Ligar diretamente a evolução do preço do petróleo ao preço dos produtos refinados e dos combustíveis é um “vício de raciocínio”, em particular após o conflito no Médio Oriente, que veio perturbar o paralelismo que existia entre estes dois mercados, afirmou António Comprido.
O secretário-geral da EPCOL (Empresas Portuguesas de Combustíveis e Lubrificantes) foi questionado sobre as dúvidas expressas pela ministra do Ambiente e Energia perante a diferença entre a descida do petróleo e a descida do preço dos combustíveis, que tem sido menos reduzida desde que foi anunciado o acordo de cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irão.
Este “vício de raciocínio” é atribuído a Maria da Graça Carvalho que afirmou numa audição no Parlamento na semana passada que esta diferença não tinha “razão de ser”. A ministra indicou ter pedido uma análise ao comportamento do mercado de combustíveis à ENSE (Entidade Nacional do Setor Energético). Questionado pelos jornalistas numa apresentação de um estudo sobre a fraude nos combustíveis, António Comprido explicou que Portugal “é um tomador de preços e não um formador de preços”. E acrescentou “que os mercados de produtos refinados não estão a acompanhar a descida do crude porque são mercados distintos. Cada produto tem um comportamento próprio. O crude está a descer, apesar de ter invertido a descida nos últimos dias”.
Já esta quarta-feira, o presidente Trump anunciou o fim do acordo com o Irão após ataques mútuos.
https://observador.pt/liveblogs/irao-reivindica-ataque-com-drones-a-base-aerea-no-bahrein-depois-de-ataques-norte-americanos/
O responsável pela associação das petrolíferas diz que “há um défice na capacidade de refinação. As refinarias foram afetadas pela guerra”. Não só pela guerra do Médio Oriente, mas também pelos ataques ucranianos às refinarias russas. A Rússia, que é um grande exportador de produtos refinados, passou a importar gasolina e introduziu restrições às exportações de gasóleo. A destruição das infraestruturas exige meses para repor a capacidade, sublinhou.
Questionado sobre a análise pedida pela ministra, o secretário-geral da EPCOL responde que “todas as auditorias fazem sentido”, mas assegura que não existem problemas de funcionamento no mercado nacional, remetendo ainda para explicações já dadas pela ENSE e pela Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE). E não deixou de assinalar que compete à ERSE e não à ENSE fazer a fiscalização dos mercados. A “ministra tem centenas de dossiês para acompanhar, é natural que não saiba ao detalhe o funcionamento do mercado. E é natural que tenha pedido uma análise, mas devia tê-lo feito à ERSE”.
António Comprido assinala que não pode responder por todos os operadores, mas realça que “olha para os números com muito cuidado todos os dias e não detetamos anormalidade nas margens nem qualquer aproveitamento das margens.”
O secretário-geral da EPCOL diz ainda que o petróleo já está a recuperar a cotação depois dos ataques recentes entre os Estados Unidos e o Irão, aproximando-se do patamar dos 80 dólares por barril, e avisa que vai demorar meses a repor a normalidade nos mercados internacionais de petróleo e produtos refinados.
“Gostaria de dizer que os preços iam cair, mas a realidade, sendo pragmáticos, é que a reposição da situação pré-guerra vai demorar meses.”