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Quando Messi vence nos oitavos e acaba a chorar, está tudo dito (a crónica do Argentina-Egito)

A dez minutos do final, a Argentina estava fora do Mundial. Scaloni mexeu, Messi saiu do congestionado corredor central e Egito não foi capaz de travar rolo compressor de um verdadeiro campeão (3-2).

Bruno Roseiro
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Foi assim no Kansas, foi assim em Dallas, foi assim em Miami, voltou a ser assim em Atlanta. Se existissem dúvidas em relação ao apoio da Argentina na quarta cidade que visitava neste Mundial, as mesmas ficaram desde logo dissipadas por altura dos hinos das duas equipas. Sim, havia muitos Faraós nas bancadas, alguns a recordar a famosa música do Walk like an egyptian dos The Bangles e outros a recordar o Messi de Nagrig, o rei Mo Salah. No entanto, não há nada como a força dos adeptos da Albiceleste . Por experiências de outros Mundiais, são pessoas que dão tudo para terem a oportunidade de puxar pelos ídolos em campo. Vendem carros, alugam casas, trocam motas ou trabalham quatro anos para um dia de felicidade para se juntarem à multidão de argentinos que vivem em vários pontos dos Estados Unidos e que não faltaram à invasão.

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Das bancadas para o campo, a equipa é um espelho dessa maneira de ser e tem uma identidade que funciona como espelho da Muchachos, Ahora Nos Volvimos a Ilusionar, música mais vezes cantada pelos hinchas da Argentina. Questões políticas à parte, porque também recorda a Guerra das Malvinas, a letra recorda os dois grandes deuses do país, Diego Armando Maradona e Lionel Messi, mostra o orgulho nas raízes nacionais, recorda as lágrimas já choradas pelas desilusões no percurso em Mundiais, lembra a final da Copa América ganha frente ao Brasil no Maracanã e acaba com o pedido de mais uma estrela. No Qatar era a terceira, agora neste Mundial é a quarta. Em nome de Diego / que conseguimos ver no céu / com Don Diego [pai] e La Tota [mãe] / a encorajarem Lionel. Na música como nos jogos em campo, tudo vai dar sempre a Messi.

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Quando tanto se fala de uma questão de identidade, olhando para aquilo que foi a prestação portuguesa no Mundial, a Argentina tem. Pode gostar-se mais ou menos, pode achar-se que é melhor ou pior, mas tem. Tem uma identidade com e sem bola, tem uma ideia que leva para cada jogo. Às vezes esse jogo de futebol curto que vai rodando por igual os três corredores e tenta trabalhar tudo até colocar a bola nos pés de Messi para acelerar e dar as coordenadas da baliza não resulta, como se viu com Cabo Verde, mas foi isso que Lionel Scaloni montou para vencer a Copa América, o Mundial e a Finalíssima potenciando aquilo que o número 10 ainda tem de futebol com dez companheiros que dão a vida pelo seu capitão. Agora seguia-se mais um obstáculo daqueles que tanto pode dar para vencer fácil como para sofrer… como viria a acontecer.

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O Egito, mesmo tendo um Salah que nem por isso fez com que Hossam Hassan montasse uma estratégia apenas virada para o seu capitão, conseguiu quebrar uma série de tabus neste Mundial. Ganhou na fase de grupos, o que permitiu que passasse em segundo só atrás da Bélgica e sem derrotas, e passou pela primeira vez uma fase a eliminar da competição, batendo nas grandes penalidades a Austrália. Só venceu por uma vez, nunca perdeu. E era assim que queria continuar. “Jogar contra Messi? Nem sequer pensamos nisso, estamos focados na seleção egípcia. Entramos para lutar em todos os jogos, seja contra Messi ou qualquer outro adversário. Temos o Mohamed Salah e 26 Messis e jogadores de alto nível. O Hossam prepara cada jogo como se fosse um exame: estuda o adversário e memoriza tudo o que os jogadores precisam de saber, e é por isso que o plantel sabe tudo”, tinha comentado Ibrahim Hassan, adjunto e irmão gémeo do treinador.

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A partida começou com o Egito a mostrar que era mais do que uma equipa com nome de craques, jogando de forma descomplexada com bola e sobretudo sem medo do poderio da Argentina, dando margem para todos os jogadores mais virtuosos entrarem em situações de 1×1 sempre com costas protegidas para impedir as habituais transições do conjunto das Pampas. A isso, os africanos juntaram o ponto mais importante que existe no futebol: eficácia. Foi essa eficácia que permitiu que Ibrahim, surgindo ao segundo poste após jogada trabalhada na direita após canto com cruzamento largo, desviasse de cabeça na área para o 1-0 (14′). Foi essa falta de eficácia que impediu que Lionel Messi fizesse o empate pouco depois, com a falta de Hassan sobre Tagliafico a valer mais uma grande penalidade que foi travada por Shoiber de forma superior (20′).

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A insistência não ficaria por aí. Mesmo com uma exibição que não deslumbrava, longe disso, a Argentina foi conseguindo encostar cada vez mais o Egito ao seu meio-campo e sem capacidade de saída, o que deixava o encontro no meio-campo dos africanos com a bola mais próxima também da área contrária. Shoiber voltou a brilhar na baliza, travando um cabeceamento de Alexis Mac Allister que parecia destinado a entrar na baliza (28′), Lionel Messi teve um livre direto que bateu ainda no poste antes de sair pela linha de fundo (31′) mas era o Egito que continuava em vantagem, com cada minuto que passava a ser mais uma gota de gasolina num tanque de crença que já vinha cheio e que tinha em Shoiber um dínamo à prova de bala, com nova defesa fantástica a um desvio de Julián Álvarez após cruzamento de Tagliafico de primeira na esquerda (39′).

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O segundo tempo começou com Fathy a entrar para o lugar de Ashour, numa tentativa de reforço do bloco central recuado para prender ainda mais o raio de ação nevrálgico do jogo ofensivo da Argentina, e com o Egito a entrar numa zona mais confortável da partida, resistindo ao assédio dos sul-americanos e tendo uma oportunidade flagrante para aumentar a vantagem numa jogada fabulosa de Hassan com assistência de Salah para Zico que acabou por originar um golo anulado por falta no início do lance sobre Lisandro Martínez (58′). Ficava mais um aviso para uma Argentina descaracterizada, que mexeu em todos os setores com impacto no rendimento da equipa e com outros dilemas: em mais um lance na sequência de um canto em que o corte saiu para Salah, Hassan voltou a aparecer na transição para assistir Zico para o 2-0… a valer (68′).

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A campeã mundial estava encostada às cordas, com uma única vantagem de contar com aquela paragem para hidratação do costume que oferece um desconto de tempo a quem está por baixo para se preparar para o quarto e último quarto do jogo regulamentar. Com Lautaro Martínez já em campo ao lado de Julián Álvarez, Scaloni juntou ainda o central Romero à frente do ataque e colocou Lionel Messi a descair mais na direita para ter o espaço que pelo meio estava bloqueado. Resultado? Uma reviravolta épica para a história com três golos em apenas 14 minutos: Romero fez o 2-1 com um desvio de cabeça na área depois de uma assistência de Lionel Messi (79′), o mesmo Messi empatou o encontro com um míssil na área que bateu ainda na trave após um amortecimento de Lautaro Martínez e uma tentativa de receção de Montiel (83′) e Enzo Fernández marcou o 3-2 numa saída rápida entre muitos protestos dos egípcios por uma possível falta na área contrária com um desvio de cabeça após cruzamento de Lautaro Martínez (90+3′). Quando Lionel Messi vence nos oitavos de um Mundial e chora, está tudo dito em relação ao que se passou em campo.

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A estrela

  • Mais uma vez, e de forma quase inevitável, Lionel Messi. Não se percebeu ao certo se foi Scaloni que projetou o número 10 na direita do ataque para fugir ao congestionamento no corredor central ou se foi o próprio esquerdino que, com a química que tem com o treinador, pensou nessa solução. Uma coisa é certa: foi por aí que passou a reviravolta da Argentina, com o capitão a fazer a assistência para Romero marcar o 2-1 e a disparar um míssil para o 2-2 antes de Enzo Fernández fechar o resultado. Até aos 80′, era complicado fugir a Shoiber, com várias defesas que foram evitando o golo argentino incluindo uma grande penalidade de Messi, mas nos minutos finais todo o filme do encontro mudou em definitivo.

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O joker

  • Hassan fez um jogo fantástico apesar da grande penalidade cometida sobre Tagliafico (sem efeitos pelo desperdício de Messi), Zico interpretou de forma perfeita a capacidade de sair em transições que o Egito necessitava na segunda parte, mas foi a entrada de Lautaro Martínez que revolucionou o ataque da Argentina, estando na jogada do 2-2 de Messi e fazendo um cruzamento fantástico para Enzo Fernández marcar de cabeça na área, já em período de descontos, o golo que consumou a reviravolta. Quando foi agora preterido na titularidade de Julián Álvarez, a resposta não demorou a chegar em campo.

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A sentença

  • Com este triunfo arrancado “a ferros”, a Argentina tornou-se a sétima equipa a chegar aos quartos de final do Mundial, esperando agora pelo vencedor do Suíça-Colômbia para saber com quem vai jogar no Kansas, na madrugada de domingo (2h). Já o Egito, apesar da saída inglória da competição, conseguiu pela primeira vez passar a fase de grupos e também uma fase a eliminar antes de cair nos oitavos.

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A mentira

  • Não há mesmo outra maneira de dizer: o resultado final. É certo que Hassan recuou demasiado cedo a equipa depois das tentativas de empate da Argentina no primeiro tempo mas o plano do Egito resultou na perfeição também no segundo tempo, com Zico a aumentar a vantagem já depois de ter visto um golo anulado entre mais transições que iam criando calafrios na defesa argentina. Foi quase tudo perfeito… mas o jogo tem 90 minutos. E, à semelhança do que aconteceu com outras equipas africanas neste Mundial, foram esses minutos finais que acabaram por gorar a possibilidade de irem mais longe.

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