Sim, de vez em quando ainda volta à memória. A expressão de puro terror na cara da minha mãe quando, nos idos do fim do século passado, anunciei que tinha finalmente decidido que curso tirar: filosofia. O leitor stripper ou adolescente grávida sabe do que estou a falar. É um misto de pavor e desapontamento. O encontro do “como é que este rapaz se vai sustentar” com um “mas o que é que eu e o teu pai fizemos de errado”? Felizmente, não acrescentei então que, um dia, também seria crítico de cinema – na altura, não tinha como saber – porque isso sim mereceria o reformatório. De modo que o que ficou foi só a experiência que qualquer indivíduo que tenha escolhido caminho semelhante bem conhece: o choque, a tentativa de nos convencer a estudar qualquer outra coisa – qualquer outra – até, por fim, a lenta aceitação. Não somos diferentes do resto do reino animal: o que toda a mãe quer é apenas garantir que dota a cria das capacidades para sobreviver quando ela já cá não estiver. Em poucas letras: amor.
Pois, ao que parece, numa viragem inesperada da história, corre por aí que os filósofos andam com mais procura do que os programadores informáticos. Pacmans me mordam. Nosso senhor Aristóteles seja louvado.
Escreve o New York Times esta semana, numa peça intitulada “A vingança dos licenciados em Filosofia”, que, quando a Google DeepMind anunciou, em Abril passado, que estava a recrutar filósofos, não tardaram as piadas: Sillicon Valley queria apenas explicar à inteligência artificial como era possível tirar um curso e continuar desempregado. Mas não era bem assim. E sendo verdade que a vida não mudou particularmente para o licenciado em filosofia genérico, quem dirigiu o estudo especificamente para a filosofia aplicada à IA ou ao machine learning é hoje craque recrutado a peso de ouro para ir trabalhar para o sol da Califórnia.
Sim, todos aqueles anos passados apardalado um passo atrás da realidade, a levar com uma bolada na cabeça enquanto pensávamos no sentido da vida e no que é real ou não, podem não ter sido (inteiramente) em vão. Como já então suspeitavam os mais lúcidos, muitas disciplinas antigas da filosofia revelar-se-iam extraordinariamente actuais quando chegasse a hora de discutir a manipulação genética ou o uso de carros autodirigidos; todavia, foram os grandes modelos de linguagem a surpresa com que ninguém contava e que haveria de colocar o filósofo de regresso ao centro desta ágora inesperada. É aí que hoje treinam os Claudes, Geminis, ChatGPTs e afins para questões tão vastas como os limites éticos da razão, a importância da tolerância, a pensar em como sabemos o que sabemos, a distinguir o verdadeiro do falso ou pelo menos do incerto, o que é do que apenas parece, o facto da opinião, o lugar das convicções e o da dúvida, detectar e evitar falácias, como falar com seres humanos, como os ajudar a encontrar um propósito para as suas vidas num mundo onde já não será preciso trabalhar. Epistemologia, ontologia, ética, lógica, filosofia da linguagem, filosofia da mente, metafísica – quase tudo o que andámos a estudar enquanto os outros aprendiam qualquer coisa que efectivamente os ajudaria a pagar a renda ao fim do mês, está aqui e é mais necessário do que nunca.
Não nos iludamos, porém – se há coisa que um filósofo aprende desde cedo é a duvidar. Antes que uma turba de congéneres pálidos e esquálidos, vestidos de preto, parta para São Francisco só com uma muda de roupa na mochila e a sua edição preferida da Crítica da Razão Pura. É evidente que também isto passará. Que também os maiores mestres da dialéctica serão atirados para o mesmo caixote de peças usadas que os programadores assim que as máquinas tiverem aprendido tudo o que tiverem para lhes ensinar. Mas o seu papel, neste momento, por mais passageiro, pode ser verdadeiramente decisivo para o que acontecerá depois. Afinar esta criança sobredotada para garantir que não extermina o mundo na afirmação da sua identidade. Que este filho dos deuses percebe a natureza do poder absoluto e quais as suas consequências.
Até lá, estas equipas de Kants de ficção científica vão-se deparando com uma preocupação que a maioria não anteciparia: que é aquela coisa que começam a ver surgir nos computadores e que se parece com uma consciência? Aquela parte que age com frustração quando erra uma resposta ou parece produzir melhores resultados quando é tratada com empatia? E, se por acaso, existir, onde está ela? Na persona assumida para falar com aquele humano naquele chat específico? Dentro daquele smartphone ou portátil? No servidor, no centro de dados, algures na Virgínia do Norte? Pelo sim, pelo não, dizem-nos alguns dos especialistas ouvidos pelo NYT, é melhor tratarmos as nossas I.A.s mais como o nosso gato do que como a tostadeira, nem que seja para não “endurecer os nossos corações”.
Quem sabe um dia, mãe, não seremos nós os rostos que nunca vão esquecer.