Já atingiu as Ilhas Marianas com ventos equivalentes aos de um furacão de categoria 5, deixou meio destruída uma pequena ilha do Pacífico e segue agora em direção ao Japão, Taiwan e China. O Super Tufão Bavi tornou-se um dos ciclones tropicais mais intensos do ano, pode tornar-se mais forte que o Katrina e levanta a questão: o que transforma uma tempestade tropical num monstro atmosférico? E estão mesmo a tornar-se cada vez mais intensos?
O Bavi passou diretamente sobre Rota, nas Ilhas Marianas do Norte, território dos Estados Unidos junto a Guam, com ventos sustentados, estimados pelo Joint Typhoon Warning Center, de cerca de 285 km/h — equivalente à categoria 5 na escala dos furacões — que deixaram um rasto de destruição numa ilha com cerca de 1.500 habitantes. Guam, Tinian e Saipan também foram atingidas por chuva intensa, vento destrutivo e mar muito agitado.
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O tufão segue agora para oeste/noroeste sobre águas muito quentes do Pacífico Ocidental. As previsões apontam para uma aproximação às ilhas Ryukyu, no sul do Japão, incluindo Ishigaki, antes de afetar Taiwan e a costa leste da China, com risco de chuva extrema, inundações, maré de tempestade e vento destrutivo. Taiwan colocou quase 29 mil militares de prevenção para operações de emergência, enquanto a China está já em estado de emergência devido a outros episódios severos de mau tempo, incluindo tornados raros na província de Hubei.
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Um número que ajuda a perceber a dimensão do fenómeno: a pressão no centro do Bavi desceu para valores próximos dos 901 a 910 hectopascais. A Japan Meteorological Agency apontou para cerca de 910 hPa, enquanto a estimativa do JTWC chegou aos 901 hPa. Mas há estimativas de chegar aos 924 hPa. Para comparação, o furacão Katrina, que devastou Nova Orleães em 2005, atingiu cerca de 920 hPa no pico de intensidade. A comparação deve ser feita com cuidado — são tempestades diferentes, em oceanos diferentes — mas ajuda a perceber a escala: quanto mais baixa é a pressão no centro de um ciclone tropical, mais violentos podem ser os ventos.
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Porque é tufão e não furacão?
Apenas por causa do mapa. Um tufão, um furacão e um ciclone tropical são, fisicamente, o mesmo tipo de fenómeno. A diferença está apenas na região do planeta onde se formam. No Atlântico e no Pacífico Nordeste, chama-se furacão. No Pacífico Noroeste, junto ao Japão, Filipinas, Taiwan e China, chama-se tufão. No Índico e no Pacífico Sul, usa-se geralmente a palavra ciclone.
O Bavi é, portanto, um ciclone tropical do Pacífico Noroeste: uma tempestade organizada em torno de uma baixa pressão profunda, alimentada por águas quentes, com circulação fechada, bandas de chuva, parede do olho e, nos casos mais intensos, um olho bem definido.
O combustível principal destes fenómenos (deste fenómeno, na verdade) está no oceano. Para um ciclone tropical se intensificar, precisa de águas superficiais muito quentes, atmosfera húmida, pouca variação do vento com a altitude — o chamado wind shear — e uma estrutura interna bem organizada. No Pacífico Ocidental, estas condições aparecem frequentemente sobre uma área enorme de oceano quente, muitas vezes com temperaturas da água acima dos 29 ou 30 ºC e calor armazenado não apenas à superfície, mas também em profundidade.
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A água quente evapora, o ar húmido sobe, o vapor condensa-se nas nuvens e liberta calor. Essa libertação de energia aprofunda a baixa pressão, acelera os ventos e permite que mais ar húmido seja sugado para o centro da tempestade. Quando tudo se alinha, o ciclone entra numa espécie de motor atmosférico quase perfeito, num processo circular.
É por isso que o Pacífico Noroeste é a região onde costumam nascer alguns dos ciclones tropicais mais violentos da Terra. Não é que a física seja diferente da do Atlântico. É que o reservatório de energia oceânica, de água mais quente, é, muitas vezes, maior.
O que é a rápida intensificação?
O Bavi também é exemplo de outro conceito cada vez mais importante na meteorologia tropical: rápida intensificação. O National Weather Service define-a como um aumento dos ventos máximos sustentados de pelo menos 30 nós, cerca de 56 km/h, em 24 horas. Este é um dos fenómenos que mais preocupa os centros de previsão, porque reduz drasticamente o tempo disponível para preparar as populações, proteger as infraestruturas e organizar evacuações. Uma tempestade que parecia forte pode tornar-se extrema apenas num dia.
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A rápida intensificação depende de muitos fatores, mas os oceanos quentes são a peça central. Não basta a superfície estar quente durante algumas horas. Se a camada quente for profunda, a tempestade continua a encontrar energia mesmo quando os ventos revolvem o mar e misturam águas mais profundas, que o deviam arrefecer.
Menos furacões, mas mais perigosos?
O Bavi acontece no Pacífico, mas ajuda a perceber uma discussão que está também a marcar a época de furacões no Atlântico. Para 2026, a NOAA prevê uma época abaixo do normal, com 8 a 14 tempestades nomeadas, 3 a 6 furacões e 1 a 3 grandes furacões, sobretudo devido ao desenvolvimento do El Niño, que tende a aumentar o tal wind shear no Atlântico e a dificultar a organização das tempestades tropicais.
Mas menos tempestades não significa uma boa notícia. O Atlântico continua mais quente do que o normal em várias regiões e a água quente é o combustível das tempestades. Quando uma tempestade consegue formar-se num oceano muito quente e encontra pouco wind shear, pode intensificar-se rapidamente, produzir mais chuva e tornar-se mais destrutiva.
É aqui que entra o paradoxo climático: em alguns cenários, o número total de ciclones tropicais pode diminuir ou manter-se semelhante, mas a proporção dos mais intensos tende a aumentar. A NOAA/GFDL resume essa projeção dizendo que o número de ciclones de categoria 4 e 5 deverá aumentar no futuro, enquanto muitos estudos projetam uma diminuição ou pouca alteração no número total anual de ciclones tropicais.
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O IPCC também é cauteloso: o último relatório lembra que as taxas de chuva dos ciclones tropicais aumentam com o aquecimento local, pelo menos ao ritmo do aumento médio do vapor de água sobre os oceanos, cerca de 7% por cada 1ºC.
O que o Bavi nos alerta
O Super Tufão Bavi não é uma tempestade atlântica e não tem relação direta com Portugal. Mas é um exemplo extremo daquilo que os cientistas têm vindo a repetir: os oceanos são a grande bateria energética do sistema climático. Armazenam calor, libertam vapor de água e, quando a atmosfera oferece as condições certas, podem alimentar alguns dos fenómenos mais violentos do planeta.
Nas últimas semanas, a atenção europeia esteve concentrada nas ondas de calor em terra e no Mediterrâneo excecionalmente quente. No Pacífico, o Bavi mostra a outra face do mesmo problema físico: quando há energia acumulada no mar, uma tempestade tropical pode transformar-se rapidamente numa máquina de vento, chuva e destruição.
O nome muda conforme a geografia — tufão, furacão ou ciclone. O combustível vem quase sempre do mesmo sítio: do oceano. E, com o Atlântico também mais quente, até a rota dos furacões pode mudar: há cada vez mais a dirigirem-se para as nossas latitudes, em vez de seguirem para as Caraíbas e Golfo do México, depois de cruzarem o oceano desde o Senegal, onde todos se começam a formar.