(c) 2023 am|dev

(A) :: A máquina, o agrafo e a virtude desaparecida

A máquina, o agrafo e a virtude desaparecida

Poder-se-ia pedir ao aluno que comentasse a expressão: “Nenhum aluno será prejudicado”. É factual que a frase possui a postura grave das garantias oficiais e a delicadeza das fórmulas calmantes.

Carlos Vinhal Silva
text

Há exames concebidos para medir os alunos que os realizam. Outros, porém, quiçá por uma dessas ironias em que a realidade se compraz, acabam a medir a sabedoria prática de quem os engendrou. Destes últimos é o caso dos Exames Nacionais de 2026, que chegaram às escolas com a solenidade dos ritos novos e a prosápia das reformas inevitáveis, anunciando eficiência, rigor e modernização, essa santíssima trindade administrativa que costuma preceder os pequenos desastres públicos. Deixaram, todavia, suspensa uma interrogação mais antiga do que qualquer plataforma: quem responde quando o instrumento chamado a servir a justiça começa por a embaraçar?

Poder-se-ia pedir ao aluno que comentasse a expressão: “Nenhum aluno será prejudicado”. É factual que a frase possui a postura grave das garantias oficiais e a delicadeza quebradiça das fórmulas preparadas a acalmar antes de esclarecer. No entanto, para que ninguém seja lesado, não chega aspergir a opinião pública com água benta burocrática: é necessário que cada folha deixe vestígio, que cada imagem tenha correspondência, que cada classificação disponha de tempo e de meios, que cada dúvida encontre via de exame. Explicamos: a confiança cívica nunca nasce meramente da voz que assegura, por mais grave que seja o tom, mas tem a sua origem, essencialmente, na possibilidade de verificar empiricamente, experimentalmente ou racionalmente aquilo que é dito em conferências de imprensa e comunicados com mais forma que substância, confrontando o que é dito com o que efetivamente ocorreu, seguindo o rasto dos atos, verificando se a promessa corresponde ao procedimento. Sem esse exame, a garantia pública deixa de ser razão oferecida aos cidadãos e passa a ser simples exigência de crença. Ora, uma justiça que pede fé antes de apresentar prova começa, nesse preciso gesto, a consumir o capital moral da sua autoridade.

Seguir-se-ia, talvez, uma escolha múltipla. Perguntar-se-ia, por exemplo: “Quando um sistema nacional falha, deve a culpa recair sobre: a) o Código QR, hieróglifo digital promovido a oráculo defeituoso. b) Sobre o agrafo, humilde peça metálica subitamente elevado à categoria de inimigo da República. c) Sobre diretores, professores, vigilantes, classificadores ou sobre todos aqueles que tiveram a insolência ética de ver a falha e a imprudência cívica de lhe chamar pelo nome? d) Sobre a própria realidade, culpada de se mostrar menos obediente que os fluxogramas. O enunciado, com admirável pudor, omite a resposta mais incómoda: e) A culpa pertence a quem lançou uma reforma decisiva antes de provar que ela aguentaria responsavelmente o peso de um país.

A questão final de desenvolvimento pediria, então, que se explicasse como se ensaia uma arquitetura nova no centro de um processo que ordena percursos académicos, expetativas familiares e futuros possíveis. O examinando avisado referiria a antiga confusão entre novidade e maturidade, entre plataforma e pensamento, encontre comunicado e verdade pública. Vista do alto, a escola parece matéria dócil, pronta a receber a forma que o poder lhe queira imprimir: os alunos preenchem as bolinhas com afinco, os professores aplicam critérios, os códigos abrem portas, a estatística pacifica consciências. Vista de dentro, porém a escola tem a espessura das coisas humanas: há papel, tempo, fadiga, erro, ilegibilidade, ansiedade, mãos que tremem, salas que aquecem, imagens que falham, instruções que chegam tarde, vidas concretas a atravessar o funil de um procedimento que se julgar mais perfeito por parecer mais técnico.

Nos critérios de classificação, valorizar-se-ia certamente o eufemismo, essa arte menor de vestir a imprudência com túnica de neutralidade. “Dificuldades informáticas” receberia boa cotação por transformar impreparação em acidente técnico. “Ajustamento de calendário” mereceria menção honrosa por ornamentar aquilo que a língua comum, ainda não reformada pelos gabinetes, reconhece como atraso. “Processo inovador” alcançaria pontuação elevada sempre que servisse para tapar a evidência com o brilho cansado das palavras úteis.

A classificação final não exige grande ciência: satisfatório em ambição tecnológica, insuficiente em prudência pública, muito bom na arte de deslocar o centro da falha para longe da mão que a produziu. Fica por rever a única questão verdadeiramente essencial, aquela que nenhum código lê e nenhum agrafo resolve: “Preencher, sem rasura, o círculo em branco da responsabilidade”.