Distrital após distrital, o Chega parte-se em facções, com lutas que colocam frente a frente incumbentes e outsiders — muitas delas apadrinhadas por membros do núcleo duro de André Ventura. Ainda que o líder do Chega tente evitar disputas internas que causem mal-estar na cúpula, desde logo proibindo os deputados de fazerem campanha, estas eleições internas provam o contrário: há uma guerra de influência entre figuras importantes do partido.
Um dos casos mais flagrantes é o de Cristina Rodrigues, que tem vindo a consolidar a sua influência junto de André Ventura nos últimos anos. Na noite de 28 de junho, depois de Luís Couraceiro derrotar o deputado Rui Afonso na distrital do Porto, o vice-presidente da lista, Pedro Pinto Faria, publicou uma foto com a deputada do Chega e uma mensagem: “Há madrinhas que valem por muito.”
O novo elemento da direção da distrital do Chega/Porto fechou a história no Instagram com um emoji a piscar o olho. Sem mais. E a verdade é que, com ou sem autorização de André Ventura, Cristina Rodrigues — que em tempos foi colocada nas listas do Porto às legislativas para garantir que se sentaria na bancada parlamentar — está a aumentar a influência naquela distrital.
Mas Cristina Rodrigues não é a única a ganhar espaço e influência na distrital do partido. Na verdade, o já referido Pedro Pinto Faria e Francisco Araújo, outro dos elementos da lista encabeçada por Luís Couraceiro, são tidos como elementos de uma linha que tem vindo a crescer no partido, alimentada por “jovens com um discurso extremista” e está a causar “muito desagrado” nas estruturas do partido.
Pedro Pinto Faria é conselheiro nacional do Chega, próximo do movimento de extrema-direita Reconquista (encabeçado por Afonso Gonçalves) e já discursou em Cimeiras da Remigração — em causa está a teoria de que deve existir uma “deportação imediata de todos os imigrantes ilegais”.
Numa publicação de outubro de 2025, escreveu que foi uma “enorme honra e um prazer ter representado o Chega” num desses eventos. E garantiu que há um grupo de pessoas que tem “trabalhado para colocar esta agenda no centro do debate dentro do nosso partido”. No final, um agradecimento a Afonso Gonçalves e ao austríaco Martin Sellner, responsável pela popularização do termo “remigração” na Europa, com ligações passadas a grupos neonazis durante a juventude e orientado por Gottfried Küssel, negacionista do Holocausto.
Já Francisco Araújo, assessor do Chega na Assembleia da República e um dos novos dirigentes locais do Porto, já discursou em eventos do grupo Reconquista e tem fotografias partilhadas com Afonso Gonçalves. Os dois fazem parte da Juventude Chega do Porto, que tem alimentado muito o tema da imigração nas redes sociais.
Numa publicação partilhada entre a página de Instagram em causa e os dois jovens lê-se o seguinte: “Jamais poderá ser um cartão plástico a definir quem é ou não nativo do nosso povo. Os portuguezes (no sentido arcaico e original do termo), serão sempre os descendentes dos fundadores deste país. Colocar quem cá chegou nas últimas vagas migratórias ao mesmo nível de quem tem as suas raízes nesta terra, apenas resultará num exercício de erosão e esquecimento histórico da nossa história, essência e identidade.”
No Chega, a expressão começou por ser utilizada por deputados como Rita Matias e Pedro Santos Frazão. André Ventura tem resistido em assumir abertamente o termo, mas vai namorando o conceito. Em maio de 2025, em entrevista ao Observador, o líder do Chega lá foi dizendo que a “remigração” era uma “solução nalgumas situações” e que se tratava de “um conceito que começa a ganhar muito espaço político”.
A corrente que se opôs a Luís Couraceiro acredita que um tipo de “discurso mais radical” tem vindo a ganhar espaço nos últimos tempos, trazido essencialmente por jovens que estão a “tomar conta do partido e da distrital”. Pedro Pinto Faria é tido como o principal responsável pelo movimento que agora ganha força dentro do Chega com esta vitória. Uma espécie de entrismo de extrema-direita no partido.
Pedro Pinto questionado
Nestas eleições internas, três deputados em funções não foram reeleitos e das 12 estruturas que foram a votos só quatro mantiveram o mesmo líder. Na maior distrital do país houve uma vitória da continuidade, depois de há dois anos ter havido uma divisão notória de deputados e elementos da direção. Pedro Pessanha deu lugar a Patrícia Almeida, que já estava na distrital de Lisboa como vice-presidente — o que configurou um motivo de celebração para o deputado Bruno Nunes, muito próximo da deputada.
Pelo caminho ficou Pedro Tomé Aleixo, uma aposta que serviu, segundo um destacado dirigente do partido, como “testa de ferro” a Bruno Mascarenhas, vereador em Lisboa, que não tinha condições de ir a votos por estar envolvido em várias polémicas — chegou a ser desafiado internamente a deixar a vereação de Lisboa.
A luta mais acesa aconteceu no distrito vizinho, Setúbal, e teve como protagonistas o incumbente e deputado, Nuno Gabriel, e Nuno Valente, assessor de comunicação do Chega, que é também o diretor do jornal do partido, o Folha Nacional.
Aqui, a influência de destacadas figuras do partido não só existiu como foi pública. No dia 9 de maio, foram marcados dois eventos à mesma hora, um em Palmela, outro no Montijo, ambos sobre a reconfiguração da direita política. Um deles contou com Bruno Nunes como orador; no outro, houve um desfile de deputados. como o próprio Nuno Gabriel, Rita Matias, Cristina Rodrigues, Ricardo Reis, Rui Cardoso, Marta Silva, Patrícia Carvalho, Cláudia Estevão, Daniel Teixeira, Eduardo Teixeira e Francisco Gomes.
No final da sessão, o líder parlamentar do Chega, Pedro Pinto, publicou uma foto com todos os presentes no evento de Nuno Gabriel e escreveu: “Primeiro Portugal! Em Setúbal, um grupo parlamentar unido sempre a passar a voz do líder! André Ventura será sempre a nossa inspiração! Não existem dois caminhos!”
O caminho com que Pedro Pinto contava para a distrital de Setúbal não foi atingido. O deputado perdeu a liderança para Nuno Valente, o que se transformou em mais uma vitória de Bruno Nunes.
Destaque também para o caso de Braga. O deputado Filipe Melo conseguiu segurar aquela que é uma das maiores distritais do país contra o também deputado Carlos Barbosa — que em tempos foi escolhido pelo mesmo Filipe Melo como candidato a deputado, já depois de ter sido assessor parlamentar.
Entre deputados e dirigentes nacionais corre a tese de que esta é mais uma distrital em que Pedro Pinto fez questão de dar um “empurrãozinho bem grande” na corrida — aliás, o candidato a vice-presidente na lista que se opôs a Filipe Melo era o seu motorista privado, Paulo Pimenta.
Já em Faro, o deputado João Graça não foi capaz de dar continuidade ao projeto de liderança na distrital. Elementos do Chega do Algarve consideram que houve um “alto patrocínio” de Lisboa, mais especificamente do próprio Pedro Pinto, que foi eleito deputado por este círculo eleitoral e “precisava de mostrar força contra o incumbente”. Até porque, sabe o Observador, na altura das eleições legislativas, a distrital do Algarve não apresentou o nome de Pedro Pinto a André Ventura — o que não agradou nada ao líder parlamentar, que mesmo assim seguiu no primeiro lugar por escolha do presidente do partido.
De tal forma foi o empenho do líder parlamentar que, três dias antes das eleições, Pedro Pinto marcou presença na assembleia municipal de Faro — onde não participa ativamente, cedendo habitualmente o lugar de vereador — e aproveitou para tirar uma fotografia com várias pessoas, incluindo a candidata derrotada a vice-presidente, vereadora na mesma autarquia, publicando-a num grupo restrito.
José Paulo Sousa, que liderava essa lista em oposição a João Graça, acabou por levar a melhor e derrotou o deputado nas urnas. Já depois das eleições internas, acabou agredido presumivelmente por um apoiante do agora ex-presidente daquela distrital e deputado João Graça, tendo apresentado queixa à GNR do agressor. Dias depois do sucedido, em entrevista ao Observador, Pedro Pinto, eleito pelo círculo eleitoral de Faro e candidato à Câmara, confessaria não ter tido oportunidade de saber o que se tinha passado.
Ventura agastado com disputas por cargos
André Ventura bem tentou travar que a guerra interna tomasse estas proporções pessoais. Como a SIC revelou, chegou mesmo a assinar uma diretiva em que proibia os deputados, dirigentes e funcionários do partido que não estavam nas listas de participarem na campanha ou fazerem intervenções públicas a favor de uma candidatura, mas nos bastidores tornou-se difícil contrariar os apoios.
No rescaldo das eleições internas, nos corredores do Chega há vários deputados e dirigentes nacionais e locais que consideram que as eleições distritais “correram muito mal” a Pedro Pinto, designadamente pelos resultados em Lisboa, Setúbal e Braga — que elegem a maior parte dos congressistas. Isto porque, tendo em conta as movimentações internas, o líder parlamentar consegue conquistas pelo país, mas todas com menos relevância do que em distritais mais poderosas.
Contactado, o líder parlamentar não quis responder às questões colocadas pelo Observador. Na já referida entrevista ao Observador, no programa Vichyssoise, Pedro Pinto relativizou as mudanças internas e defendeu que o resultado das eleições significa que o Chega é um “partido aberto, um partido democrático, onde existe pluralidade de opiniões”.
Pedro Pinto deixaria um desafio: “Vai haver um Congresso. Quem contesta a liderança de André Ventura que se candidate à liderança no próximo Congresso. É isso que têm a fazer. Prefiro pessoas diretas do que aquelas que andam escondidas, algumas através de perfis falsos. Que se cheguem à frente contra André Ventura. Isso é que é bonito em democracia.”
Como já se tornou hábito, as eleições distritais do Chega acabam sempre por expor tensões internas a nível local e nacional. Desta vez, até Pedro Tinoco Faria, mandatário nacional da candidatura presidencial de André Ventura, se envolveu na refrega.
Tinoco Faria não era militante do partido nas presidenciais. Decidiu inscrever-se depois das eleições e entrou na corrida à distrital de Santarém como candidato a vice-presidente de Manuela Estevão. Perdeu e, nas redes sociais, fez várias leituras sobre a situação, deixando alertas à direção: “Tem urgentemente de pensar o que quer para o partido, principalmente nas bases. Penso que vocês, aí em cima, têm rapidamente que pôr uma mão e pôr esta gente em ordem”.
“Esta coisa da democracia, desculpem lá que vos diga, é uma grande falácia, uma grande treta. Agora apercebi-me como é que os deputados chegam a deputados, quem são eles, de onde vêm… e uma grande maioria são parolos que se transformaram em snobes, muitas vezes incompetentes, muitas vezes sem perceberem nada dos assuntos em que estão a trabalhar, mas com uma gravata, com fato e falam de uma forma altiva e importante”, acrescentou ainda Pedro Tinoco Faria.
Fonte próxima do presidente do Chega considera que André Ventura fica “descontente com as guerras internas” por entender que este tipo de eleições internas se tornou num confronto por “cargos de futuro”, tendo em conta que as distritais têm tido a liberdade de escolher as listas de deputados — Ventura escolhe os primeiros nomes, mas tem permitido que entrem pessoas das próprias estruturas locais.
Em público, André Ventura desvalorizou a saída de vários deputados das lideranças das distritais e considerou que as eleições são a prova de que “há vida e democracia e pluralismo dentro do Chega”. E questionado sobre as palavras de Bruno Nunes nas redes sociais, que no rescaldo das eleições fez uma publicação enigmática onde diz que “sai de cena quem não é de cena”, o presidente do Chega realçou que estão “todos os lados do partido a dizer que há unidade e que são artificiais as tentativas de criar desunião”.
Sobre o futuro do partido, que tem Congresso no último trimestre do ano, Ventura diz que “aí serão colocadas as outras questões de natureza nacional” e lembra que pode ter adversários: “Todos os militantes que estejam em condições de o fazer poder-se-ão candidatar, todos os deputados que poderão candidatar à presidência do partido e os militantes escolherão. Mas isso falta alguns meses. Eu agora estou preocupado em mudar o país, no tempo que ainda me resta de mandato à frente do Chega e depois a partir de novembro, se ganhar outra pessoa, a vida é mesmo assim.”
Seja como for, há uma ideia praticamente consensual: “Por muito que haja guerras internas, todos os presidentes das distritais estão com André Ventura”, destaca um deputado ao Observador. Com o partido novamente em ebulição, Ventura tem pela frente um Congresso com problemas jurídicos e terá de fazer contas à vida para não ter um Évora 2.0, quando teve de levar a lista da direção a votos três vezes para que fosse aprovada pelos congressistas.
Artigo atualizado às 20h57 com declarações de André Ventura em conferência de imprensa