A verdadeira dimensão de um país não se mede pelos campeões que produz. Mede-se pela forma como trata esses campeões quando deixam de ser perfeitos.
Há países que constroem monumentos aos seus maiores. E há países que passam a vida à procura de uma corda para os derrubar. Infelizmente, Portugal parece, demasiadas vezes, gostar mais da segunda profissão do que da primeira.
Este artigo podia ser sobre futebol, mas não é.
Podia ser sobre Cristiano Ronaldo, mas também não é.
É sobre Portugal. É sobre a forma como olhamos para aqueles que atingem um nível de excelência que a esmagadora maioria de nós nunca conhecerá. Olhemos para o mundo.
A Argentina transformou Diego Maradona numa parte da sua identidade nacional. Hoje faz o mesmo com Lionel Messi. Em Inglaterra, Bobby Charlton continua a ser tratado como património. No Brasil, Pelé nunca deixou de ser “O Rei”. Não porque continuassem a correr mais depressa aos quarenta anos. Não porque marcassem sempre. Mas porque um país inteligente percebe que há figuras cujo valor ultrapassa largamente aquilo que acontece dentro das quatro linhas.
Representam uma cultura, uma mentalidade, uma herança.
Portugal, infelizmente, parece funcionar ao contrário.
Quanto maior alguém se torna, maior passa a ser a necessidade de encontrar a sua imperfeição.
Como se encontrar uma falha num gigante fosse suficiente para esconder a pequenez de quem a procura. Há quem passe uma vida inteira sem construir nada de extraordinário, mas encontre um estranho prazer em descobrir uma imperfeição em quem construiu tudo.
É curioso observar que muitos dos que passam a vida a exigir gratidão ao país são precisamente aqueles que menos conseguem agradecer a quem tanto lhe deu.
Cristiano Ronaldo passou mais de duas décadas a fazer aquilo que nenhum português alguma vez conseguiu fazer. Levou uma pequena nação ao centro do futebol mundial. Mudou a forma como Portugal era visto. Criou uma cultura de vitória onde durante décadas existiu apenas uma cultura de esperança. Foi capitão. Foi líder. Foi exemplo. Foi campeão europeu. Venceu duas Liga das Nações.
Bateu praticamente todos os recordes imagináveis e, ainda assim, parece nunca ser suficiente.
Basta falhar um remate. Basta um jogo menos conseguido. Basta a idade começar a deixar marcas.
E imediatamente surgem os mesmos comentários. “Já não corre.”, “Já não tem velocidade.”, “Está a tirar o lugar aos mais novos.”
Curiosamente, quando olhamos para os dados físicos divulgados pela FIFA, encontramos uma realidade bastante diferente da caricatura frequentemente repetida. Cristiano Ronaldo continuou a apresentar níveis de intensidade competitiva impressionantes para a sua idade, tendo registado mais ações de alta velocidade e mais sprints do que alguns dos maiores avançados da atualidade, incluindo Lionel Messi e Erling Haaland. Não é o jogador que mais quilómetros percorre, porque o futebol nunca se resumiu a isso, mas está muito longe da imagem de um atleta acomodado que tantos insistem em vender, aliás vejam a forma como Haaland se movimenta em campo e o quão letal é. A verdade é que o futebol moderno mede muito mais do que quilómetros percorridos e, sobretudo, nunca se resumiu apenas a isso.
Mas, mesmo admitindo que hoje corre menos do que corria há dez anos… E depois?
Será mesmo essa a pergunta que distingue uma organização vencedora de uma organização mediana?
Imaginem que são presidentes de uma empresa. Durante vinte anos tiveram o melhor diretor comercial da vossa história. Conhece os clientes como ninguém, conhece os concorrentes,
o mercado, as crises, as vitórias, os erros. Conhece aquilo que nenhum MBA consegue ensinar.
Um dia aparece um jovem extraordinário. Mais rápido. Mais tecnológico. Mais irreverente.
Mais explosivo.
A pergunta que distingue um gestor medíocre de um verdadeiro líder é apenas uma.
Vai escolher um deles? Ou vai garantir que um transmite ao outro tudo aquilo que levou vinte anos a aprender?
Porque vender nunca foi apenas correr. Liderar nunca foi apenas correr. Ganhar nunca foi apenas correr. É aqui que se distingue um chefe de um líder. Um chefe substitui. Um líder multiplica.
Nas grandes empresas, quando existe alguém com este nível de conhecimento, não se abre a porta de saída. Criam-se programas de mentoring. Criam-se academias internas. Criam-se processos de transmissão de conhecimento.
Porque qualquer líder sabe que conhecimento não transmitido é conhecimento perdido. E conhecimento perdido é valor destruído. É precisamente aqui que, enquanto cidadão, adepto e gestor, sinto que o futebol português perdeu uma oportunidade histórica.
Não discuto quem devia ser titular. Não discuto sistemas táticos. Nem sequer discuto minutos de jogo. Discuto liderança. Na minha perspetiva, Cristiano Ronaldo deixou, há muito, de ser apenas um jogador, era um ativo estratégico, uma escola viva de alta competição, uma biblioteca sobre disciplina. Uma universidade sobre pressão. Um laboratório humano sobre profissionalismo.
A verdadeira pergunta nunca deveria ter sido: “Ainda deve jogar?”
A verdadeira pergunta deveria ter sido: “Como podemos garantir que vinte anos de conhecimento ficam para sempre na cultura da Seleção?” É essa a função de quem lidera.
E é aqui que, na minha opinião, a estrutura do futebol português — da Federação à equipa técnica — tinha uma responsabilidade que ia muito além da escolha do onze inicial.
Porque os grandes líderes não vivem obcecados com o próximo jogo. Vivem obcecados com a próxima geração. Os líderes medianos fazem substituições. Os grandes líderes fazem sucessões.
Há uma diferença enorme. Uma substituição resolve o presente. Uma sucessão constrói o futuro.
Talvez, porém, o problema seja ainda mais profundo, talvez nem comece na Federação.
Talvez comece em nós. Existe em Portugal uma estranha dificuldade em lidar com quem se destaca demasiado. Gostamos do sucesso, desde que não seja excessivo.
Gostamos dos vencedores, desde que não nos obriguem a confrontar aquilo que nunca tivemos coragem de fazer. Talvez exista uma razão para isso. Cristiano Ronaldo nunca foi apenas um grande jogador, foi um permanente lembrete de que a excelência é possível e isso é profundamente incómodo.
Porque cada treino que faz… cada época que prolonga… cada recorde que bate… cada regresso depois de uma derrota… destrói mais uma desculpa daqueles que passaram anos a justificar porque não chegaram mais longe. É muito mais confortável acreditar que ele nasceu diferente.
Porque, se aceitarmos que grande parte da diferença foi construída através de vinte anos de disciplina, sacrifício e consistência… então somos obrigados a olhar para as escolhas que fizemos.
E isso dói. A inveja raramente aparece com esse nome. Normalmente veste um fato muito mais elegante. Chama-se análise, comentário opinião. E, por vezes, limita-se a ser a tentativa de reduzir quem alcançou uma dimensão que a maioria jamais alcançará.
Mas isto não acontece apenas no futebol. Acontece com empresários, com investigadores, médicos
Professores, artistas, inovadores. Primeiro desconfiamos, depois criticamos.
Mais tarde, quando já partiram ou deixaram de poder contribuir, transformamo-los em heróis nacionais.
É um desperdício, de talento, de conhecimento e de liderança.
No fundo, este nunca foi um artigo sobre Cristiano Ronaldo. Foi sempre um artigo sobre Portugal.
Sobre a facilidade com que confundimos espírito crítico com destruição.
Sobre a incapacidade de transformar excelência individual em património coletivo.
Sobre a tendência para discutir os nossos gigantes quando devíamos estar a aprender com eles.
Se daqui a vinte anos nascer outro Cristiano Ronaldo, espero sinceramente que Portugal tenha aprendido alguma coisa, não sobre futebol mas sobre liderança.
Porque produzir um génio é um privilégio, aproveitar um génio é uma escolha.
Cristiano Ronaldo não precisa que lhe salvem o legado. Esse já pertence à história.
Quem talvez precise de ser salvo é Portugal, dA sua estranha tendência para gastar mais energia a discutir os seus gigantes do que a aprender com eles.
Porque um país que não sabe honrar os seus melhores dificilmente inspirará os próximos.
God Save the King CR7.