Há uma semana e meia que o Ministério da Educação está sob pressão e sem solução à vista para o caos para que foi arrastado o processo dos exames nacionais. Ainda esta quarta-feira, à saída do Parlamento, o ministro garantia que a sua equipa está “a trabalhar” para “resolver tudo”. À mesma hora, continuavam a multiplicar-se os relatos de professores que ainda nem sequer tinham recebido as provas dos alunos e continuavam sem poder concluir as avaliações do ensino secundário. Pelo meio, há duas plataformas a gerar problemas na engrenagem dos exames — uma delas, criada na mesma morada em que funcionava um cabeleireiro — e uma contestação crescente ao ministro e à equipa liderada por Fernando Alexandre.
Desde 2017 que uma empresa na área das tecnologias, criada na mesma morada de um cabeleireiro, trabalha com o Ministério da Educação. Chama-se Blat — Creative Powerhouse (nome divulgado pelo próprio ministro da Educação) e foi contratada para desenvolver a plataforma onde os professores acedem aos itens dos exames nacionais que lhes cabe corrigir. Esta quarta-feira, a Blat tomou pela primeira vez uma posição pública sobre a polémica com os exames para negar ter responsabilidades nas falhas que a correção digital tem registado. E atirou culpas para o EduQA — o órgão do Ministério da Educação responsável por digitalizar todas as provas que é, também, o responsável pela outra plataforma envolvida neste processo e onde se registaram grande parte das falhas já divulgadas.
Este ano, pela primeira vez, todos os exames são corrigidos digitalmente. O processo foi apresentado pelo Ministério da Educação recentemente: depois de os alunos realizarem as provas, as folhas de exame são depositadas pelas autoridades num armazém do próprio Ministério. Depois, as provas são separadas em folhas e digitalizadas, dando origem a um ficheiro PDF. Esta fase do processo é feito numa plataforma do EduQA (Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação). Na fase seguinte, os ficheiros são enviados para uma outra plataforma (criada pela Blat Studio) onde os professores poderão iniciar as correções.
Perante as suspeitas de que os problemas no processo poderiam estar a ter origem nesta segunda plataforma, criada por uma entidade externa à tutela, a empresa veio distanciar-se dessa leitura. “A BLAT não é responsável pela digitalização das provas, controlo de qualidade, submissão de ficheiros, gestão de utilizadores, definição de que provas são classificadas, quando o são ou por quem, nem por quaisquer outros procedimentos operacionais do processo de classificação”, alegou a empresa em comunicado enviado às redações. A seguir, os responsáveis da Blat detalhavam que “a plataforma limita-se a disponibilizar aos [professores] classificadores os ficheiros tal como os recebe” por parte da plataforma do EduQA.
https://observador.pt/especiais/sob-pressao-ministerio-da-educacao-vai-monitorizar-classificadores-e-da-aos-alunos-acesso-gratuito-aos-exames-duas-plataformas-falharam/#title-4
A empresa (cujo nome comercial é Blat Studio) não só alega ter pouco envolvimento em todo este processo como explica que “desenvolveu a plataforma de classificação para o IAVE/EduQA, sendo responsável pelo seu desenho e desenvolvimento, de acordo com as especificações definidas pelo IAVE/EduQA”. Na lista de funções da plataforma criada a pedido do EduQA está a receção de exames “em vários formatos possíveis, como ficheiros (PDF), credenciais provenientes de sistemas externos, distribuição das provas e guardar as classificações atribuídas” por cada professor classificador.
Segundo a Blat Studios, a empresa só intervém na plataforma “mediante solicitação” do EduQA, entidade a quem imputa as responsabilidades das falhas que se têm vindo a registar. Desde que as provas começaram a ser distribuídas, vários professores relataram ter recebido folhas de exame ilegíveis ou em branco, respostas cortadas e itens de disciplinas que não lecionam.
Perante as dúvidas sobre em que ponto do processo de digitalização e disponibilização das provas teriam surgido os problemas técnicos, esta semana foi o próprio ministro Fernando Alexandre a afirmar, por diversas vezes, que grande parte destas dificuldades registam-se na plataforma criada pelo instituto do Ministério da Educação. “Muitos dos processos tiveram problemas antes de chegar” à plataforma criada pela Blat, garantiu Fernando Alexandre em entrevista à CNN. É o caso de “erros de programação no processamento da distribuição das respostas” e também a “distribuição incorreta de respostas”, foi detalhado no âmbito de uma visita ao armazém onde são guardados os exames físicos.
No EduQA não se fala em demissões
O EduQA é o responsável por todo este processo tecnológico pelo que, face aos problemas que se estavam a registar, Fernando Alexandre terá questionado a direção deste organismo público sobre se seriam necessários mais meios para dar uma resposta atempada e garantir que a avaliação da primeira fase dos exames ficaria concluída dentro da data prevista (10 de julho) e que os alunos seriam informados das respetivas notas quatro dias depois, a 14 de julho. Num primeiro momento, e ainda de acordo com o ministro, a EduQA dispensou esse reforço — o processo decorria dentro dos prazos, terá sido garantido à tutela. No entanto, numa fase mais avançada, a entidade presidida por Luís Pereira dos Santos acedeu a um reforço dos meios, levando a que a consultora Deloitte entrasse em ação para acompanhar todo o processo de correção digital.
Só que, nesse momento, já seria impossível cumprir o calendário estabelecido — agora, Fernando Alexandre volta a insistir que lhe estão a ser dadas todas as garantias de que as novas datas serão mesmo respeitadas e que até 17 de julho as notas dos exames serão disponibilizadas aos alunos do secundário.
Ao longo desta quarta-feira, o Observador tentou por diversas vezes contactar o presidente do EduQa para obter mais esclarecimenros sobre a posição pública assumida pela Blat Studio. Com Luís Pereira dos Santos também sob crescente pressão pelos vários protagonistas no setor da Educação, importava também perceber quais as causas para os problemas com que o processo de correção dos exames se tem confrontado — e se o presidente do EduQa pondera, como tem sido exigido, colocar o lugar à disposição. Porém, Luís Pereira dos Santos não respondeu às inúmeras tentativas de contacto. Apesar do silêncio, segundo apurou o Observador, entre os membros do EduQA não se fala em demissão — quer do ministro Fernando Alexandre quer do responsável Luís Pereira dos Santos.
Há quem reconheça que existe alguma “apreensão” face à atual pressão que se tem feito sentir sobre o líder da pasta da Educação, mas não há sinais de que o responsável do EduQA pondere afastar-se das atuais funções.
https://observador.pt/especiais/respostas-cortadas-professores-sem-exames-e-outros-a-corrigir-disciplinas-diferentes-centenas-de-falhas-relatadas-na-correcao-dos-exames/
Uma empresa que nasceu de um cabeleireiro
A primeira vez que a Blat — Creative Powerhouse se cruza com o EduQA (que à época ainda se denominava IAVE) remonta a 2017. Com uma ligeira diferença face à realidade atual: o contrato de 30.375 euros foi assinado entre o IAVE e a Blatstudio — MAF Serviços, Lda (a denominação que tinha à época). O objetivo era construir o “módulo de classificação de provas práticas” e fazer um “upgrade à classificação de respostas e administração do SCOI (Sistema de Classificação Online do Iave)”.
A Blatstudio — MAF Serviços, Lda (que mudaria, mais tarde, de designção oficial para Blat — Creative Powerhouse) teve um início inusitado: a empresa nasceu como sendo parte de uma outra empresa, que tinha como área de atividade os “Salões de cabeleireiro, instituto de beleza e estética. Serviços de design gráfico, edição de video. Branding. Desenvolvimento de produto”.
Vamos por partes. A primeira empresa (uma sociedade por quotas) a ser criada chamava-se Miguel & Fernandes, Cabeleireiro Lda, e tinha sede na rua Dr. Pereira Bernardes nº 9B, em Lisboa. Dedicava-se unicamente à área da beleza e estética, tendo sido criada por Miguel Garcia Fernandes. Em 2014, o nome da sociedade evolui para MAF — Serviços, Lda e é aí que a área de atividade é atualizada, passando a incluir serviços ligados ao marketing, mas mantendo a mesma morada.
Três anos depois, numa pesquisa feita com base no número de identificação fiscal, verifica-se que esta empresa celebra um contrato com o IAVE. Neste contrato, surge a entidade Blatstudio — MAF — Serviços, Lda (que, por sua vez, tem a mesma morada que a empresa MAF — Serviços Lda, a Rua Dr. Pereira Bernandes, n.º9B).
Se este cruzamento não bastasse, uma pesquisa rápida no Google Maps tirava as últimas dúvidas: a morada remete para uma imagem de 2024 de um salão de cabeleireiro com o nome “Miguel Garcia” na porta. Por sua vez, Miguel Garcia Fernandes é pai de André Fernandes, o que confirma o elo de ligação entre pai e filho e o nascimento da empresa que assinou um contrato com o IAVE.
Em 2020, André Fernandes dá o passo de criar uma empresa própria com o seu amigo de longa data Eduardo Assunção Passos, chamada Antebellum. Dois anos mais tarde, mantêm-se os dois fundadores, mas a empresa muda de nome e passa a ter duas sócias: Inês Fernandes (casada com André Fernandes) e Inês Catarino (antiga assessora do autarca social-democrata Carlos Moedas). É neste ano que a empresa passa a assumir o nome que agora a colocou no “olho do furacão”: Blat — Creative Powerhouse.
Os clientes (mistério) da Blat
Desde que o nome da empresa contratada pelo Ministério da Educação foi tornado público, a Blat optou por fazer uma mudança radical ao seu site.
Se inicialmente apresentava uma grande lista de clientes e também os trabalhadores da empresa, agora nada disso se encontra disponível.
Contudo, o Observador acedeu ao site antes de apagarem este conteúdo e sabe que na lista de clientes, além do IAVE surgem partidos (tanto PS como PSD), o Parlamento Europeu e marcas como Wiñk, Navigator ou Standvirtual.
O último contrato assinado entre a Blat e o IAVE remonta a 2023, um ajuste direto no valor de 19.080 euros e que tinha como objeto a “aquisição de serviços para a atualização do Sistema de Classificação Online do IAVE (SCOI), no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência”. É Luís Pereira dos Santos (atual presidente do EduQA) quem assina este contrato.
No caderno de encargos consta como requisito técnico a missão de “atualizar ou acrescentar”, entre outros, a “ligação ao autenticação.gov”, a “ligação da autenticação à plataforma de classificação e supervisão do IAVE” e ainda a “revisão e atualização da disponibilização de documentos gerais, específicos e individuais da resposta”.
Quando o ministro da Educação recebeu os jornalistas no armazém onde são depositados os exames físicos, Fernando Alexandre e o secretário de Estado Alexandre Homem Cristo explicaram que foram obrigados a renegociar a meta do PRR, porque o projeto anterior previa a instituição de exames realizados em formato digital, um passo que nenhum dos dois governantes defende que deva ser dado neste momento. “No verão de 2024, quando se desenhou o modelo de avaliação externa, foi imediatamente dito: os exames nacionais não vão ser realizados em digital”, explicaram no início da semana.
“Tivemos que demonstrar que íamos cumprir a meta fazendo a classificação eletrónica e não uma realização em digital. Portanto, isso foi uma negociação que teve que ser feita com a Comissão Europeia.” O Observador questionou o Ministério da Educação para perceber se o contrato renegociado foi o assinado com a Blat, mas também não obteve resposta.

Um ano depois, repete-se o mecanismo — e os erros
Não é a primeira vez que se registam problemas com a correção digital dos exames nacionais. Antes de se avançar para este modelo este ano, em 2025 foi realizado um projeto-piloto apenas com o exame de Filosofia. Estavam em causa cerca de 23 mil provas, menos de um décimo do universo de exames a avaliar este ano, já com o programa alargado a todas as outras disciplinas.
Os erros registados à época, no entanto, foram os mesmos que acabariam por verificar-se este ano e que continuam à espera de uma solução. Aliás, as plataformas usadas à época são as mesmas usadas agora. Ao Observador, professores classificadores do exame de Filosofia do ano passado contavam que alguns exames tinham “desaparecido” do sistema, que havia folhas de prova totalmente brancas (ou pretas), respostas cortadas a meio e até trocadas. E houve mesmo quem admitisse que as provas podiam estar mal corrigidas.
Este ano, prevendo que o novo modelo de correção possa originar um elevado número de reapreciações, o ministro da Educação anunciou que todos os alunos terão acesso à sua prova gratuitamente através de um link que lhes será disponibilizado. Os estudantes poderão, assim, ver “o seu exame digitalizado e as classificações que tiveram”. “No fundo, vai reduzir-se substancialmente — na nossa expetativa — os pedidos de reapreciação, porque o aluno vai ter que ter capacidade de dizer: neste critério, falhei aqui, falhei ali…”, antecipava o responsável pela Educação.
No ano do teste piloto com a prova de Filosofia, o Observador questionou o Ministério sobre os erros detetados na correção do exame de Filosofia, mas o gabinete do ministro manteve-se em silêncio até à publicação do artigo.
Depois, acabaria por considerar que o processo tinha sido “muito positivo” e adiantava que no ano seguinte — ou seja, já em 2026 — seriam “introduzidas as melhorias qualitativas consideradas necessárias”. E fez ainda questão de apontar que a “classificação digital comporta benefícios para os professores classificadores e para a qualidade dos resultados da avaliação externa, pois não há perda de tempo na classificação dos itens de seleção, não há lugar a trancar as provas, não há necessidade de se deslocarem aos agrupamentos do Júri Nacional de Exames para levantar e entregar os sacos de provas, e podem especializar-se em um ou dois itens da prova, contribuindo assim para uma maior consistência na aplicação dos critérios de classificação”.
Este ano, confrontado com os erros de 2025 e o caos que o setor tem enfrentado ao longo da última semana e meia, Fernando Alexandre limita-se a dizer que os erros foram todos registados e procuraram corrigi-los.
https://observador.pt/especiais/exames-de-filosofia-podem-estar-mal-corrigidos-professores-receberam-respostas-trocadas-e-cortadas-a-meio-iave-nao-deu-apoio/
Ainda sem provas e itens desaparecidos: queixas continuam e partidos aumentam pressão
Ao início da tarde desta quarta-feira, o tema mereceu uma reação do Presidente da República. Seguro manifestou o “desejo” de “rapidamente tudo volte à normalidade e, sobretudo, que a relação de confiança entre os alunos e as suas famílias e o sistema de avaliação se mantenha intacta” depois de o caos nos exames ser resolvido. E garantiu que o tema estará em cima da mesa no encontro semanal com o primeiro-ministro: “Há um problema, precisa de ser resolvido, e, naturalmente, que os alunos e as famílias não podem sair prejudicados”, sublinhou Seguro.
Pouco depois da reação da empresa Blat, o grupo parlamentar do Bloco de Esquerda também voltou a pronunciar-se sobre o tema e apresentou várias questões ao Governo, através do Ministério da Educação, Ciência e Inovação.
O Bloco quer saber como se concilia a informação do ministro da Educação e como a plataforma “é gerida” pela Blat, sendo que a mesma alegou não ter responsabilidades no processo; e ainda se, uma vez que a Blat operou seguindo indicações e especificidades do Eduqa, as “falhas são imputáveis” ao Governo. O deputado único questiona ainda quem é responsável formal pelo tratamento de dados pessoais neste processo e quem programou a plataforma desenvolvida pelo EduQA, onde foi detetado um erro de programção.
Antes disto, na passada sexta-feira o Bloco de Esquerda já tinha anunciado que vai propor uma Comissão Parlamentar de Inquérito àquilo que diz ser o “caos” na correção dos exames, medida que o PS não descarta (ainda que admita que, antes, há outros “passos” a dar). Também à esquerda, o PCP anunciou que vai chamar o governante ao Parlamento, num debate com caráter potestativo (e, por isso, obrigatório). Já o Chega propôs um debate de urgência.
E se há pressão do lado político, também o há por parte dos sindicatos. Na manhã desta quarta-feira, a Fenprof avançou com uma pedido de demissão de Fernando Alexandre. Se há cinco dias a Federação Nacional de Professores não defendia que o ministro fosse afastado, esta quarta-feira mudou de posição e acusou-o de “amadorismo” na gestão de todo este processo. A este sindicato têm-se juntado muitas outras vozes críticas, como por exemplo a Missão Escola Pública, o primeiro movimento a denunciar atrasos na distribuição dos exames — o primeiro sinal de que o processo não estava a correr bem.
Já a CONFAP (Confederação Nacional das Associações de Pais) optou por pedir serenidade aos encarregados de educação. Descartando impactos nos alunos, a dirigente Mariana Carvalho diz não ter recebido até ao momento qualquer contacto por parte de pais ou alunos preocupados.
Ao final da noite desta quarta-feira, na plataforma Metaprof alguns professores continuavam a garantir não ter ainda provas para corrigir, enquanto outros se queixavam de ter recebido mais exames para avaliar. Outros docentes partilhavam que as provas que já tinham classificado tinham “desaparecido”. O site, criado também por professores, tem como objetivo ser um espaço de denúncia e exposição de casos. É aqui que têm estado a ser relatadas todas as falhas deste processo e já há mais de 470 testemunhos publicados.