Portugal resolveu finalmente todos os seus problemas. É quase comovente ver como a habitação, o SNS, a produtividade, a segurança e a demografia deixaram de ser assuntos e passaram a ser notas de rodapé da vida pública. A soberania económica também parece estar tratada, o que é um alívio. Era cansativo viver num país onde ainda se discutia tudo isto como se fosse importante.
Convém reconhecer a maturidade da nossa política. Quando um país consegue resolver simultaneamente o custo da habitação, a lentidão da saúde, a fragilidade da economia, a pressão sobre os serviços públicos e o desequilíbrio demográfico, é natural que os seus dirigentes possam finalmente concentrar-se no essencial: a próxima manchete, a próxima indignação e a próxima encenação de urgência.
O problema é que esta tranquilidade é uma ficção confortável. E, como quase todas as ficções políticas, só se sustenta enquanto ninguém olhar de perto para os números.
Nunca houve tantos analistas políticos, tantos debates, tantas conferências, tantas comissões e tantas opiniões. E nunca houve tão pouca reflexão estratégica. O país aprendeu a reagir, mas desaprendeu a reflectir com profundidade. Vivemos num ciclo permanente de respostas. Resposta a crises, a sondagens, a polémicas, a comentários. A política tornou-se uma máquina de comentário sobre si própria. Há sempre alguém pronto a explicar a declaração do dia. E o que escasseia é quem explique a década.
Isto seria apenas preocupante noutro tempo, um tempo muito passado. Num tempo como este, é simplesmente perigoso.
O mundo está a atravessar uma das maiores reorganizações estratégicas desde o fim da Guerra Fria. Em simultâneo temos a competição entre grandes potências, guerra na Europa, fragmentação das cadeias de abastecimento, regresso da política industrial, corrida tecnológica, transição energética, aumento da despesa em defesa e uma enorme pressão demográfica em todo o Ocidente. As premissas que durante décadas sustentaram o funcionamento das economias europeias já não estão intactas – energia barata, globalização crescente, paz no continente, segurança garantida pelos Estados Unidos. Isso altera completamente as prioridades estratégicas de qualquer Estado. No entanto, Portugal continua, em larga medida, a agir como se não tivesse mudado nada. Só como referência, o índice de produtividade do trabalho português continua a cair, e é já o sexto mais baixo da UE-27 (ranking PPC), segundo o Eurostat. Portugal não estagnou, regrediu.
Não foi o mundo que nos deixou para trás. Fomos nós que ficámos quietos enquanto ele acelerava.
O problema real não são as manchetes. O problema é a incapacidade estrutural de pensar para lá do ciclo eleitoral, e este é cada vez mais curto. Portugal abandonou os pactos de regime, as estratégias nacionais de longo prazo e os consensos estruturais que permitem a um país avançar sem começar sempre do zero. Tudo é calibrado para sobreviver às próximas eleições. Já quase nada é pensado para preparar o país para a próxima década.
E o custo desta paralisia deixou de ser linear. Num mundo que muda rapidamente, o atraso produz enormes perdas acumuladas: menos investimento, menor produtividade, menor capacidade tecnológica, menor influência europeia, menor soberania económica, logo, menos desenvolvimento. O tempo é um activo. Quem decide tarde perde de tal forma que já não consegue recuperar facilmente.
Em Portugal discutem-se permanentemente as consequências. Raramente se discutem as causas. Discute-se o preço da habitação, mas não a estrutura da oferta. Discute-se a pressão no SNS, mas não a incapacidade do Estado para planear. Discute-se a lentidão da economia, mas não a forma como se afasta investimento, talento e escala. E não se reconhece que estes problemas não são tópicos separados: são sintomas do mesmo sistema. A imigração afecta o mercado de trabalho, a habitação, o SNS, a escola e as finanças públicas, em simultâneo. A energia afecta a indústria, o investimento, a inflação e a autonomia estratégica. A defesa afecta a inovação, as universidades e o emprego qualificado. E todos estes temas não são temas paralelos. São manifestações do mesmo défice, a incapacidade de manter um conjunto coerente de prioridades estratégicas durante tempo suficiente até produzirem efeito. Um país que discute cada um destes temas no seu próprio compartimento nunca consegue uma resposta à altura da complexidade do problema.
É por isso que tantos debates terminam no mesmo ponto: muito diagnóstico, pouca ou nenhuma decisão. Muitos anúncios de reformas, mas nenhuma reforma real. Muita linguagem de mudança, mas pouca ou nenhuma coragem para mexer no que mantém o país preso.
A produtividade é o exemplo mais claro desta falência. Não é uma estatística simpática para colocar em relatórios. A produtividade é o que separa salários baixos de salários dignos, Estado Social frágil de Estado Social sustentável, crescimento episódico de prosperidade duradoura. É, em última análise, a capacidade nacional. É o que determina os salários, o financiamento do SNS, a sustentabilidade das pensões, a receita fiscal e a capacidade militar. Os números existem há anos, em fontes oficiais e relatórios europeus, mas entram raramente no centro do debate político. E quando entram, entram como acessório, não como urgência.
O mesmo se aplica à segurança nacional, entendida no seu sentido contemporâneo. Segurança já não é apenas defesa no sentido militar. É protecção civil, infraestruturas críticas, energia, dependências estratégicas, cibersegurança, cabos submarinos, reservas estratégicas, cadeias de fornecimento. Resiliência nacional não é luxo nem retórica de circunstância. É uma condição elementar de soberania. E Portugal continua a agir como se bastasse esperar que a normalidade regressasse por hábito. A normalidade, no mundo actual, já não regressa por decreto nem por memória.
E é aqui que o silêncio se torna mais eloquente do que o discurso. Porque os que nasceram para discutir crescimento, reformas, competitividade e futuro parecem hoje, demasiadas vezes, tão absorvidos pela gestão do ciclo político como todos os outros. Fala-se de mudança com o mesmo vocabulário com que se gere o imediato. Promete-se transformação com a mesma disciplina com que se evita conflito. Há uma parte da política portuguesa que ainda fala como se estivesse a abrir caminho para o futuro, mas já se comporta como quem apenas quer atravessar mais uma semana sem sobressaltos.
Este é o verdadeiro problema. Não é a falta de retórica. É a progressiva desistência de ambição.
Importa aqui ser rigoroso. A política responde aos incentivos que a sociedade cria. Os media, as redes sociais, o ciclo eleitoral e o comentariado permanente favorecem o imediato. Pouquíssimos recompensam quem pensa a vinte anos. Isto não é uma desculpa. É o diagnóstico exacto do que tem de mudar, e que raramente entra no centro da discussão.
Os países que alteraram estruturalmente a sua trajectória fizeram-o quando conseguiram manter prioridades estratégicas durante vários ciclos políticos. O denominador comum não foi consenso absoluto. Foi continuidade. Continuidade exige que quem promete reformas tenha de facto a disposição de governar com esse critério e não apenas de comunicar com essa linguagem. Veja-se o exemplo da Polónia, da Estónia, da Islândia ou da Irlanda.
O problema não é Portugal ter problemas. Todos os países os têm. O problema é a política portuguesa ter deixado de discutir os temas que vão determinar o país nos próximos vinte ou trinta anos. Não faltam soluções. Falta é vontade de as discutir a sério, com continuidade, com coragem e com prioridade. Falta dizer, sem rodeios, que um país não se reforma com comunicação. Reforma-se com escolhas e acções. E escolher implica sempre desagradar a alguém.
A cumplicidade mais gravosa não é a dos que bloqueiam as reformas. É a dos que as exigem em voz alta e aceitam a sua ausência em silêncio. Por tal, a questão que fica por responder não é apenas o que os partidos deveriam fazer. É o que uma sociedade que tolera este nível de imobilismo está disposta a exigir. E o que não está. Essa resposta também é política.
Os países não se perdem quando deixam de ter respostas. Perdem-se quando deixam de fazer as perguntas certas.