Era o Mundial de África. Pela primeira vez na história, o continente africano recebia as melhores seleções do mundo. Egito esteve na corrida, Marrocos foi até ao fim (com o Daily Telegraph a escrever cinco anos depois que a sua candidatura tinha recolhido até mais votos, algo que nunca chegou a ser provado), África do Sul levou a melhor. A Nação Arco-Irís tinha uma oportunidade para rejuvenescer, melhorar e acalmar ainda mais as tensões sociais muitas vezes assentes em problemas económicos, Nelson Mandela cumpria esse sonho de tentar fazer um remake à respetiva escala da organização do Campeonato do Mundo de râguebi de 1995, naquela que ficou com uma das maiores histórias de superação do desporto em prol de uma sociedade. Nem tudo correu bem? Não, longe disso. Mas quando se olha para 2010, o Mundial do Waka Waka de Shakira, da bola Jabulani que chegou a ser comparada com um balão de praia e das vuvuzelas entrou na história.
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Houve capítulos trágicos. Na madrugada que antecedeu a estreia da África do Sul, com um empate frente ao México, Nelson Madela perdeu uma bisneta de 13 anos, Zenani, depois de um acidente de viação quando ia para casa após o espectáculo de abertura do Mundial em Joanesburgo (o que fez com que Madiba, já com muitas debilidades físicas, presenciasse apenas o encontro da final no Soccer City Stadium). Houve também vários episódios de assaltos, a jogadores de seleções participantes como Espanha, Grécia ou Uruguai, a FIFA, adeptos e jornalistas. Ainda assim, aquilo que sobrou foi a festa mais pura do futebol e de diferentes culturas (que superou como derradeira imagem esses problemas de segurança), que teve o Gana à porta das meias-finais numa eliminatória dramática com o Uruguai arbitrada pelo português Olegário Benquerença.
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Houve desilusões, sobretudo europeias. Pela primeira vez na história dos Mundiais, as equipas que tinham ido à final da edição anterior, Itália e França, não passaram das fase de grupos – e com os gauleses a terem episódios quase de motins entre jogadores, equipa técnica e staff. Nem tudo foi mau: os dois finalistas eram do Velho Continente, com a Espanha a vencer na final os Países Baixos para se tornar pela primeira vez campeã mundial e quebrar uma espécie de maldição que existia no tempo de uma seleção europeia ganhar a prova jogando fora do seu continente. Mais uma vez, também nessa decisão, o polvo Paul acertou. Sim, este foi também o Mundial em que vários animais eram apontados como “videntes”, de hipópotamos a macados, sendo que foi o polvo inglês, que estava no aquário alemão de Oberhausen, que mais vezes acertou, com as constantes escolhas corretas das porções de mexilhões que estavam junto da bandeira do vencedor.
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No final, imperou o tiki taka e a coroação da melhor geração de sempre de Espanha que já tinha conquistado o Europeu de 2008 e ganharia também o Europeu de 2012. As coisas nem começaram da melhor forma na África do Sul, com uma derrota frente à Suíça, mas a dose de pragmatismo que Vicente del Bosque conseguiu dar à base do Barça com vários jogadores do Real Madrid acabou por prevalecer na fase final, com triunfos sempre pela margem mínima frente a Portugal, Paraguai, Alemanha e Países Baixos, neste caso com um golo decisivo de Iniesta a quatro minutos do final do prolongamento depois de duas grandes intervenções de Iker Casillas, guarda-redes que ganhou ainda mais protagonismo com a passagem pela zona de entrevistas rápidas após o encontro onde não aguentou a emoção e beijou a então namorada e jornalista Sara Carbonero (já depois de Gerard Piqué e Shakira se terem conhecido também nas gravações do Waka Waka esse ano).
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Uma história. O estranho regresso da Coreia do Norte, entre deserções, goleadas e castigos
O regresso da Coreia do Norte a Mundiais estava envolto no maior dos mistérios, mesmo com perceção de que seria complicado passar num grupo que tinha três candidatos só ao primeiro lugar: Brasil, Portugal e Costa do Marfim. Como previsto, com um conjunto de jogadores que atuavam na sua maioria no país (com exceções que chegaram às ligas russa e japonesa), os norte-coreanos perderam todos os jogos (com Portugal a emissão terá mesmo sido cortada…), marcando um golo e sofrendo 12. A meio da competição, um jornal sul-coreano avançou que quatro atletas tinham desertado. A notícia foi desmentida, os mesmos continuaram sem aparecer e passar pela zona onde a equipa estava estagiar era como enfrentar um hotel “ensombrado” e sem vida. No regresso ao país, os jogadores terão sido castigados, ficando seis horas de pé imóveis em frente ao Palácio da Cultura Popular de Pyongyang a ouvirem os insultos do ministro do Desporto, Pak Myong-Chol, por desresepeitarem Kim Jon-il. Já o selecionador, Kim Jong-Hun, foi sujeito a trabalhos forçados.
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Um herói. A simplicidade em nome da perfeição que colocou Iniesta no topo do mundo
Não foi por acaso que, em 2018, Pascal Ferré, chefe de redação do jornal L’Équipe, pediu desculpa a Andrés Iniesta num artigo de opinião por nunca lhe ter entregue uma Bola de Ouro. Nascido em Albacete, onde teve as primeiras experiências no futebol, o médio ofensivo teve um longo percurso em La Masia antes de chegar à formaçao principal do Barcelona e ser o intérprete mais discreto do tiki taka que marcou uma era do jogo. É uma questão de perfil, de forma de ser, de maneira de estar. No entanto, isso não belisca em nada o manual de fazer da simplicidade a qualidade mais perfeita no futebol. Em nome de Dani Jarque, antigo capitão do Espanyol que morrera um ano antes, Iniesta marcou o golo que decidiu a final frente aos Países Baixos, a quatro minutos do fim do prolongamento, e deu o primeiro (e até agora único) título mundial à Espanha. A Bola de Ouro desse ano acabou por cair para Lionel Messi. Uns anos depois, sobraram lamentos…
https://twitter.com/FIFAWorldCup/status/2072651524132778302
Uma curiosidade. O “golo fantasma” que acelerou a entrada da tecnologia no futebol
Quando se pensa em “golo fantasma”, é impossível passar ao lado da final do Campeonato do Mundo de 1966, quando a Inglaterra marcou o golo-que-não-foi que empurrou os britânicos para o triunfo na decisão frente à Alemanha. Em 2010, o filme foi ao contrário: a Mannschaft estava a dominar o encontro mas um remate de Frank Lampard que bateu na trave e passou a linha de baliza acabou por não ser percebido, com o empate a dois “anulado” antes da goleada dos germânicos por 4-1 nos oitavos de final. Foi esse o rastilho que trouxe de ver a teconologia para o futebol, com o secretário-geral da FIFA, Jerome Valcke, a admitir que já não era possível a modalidade passar ao lado dessa ajuda para evitar erros flagrantes, não só como o golo-não-golo de Lampard mas também uma mão de Thierry Henry que qualificou a França para a fase final ou um golo de Carlitos Tévez nos oitavos claramente em posição irregular frente do México.
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Como foram os resultados do Mundial de 2010
- 11 de junho (fase de grupos): África do Sul-México, 1-1 e Uruguai-França, 0-0
- 12 de junho (fase de grupos): Coreia do Sul-Grécia, 2-0, Argentina-Nigéria, 1-0 e Inglaterra-EUA, 1-1
- 13 de junho (fase de grupos): Argélia-Eslovénia, 0-1, Sérvia-Gana, 0-1 e Alemanha-Austrália, 4-0
- 14 de junho (fase de grupos): Países Baixos-Dinamarca, 2-0, Japão-Camarões, 1-0 e Itália-Paraguai, 1-1
- 15 de junho (fase de grupos): Nova Zelândia-Eslováquia, 1-1, Costa do Marfim-Portugal, 0-0 e Brasil-Coreia do Norte, 2-1
- 16 de junho (fase de grupos): África do Sul-Uruguai, 0-3, Espanha-Suíça, 0-1 e Honduras-Chile, 0-1
- 17 de junho (fase de grupos): França-México, 0-2, Argentina-Coreia do Sul, 4-1 e Grécia-Nigéria, 2-1
- 18 de junho (fase de grupos): Eslovénia-EUA, 2-2, Inglaterra-Argélia, 0-0 e Alemanha-Sérvia, 0-1
- 19 de junho (fase de grupos): Gana-Austrália, 1-1, Países Baixos-Japão, 1-0 e Camarões-Dinamarca, 1-2
- 20 de junho (fase de grupos): Eslováquia-Paraguai, 0-2, Itália-Nova Zelândia, 1-1 e Brasil-Costa do Marfim, 3-1
- 21 de junho (fase de grupos): Portugal-Coreia do Norte, 7-0, Chile-Suíça, 1-0 e Espanha-Honduras, 2-0
- 22 de junho (fase de grupos): México-Uruguai, 0-1, França-África do Sul, 1-2, Nigéria-Coreia do Sul, 2-2 e Grécia-Argentina, 0-2
- 23 de junho (fase de grupos): Eslovénia-Inglaterra, 0-1, EUA-Argélia, 1-0, Gana-Alemanha, 0-1 e Austrália-Sérvia, 2-1
- 24 de junho (fase de grupos): Dinamarca-Japão, 1-3, Camarões-Países Baixos, 1-2, Eslováquia-Itália, 3-2 e Paraguai-Nova Zelândia, 0-0
- 25 de junho (fase de grupos): Portugal-Brasil, 0-0, Coreia do Norte-Costa do Marfim, 0-3, Espanha-Chile, 2-1 e Suíça-Honduras, 0-0
- 26 de junho (oitavos de final): Uruguai-Coreia do Sul, 2-1 e EUA-Gana, 1-2 a.p.
- 27 de junho (oitavos de final): Alemanha-Inglaterra, 4-1 e Argentina-México, 3-1
- 28 de junho (oitavos de final): Países Baixos-Eslováquia, 2-1 e Brasil-Chile, 3-0
- 29 de junho (oitavos de final): Paraguai-Japão, 0-0 e 5-3 g.p. e Espanha-Portugal, 1-0
- 2 de julho (quartos de final): Países Baixos-Brasil, 2-1 e Uruguai-Gana, 1-1 e 4-2 g.p.
- 3 de julho (quartos de final): Argentina-Alemanha, 0-4 e Paraguai-Espanha, 0-1
- 6 de julho (meias-finais): Uruguai-Países Baixos, 2-3
- 7 de julho (meias-finais): Alemanha-Espanha, 0-1
- 10 de julho (3.º/ 4.º lugares): Uruguai-Alemanha, 2-3
- 11 de julho (final): Países Baixos-Espanha, 0-1 a.p.