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(A) :: A próxima revolução industrial pode começar na floresta

A próxima revolução industrial pode começar na floresta

Portugal continua a discutir incêndios florestais, abandono rural, dependência energética, alterações climáticas e perda de competitividade como se fossem problemas distintos. Não são.

Luís Macedo
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Talvez o maior erro estratégico do país nas últimas décadas tenha sido precisamente esse: dividir aquilo que a realidade insiste em manter unido.

A floresta passou a ser um assunto do ambiente. A agricultura ficou entregue à política agrícola. A energia tornou-se um tema industrial. O carbono passou para a política climática. O desenvolvimento do interior ficou dependente dos fundos de coesão.

Criámos políticas públicas especializadas, mas perdemos uma visão integrada do território.

Entretanto, outros países perceberam que a transição ecológica não é apenas uma obrigação ambiental. É uma oportunidade industrial.

A Europa começa a reorganizar a sua economia em torno da bioeconomia, dos combustíveis renováveis, dos materiais de origem biológica, da captura de carbono e da valorização dos recursos endógenos. Não o faz apenas para reduzir emissões. Fá-lo para reforçar a autonomia estratégica, diminuir dependências externas, atrair investimento e criar novas cadeias industriais.

Portugal participa neste debate, mas continua demasiado concentrado nos instrumentos e pouco focado na estratégia.

Falamos de incentivos quando deveríamos discutir organização do território.

Falamos de financiamento quando deveríamos discutir cadeias de valor.

Falamos de tecnologia quando o verdadeiro problema está na governação.

O país possui praticamente todos os ingredientes necessários para liderar uma parte desta transformação. Possui uma vasta área florestal, uma agricultura diversificada, uma importante indústria agroalimentar, centros de investigação reconhecidos internacionalmente, empresas inovadoras e um património natural de enorme valor.

Paradoxalmente, continua a importar energia, exportar matéria-prima pouco transformada e desperdiçar biomassa que poderia gerar riqueza, emprego e inovação.

O problema já não é tecnológico.

A tecnologia existe.

Existem biorrefinarias capazes de produzir combustíveis sustentáveis para a aviação, biometano para substituir gás natural, novos materiais de base biológica, fertilizantes orgânicos e produtos químicos renováveis.

Esta transformação já está a acontecer em vários países europeus. Nos países nórdicos, a indústria florestal tem evoluído para modelos de biorrefinaria, procurando valorizar a madeira e os seus subprodutos em combustíveis renováveis, bioquímicos e materiais de maior valor acrescentado. Na Dinamarca, o biometano deixou de ser uma experiência marginal e tornou-se parte relevante do sistema energético. Na aviação europeia, o combustível sustentável para aviação começa a deixar de ser uma ambição distante para passar a integrar metas regulatórias obrigatórias.

Estes exemplos mostram que a bioeconomia não é uma abstração académica. É uma nova frente de competitividade industrial.

O verdadeiro desafio consiste em garantir matéria-prima, organizar cadeias logísticas, criar escala económica e oferecer previsibilidade aos investidores.

Nenhum projeto industrial de centenas de milhões de euros será decidido apenas porque existe biomassa disponível. Será decidido quando existir confiança de que essa biomassa continuará disponível daqui a vinte anos.

É por isso que a Estratégia Industrial Verde deve ser entendida como muito mais do que um programa de incentivos.

Ela deve constituir uma verdadeira política de transformação territorial.

A floresta deixa então de ser apenas um espaço para produzir madeira. Passa a produzir energia, carbono, biodiversidade, biomateriais, serviços dos ecossistemas e matérias-primas para uma nova indústria.

Talvez por isso seja tempo de abandonar uma visão exclusivamente defensiva da floresta. Durante décadas perguntámos quanto custa protegê-la. Talvez devêssemos começar a perguntar quanto poderá contribuir para a riqueza nacional quando for gerida como um ativo económico estratégico.

A agricultura deixa de produzir apenas alimentos. Produz igualmente resíduos valorizáveis, biomassa, energia renovável e novos fluxos económicos associados ao carbono.

As comunidades rurais deixam de ser vistas como destinatárias de políticas compensatórias. Passam a ser fornecedoras estratégicas da economia verde.

Mais do que uma política ambiental, trata-se de uma política de criação de riqueza. Cada tonelada de biomassa valorizada pode representar rendimento para os proprietários, atividade económica para as empresas, emprego para os territórios e menor dependência de matérias-primas importadas. A bioeconomia não substitui a economia tradicional; acrescenta-lhe novas fontes de produtividade e de valor acrescentado.

Esta mudança de paradigma poderá representar uma das maiores oportunidades económicas das próximas décadas.

A valorização da biomassa reduz a carga combustível nas florestas e contribui para diminuir o risco de incêndio. Os mercados de carbono podem gerar novas fontes de rendimento para proprietários e comunidades. Os biocombustíveis reforçam a autonomia energética. A bioeconomia cria emprego qualificado e atrai investimento para territórios hoje marcados pela desertificação.

Nenhuma destas políticas, isoladamente, resolverá os problemas do país.

Em conjunto, podem mudar profundamente o modelo de desenvolvimento nacional.

Talvez tenha chegado o momento de Portugal assumir uma verdadeira Estratégia Nacional para a Bioeconomia Territorial.

Uma estratégia que deixe de separar agricultura, floresta, energia, indústria e clima, passando a tratá-los como diferentes dimensões da mesma política pública.

Portugal não tem um problema de recursos. Tem um problema de organização dos recursos.

Durante demasiado tempo exportámos matéria-prima e importámos valor acrescentado. A próxima economia portuguesa será tanto mais competitiva quanto maior for a sua capacidade para transformar recursos locais em conhecimento, indústria e inovação.

A próxima revolução industrial dificilmente nascerá apenas nas grandes áreas metropolitanas.

Tem todas as condições para começar onde existem recursos, conhecimento e espaço para inovar.

Pode começar na floresta.

Pode começar nas explorações agrícolas.

Pode começar nas comunidades rurais.

Pode começar no território.

A pergunta já não é se Portugal possui recursos para liderar esta transformação.

A pergunta é se teremos visão estratégica suficiente para deixar de olhar para o território como um problema e começarmos finalmente a encará-lo como o principal ativo económico do país.

Porque a riqueza das próximas décadas não será medida apenas pelo que extraímos do subsolo ou importamos do exterior.

Será medida, sobretudo, pela inteligência com que soubermos transformar os recursos biológicos, o conhecimento científico e a capacidade das nossas comunidades na base de uma nova economia.

A próxima revolução industrial pode não começar numa fábrica.

Pode começar numa floresta bem gerida, numa exploração agrícola inovadora ou numa comunidade rural capaz de transformar resíduos em riqueza.

Porque o verdadeiro recurso estratégico de Portugal não é apenas a biomassa. É a inteligência com que conseguirmos organizar o território para criar mais valor, mais indústria e mais futuro.

O verdadeiro debate já não é ambiental. É económico. A questão é saber se Portugal continuará a exportar recursos naturais de baixo valor acrescentado ou se terá finalmente a ambição de transformar esses mesmos recursos na base da sua próxima revolução industrial.