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(A) :: "O cessar-fogo acabou?". Trump diz que sim e ameaça com novos ataques. Mas o novo normal pode ser "sem guerra nem paz"

"O cessar-fogo acabou?". Trump diz que sim e ameaça com novos ataques. Mas o novo normal pode ser "sem guerra nem paz"

Implosão do processo de paz, anunciada por Trump, era expectável para analistas, que criticam "Memorando de Entendimento defeituoso". Sem diálogo a sério, situação atual pode prolongar-se, apontam.

Madalena Moreira
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Quando as delegações norte-americana e iraniana assinaram, no dia 17 de junho, um Memorando de Entendimento (MoU, na sigla em inglês), iniciou-se uma contagem decrescente: Estados Unidos e Irão tinham 60 dias para negociar um acordo de paz mais aprofundado. Este prazo ainda não ia sequer a meio quando, esta quarta-feira, Donald Trump declarou o fim do entendimento.

“O cessar-fogo acabou? O MoU está morto?”, questionou um repórter. “É uma questão muito interessante. Para mim, acho que acabou”, respondeu o Presidente dos EUA. As palavras foram deixadas a apenas 1.600 quilómetros da capital iraniana, num encontro de Trump com Mark Rutte à margem da cimeira da NATO. A posição foi vincada por Trump depois de dois dias de ataques mútuos na região — que não foram os primeiros ataques entre os dois países desde que o cessar-fogo entrou em vigor, mas foram os mais intensos.

O sobressalto no processo de diplomacia que está a decorrer surge numa semana improvável. Além da deslocação de Donald Trump à região para o encontro dos aliados, Teerão estava focado noutro palco esta semana: o funeral do aiatola Ali Khamenei. As comemorações decorrem mais de quatro meses depois de o então Líder Supremo ter sido morto pelos ataques israelo-americanos no primeiro dia da guerra, a 28 de fevereiro.

Contudo, ainda que o timing possa ter sido surpreendente, o facto de os combates terem recomeçado era, para muitos especialistas, uma realidade expectável. “Isto acontece porque tivemos uma campanha militar defeituosa, que produziu um Memorando de Entendimento defeituoso, que produziu um processo de governação defeituoso, o que encorajou o Irão”, sintetiza Aaron David Miller, antigo negociador de administrações norte-americanas no Médio Oriente e analista no think tank Carnegie Endowment for International Peace, ao Observador.

Como a tensão entre Irão e EUA rebentou em nova troca de ataques

Um “castigo”. Foi assim que um responsável norte-americano definiu os ataques da noite da passada terça-feira contra o Irão. Ao todo, foram visados mais de 80 alvos, com uma “série de ataques poderosos contra o Irão para impor perdas pesadas”. Numa publicação na rede social X, o Comando Central das Forças Armadas norte-americanas foi rápido a justificar o ataque, que, apesar de não ter visado nenhum ponto-chave do regime iraniano, foi o maior ataque dos EUA nos últimos meses.

“Os ataques dos EUA são uma resposta aos ataques iranianos a três navios comerciais que estavam a passar no Estreito de Ormuz. A agressão do Irão foi injustificada, perigosa e uma clara violação do cessar-fogo”, pode ler-se na publicação. No mesmo dia, os Estados Unidos também voltaram a aplicar sanções sobre a venda de petróleo iraniano, que tinham sido levantadas com a assinatura do MoU.

Em resposta, o Irão lançou novos ataques, não no Estreito de Ormuz, mas contra 85 posições dos EUA no Médio Oriente, incluindo bases aéreas no Bahrain e no Kuwait, o que motivou novas condenações dos países do Golfo. Menos de 24 horas depois da primeira vaga de ataques, Donald Trump prometia que estes continuariam na madrugada desta quarta para quinta-feira. “Provavelmente vamos voltar a atacá-los com força esta noite. Vou dar-lhes um pequeno aviso. Vamos atingi-los com força esta noite, mas veremos como tudo corre”, declarou o chefe de Estado, em Ancara, desta vez ao lado de Volodymyr Zelensky.

As leituras sobre os ataques iranianos no Estreito de Ormuz que espoletaram o momento atual dividem-se. À Al Jazeera, analistas regionais desvalorizam os ataques como resultado das operações de desminagem no estreito e notam a passagem de outros navios. Mas, ao mesmo canal, um antigo oficial da Marinha norte-americana fala numa “provocação” estudada. “A minha aposta é que o Irão está a tentar aprofundar a divisão entre os Estados Unidos e a NATO ao escalar os ataques, pois acredita que os Estados Unidos estão limitados no que podem fazer, porque seriam vistos a atacar as procissões funerárias que estão a decorrer no país”, argumentou Harlan Ullman.

Vago, não vinculativo e assinado pelos EUA à pressa. As fragilidades do Memorando

Ao abrigo do MoU, o Estreito de Ormuz foi “reaberto”, depois de semanas de um bloqueio imposto pelo Irão e de um bloqueio norte-americano aos portos iranianos. Contudo, foi precisamente nesse corredor marítimo que se verificou o gatilho para uma nova explosão de ataques. Trita Parsi, fundador e vice-presidente do Quincy Institute for Responsible Statecraft, vê na definição de “aberto” a explicação para os ataques iranianos.

"É inevitável que a retórica e a estratégia das partes resultem numa pressão mútua para cumprir o quadro acordado. Ambos os lados — não só Trump, mas o Irão — estão dispostos a escalar a situação. No entanto, o Memorando de Entendimento está sujeito a novas formulações, pelo que isto também não significa o fim das negociações."
Banafsheh Keynoush, docente associada da Universidade de Notre Dame

“No centro da disputa estão duas interpretações contraditórias do MoU”, escreveu num artigo no seu Substack. “A leitura de Teerão é que, enquanto o Estreito de Ormuz estiver aberto, todo o tráfego comercial durante 60 dias deve ser coordenado com o Irão, enquanto as partes negoceiam um acordo marítimo permanente. Washington, por contraste, interpreta um Estreito ‘aberto’ como significando que os navios podem circular tanto nas vias iranianas como de Omã, sem coordenação com o Irão”, elabora.

A linguagem vaga utilizada no MoU leva os especialistas a olhar para o seu fracasso como um fim inevitável do processo negocial e antigos diplomatas a criticar a forma como os EUA negociaram o seu lado do acordo: de forma apressada e com pouca atenção aos detalhes. Aaron David Miller nota que, aliás, não é a primeira vez que tal acontece. “A comparação mais próxima que se pode fazer é com a fase 1 do cessar-fogo de outubro de 2025 em Gaza. Aí, o Presidente [Trump também] precisava de um acordo com uma solução imediata“, equipara.

Se no caso da Palestina os objetivos urgentes passavam por retirar os reféns israelitas da Faixa de Gaza e melhorar a situação humanitária, no caso do Irão a Casa Branca procurava “um alívio económico” e uma “via negocial no problema mais alargado da questão nuclear”. “Bem, isso não está a acontecer”, aponta o especialista. “E, já agora, o Irão tem advogados, negociadores e diplomatas muito melhores”, remata, enumerando outra justificação para o MoU ser “defeituoso”.

Além das palavras vagas que acabaram por ficar plasmadas no documento, Banafsheh Keynoush, docente associada da Universidade de Notre Dame, nota ainda o caráter “não vinculativo” do memorando. “Portanto, é inevitável que a retórica e a estratégia das partes resultem numa pressão mútua para cumprir o quadro acordado. Ambos os lados — não só Trump, mas o Irão — estão dispostos a escalar a situação”, declara ao Observador. “No entanto, o Memorando de Entendimento está sujeito a novas formulações, pelo que isto também não significa o fim das negociações”, ressalva ao Observador.

Manutenção das negociações ou o fim definitivo da diplomacia? A retórica de Trump

“Escumalha”, “pessoas doentes, cruéis e violentas”, “loucos” e um “bando de tipos mentirosos”. Foi assim que Donald Trump se referiu aos líderes iranianos quando, esta quarta-feira, proclamou o fim do MoU. “No que me diz respeito, acho que é só uma perda de tempo lidar com eles”, argumentou ainda.

Entre os insultos, ameaças de novos ataques e anúncios do fim do cessar-fogo, uma outra frase destoou: “Vou falar com os nossos negociadores, eles querem negociar, são boas pessoas”, afirmou, sendo questionado depois sobre se as negociações se iriam manter. “Não quero saber, eles podem falar“, acedeu. A dissonância entre as duas frases de Trump atraiu atenções e levou vários especialistas à mesma conclusão: as ameaças de Trump são apenas mais um instrumento na sua caixa de ferramentas da diplomacia.

A correspondente da BBC em Jerusalém, Carrie Davies, compara estas palavras às publicações deixadas por Trump nas redes sociais nos dois meses entre o anúncio de um cessar-fogo e o anúncio do MoU, em que utilizou uma “abordagem de pau e cenoura”. Com a cenoura promete diálogo, com o pau ameaça ataques. A comparação é reforçada pelas palavras de Donald Trump no segundo encontro em Ancara, em que ameaçou novos ataques esta quinta-feira à noite.

Além do seu currículo neste sentido, existem outros indícios que permitem identificar um possível “bluff” de Donald Trump sobre este tema. Por um lado, o Presidente norte-americano só mencionou que o acordo “acabou” uma única vez, nas declarações à imprensa. À porta fechada, durante as reuniões com os aliados em que o conflito surgiu em cima da mesa, os comentários nunca terão sido repetidos, avançou a Reuters, que cita uma fonte com conhecimento dos diálogos em Ancara.

Por outro lado, a conjuntura norte-americana e internacional não se alterou. A popularidade do chefe de Estado continua em queda. As promessas de baixar os preços ainda estão por cumprir e, com as eleições intercalares a aproximarem-se a passos largos, os aliados continuam a recusar juntar-se à ofensiva no Médio Oriente. Já a desejada (e até esperada) mudança de regime no Irão não se verificou. “Trump não se pode dar ao luxo de abandonar o MoU, simplesmente porque a alternativa é ainda menos atrativa”, simplifica Ali Vaez, diretor do programa sobre o Irão no Crisis Group, ao Wall Street Journal.

"Um período sem guerra nem paz, em que se vê pressão económica aplicada por ambos os lados. Haverá ataques militares intermitentes (...) e um período de altos e baixos na escalada, em que não se tem um regresso completo a um grande conflito, mas também não há um acordo."
Antigo negociador de administrações norte-americanas no Médio Oriente e analista no think tank Carnegie Endowment for International Peace

O novo normal: um “período sem guerra nem paz”, com pressão mútua

As declarações de Donald Trump permitem antecipar uma manutenção dos diálogos, mesmo que num modelo diferente, entre Washington e Teerão. Contudo, por si só, o facto de as duas partes se sentarem à mesa não aponta para um final feliz — afinal, as negociações decorrem há meses, sem dar frutos. “A verdade é que se não houver seriedade, se cada parte não estiver preparada para fazer concessões, as negociações são completamente performativas“, considera Aaron David Miller ao Observador.

O antigo diplomata não se mostra, portanto, particularmente otimista com o resultado dessas mesmas negociações. Apontando como possibilidades a chegada a um acordo ou o resvalar para uma nova guerra aberta (como aconteceu ao longo do mês de março), Aaron David Miller vê como mais provável um terceiro cenário: “Um período sem guerra nem paz, em que se vê pressão económica aplicada por ambos os lados. Haverá ataques militares intermitentes (…) e um período de altos e baixos na escalada, em que não se tem um regresso completo a um grande conflito, mas também não há um acordo”, expõe o especialista. Um cenário não muito diferente foi traçado por Matthew Savill, diretor de ciências militares do Royal United Services Institute, à Sky News.

Sem nunca recusar a possibilidade de ainda se poder assistir a uma nova escalada, este especialista argumenta que é “também possível que isto não passe de manobras tanto do Irão como dos EUA para ganhar vantagem em torno das grandes questões que ainda não sabem bem como resolver” — um cenário que se pode prolongar enquanto essa incerteza permanecer. Questionado diretamente sobre quanto tempo é que este limbo pode durar, Aaron David Miller é rápido e breve a responder: “Para sempre”. Este, admite, pode ser o novo normal.