Poucos comediantes contemporâneos dividem tanto opiniões como Louis C.K. Durante cerca de duas décadas, a polarização deu-se em termos e territórios clássicos: os oponentes punham em causa o excesso de palavrões, a sexualidade excessiva ou a necessidade de ir tantas vezes ao grotesco e ao escatológico; os defensores assinalavam que tudo isso eram formas de demonstrar a complexidade do ser humano, diziam que, passada a camada superficial de masturbações e bestialismo, havia ali uma verdadeira ternura.
Essa visão de CK como a de alguém capaz de ir aos lugares mais obscuros da humanidade, mas, ao mesmo tempo, de encontrar algo de luminoso na experiência humana ficou seriamente comprometida em 2017, quando foi acusado de masturbar-se à frente de mulheres – algumas haviam dado o seu consentimento, mas estavam numa posição de menor poder que CK; outras viam CK fechar a porta do quarto de hotel, impedindo-as de sair.
Os casos surgiram na sequência do movimento MeToo, que começou com as revelações feitas na New Yorker e no New York Times ao produtor de cinema Harvey Weinstein – alvo de acusações de abuso sexual, violação e uma série de outros crimes (pelos quais veio a ser condenado em tribunal), baseadas nos relatos de atrizes, umas mais conhecidas, outras menos. Ainda assim, nunca antes a violência sexual de um homem poderoso fora exposta de forma tão clara e nunca antes tantas mulheres confessaram serem vítimas dos seus atos.
O que se sucedeu pode ter mudado para sempre a relação entre homens e mulheres: milhares e milhares de mulheres foram para as redes sociais contar as suas próprias histórias de sobrevivência a abuso e violação. No meio disto, uma série de figuras da cultura popular foram acusadas de abuso (como o líder dos Arcade Fire) ou violação (caso de Kevin Spacey) ou de coação – e este era o caso de CK.
A coação em questão não configurava a prática de um crime – mas não deixava de ser um aproveitamento da sua posição de poder. CK admtiu que de facto passava a vida a pedir a mulheres para assistirem às suas masturbações; dezenas de textos foram escritos a desancar nele; desapareceu um pouco do mapa e veio viver para a Europa, onde começou a fazer pequenas atuações; depois voltou a fazer digressões nos EUA, em salas mais modestas do que aquelas a que estava habituado; fez quatro especiais de comédia que distribuiu através dos seus próprios canais, e o tempo foi passando – ao ponto de Ridiculous, o seu novo especial de comédia, recém-estreado na Netflix, ser o primeiro com lançamento mundial em 9 anos.
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Antes das acusações, CK era amplamente considerado um dos mais brilhantes observadores da condição humana, capaz de transformar pequenas banalidades do quotidiano em longos exercícios de humor desconfortável mas lúcido. Mas como olhar para ele agora? Quando se deu o seu escândalo masturbatório, houve dezenas e dezenas de textos que proclamaram que tínhamos de rever a obra de CK à luz das acusações; houve, inclusive, quem afirmasse que a sua obra mais não era do que uma longa confissão acerca dos seus desvios sexuais — uma tese que será, provavelmente, exagerada.
É possível analisar o trabalho de CK sem estarmos sempre conscientes do episódio que sujou o seu nome em 2017? Eu já o vi ao vivo entretanto e ri-me bastas vezes durante o show – mas em Ridiculous senti algo que nunca havia sentido: que ele está a tentar manter o seu lado provocador, a tentar manter as suas idas ao lado sombrio da rua, sem conseguir atingir algo que seja revelador do ser humano, que o ilumine. Está, digamos, a imitar formalmente o seu antigo “eu”, sem conseguir alcançar o mesmo páthos existencial.
Nunca, em Ridiculous, se fala do que aconteceu em 2017 – ao contrário do que sucedeu nas suas primeiras digressões pela Europa, em que as piadas iniciais dos espectáculos eram sobre esses mesmos factos mediáticos. O efeito dessas piadas era criar em nós uma certa empatia por aquele homem falhado. Hoje, ao ver Ridiculous, a ausência de qualquer piada que nos relembre que ele tem consciência do seu erro contribui para nos sentirmos afastados de CK. Há algo de injusto nisto: ele não tem de passar a vida a justificar o que fez; mas nós também não temos de achar graça à enésima piada sobre bestialismo ou mortes de bebés ou pais que violam filhos.
Os temas anteriores estão cá todos: pedofilia, incesto, sexo, violência, morte, racismo casual, etc. Mas se antes ele conseguia sempre levar-nos do deliberadamente desconfortável à redenção por via de um humanismo que ia aumentando ao longo de um espectáculo, hoje fica apenas o desconforto e, em alguns momentos, alguma vergonha alheia, quando o sentimos reduzido a replicar um modus operandi, mas sem ter, desta feita, a mestria para sair do labirinto que ele próprio criou.
Temos duas hipóteses na mesma: a) não conseguimos separar completamente o narrador da pessoa; b) é-nos indiferente quem é o narrador, simplesmente as piadas não funcionam. Se aceitarmos a primeira, temos de admitir que uma piada sobre perversões ou fantasias deixa de ser apenas uma construção humorística para ganhar inevitavelmente outra leitura – não significa que essas piadas deixem automaticamente de funcionar, mas que exigem um grau de suspensão da descrença que muitos espectadores já não estão dispostos a conceder. Mas talvez seja tão simples quanto a segunda opção: as piadas, que de alguma forma já conhecemos de outros especiais dele, já não funcionam; não têm o poder de nos chocar, só de nos dar pena por serem feitas às três pancadas.

Claro que há sempre momentos em que se nota que Louis C.K. continua a possuir um talento raro para a observação do quotidiano. Quando abandona o choque fácil e se concentra em pequenas irritações da vida moderna, reaparece o humorista que durante anos foi considerado um dos melhores da sua geração. Há excelentes momentos dedicados ao envelhecimento, às dores físicas que surgem sem aviso, à dificuldade de acordar, às visitas a lares para idosos, ao comportamento estranho das pessoas nos mercados biológicos ou ao absurdo das conversas espontâneas entre donos de cães. Até uma simples embalagem de peito de frango sem pele nem osso serve de ponto de partida para uma associação inesperada e genuinamente divertida.
É também nesses momentos que se percebe como continua a ser um ótimo intérprete. O seu domínio da linguagem corporal permanece impressionante. Pequenos gestos, pausas calculadas e expressões faciais transformam situações banais em sequências visualmente cómicas. Continua a possuir um sentido de ritmo muito acima da média e uma capacidade invejável para prolongar uma premissa aparentemente insignificante até encontrar um desfecho inesperado.
Mas a triste notícia é que ele parece depender excessivamente do valor de choque – e eu, pelo menos, já não tenho paciência para o mesmo tipo de piadas, com um desenlace menos bem conseguido. Em alguns momentos, a vergonha alheia assemelha-se à que sentimos quando vemos um amigo ter tamanha falta de noção em público que já só queremos levá-lo para casa e protegê-lo de si mesmo. Há momentos em que CK se limita a enunciar algo ofensivo como se quisesse provar que não tem medo de ser o mesmo CK de antigamente; e às vezes fica quase a impressão de ele já não acreditar no seu próprio registo chocante e estar a fazê-lo quase por obrigação.
Talvez CK continue a ser o mesmo de sempre – o problema é que ninguém pode ser o mesmo de sempre durante demasiado tempo; isso implica querer estar a ser o passado quando o passado já passou há muito. Em algum momento temos de ser o de agora – o que implica pagar as dívidas do passado e aceitar a condenação. Só assim podemos ser nós mesmos de novo e não uma desesperada tentativa de imitação do que já lá vai.