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(A) :: O século XXI é o mais pindérico de sempre?

O século XXI é o mais pindérico de sempre?

Porque a literatura anda tão chata? E onde foram parar os grandes filmes? Já não há estreias de jeito no teatro? E exposições a não perder? Há dois suspeitos, que não são os do costume.

Paulo Nogueira
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Sim, a concorrência é renhida, mas o século XX é um candidato respeitável ao mais infame da história, com o totalitarismo, o Gulag e o Holocausto. E olhem que o século passado foi minorquinha: começou em 1914 (com a I Guerra Mundial e o fim da Belle Époque) e acabou em 1989 (com a queda do Muro e o fim da Guerra Fria).

George Orwell e Aldous Huxley assinaram aguçadas denúncias daquelas distopias, mas discordaram no diagnóstico. Orwell descreve uma sociedade controlada pela coerção e pela censura (aquilo que detestamos). Huxley apresenta uma sociedade domesticada pelo prazer e o entretenimento (aquilo que amamos). No desfecho de “1984”, Orwell capitula: “A escolha do género humano era agora entre a liberdade e a felicidade, e, para a grande maioria, a felicidade era preferível.”

Em “Blank Space: A Cultural History of the Twenty-First Century’’,  W. David Marx alega que no século XXI não corremos o risco de ser felizes: ele será chato e comprido. Pois a cultura descambou num piloto automático, que vira o disco e toca o mesmo (e aquela musiquinha de elevador).

Há dez anos, Alex Ross, crítico da “New Yorker”, já carpiu que “a Internet não cumpriu sua promessa de diversidade cultural”. Em 2023, Jason Farago, no “New York Times”, assinou embaixo: “Percorremos quase um quarto do caminho do que será o século culturalmente menos inovador desde a invenção da imprensa”. The Atlantic choramingou na primeira página: “Esta é a pior era cultural de sempre?”. A New York Magazine lançou a sua “Edição Estúpida”, especulando: “2025 é o ano mais parvo já registado?”, e indicando  “12 sinais de uma cultura em declínio”.

W. David Marx contrasta tal insipidez com o frenesi criativo dos primeiros 25 anos do século XX e sua ementa de guloseimas estéticas: Cubismo, Futurismo, Expressionismo, Dadaísmo, Surrealismo. E não foram apenas pirotecnias cosméticas, mas reconfigurações no modo como a consciência humana percebia o seu cantinho no cosmos.

Claro que obras continuam a ser servidas. Hoje 300 milhões de terráqueos intitulam-se “criadores de conteúdo” – a maioria a produzir pastiches que já pressagiavam as fancarias velhinhas em folha da IA. Como as incontinentes reciclagens seriais (“Star Wars”, episódio bilionésimo), ou os enésimos avatares do Batman e do Homem-Aranha, sintomas da nossa adolescência senil.

Os anos 2000 nem sequer mereceram uma etiqueta conceitual: são, bem, “os anos 2000”. Para o filósofo italiano Franco Berardi, houve um “lento cancelamento do futuro”. O musicólogo Leonard B. Meyer comparou a estagnação cultural com as moléculas no movimento browniano: atividade febril, mas aleatória e errática – muita parra para nenhuma uva. Andamos em círculos como sonâmbulos, no torpor de experimentarmos “tudo em todo o lado ao mesmo tempo” (aliás, o título daquele filme besta que recebeu o Oscar). Miríades de memes nas redes sociais gozam com o millennial que “assiste ao 173º evento histórico único na sua vida”. O veredito de W. David Marx é patibular: “Ao passarmos a pente fino o primeiro quarto do século, sentimos o que está a faltar — há um espaço em branco onde dantes havia arte e criatividade”.

O conceito de vanguarda já tinha pifado – na arte contemporânea o foco mudou da ruptura para a desconstrução e o diálogo com o mercado e a tecnologia. É bem verdade que as humanidades (arte, filosofia, literatura) e a ciência não prosperam da mesma forma. Um clássico é aquela obra que jamais deixa de vender o seu peixe, pois a cada geração transmite uma nova mensagem. O “Banquete” (380 a.C.) de Platão continua moderníssimo, mas hoje não passaria pela cabeça de um astrofísico partir da “Cosmologia” (150 d.C.) de Ptolomeu (“Basta olhar para o céu e qualquer imbecil pode ver que é o Sol que gira em redor da Terra”). A ciência é retilínea e cumulativa; a arte, não.

Tristinho, confesso só aqui entre nós: há muito que não salivo pelo lançamento do novo romance de algum ficcionista (a não ser os meus próprios, por mera lealdade), ou pela estreia de um filme ou uma peça de teatro. E tão-pouco pelas críticas que sedimentavam ou demoliam reputações. Pausa para um bocejo ribombante.

O que explica essa ferrugem criativa do século XXI? David não diz, mas há duas digitais no local do crime. São elas o império dos algoritmos e o “great awokening” (o advento do identitarismo, que obrigou a agenda ativista a fazer o pino, substituindo as classes sociais pelas seitas tribais, amuadas e queixinhas).

Hoje os algoritmos escoltam-nos do despertar ao ó-ó. E ainda é tudo recente: nem deu tempo de uma pessoa nascer e morrer de velhice na era das redes sociais. Sim, artistas conseguem “monetizar” (neologismo horripilante) a sua obra. Mas são intimados a gerar “conteúdo” diariamente, e a satisfazer as demandas ideológicas de seus seguidores, o que implica repetição e inércia – as redes sociais encorajam a bajulação, e ameaçam com o opróbrio. Quem hoje suspiraria como Leonardo Da Vinci no seu leito de morte: “Ofendi a Deus e à humanidade porque meu trabalho não atingiu a qualidade que deveria ter”?

As redes sociais inibem a introspecção e fomentam a dispersão no caleidoscópio de memes e videozinhos, tudo com a profundidade de um dedal. Tsunamis de “stories” não narram qualquer história: empanturram mas não saciam, enchem com colesterol eletrónico o chouriço do nosso quotidiano. E a nossa capacidade de concentração já não sustenta o foco por mais de 30 segundos. O desígnio é não só o mais do mesmo, mas mais do meme, quando “viralizar” é a alma do negócio.

Já o wokismo (com os seus “lugares de fala” e  “apropriação cultural”) degradou o padrão de excelência como nem o realismo socialista conseguiu. Em Janeiro de 1987, o reverendo Jesse Jackson, de braços dados com 500 alunos, liderou uma manifestação em Stanford: «Hey, Hey, Ho, Ho, Western Civ Has Got to Go!» («A Civilização Ocidental tem de acabar!»). Desde 2010, nenhuma das 4000 universidades dos EUA exige que os estudantes façam um curso de civilização ocidental, cuja premissa era o ensaio de Mathew Arnold, “Cultura e Anarquia”: “o melhor do que foi pensado e dito” (ampliado para incluir o melhor do que foi composto, pintado, esculpido e filmado). O curso há muito foi cancelado, pois a civilização ocidental é apenas uma entre tantas outras – e é uma arrogância etnocêntrica estudarmos, bem, a nossa.

A academia perfilhou um igualitarismo estrábico no qual a excelência descambou em “elitismo”. E reinou o dogma de que «o éxito do Ocidente foi responsável pelo fracasso do resto». Assim, a ópera italiana não pode ser considerada superior à ópera chinesa. O teatro de Shakespeare não é melhor que o Kabuki. Nada deve ser ensinado, a não ser contra nós próprios.

Claro que à medida que os períodos mudam e que nós mudamos individualmente, o cânone também muda, quer sobre como encaramos as obras, quer sobre as obras nele incluídas. Uma das características do cânone era ser provisório, na relevância dos títulos e no prazer que eles proporcionam. O cânone nunca foi monopólio de conformistas parolos ou de reacionários cavernícolas.

Hoje, porém, a literatura só pode ser equacionada em termos de poder – quem o detém, e quem não. Claro que houve bons romances que abordam a política (olá, Dostoievski!), mas através da interação dramática dos personagens aqui e agora, e não da homilia ideológica. Muito menos com uma narrativa estereotipada, em que o criminoso é sempre o mordomo, e o mordomo sempre o mesmo: um homem branco, heteronormativo, cristão, patriarcal e racista. E  péssimo marido, pai, amigo e cidadão. Mas cá se faz, cá se paga, e o estafermo (que irá revelar-se um judeu nazi!) terá o que merece, para deixar de ser parvo, graças à sororidade arco-íris.

Resultado? Histórias previsíveis, de cartas marcadas, que não inspiram nem curiosidade nem expectativa. Tanto os heróis como os vilões são caricaturas unidimensionais, num panfleto que é um tempo de antena para ódios respeitáveis. Até o século XXI, o pilar do romance era a experiência individual — que é sempre única e, portanto, inédita. Ao mesmo tempo, o romance celebrou o universal específico que é a condição humana: somos todos minorias de um. Não mais: o wokismo sacrificou seja o individual seja o universal no altar dos grupos identitários, sempre genéricos.

A supremacia cultural norte-americana persiste nos filmes woke de Hollywood e nas mercadorias das Big Techs. O Reino Unido já não pontifica na música pop, nem os cineastas europeus na Sétima Arte (Expressionismo Alemão, Neorrealismo italiano, Nouvelle Vague francesa? Never more, como crocitam os corvos). Proliferaram o pop latino e caribenho, o K-Pop coreano, o hygge dinamarquês  e o streetwear japonês.

E o poder descobriu o soft power. Em 2011, a música pop em inglês representava 77% das 10 mil canções mais reproduzidas em streaming no mundo. Em 2025, a porcentagem caiu para 55%. 17 dos 20 álbuns mais vendidos foram de artistas coreanos, e Taylor Swift a única ocidental entre os dez primeiros. Bad Bunny, rapper porto-riquenho, foi o mais ouvido mundialmente no Spotify de 2020 a 2022, de novo em 2025 e no intervalo do Super Bowl de 2026 (o maior evento desportivo da TV americana).

Por décadas a fio, o poder geopolítico americano espelhou a influência cultural. Nos anos 1980 jovens soviéticos ouviam gravações piratas dos Metallica, e na década de 1990  os estudantes chineses que protestaram na praça Tiananmen assistiam ao “Titanic”. Hoje a geração Z ocidental, seduzida pelo TikTok, adere ao “Chinamaxxing”, adotando produtos e maneirismos chineses (como o costume de beber um copo de água quente pela manhã). Entretanto, na China o TikTok nunca existiu, apenas o Douyin, censurado pelo governo e, para os menores de 14 anos, restrito a 40 minutos por dia, nunca entre as 22 e às 6 horas.  Eles lá sabem.

Um dia,  o acadêmico afroamericano Glenn Loury exclamou: “Shakespeare é meu! Tolstoi é meu!” Hoje, não interessam nem ao menino Jesus. Apoderou-se da literatura a ansiedade sobre “ser uma boa pessoa, rodeada por boas pessoas”. “Boa pessoa” não quer dizer alguém racional ou misericordioso; ou que considera os outros como fins em si mesmos e não como meios; ou que celebra a idiossincrasia alheia. Uma pessoa é “boa” se mimetizar tiques ideológicos, lixando-se para o caráter individual no mundo real, pois retidão é santimónia online.

Uma “boa pessoa” rala-se imenso com o aquecimento global.  E com a diversidade inclusiva (que exclui a esmagadora maioria da humanidade: homens e mulheres cis). Uma boa pessoa reconhece seus privilégios, expia-os publicamente e promete “fazer a sua parte”. Uma boa pessoa não tem opiniões imprevisíveis, nem amigos de quem discorde sobre nada importante, nem ideias que não possam ser formatadas em slogans virtuais.

A literatura performaticamente virtuosa é um sucedâneo das redes sociais. Ela existe para beatificar os seus autores, e para que os leitores apreciem a probidade deles e a própria. Tais obras hasteiam agendas políticas simplificando paisagens morais complexas, cujos matizes são abolidos. Não suscitam questionamentos sobre nós próprios, nem nos convidam a perguntar o que pode estar por detrás dos nossos impulsos tão altruístas. Confirmam que estamos do lado certo da história, o que chega e sobra.

Ironicamente, a maioria das obras canónicas hoje rejeitadas como «elitistas» eram radicais. Exemplares de “Madame Bovary”, de Flaubert, e “Ulisses”, de James Joyce, foram queimados na praça pública por ordem judicial. Ao contrário do que pretende a Inquisição identitária, a arte ergue um espelho diante da natureza, não diante do artista: alguém precisa de ser francês para gostar de Proust? Russo para perceber Dostoiévski? Grego para amar Homero? Japonês para degustar Murasaki Shikibu? Como disse o romano Terêncio em 165 a.C: “Nada do que é humano me é estranho”. Hoje, a interseccionalidade faz de nós marcianos uns para os outros.

Meu mantra como professor de literatura é: o protagonista perfeito (ou seja, apaixonante) tem defeitos. São os defeitos que nos humanizam, pois errar é humano. Todos temos luzes e sombras – contradições, pontos cegos, vulnerabilidades. Como leitores podemos simpatizar com um assassino, como em “Crime e Castigo”. Ou com uma lambisgoia adúltera. Quando escreveu “Anna Karenina”, Tolstoi tinha degenerado num puritano, e pretendia estigmatizar o que considerava a frivolidade feminina através da sua protagonista sirigaita. Porém, na criação o artista subjugou o moralista, e o resultado foi a mulher mais prismática da literatura. Às vezes, os romances são mais inteligentes do que os seus autores.

A literatura ensinava­‑nos que o mundo não está pronto, que provavelmente nunca estará, e que o espírito humano pode ser melhor do que o mundo (e também pior). Como notou Soljenitsin : “A linha que separa o bem do mal não passa por estados, nem entre classes sociais, nem entre partidos políticos, mas através de cada coração humano — e de todos os corações humanos.”

As estatísticas indicam que os adolescentes vegetam online, entrincheirados num robótico e paranoico niilismo. Mas quem os pode culpar? Quando a cultura é capturada por quem a odeia – seja por filisteus ou pelos que julgam que ela está infestada homens brancos mortos –, porque  um puto prestaria atenção nela? Moldamos uma geração que despreza a sua própria civilização, pelo escasso ou nulo conhecimento que dela tem.

Em 12 de Outubro de 1936, três meses do início da guerra civil espanhola, o escritor Miguel de Unamuno presidiu a abertura do ano letivo da Universidade de Salamanca, da qual era o reitor. A meio da cerimónia, o general falangista Millán Astray levantou-se e vociferou: «Viva la muerte!» No silêncio sepulcral que se seguiu, Unamuno respondeu: «Acabo de ouvir o necrófilo grito de “Viva a morte!”. Para mim, é o mesmo que “Morte à Vida”.» Mais tarde, Unamuno acrescentou: «O eterno, não o moderno, é o que eu amo: o moderno será antiquado e grotesco daqui a dez ou vinte anos, quando a moda passar.»

Bem, depois de ver como param as modas, esperemos que essas modas parem. Se a IA fizer o favor de deixar, claro.