Joe (Seth Rogen) é um músico frustrado porque a banda indie de rock/punk que teve na juventude nunca vingou, e dá aulas num pequeno conservatório de São Francisco, onde vive com a mulher, Angela (Olivia Wilde) e uma filha de 12 anos. Angela é uma neurótica que parece estar sempre à beira de um ataque de histeria, passa o dia em casa a decorá-la com almofadas e carpetes, e obriga o marido a andar de bicicleta, sob o pretexto de que lhe faz bem às costas. Isto quando a bicicleta é pequena de mais e difícil de transportar, e dá-lhe ainda mais dores lombares do que as que Joe já tem. Dizer que o casamento deles está em crise é um eufemismo: está preso por fios muito finos.
Joe e Angela são um dos dois casais protagonistas de O Convite, que Olivia Wilde também realiza, a versão americana de Sentimental, do espanhol Cesc Gay (2020), por sua vez baseado numa peça da autoria deste, Los Vecinos de Arriba, já adaptada ao cinema noutros países. Quando uma tarde Joe chega a casa cheio de dores nas costas por causa da bicicleta, Angela diz-lhe que convidou para jantar os vizinhos do andar de cima, o segundo casal do filme, Hawk (Edward Norton), um bombeiro reformado e reconvertido em massagista, e Piña (Penélope Cruz), uma psicoterapeuta e sexóloga, que não são casados. Joe não está com paciência os aturar, porque são insuportavelmente barulhentos quando fazem amor, mas cede à mulher e diz, para horror desta, que vai aproveitar para os confrontar com esta situação.
[Veja o “trailer” de “O Convite”:]
https://www.youtube.com/watch?v=OJ19I9q_hOQ
Todo passado no apartamento de Joe e Angela, O Convite não oculta a sua origem teatral (embora aqui e ali, nalguns planos, Olivia Wilde, faça uns discretos “bonitos” visuais), e pertence àquela categoria de filmes vindos do palco, como O Deus da Carnificina, de Roman Polanski, em que personagens muito diferentes são postas a partilhar o mesmo espaço e acabam por revelar as suas naturezas e personalidades reais, e a verdade oculta sobre as suas relações conjugais ou sentimentais. É parte comédia de embaraço social e de sátira de costumes (com os comportamentos sexuais promíscuos em grande destaque) e às terapias fofinhas da moda, parte psicodrama de desesperança matrimonial e de relações complicadas.
É o casamento de Joe e Angela que está aqui em questão, muito embora a ligação entre Hawk e Piña também seja chamada à colação a espaços e denuncie os seus pontos vulneráveis. Olivia Wilde usa o apartamento como panela de pressão das emoções e termoacumulador da tensão, e os (aparentemente) mais harmoniosos, mais desinibidos e mais cool vizinhos de cima, servem como revelador quer das desilusões e insatisfações de Joe e Angela, quer da sua estrídula desarmonia enquanto casal. O Convite é uma longa sessão de terapia psico-sexual de casais, sob a forma de uma comédia de sentimentos, de relacionamentos e de ridículos sociais.
[Veja uma entrevista com os atores:]
https://www.youtube.com/watch?v=y33RIV4VrZc
O filme é farto em diálogos metralhados, réplicas estralejantes, tiradas espirituosas, farpas sarcásticas, reviravoltas nas atmosferas e nos humores das personagens, e pratica um cómico de situação que vai do constrangimento ao slapstick, sentindo-se ali, no entanto, uma violência latente e sempre a querer mostrar a cabeça. Seth Rogen, Olivia Wilde, Penélope Cruz e Edward Norton são muito bons, um quarteto que se desentende sem dar uma fífia, mas há que destacar o primeiro na pele do falhado, cheio de autopiedade e sardónico Joe. Rogen é um ator com muitas qualidades, que estão aqui bem à vista, e não devia perder-se a entrar em tantas comédias indiferentes ou grosseiras.
[Veja uma sequência do filme:]
https://www.youtube.com/watch?v=2A3eSfPeTII
E chegamos ao busílis de O Convite: os seus derradeiros 15 minutos, em que o filme contradiz tudo o que fez e mostrou antes. Em vez de um final gozão, corrosivo, ou demolidor, temos uma resolução banalmente explicativa e de pretensões “terapêuticas”, razoavelmente convencional. É como sermos convidados para um jantar variado e suculento, e depois à sobremesa servirem-nos mousse de chocolate de pacote e café aguado.