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(A) :: A estreia nos Jogos Olímpicos, a questão da Grã-Bretanha e a 1.ª Guerra: Daniel Woolfall, o presidente que levou as regras à FIFA

A estreia nos Jogos Olímpicos, a questão da Grã-Bretanha e a 1.ª Guerra: Daniel Woolfall, o presidente que levou as regras à FIFA

Foi o segundo presidente do organismo, morrendo no cargo em 1918 e no fim da 1.ª Guerra. Contabilista, uniformizou as regras do futebol e criou o primeiro torneio internacional, nos Jogos Olímpicos.

Mariana Fernandes
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Filho de canalizador, neto de vendedor de madeiras, presidente da FIFA. A biografia de Daniel Burley Woolfall é o típico conto de ascensão social do início do século XX, potenciada por um mundo em autêntica revolução de costumes, hábitos e tradições. Ser um dos primeiros a olhar para o futebol tendo regras e regulamentações em conta garantiu-lhe um lugar na história – ainda que o seu nome propriamente dito raramente seja recordado.

Daniel Woolfall nasceu em 1852, a meio do século XIX, em Blackburn, no norte de Inglaterra. Estudou na Blackburn Grammar School, a atual Queen Elizabeth’s Grammar School, e tornou-se contabilista, acabando por trabalhar na administração pública como inspetor de impostos. Um contexto que norteou sempre tudo o que desenvolveu na FIFA: se Robert Guérin fundou o organismo e Jules Rimet o tornou um colosso internacional, foi Daniel Woolfall que lhe deu a estrutura burocrática, as regras e a ordem necessárias para que este sobrevivesse aos primeiros e exigentes anos de existência.

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Antes de chegar à FIFA, porém, o britânico trilhou o caminho que o levou até à FIFA. Em conjunto com vários colegas da Blackburn Grammar School, ajudou a fundar o Blackburn Rovers e assumiu muitos cargos na Lancashire Football Association, a associação de futebol da região onde nasceu e viveu. Estava na bancada do então Kennington Oval, em Londres, quando o Blackburn Rovers perdeu a final da Taça de Inglaterra para o Old Etonians e acompanhou o clube em várias deslocações ao estrangeiro, viajando para a Alemanha, a Áustria ou a Hungria.

Durante vários anos, dividiu a dedicação ao futebol com a paixão pelo críquete e pelo ténis, tendo chegado a ser secretário do East Lancashire Cricket Club e do Crosshills Tennis Club. Alistou-se nas Forças Armadas em 1874, tendo sido integrado no 1.º Batalhão dos Lancashire Rifle Volunteers e chegando a tenente uma década depois, entrando na reserva já no final do século XIX. Pela mesma altura, a competência chamou – e a escolha definitiva pelo futebol tornou-se uma obrigação.

Em 1901, face ao trabalho desenvolvido na Lancashire FA, foi escolhido para subir à Football Association (FA) na condição de tesoureiro – ou seja, entrou verdadeiramente no organismo que regulava todo o futebol inglês e que, na altura, acabava por ditar grande parte do futebol que se jogava no resto do mundo. Tal como já tinha acontecido em Lancashire, dentro da FA Daniel Woolfall tornou-se o principal responsável pela interpretação, explicação e aplicação das chamadas “Laws of the Game”, as 17 regras iniciais que foram estabelecidas em 1863 e que são a base do futebol moderno.

https://twitter.com/QEGSBlackburnPE/status/1604489606136725504

De acordo com relatos da altura, o contabilista pegava pessoalmente no lápis para explicar a jogadores, treinadores, dirigentes e árbitros a nova regra do fora de jogo, preocupando-se com esquemas táticos detalhados para que as regras fossem aplicadas de igual forma em todas as partidas que decorressem em Inglaterra. Pela mesma altura, num detalhe biográfico que o marcou profundamente e que aconteceu enquanto se dirigia para a final da East Lancashire Charity Cup entre o Blackburn Rovers e o Blackburn Olympic, viu-se envolvido num grave acidente de elétrico que teve uma vítima mortal e de onde saiu com uma grave lesão nas costas e cortes profundos nas mãos.

No início do século XX, a inesperada porta da FIFA abriu-se. Fundada em 1904, a Fédération Internationale de Football Association foi criada em Paris com o apoio da Bélgica, da Dinamarca, dos Países Baixos, de Espanha, da Suécia, da Alemanha e da Suíça. Em protesto, os britânicos recusaram o convite inicial, ainda chocados com o alegado desrespeito demonstrado pelos franceses e restantes membros fundadores, que optaram por criar uma nova organização “estrangeira” ao invés de reconhecerem o estatuto universal e transversal da FA. Para Inglaterra, Escócia, Irlanda e País de Gales, o futebol tinha sido totalmente inventado na Grã-Bretanha e era ali que o seu coração, entre decisões, mudanças e opções, deveria permanecer.

Em 1906, porém, o azimute começou a mudar. Dois anos depois de fundar a FIFA, Robert Guérin demitiu-se do cargo de presidente após falhar o objetivo de organizar o primeiro torneio internacional. Os responsáveis do organismo viram o vazio de poder como uma oportunidade: cientes de que tudo colapsaria sem o apoio obviamente necessário dos britânicos, convidaram Daniel Woolfall para suceder ao francês. Este liderou uma comitiva até Berna, a capital da Suíça, e acabou eleito como o segundo presidente da FIFA, o primeiro de três britânicos até aos dias de hoje.

Sem abdicar do cargo que ocupava na FA, chegou a uma FIFA que considerava desorganizada e com uma profunda necessidade de reformas. Colocou em prática a contabilidade mais moderna da altura, que já tinha implementado primeiro em Lancashire e depois em toda a Inglaterra, e depressa tornou as “Laws of the Game” absolutamente obrigatórias para todos os membros da organização – já que, até aqui, cada país tinha a liberdade para adotar as nuances que quisesse a cada uma das 17 regras basilares.

Na mesma ótica, pegou no International Football Association Board (IFAB) que já existia em Inglaterra e tornou-o global, deixando de ser apenas uma instituição da FA para passar a ser uma instituição de toda a FIFA. O órgão permanece em funções até aos dias de hoje, reunindo de forma ordinária duas vezes por ano, e é o responsável pelo cumprimento das regras do futebol, assim como pelas mudanças e renovações que foram feitas à arbitragem ao longo dos tempos.

Daniel Woolfall foi ainda o responsável pela definição do que é oficialmente um jogo internacional e conseguiu também concretizar o sonho não cumprido que levou à queda de Robert Guérin, organizando o primeiro grande torneio internacional de futebol nos Jogos Olímpicos de Londres, em 1908, repetindo a façanha quatro anos depois em Estocolmo. Pela mesma altura, abriu as portas da FIFA aos primeiros membros não europeus, aceitando a entrada da África do Sul, da Argentina, do Chile e dos EUA.

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Em 1912, acabou por ser confrontado com uma das grandes polémicas dos 12 anos de mandato. Apesar de Daniel Woolfall ser presidente do organismo, as quatro associações da Grã-Bretanha continuavam sem pertencer à FIFA. Quando a diplomacia de Woolfall começou a ter algum efeito, levando ingleses, escoceses, galeses e irlandeses a perceberem que a entrada seria uma inevitabilidade para não se tornarem párias dentro do futebol internacional, surgiu um problema adicional.

Ora, os estatutos originais da FIFA diziam claramente que apenas uma federação por Estado soberano poderia ser admitida enquanto membro. Formalmente, o Estado soberano em causa era o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda – mas Escócia, País de Gales e Irlanda depressa se recusaram a abdicar das suas seleções independentes para se submeterem a uma “seleção unificada do Reino Unido”. Mas Woolfall, através da influência que já tinha conquistado, conseguiu vender o argumento histórico de que aquelas associações eram as mais antigas do mundo, aprovando uma emenda histórica no Congresso de Estocolmo de 1912.

A FIFA aceitou abrir uma exceção única no mundo e admitir Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda como quatro membros independentes e com direito a voto, apesar de pertencerem ao mesmo Estado político – algo que explica o porquê de as quatro seleções competirem separadas no que diz respeito a competições organizadas pela FIFA, mas competirem em conjunto nas competições organizadas pelo Comité Olímpico Internacional ou por federações de outras modalidades, por exemplo.

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Todos os planos e projetos que Daniel Woolfall tinha para o futebol mundial acabaram por ser esvaziados pelo início da Primeira Guerra Mundial, em 1914. O britânico procurou sempre gerir as tensões geopolíticas que se transportaram das trincheiras para a FIFA, mas as competições não resistiram e acabaram por parar enquanto o conflito decorreu. Woolfall morreu no cargo em 1918, aos 66 anos e vítima de doença, e o organismo entrou numa fase interina sob a liderança do neerlandês Cornelis August Wilhelm Hirschman, com Jules Rimet a tornar-se o terceiro presidente em 1921.

O francês, que ainda muito jovem já tinha trabalhado ao lado de Daniel Woolfall, acabou por ser o grande arquiteto do primeiro Campeonato do Mundo de sempre, em 1930, e deu mesmo nome ao troféu que era entregue aos campeões do mundo até 1966. De acordo com Stanley Matthews, o biógrafo oficial contratado pela FIFA para estudar a vida de Woolfall, a ideia do que acabaria por ser o Mundial foi do britânico – que acabou por não ter tempo, entre a guerra e a morte, para a colocar em prática.