780836062826868

O sucesso foi meteórico. O apanhador de ostras e veterano do Exército norte-americano de 41 anos, que nunca ocupou um cargo público, colecionou apoios de nomes de peso dos democratas e, no mês passado, ganhou as primárias com 72% dos votos — foram, ao todo, 150 mil votos, o maior número alguma vez depositado num candidato nas primárias do Partido Democrata no Maine. Esta semana, a onda de sucesso terminou quando Graham Platner foi acusado de, em 2021, ter violado uma mulher com quem mantinha uma relação casual.

Na sequência da denúncia, o candidato perdeu todos os apoios formais e viu-se forçado a desistir da corrida ao Senado. O anúncio foi feito esta quarta-feira, através de um vídeo nas redes sociais, em que Platner nega a acusação. Apesar do sucesso público do veterano, atrás de portas escondia-se, na verdade, uma “bomba-relógio”, como define o Axios. Isto porque a acusação de violação não foi a primeira mancha numa campanha imaculada. Pelo contrário, foi a gota de água numa corrida em que Platner acumulou polémicas e controvérsias que terá tentado ocultar da sua própria equipa.

Contudo, nenhuma das anteriores denúncias tinha desmobilizado o apoio do Partido Democrata — que parecia apostar na fórmula da franja mais à esquerda, que, desde o fracasso nas eleições de 2024, se tem focado em desafiar o que dizem ser o poder instalado em Washington e em reconquistar o voto da classe trabalhadora. Depois do sucesso dessa estratégia numa campanha à escala local — com a vitória de Zohran Mamdani nas eleições municipais de Nova Iorque, no final do ano passado —, Graham Platner tornou-se o rosto dessa aposta à escala nacional, na campanha para as eleições intercalares de novembro de 2026.

A implosão dessa estratégia impõe ao Partido Democrata um dilema aplicável a todos os lugares por que lutam nas intercalares. Vale a pena correr o risco de escolher um desconhecido do sistema que conquiste o voto da classe trabalhadora? Ou é preferível fazer uma aposta segura e apoiar alguém mais próximo do núcleo do partido? Com apenas quatro meses até às eleições, não sobra tempo suficiente para um debate profundo sobre a questão. “Isto é uma completo desastre“, resume um dos democratas de topo do Maine ao Washington Post, recorrendo à expressão mais gráfica do inglês “shitshow“.

 “Os eleitores querem candidatos reais”. A chegada de Platner à política

Até ao ano passado, Graham Platner nunca tinha apresentado qualquer pretensão política. Aos 41 anos, vivia com a mulher e os cães numa casa junto ao mar, comprada com recurso a um empréstimo do pai e subsídios do Departamento de Veteranos. Os rendimentos eram suplementados com o seu trabalho na apanha da ostra. Em julho do ano passado, Platner foi contactado por Dan Moraff, Leanne Fan e Morris Katz, três ativistas liberais à procura de potenciais candidatos alinhados com uma agenda económica mais à esquerda — os três têm um vasto currículo de sucesso nas suas apostas passadas.

Moraff, Fan e Katz tinham visto Platner num vídeo do sindicato local, em que o apanhador de ostras estava envolvido, e consideravam que ele tinha potencial para ser “uma figura histórica” e “liderar um movimento”, relata o New York Times, que cita várias pessoas com conhecimento das conversas exploratórias. Graham Platner aceitou a proposta e, um mês depois, era publicado nas redes sociais o vídeo que o apresentou ao mundo como candidato ao Senado.

"Parte da nossa tese aqui é que as pessoas não querem que os seus candidatos sejam criados em tanques. Querem pessoas que sejam seres humanos reais."
Dan Moraff, conselheiro de campanha de Graham Platner

A sua campanha baseou-se numa valorização da classe trabalhadora, que dizia ter sido esquecida pela “oligarquia” de Washington D.C., apontando baterias à senadora Susan Collins, mas também ao Presidente Donald Trump. Nesse sentido, defendia o acesso à habitação a custos acessíveis e “Medicare para todos”, referindo-se ao seguro de saúde público. Entre os temas de pendor internacional, destacava-se a classificação da ofensiva israelita na Faixa de Gaza como genocídio e a oposição ao apoio militar a Telavive.

Além do conteúdo, uma grande parte do sucesso da campanha era explicada pela forma, ou seja, o carisma, a postura despretensiosa e próxima dos eleitores de Platner. De sweatshirt e calças de ganga, o candidato realçava que ele próprio era um membro da classe trabalhadora. “Parte da nossa tese aqui é que as pessoas não querem que os seus candidatos sejam criados em tanques. Querem pessoas que sejam seres humanos reais”, defendeu Dan Moraff, em entrevista ao Wall Street Journal.

Publicações no Reddit, insultos e tatuagens Nazi. A acumulação de polémicas

O vídeo de apresentação do candidato a Senador do Maine não tinha sido publicado nem há dois meses quando o primeiro cabeçalho agitou a campanha. Uma notícia da CNN dava conta de publicações de Platner no Reddit, feitas entre 2020 e 2021 e entretanto apagadas. Nas publicações, podiam ler-se frases como: “todos os polícias são sacanas“, “que se f**** estes polícias” ou “vivo na América branca rural e lamento dizer que são mesmo”, esta última em resposta a uma publicação que dizia que “as pessoas brancas não são tão racistas ou estúpidas como Trump pensa”.

Platner pediu desculpa pelas publicações, reconhecendo que, no passado, tinha sido um “idiota”. Dentro da campanha, contudo, soaram alarmes: as publicações apanharam até o círculo mais interno de surpresa. Fontes ouvidas pelo Wall Street Journal e pelo New York Times revelam que, ao contrário do que é habitual numa campanha política de alto nível, nunca foi feita uma extensa investigação sobre o passado de Platner, que pudesse desenterrar este tipo de informação. Em vez disso, foi feita apenas uma “análise acelerada”. A equipa tinha de confiar nas palavras de Platner.

“Eu lembro-me de perguntar especificamente ‘Há mais alguma coisa que possa sair cá para fora?'”, relatou Paige Loud, que trabalhava como estagiária na campanha à data. “Foi-me dito muitas vezes que nada mais ia sair”, partilhou com o Wall Street Journal. Apesar das promessas, os esqueletos continuaram a cair do armário ao longo dos meses seguintes.

Primeiro, a própria mulher de Platner terá alertado a campanha para o facto de o marido ter trocado mensagens de pendor sexual com outras mulheres quando já eram casados, algo que estavam a resolver em terapia de casal. Noutras publicações no Reddit, descobertas posteriormente, Platner fazia também comentários de teor homofóbico e misógino, em que desvalorizava acusações de assédio sexual. Depois, foi revelado que Platner tinha uma tatuagem de um símbolo Nazi no peito — em resposta às críticas, o veterano disse não ter conhecimento dessa simbologia e cobriu-a com uma nova tatuagem.

A campanha foi-se desviando das acusações, retratando as polémicas como resultado do Síndrome de Stress Pós-Traumático e de problemas com alcoolismo com que Platner se debatia desde que voltara das suas missões no Afeganistão. Muitas das polémicas, defenderam, só confirmavam que Platner era um homem real, que cometera erros no passado, mas que também os ultrapassara.

O último mês de Platner. A vitória nas primárias, as acusações de violação e o fim da campanha

Faltavam apenas cinco dias para as primárias do Partido Democrata. A governadora do Maine, Janet Mills, apoiada pelos líderes do Partido Democrata em Washington, já se retirara da corrida, alegando falta de fundos, e Graham Platner era praticamente vencedor certo. Foi então que o New York Times noticiou as acusações mais graves até à data: três mulheres que tinham mantido relacionamentos com Platner denunciavam comportamentos “perturbadores” e “tóxicos”.

Uma das mulheres, Lyndsey Fifield, acusava-o mesmo de violência física e, ao Washington Post, relatou ainda casos de violência sexual. Os relatos foram negados por Platner e não abrandaram a onda de apoio — e, no dia 9 de junho, conquistou uma vitória histórica nas primárias. No seu discurso, o candidato acusou a “instituição política” de “continuar à procura de uma história para definir a campanha”. Os seus conselheiros foram rápidos a encontrar ligações de Fifield a políticos conservadores e a acusá-la de fazer parte de uma campanha de perseguição e incriminação.

A reação à denúncia de Fifield terá sido a gota de água para Jenny Racicot, outra das mulheres que falara com o New York Times. Numa nova entrevista, publicada pelo Politico esta segunda-feira, Racicot declarou ter sido violada por Platner em 2021, quando mantinham uma relação casual. Platner, descreveu, entrou em sua casa, visivelmente embriagado, violou-a e adormeceu depois na sua cama. Na manhã seguinte, disse não se lembrar de nada do que tinha acontecido na noite anterior. “Uma das razões para não ter falado mais cedo foi o enorme conflito moral que tinha entre apoiar a sua posição política, mas não o apoiar enquanto pessoa”, justificou.

https://twitter.com/grahamformaine/status/2074214272628916296

Graham Platner negou as acusações, mas o efeito foi praticamente imediato. Na terça-feira, a senadora Elizabeth Warren e o representante Ro Khanna, dois dos nomes mais proeminentes na ala progressista do Partido Democrata, retiraram os seus apoios, apelando a Platner que desistisse da corrida. No dia seguinte, Bernie Sanders, senador independente e impulsionador da estratégia de populismo económico da esquerda norte-americana, juntou-se ao coro de apelos.

Os líderes democratas em Washington assinaram a sentença final, ao anunciar que o Partido não financiaria a campanha para o Senado no Maine caso o nome de Platner estivesse no boletim. Esta quarta-feira à noite, surgiu o anúncio praticamente inevitável: Graham Platner suspendeu a campanha.

“Foi um ano inteiro desperdiçado naquela que ia ser sempre uma corrida muito difícil”

Graham Platner ainda não tinha anunciado o fim da sua campanha quando o Partido Democrata do Maine reuniu um gabinete de crise para definir o caminho a seguir. As leis estaduais definem que um nome só pode ser excluído do boletim até dia 13 de julho e que, caso isso aconteça, o novo nome tem de ser apresentado até dia 27 de julho: impunha-se um contrarrelógio para escolher um novo nome, caso (ou quando) Platner desistisse.

A situação seria complexa em qualquer estado, mas é particularmente preocupante por ser no Maine. O lugar de Susan Collins no Senado é visto como uma das melhores apostas para o Partido Democrata tentar recuperar o controlo do Senado ao Partido Republicano — de todos os lugares na câmara alta do Congresso, ocupados por republicanos e que vão a votos, apenas o de Collins fica num estado que votou no Partido Democrata nas eleições presidenciais de 2024.

As sondagens, até à semana passada, colocavam Platner empatado ou à frente de Collins. Agora, os democratas estão de volta à estaca zero. “Foi um ano inteiro desperdiçado naquela que ia ser sempre uma corrida muito difícil”, lamenta David Farmer, consultor democrata no Maine, ao New York Times. Em vez de uma nova primária, o novo candidato será escolhido através de uma convenção estadual, que reúne mais de uma centena de delegados democratas do Maine.

Contudo, a transição de poder não promete ser ordeira. Nas horas derradeiras da campanha de Platner, o candidato iniciou um braço de ferro inédito com os seus conselheiros, que até aí, se tinham mostrado sempre do seu lado, relata o Wall Street Journal e o Politico, citando fontes dentro da campanha. Platner insistiu que devia ter uma palavra a dizer sobre o seu sucessor, mesmo depois de o Partido ter anunciado que o novo candidato seria escolhido internamente. A equipa insistiu que Platner devia assumir um tom conciliador na sua mensagem de despedida.

https://twitter.com/grahamformaine/status/2075009677495058687

Platner não cedeu e, no final, atirou uma última pedra ao charco. “Enfrentámos de igual para igual um dos sistemas políticos mais enraizados da História do mundo e vencemos. E agora não nos vão deixar ficar com isso”, denunciou, num vídeo publicado nas redes sociais. “Estamos a fazer isto por causa das estruturas que nos estão a ser retiradas por quem está no poder”, justificou, insistindo que a desistência não era uma admissão de culpa.

Uma campanha populista ou um candidato verificado pelo partido? O dilema dos democratas para resolver até 2028

“As pessoas que ganharam esta primária têm o poder de decidir o que se segue, não o topo do partido que já a perdeu. Para a instituição democrata: isto não é a vossa oportunidade”. As linhas são traçadas pela Our Revolution, organização política fundada no âmbito da campanha presidencial de Bernie Sanders, que procurou dar continuidade ao seu projeto de “luta contra a oligarquia”. O grupo retirou o apoio a Platner, mas foi rápido a encontrar outro candidato do seu agrado: Troy Jackson, antigo líder do Senado estadual do Maine.

O candidato reúne o consenso da maior parte dos grupos progressistas, de esquerda e dos sindicatos, que encontram o erro não na mensagem populista de Graham Platner ou na forma como a transmitiu, mas na falta de investigação feita pela equipa que o recrutou. Seth Masket, professor de ciência política na Universidade de Denver, confirma à Associated Press a popularidade das campanhas populistas de esquerda no atual momento da política norte-americana. Exemplo disso são as primárias das últimas semanas em Nova Iorque ou no Colorado. “Acho que vai haver muito mais disto”, destaca o especialista.

"Eu percebo que as pessoas estejam cansadas da política de sempre (...) mas acho que deviam estar preocupadas com candidatos não verificados [pelo partido] enfrentarem republicanos que vão ter centenas de milhões de dólares para explorar fraquezas."
Neera Tanden, diretora do think tank moderado Center for American Progress

Contudo, mais ao centro do espectro político, existem vozes que recusam voltar a correr o risco de escolher alguém sem treino político. “Eu percebo que as pessoas estejam cansadas da política de sempre (…) mas acho que deviam estar preocupadas com candidatos não verificados [pelo partido] enfrentarem republicanos que vão ter centenas de milhões de dólares para explorar fraquezas”, argumenta à agência Neera Tanden, diretora do think tank moderado Center for American Progress.

Esse mesmo ataque por parte dos republicanos começou ainda antes da desistência, mas estende-se a qualquer sucessor alinhado com Platner. “O candidato democrata do Maine vai ser um alegado violador com uma tatuagem Nazi, ou alguém que ele vai escolher com os mesmos ‘valores e visão'”, ironizou o senador republicano Tim Scott. Essa preocupação pareceu estar presente na decisão do Partido Democrata no Maine ao recusar a proposta de Platner para indicar um sucessor.

Contudo, mesmo entre aqueles que apoiaram Janet Mills, há um reconhecimento generalizado de que a campanha futura não pode alienar a base de eleitores e apoiantes que Platner reuniu à sua volta. “Uma grande parte da base de Platner vai ficar zangada e cruzar os braços se isto começar a parecer mais um caso em que o poder consolidado triunfa sobre o que as pessoas querem”, alerta James Melcher, professor de política na Universidade do Maine, à BBC.

Sem qualquer candidato anunciado, é impossível dizer se os democratas conseguirão encontrar o equilíbrio entre um candidato genuíno o suficiente para conquistar votos, mas polido o suficiente para não criar novas dores de cabeça. E se essa fórmula conseguirá ser aplicada nas restantes corridas.

A repercussão estende-se, no espaço e no tempo, além do prazo de 27 de julho no Maine. Na primavera de 2026, em reuniões privadas com líderes democratas, noticiadas agora pelo New York Times, Morris Katz terá proposto que, chegado ao Senado, Graham Platner devia explorar uma candidatura presidencial em 2028. A sua queda em desgraça não mata apenas a possibilidade de Platner anunciar a candidatura — pode ter destruido também a confiança dos líderes democratas na hipótese de alguém como ele estar à altura desse desafio.