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(A) :: A coligação

A coligação

É a coligação entre poder autárquico, associações de bombeiros, protecção civil e jornalismo que tem mantido um conjunto de mitos inúteis sobre a gestão de fogos

Henrique Pereira dos Santos
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Imaginemos que um Ministro da Administração Interna, de qualquer governo ou partido, olhando para as previsões meteorológicas, se estava nas tintas para o esquizofrénico esquema de alertas que usamos e, falando com quem sabe do assunto, resolvia dirigir-se ao país, dizendo qualquer coisa deste tipo:

Dentro de dois dias entra vento forte de Nordeste e Leste que está associado a condições especialmente favoráveis à progressão do fogo, de maneira que nas regiões tal e tal, onde o FWI previsto é tal e tal, qualquer incêndio que ocorra, havendo combustível, rapidamente está para lá da capacidade de extinção.

Pedimos especial cuidado para evitar o uso do fogo, quer intencional, quer resultando do trabalho normal que vai havendo, mas sabemos que não há maneira de eliminar todas as ignições.

Assim sendo, e durante X dias em que se prevê que o vento esteja forte a muito forte e estas condições se mantenham, haverá, inevitavelmente, fogos incontroláveis, provavelmente de grandes dimensões.

Durante este crise de incêndios, que provavelmente será muito séria, os instrumentos de gestão que temos são muito escassos, exigindo informação, preparação, disciplina e, em muitas circunstâncias, a consciência de que o essencial não é atacar frentes de fogo que estão para lá da capacidade de extinção, mas trabalhar as laterais e oportunidades de redução de combustível no percurso previsível do fogo.

Estas oportunidades podem estar a vários quilómetros das frentes de fogo, para dar tempo para se executarem as operações de redução de combustível que permitam, quando a frente aí chega, reduzir a sua intensidade e permitir o ataque, tentando controlar projecções.

Nem sempre será possível ter êxito e é provável que haja incompreensão das populações afectadas pela progressão da frente de fogo ao verificar a ausência de combate imediato e a concentração dos recursos em áreas que, aparentemente, estão longe dos locais em que parece que seriam necessários, mas este tipo de actuação é o único passível de gerar resultados em condições meteorológicas e de acumulação de combustível como as que se verificam, havendo instruções muito claras de evacuação de todas as pessoas que se prevê que possam ficar em risco com a progressão das frentes de fogo.

O ministro teria dito o que deveria ser dito, mas nas semanas seguintes deixaria de ser ministro, tal seria o clamor que se levantaria contra um ministro que em vez de dizer inanidades sobre ignições nocturnas, comportamentos das populações, posicionamento de meios, reforço de meios aéreos, heroicidade dos bombeiros, esforço altruísta de tantos homens e mulheres, aumento dos milhões alocados aos fogos, resolvesse descrever a realidade com a consciência de que o fogo, em algumas circunstâncias, progride de uma forma que está para lá na nossa capacidade de o controlar, quaisquer que sejam os meios que tenhamos à nossa disposição.

A oposição política, o poder autárquico, as associações de bombeiros e o meio mediático cairiam em cima do ministro com o argumento de que aos ministros não cabe arranjar desculpas para o falhanço do Estado na gestão de incêndios, cabe é resolver os problemas das pessoas.

E é a mesma coligação entre poder autárquico, associações de bombeiros, protecção civil e jornalismo, que tem permitido o crescimento impressionante dos recursos que todos os anos o país dedica ao assunto, sem qualquer evidência de que esse aumento de recursos tenha qualquer relação com os resultados que vão sendo obtidos.

É esta coligação que tem mantido, quase sem alterações, um conjunto de mitos inúteis sobre a gestão de fogos e que se poderia ilustrar com uma história cuja veracidade e rigor não sei aferir, mas que, se for inventada, terá sido por quem conhece bem o meio.

Proporcionou-se uma viagem de troca de experiências com bombeiros canadianos na gestão de fogos, esperando-se que as chefias portuguesas dos bombeiros conseguissem absorver conhecimento e técnica de combate a fogos florestais num dos países com melhores desempenhos nessa matéria, até por ter, incêndios de dimensões inimagináveis em Portugal.

Quando perguntados sobre o seu grau de satisfação com o que teriam aprendido com os canadianos, a resposta foi lapidar: havia uma satisfação muito grande com a quantidade de coisas que tinham ensinado aos canadianos.

Como não avaliamos o suficiente e temos a certeza de ser os melhores do mundo (“nunca um incêndio ficou por apagar”, nas imorredoiras palavras de Jaime Marta Soares), vai mesmo demorar muitos anos antes que seja possível outra doutrina, outro modelo político, de gestão de fogos florestais em Portugal.