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(A) :: Vivemos como se estivéssemos sozinhos

Vivemos como se estivéssemos sozinhos

Quando começamos a normalizar pequenas faltas de consideração pelos outros, estamos também a normalizar a sociedade em que aceitamos viver.

Pedro Rocha e Cunha
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Todos os anos acontece o mesmo.

Aproxima-se o verão e os ginásios começam a encher. E, com eles, regressam as piadas sobre os “atletas de verão”.

Confesso que nunca gostei muito dessa expressão.

Porque quem decide começar já deu um passo importante. Um é sempre maior do que zero.

O que mais me faz pensar, nesta altura, nem é o número de pessoas.

É a facilidade com que, por momentos, nos esquecemos de que aquele espaço também é dos outros.

Quem frequenta um ginásio sabe exatamente do que estou a falar. Terminamos uma série e continuamos sentados na máquina. Pegamos no telemóvel, respondemos a uma mensagem, vemos um vídeo ou simplesmente deixamos o tempo passar, enquanto há alguém à espera para utilizar aquele equipamento.

Mas, pensando bem, o problema nunca foi o telemóvel.

O problema começa quando deixamos de pensar no impacto que os nossos comportamentos têm em quem está à nossa volta.

No desporto aprendemos que a evolução resulta da repetição. Ninguém melhora porque treinou uma vez. Melhora porque repete os mesmos gestos, dia após dia.

Viver em comunidade funciona exatamente da mesma forma.

Não são os grandes gestos que definem uma sociedade. São os pequenos comportamentos que repetimos todos os dias.

O mais curioso é que isto está longe de acontecer apenas no ginásio.

Acontece quando estacionamos em segunda fila porque “é só um minuto”. Quando deixamos o carrinho de compras no meio do parque de estacionamento. Quando ouvimos música ou vídeos em alta voz nos transportes públicos. Quando ocupamos um espaço comum como se fôssemos os únicos a utilizá-lo.

São gestos pequenos. Tão pequenos que, muitas vezes, nem pensamos neles.

Mas é nestes pequenos gestos que, muitas vezes sem darmos conta, mostramos quem somos enquanto comunidade.

O que mais me preocupa não é que estes comportamentos existam.

É que deixaram de nos surpreender.

Foram-se tornando normais.

E quando começamos a normalizar pequenas faltas de consideração pelos outros, estamos também a normalizar a sociedade em que aceitamos viver.

Falamos muitas vezes de respeito, cidadania e civismo.

Mas essas palavras não se constroem em campanhas nem em grandes discursos.

Constroem-se na forma como utilizamos um espaço comum, respeitamos o tempo dos outros e percebemos que as nossas escolhas têm sempre impacto em alguém.

É fácil reparar quando os outros erram.

Mais difícil é perguntar se nós fazemos diferente.

Não controlamos o comportamento dos outros.

Controlamos apenas o nosso.

E, muitas vezes, é aí que qualquer mudança começa.

No desporto, a repetição cria hábitos. Na sociedade acontece exatamente o mesmo. Porque, no final, a sociedade não é aquilo que dizemos defender. É aquilo que escolhemos repetir todos os dias.