Uma eliminação do Brasil de um Mundial nunca vai deixar de ser nota de destaque. Ainda para mais contra uma seleção que esteve menos vezes no Campeonato do Mundo (quatro) do que as vezes em que o Brasil venceu a prova (cinco). Terá, provavelmente, sido por isso que o português irrepreensível de Oscar Bobb na zona mista do MetLife Stadium foi notado, mas acabou por ser ofuscado pela demonstração de força que a Noruega entregou diante do pentacampeão Brasil.
O jogador norueguês esclareceu desde logo a dúvida. “Cresci no Porto e a minha mãe ainda vive lá”, começou por dizer à CazéTV, transmissora brasileira. Parte dos primeiros passos que Oscar Bobb deu no futebol foram no FC Porto. Nascido em Oslo, Bobb foi descoberto pelos olheiros azuis e brancos no Mundialito de 2013, no Algarve, torneio de seleções jovens que serve de montra a meio mundo do futebol. Dois anos depois, com apenas 12 anos, mudou-se para a cidade Invicta para se juntar à formação dos dragões — e foi lá que ficou, na época de 2015/16.
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O sonho esbarrou, no entanto, nas regras. A FIFA proíbe a transferência internacional de menores, salvo se os pais mudarem de país por razões alheias ao futebol, e a justificação dada por Turid Gunnes, mãe de Oscar e atriz de profissão — ter-se juntado a uma academia de teatro portuense —, revelada mais tarde nos documentos do Football Leaks, nunca convenceu o organismo. “Imigrei para Portugal por motivos não relacionados com a atividade do meu filho Oscar Bobb, titular do passaporte número, nascido a 12 de julho de 2003, mas sim por motivos relacionados com a minha atividade profissional”, escreveu numa declaração, citada pelo Expresso em 2018. O texto foi enviado à Federação Portuguesa de Futebol — onde Bobb seria inscrito —, que o encaminhou para a FIFA, que rejeitou o pedido. O processo arrastou-se pelo Tribunal Arbitral do Desporto e, enquanto isso durou, mãe e filho continuaram no Porto, apaixonados pela cidade que os tinha acolhido; Turid, aliás, nunca mais saiu de lá. Sem poder competir oficialmente, Bobb regressou sozinho à Noruega em 2016, sem ter representado os dragões num único jogo a contar.
De volta a casa, vestiu a camisola do Vålerenga durante dois anos e meio — tempo suficiente para voltar a chamar a atenção da Europa. Em julho de 2019, assinou pelo Manchester City. Subiu devagar: sub-18, sub-21, até que, a 2 de setembro de 2023, e precisamente diante do Fulham (o clube que anos depois o contrataria) se estreou pela equipa principal, aos 20 anos.
Nem tudo tinha sido linear até essa estreia. Um ano antes, Bobb regressou à Noruega convencido de que já tinha dado o que tinha a dar em Manchester, sem imaginar que o capítulo mais interessante da sua carreira em Inglaterra ainda estava para começar. Esse capítulo incluiria um golo a fechar, em cima do apito, uma reviravolta em St. James’ Park, diante do Newcastle, e um lugar na equipa que, em maio de 2024, voltou a sagrar-se campeã da Premier League.
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O percurso voltaria, contudo, a torcer-se. Uma lesão mais prolongada do que o inicialmente previsto — os cinco meses anunciados tornaram-se sete — tirou-lhe praticamente uma temporada inteira e fê-lo temer, uma vez mais, pelo lugar em Manchester. Foi nessa fase mais dura, já em 2025, que a mãe e a namorada se tornaram os pilares a quem recorria quando a paciência escasseava. “Não tinha nenhuma estratégia extraordinária. Somos apenas pessoas normais. Mas tive mais ajuda da minha mãe; posso desabafar com ela o quanto quiser. E também falei com a minha namorada e recebi algum apoio da parte dela. Isso ajudou”, revelou ao jornal Aften Posten. Recuperou por completo a confiança de Pep Guardiola no arranque de 2025/26, mas os minutos voltaram a escassear e, em janeiro de 2026, os citizens decidiram vendê-lo por cerca de 31 milhões de euros ao Fulham, então de Marco Silva, o atual treinador do Benfica.
Foi precisamente em Londres, longe do Porto mas rodeado do português, que Bobb manteve viva a língua que tinha aprendido antes dos 13 anos. No balneário do Fulham tem dois brasileiros por perto — o avançado Rodrigo Muniz e o Kevin — com quem fala todos os dias, o suficiente para não perder o vocabulário. “Também tenho muitos amigos brasileiros. Tenho dois no Fulham, o Rodrigo Muniz e o Kevin. É por isso que ainda falo português, falo com eles todos os dias”, revelou aos microfones da CazéTV na sequência da vitória norueguesa sobre os brasileiros.
Um hábito que se revelaria oportuno meses depois. Titular no jogo de maior dificuldade teórica, diante da seleção francesa, o extremo foi entrando aos poucos nas contas do selecionador Ståle Solbakken ao longo do Mundial — frente ao Iraque, ao Senegal, à Costa do Marfim — até somar minutos também diante do Brasil, na noite em que Erling Haaland, com um golo aos 79′ e outro já nos descontos, e o guarda-redes Orjan Nyland, com uma exibição de destaque, seguraram a Noruega nos primeiros quartos de final da sua história. Neymar ainda reduziu de penálti, tarde demais para travar a festa nórdica.
Coube a Bobb, à saída de campo, falar aos microfones da imprensa brasileira. Fê-lo sem hesitar, na língua que aprendeu antes de sequer imaginar que a usaria, um dia, num relvado norte-americano, para explicar aos jornalistas do país eliminado como é que se derruba um pentacampeão do Mundo e se faz História pela Noruega.