Vi Cabo Verde jogar contra a Argentina no Mindelo, em pleno cais marítimo, na rua e no meio da população de São Vicente. Vi um país fragmentado por ilhas, sotaques, distâncias e assimetrias juntar-se num só corpo. Cabo Verde perdeu no marcador. Ganhou no essencial. Ganhou na entrega, na humildade e na noção rara de que representar uma bandeira não é exibir-se. É servir.
A seleção cabo-verdiana não entrou em campo para cumprir calendário, preservar imagem ou alimentar contratos. Entrou para jogar. Sem vedetismos. Sem tiques. Sem a vaidade cansada de quem julga que o passado ainda ganha jogos. Em campo, foram onze contra onze. E Cabo Verde jogou de igual para igual. Menor? Nunca. Porque quando há compromisso, o talento cresce. Quando há equipa, o impossível fica mais próximo.
Portugal, pelo contrário, jogou para trás. No campo e fora dele. Jogou para trás na atitude, na ambição, na frescura e na leitura do momento. Uma seleção cansada, pesada, previsível, presa a nomes, egos, hierarquias e compromissos que já não cabem dentro das quatro linhas. Poucos quiseram verdadeiramente. Se algum. A maioria apenas esteve. E há uma diferença brutal entre estar em campo e entregar-se. Quem está sem intensidade, sem fome e sem disponibilidade não ajuda. Desajuda.
Como seria bom termos honrado o Mar Português de Fernando Pessoa. Mas esses tempos, se duvidas persistem, são apenas e só passado. Currículo que fica bem na história. Não mais:
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
A pergunta é simples: podia ter sido diferente? Podia. Mas não por milagre. Podia se o processo fosse outro. Se a seleção tivesse sido construída como equipa e não como soma de estatutos. Se o critério fosse rendimento e não reputação. Se o jogo fosse pensado para ganhar e não para acomodar figuras. Se houvesse menos publicidade, menos gestão de imagem, menos reverência a nomes e mais respeito pelo coletivo. O que ganharam os contratos e a publicidade com isto? Nada. Puro enxovalho.
Cabo Verde mostrou que uma equipa pequena pode tornar-se grande quando ninguém se julga maior do que o grupo. Portugal mostrou o contrário: uma equipa grande pode ficar minúscula quando o ego entra antes da bola. Cabo Verde jogou por quem estava nas bancadas, nas ilhas e na diáspora. Pelas suas mães, pelos seus filhos, pela diáspora, por um território que procura emergir da adversidade. Portugal jogou para dentro de si mesmo e para a sua pequenez. Qual “Mar Salgado”? Qual honra?
É aqui que o futebol deixa de ser futebol. Portugal transformou-se nisto: um país que fala muito de mérito, mas protege estatutos; diz querer futuro, mas idolatra passado; pede compromisso, mas vive instalado na desculpa. Quer coletivo, mas cultiva vaidade. Quer pátria, mas foge ao sacrifício. Quer resultado, mas recusa processo.
Nenhum português lembrará este Mundial como entrega, coragem ou luta por uma bandeira. Muitos cabo-verdianos lembrarão o seu como resistência, orgulho e alma em campo. Nos oitavos de final deixou de se falar português no Mundial. Não apenas porque Portugal e Brasil caíram. Mas porque deixou de se ouvir, meio em português, meio em crioulo, a voz mais limpa e mais nobre da competição: a de Cabo Verde.
E, mesmo sem passaporte cabo-verdiano, não consigo deixar de expressar que prefiro mil vezes o “nha terra, nha gente” do que a imagem de um país eternamente adiado por falta de compromisso, vontade, entrega, coragem, estoicismo, humildade e respeito pelos seus. Antes causar inveja que dó, diz o adágio popular. Mas daqui, como de muitas outras coisas, não há inveja porque apenas sobra o dó. Dó deste povo, onde me incluo, que há muito perdeu a identidade. Quais canhões contra os quais marchar, marchar!?