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(A) :: André Ventura, não traias a Direita Portuguesa

André Ventura, não traias a Direita Portuguesa

Se o objetivo de André Ventura é liderar ou integrar uma alternativa sólida, próspera e de futuro, não pode ceder à demagogia da caça ao voto.

Gonçalo Costa Santos
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Portugal vive um momento que poderia ser de viragem histórica. Após anos de estagnação e de uma hegemonia cultural e política à esquerda que parecia perpétua, o mapa político mudou radicalmente. Hoje, dois terços do Parlamento pertencem agora aos partidos mais à direita. Se me dissessem há 10 anos que isto iria acontecer eu não acreditaria. O principal motor desta rutura com o status quo foi André Ventura. O líder do Chega conseguiu o que muitos consideravam impossível, canalizar a frustração legítima de muitos portugueses que exigiam mudanças políticas e ideológicas e uma oposição frontal ao asfixiante esquerdismo que domina o país.

​É inegável que Ventura à luz de quase um terço dos eleitores teve e mantém razão em combater alguns problemas estruturais que a esquerda sustentou e evitou a discussão. O seu discurso insistente sobre a imigração descontrolada, que acusa de pressionar serviços públicos, baixar o nível do mercado laboral e, nalguns casos, não se integrar nos valores coletivos do país, é partilhado por muitos, eventualmente pela maioria silenciosa. A sua denúncia da corrupção sistémica, a defesa intransigente e totalmente solitária de temas de (in)justiça como, por exemplo, ocupações ilegais ou a denúncia de abusos feitos por alguns grupos de pessoas. O combate sem tréguas ao politicamente correto imposto à força com meios públicos e em serviços públicos, bem como à cultura de cancelamento em temas controvertidos, mais que devolver a voz a quem se sentia ostracizado, deu a sensação do bom senso triunfar num país sedento do mesmo. Além disso, Ventura enfrentou o monopólio narrativo de uma esquerda omnipresente na comunicação social (tirando algumas exceções como este jornal) e no setor cultural, que há décadas dita o que é moralmente aceitável e discutível em Portugal menosprezando a maioria da população que exige comunicação social e cultura não ideológicas. Até acertou na combinação correta e cada vez mais rara na política, com a defesa dos valores do Ocidente no apoio à Ucrânia e Israel. Enfim, nestes temas revelou capacidade e coragem política, o lhe trouxe sucesso eleitoral.

​Contudo, a viabilidade de uma alternativa de direita não se esgota no protesto. Exige uma responsabilidade económica e maturidade que o Chega parece esquecer no momento das decisões cruciais. Como eleitor de direita, defendo que a única forma de gerar riqueza real e sustentável para todos os portugueses é através do crescimento económico. Como qualquer pessoa minimamente informada saberá, o país não sairá do lodo sem reformas estruturais profundas, como por exemplo:

​- Flexibilização do Código do Trabalho, para acabar com a rigidez que asfixia a competitividade e impede a criação de emprego dinâmico e mais bem pago;

​- Reforma da Segurança Social e da Administração Pública, tornando o Estado sustentável, eficiente e focado nos cidadãos, em vez de ser um sorvedouro de recursos para se servir a si próprio;

​- Desburocratização nos serviços públicos e celeridade na Justiça, garantindo previsibilidade, rapidez e segurança jurídica para quem investe;

​- Desbloqueio do mercado de arrendamento, substituindo as políticas punitivas da liberdade contratual das partes por cumprimento das funções elementares do Estado, como por exemplo entregar justiça em tempo útil;

​- Alívio fiscal imediato, reduzindo a carga fiscal sufocante sobre as famílias e as empresas para reter talento e capital.

Quem se preocupa com o país, terá obrigatoriamente que abordar mais cedo ou mais tarde estes temas.

​Ironicamente, André Ventura evoca frequentemente as figuras de Francisco Sá Carneiro e Pedro Passos Coelho como as suas grandes referências políticas. No entanto, a distância entre a retórica e a prática tem-se revelado abissal. A principal lição que tanto Sá Carneiro como Passos Coelho deixaram ao país foi colocar o interesse nacional sempre à frente dos interesses partidários ou eleitorais imediatos, o oposto que Ventura está a fazer.

​Em contraste direto com esse legado de coragem, o Chega aliou-se recentemente à esquerda para chumbar as alterações ao Código do Trabalho, sabotando uma das poucas reformas estruturais que foram tentadas. Pior ainda, a proposta de baixar a idade da reforma num país demograficamente colapsado e envelhecido representa uma pura inconsciência e um populismo abjeto. Propor isto é adotar a mesmíssima receita de irresponsabilidade orçamental que o socialismo utilizou para falir o país por três vezes.

​Se o objetivo de André Ventura é liderar ou integrar uma alternativa sólida, próspera e de futuro, não pode ceder à demagogia da caça ao voto. O que se exige a André Ventura é uma coerência elementar e honesta. A coragem demonstrada no combate cultural e institucional não pode transformar-se numa traição económica ao eleitorado de direita. Portugal não precisa de um socialismo de sinal contrário, precisa de uma direita que tenha a coragem de reformar e que realmente coloque Portugal em primeiro lugar.

PS: Para que não se confunda esta minha exigência de seriedade e maturidade política com uma defesa do atual executivo, sublinho que desde Passos Coelho não voto no PSD ou CDS. Não há aqui qualquer frete político ao governo.