Camisa de linho rosa clara sobre uma camisola listada azul e vermelha, uma saia de algodão azul até à canela, meias rosa usadas com sandálias Birkenstock, um boné vermelho, óculos de sol Dolce & Gabbana roxos com branco, e no peito, um alfinete Gucci com a cabeça de Hércules e franjas de cristal. Philippe Pourhashemi definitivamente não é alguém que passa despercebido. Jornalista, crítico de moda, consultor de comunicação e stylist independente, vive entre Bruxelas e Roterdão, trabalhando como copywriter para a produtora de carteiras de luxo belga Delvaux, e a escrever para revistas de moda internacionais como a Dust e a Fucking Young!. Está pela primeira vez no Portugal Fashion, a convite da organização, que volta a apostar em apresentar a marca Portugal no cenário da moda internacional.
Encontrámo-nos com Pourhashemi durante um cocktail no showroom dos Ernest W. Baker. Entre momentos de conversa, o jornalista baseado na Bélgica conta que já esteve em muitas edições da ModaLisboa. “Fico feliz de ver que a cidade do Porto parece muito avant garde. É surpreendente comparado com Lisboa, que até me parece mais conservadora. Aqui tudo é sobre expressão pessoal, criatividade, e a ideia de que se pode fazer roupa com qualquer coisa. Há um espírito um pouco punk, um pouco DIY. Gosto disso. Acho que o facto de haver restrições faz a criatividade ser ainda mais excitante”, destaca, a falar no segundo dia do evento. Até ao momento, já tinha visto o concurso Bloom, as criações dos estudantes da Esad, a nova coleção da e.p. atel’ye, do vencedor do Bloom do ano passado, Enzo Peres, e a rave criada pelos Marques’Almeida para fechar o primeiro dia de desfiles. “Acho que há um misto entre o respeito pela tradição e o amor pelo artesanato, mas também esta ideia inovadora de ser moderno e contemporâneo, até um pouco disruptivo. Não ser demasiado limpo ou arrumado. Para mim Marques’Almeida é um bom exemplo. Entendem cortes, tecidos e padrões bonitos, mas o desfile foi um pouco grunge, cru. Acho que isso é o Porto, a combinação de refinamento com algo mais duro. Gosto muito do choque provocado por este contraste”, analisa.




Com exceção dos jornalistas espanhóis, que há anos vêm ao Porto acompanhar o evento, Pourhashemi é um dos poucos do grupo que já conhecia o trabalho de alguns designers portugueses. Cita Constança Entrudo, Susana Bettencourt, Alexandra Moura e ainda destaca nas redes sociais as apresentações de Hugo Costa e da marca Lo Siento. Mas entre o grupo internacional os nomes mais sonantes são mesmo Marques’Almeida e Ernest W. Baker, reconhecidos por Julie Ragolia, stylist e consultora de moda nova-iorquina que vive entre os EUA, Milão e Paris, trabalhando para marcas de luxo como a Zegna e títulos de imprensa como o Wall Street Journal e a Re-Edition. “Ernest W. Baker é uma marca que já conheço as roupas de Paris, mas é ótimo ver o nível de crescimento e comprometimento que têm na sua base”, comenta Ragolia, que é também o nome responsável por construir a imagem de Pedro Pascal entre 2023 e 2025, apesar de rejeitar o título de “stylist de famosos”.
Ao Observador diz que só esteve em Lisboa “a turismo”. “É tudo completamente novo para mim. Os meus olhos abrem-se a cada dia”, assume, destacando o desfile de Veehana como um dos que mais lhe interessou. O designer João Viana, integrado na plataforma incubator do Portugal Fashion, tem como base as malhas e o trabalho manual, em peças únicas e que transcendem a moda, misturando-se num universo artístico. Desde janeiro vive em Berlim — e fez a última coleção da cozinha de casa, onde tem instalada uma máquina de tear. “É interessante ver estes jovens designers portugueses a apresentarem propostas que se relacionam com a cidade onde vivem”, destaca Ragolia. “E para ser honesta, adoraria ver mais da parte cultural portuguesa nas coleções. Gostaria de os ver a explorar mais a cidade e o que há aqui dentro — o Porto é uma cidade linda cheia de paisagens, arquitetura e história, há muito por onde pegar. Não é preciso olhar para fora.”
Logo depois do desfile no qual Susana Bettencourt deu um “até já” às passerelles — a designer vai fazer uma pausa na criação de novas coleções e dedicar-se ao ensino — a italiana Sonia Veroni foi, empolgada, conversar com a criadora portuguesa. Filha de Deanna Ferretti Veroni — criadora da Miss Deanna, que colaborou com nomes como Kenzo Takada, Maison Martin Margiela, Giorgio Armani, Gianni Versace, Valentino ou Yves Saint Laurent — a especialista e designer de malhas fundou o centro de documentação Modateca Deanna e, desde 2016, dirige o Mestrado em Creative Knitwear Design na Accademia Costume & Moda. Como Pourhashemi e Ragolia, Sonia Veroni também está no Portugal Fashion pela primeira vez. “É bom ver que há jovens criadores a ultrapassar os seus limites e experimentar. E é ótimo que estejam a tentar ser internacionais. Mas também acho que as marcas portuguesas precisam de encontrar o seu próprio orgulho, não terem medo de serem quem são e encontrar as suas raízes aqui em Portugal, ao invés de tentarem perceber o que é cool lá fora. Há muita coisa cool aqui!”
A crítica construtiva vai ao encontro das ambições dos jovens designers ouvidos pelo Observador. Quase todos olham para a plataforma do Portugal Fashion como uma boa chance de impulsionar a internacionalização. O desafio aqui é manter-se fiel a uma estética inovadora e ainda assim agradar os mercados internacionais. “Estamos muito focados nos Países Baixos e também no mercado oriental, vai ser uma das nossas apostas nos próximos anos”, disse João Pereira, um dos designers da Lo Siento, outra das marcas no incubator. Já Joana Maltez, nome por trás da Malteza, que se estreou na passerelle do Porto nesta edição, prepara-se para deixar a vida nos Países Baixos e regressar a Portugal, para estar mais perto das fábricas. “O nosso início foi muito trabalharmos com influencers e tentarmos vestir figuras públicas em eventos nacionalmente e internacionalmente. Temos algumas colaborações internacionais que estamos à espera que saiam”, disse a designer, que para a coleção contou com a experiência da mãe para executar todas as peças de croché.
Os movimentos dos jovens seguem o caminho já aberto pelos nomes mais consagrados do calendário. Marta Marques e Paulo Almeida falam, por exemplo, nas alterações que às vezes precisam de fazer para atender mercados importantes para a marca, como os Estados Unidos da América e o Médio Oriente — apesar de serem um dos exemplos destacados entre os convidados internacionais para falar da capacidade de desenvolver coleções sem perder o próprio ADN. Inês Amorim e Reid Baker, dos Ernest W. Baker, conquistam cada vez mais espaço em Hollywood, ao vestir celebridades internacionais e séries como Euphoria, mas ainda acompanham de perto a produção, toda no norte de Portugal, o que resulta na qualidade das peças, detalhe muito referenciado pelos profissionais ouvidos pelo Observador.
Fusão entre indústria e criadores
Muitos dos nomes internacionais convidados pelo Portugal Fashion foram sugestão de Serge Carreira, diretor da Emerging Brands Initiative na Fédération de la Haute Couture et de la Mode (FHCM), a entidade que organiza a Semana da Moda de Paris, e que desde 2020 integra também a plataforma portuguesa. “São pessoas que têm uma certa sensibilidade e curiosidade para explorar e descobrir coisas novas sem julgar. A ideia é mesmo descobrir e explorar, e é por isso que escolhemos pessoas com perfis muito diferentes. Podem ser jornalistas mas também stylists, pessoas do meio do ensino ou com alguma herança no mundo fashion. Acho que isto traz perspetivas diferentes”, explica Carreira ao Observador, destacando um outro objetivo da presença internacional no evento: “Criar pontes entre a cena industrial e criativa”.
No primeiro dia, o grupo, composto por profissionais do setor da moda vindos de países como a Espanha, Itália, Bélgica, França e a China, visitou duas fábricas têxteis em Paços de Ferreira. Ambas produzem peças para marcas de luxo internacionais. Muitos deles conheceram a indústria portuguesa pela primeira vez naquela visita, e mostraram-se surpreendidos pela estrutura e qualidade de produção. “É muito interessante perceber o nível e a experiência que Portugal alcançou na manufatura”, comenta Sonia Veroni. “Foi uma experiência completamente nova conhecer o processo nas fábricas — do design à produção. E é divertido conhecer mais sobre a cultura portuguesa”, diz Julie Ragolia. “Vocês já têm a parte da manufatura muito eficiente, mas é preciso unir os designers e criar uma história ao redor dos valores da moda portuguesa. O que significa o estilo português? É clássico, chique, excêntrico, arrojado? Acho que é isso que falta descobrir”, assinala Philippe Pourhashemi.
Unir a indústria e os criadores nacionais é um dos grandes desafios do Portugal Fashion, assume Mónica Neto, que explica que a plataforma está a lançar uma nova rede que tem o objetivo de facilitar os contactos comerciais. Por um lado, o padrão de qualidade das fábricas atrai as marcas internacionais, que conseguem pagar pelos custos mais elevados de produção; por outro lado, os designers nacionais não têm capacidade financeira nem de escoamento para atender às quantidades mínimas de produção. “Há uma rede de empresas que já definiu até alguns apoios pré-estabelecidos, nomeadamente para os bloomers e para os incubators: como oferecer determinados metros de tecido ou a possibilidade de um desconto naquilo que eles chamam de sobretaxa por baixa quantidade de produção para fazer amostras para desfiles”, assegura a diretora do Portugal Fashion, garantindo que as diferenças entre os dois lados estão a ser trabalhadas pela plataforma.
Para Serge Carreira, Portugal vive um momento decisivo. “Ou há uma mudança para a fusão da criatividade e da indústria, ou então continuamos sendo um país puramente industrial”, assinala. “Esta fusão precisa de ser promovida como um compromisso, mas também algo que exige energia e visão”, destaca.
Criar uma comunidade
Mais do que parcerias comerciais, a presença da comitiva internacional no evento teve como principal foco criar uma espécie de comunidade. “É um movimento inteligente fazer este evento de uma forma diferente de uma semana da moda convencional. As pessoas podem reunir-se, descobrir outras coisas, outras cidades e culturas”, recorda Serge Carreira, sobre o modelo anual, mais voltado para as experiências de lifestyle, que o Portugal Fashion adotou em 2025. Este ano, além da tour pelas fábricas de Paços de Ferreira, os estrangeiros visitaram o Museu da Vista Alegre, em Ílhavo — de onde saíram com vários sacos de compras do Outlet da marca de porcelana.


“Acho importante que as pessoas vindas de fora entendam o que se faz aqui em Portugal. Foi uma experiência incrível ver as fábricas, mas também as cerâmicas — é uma experiência mais ampla, importante para o público estrangeiro, especialmente para quem já está no universo da moda há muito tempo”, considera Sonia Veroni, que numa manhã de folga na programação aproveitou para conhecer a Fundação de Serralves junto com os novos amigos internacionais. O grupo passou os dias a partilhar a mesa do pequeno-almoço, as carrinhas de transporte e os bancos da primeira fila dos desfiles. Pelo meio ficaram jogos do mundial a serem assistidos na sala de imprensa; broas perdidas no banco de trás dos carros e contos curiosos do passado envolvendo a moda portuguesa: como o dia em que um deles quis comprar uma peça de um designer no dia a seguir a um desfile, mas não conseguiu porque a equipa da loja não sabia sequer o preço.
“Acho que estamos a criar um senso de comunidade. É importante construir as coisas numa perspetiva a longo prazo. Podemos ter pessoas muito impactantes que farão apenas dois posts — não é sobre o buzz, mas sim sobre as conexões criadas, e o comprometimento que podem gerar“, comenta Serge Carreira. No final, alguns deixam o Porto mais impressionados que outros. Philippe Pourhashemi é um dos que aceitaria o convite mais uma vez. “Estou empolgado para ver estes designers a crescer. Hoje em dia a moda belga está estabelecida. Espero que em 10 ou 20 anos a moda portuguesa possa estar no mesmo patamar. Seria incrível porque, sabem, a cultura está aqui, tudo está aqui. Só é preciso talvez expressá-la com um pouco mais de clareza para que as pessoas a compreendam e a partilhem com o mundo. Mas o potencial existe, sem dúvida.”








