Um tribunal de Berlim condenou um estudante chinês a cinco anos e nove meses de prisão por violação agravada, ofensas à integridade física e violação da privacidade. O arguido, segundo o juiz, abusou sexualmente de 11 mulheres e registou, sem consentimento, imagens íntimas das vítimas entre 2019 e 2024. De acordo com uma investigação consultada pelo The Guardian, o estudante, Tong Z, fazia parte de uma rede de homens que utilizava a aplicação Telegram para planear violações, drogar mulheres e partilhar vídeos dos abusos.
Tong Z, de 26 anos, fotografou e filmou as mulheres enquanto estas dormiam, tomavam banho ou se vestiam, em diferentes casas na Alemanha e em viagens à Polónia, Dinamarca e China. Segundo a acusação, num dos casos, o chinês utilizou uma chave suplente para entrar numa casa de uma vizinha, em Berlim, onde instalou uma câmara oculta na casa de banho.
Em tribunal ficou ainda comprovado que o arguido, em 2024, violou uma mulher depois de lhe ter dado uma bebida adulterada com substâncias sedativas. A vítima, que sofre de limitações físicas e cognitivas ligeiras, só teve conhecimento da agressão quando foi contactada pelas autoridades durante a investigação.
Uma das mulheres, identificada apenas como Ivy, disse ao The Guardian que foi informada pela polícia de que o seu ex-namorado (Tong Z) a tinha fotografado nua enquanto dormia, sem o seu consentimento. A vítima reconheceu as imagens que as autoridades lhe mostraram, mas garantiu não ter qualquer memória do momento em que foram captadas. “Quando vi aquilo, fiquei sem palavras. Senti que já não conseguia respirar. Nas fotografias, parecia uma presa“, recordou a chinesa Ivy, atualmente com 27 anos.
https://observador.pt/2025/06/19/aluno-condenado-a-prisao-perpetua-por-drogar-e-violar-10-mulheres-em-londres-e-china/
O caso apresenta semelhanças com o de Zhenhao Zou, um estudante chinês condenado em 2025 a prisão perpétua por drogar e violar 10 mulheres no Reino Unido e na China. No entanto, a investigação alemã revelou um elemento adicional: Tong Z fazia parte de uma comunidade organizada que utilizava o Telegram para promover e incentivar crimes sexuais.
O grupo de homens cujas ações assentavam numa “misoginia desumanizante”
O estudante chinês integra um grupo chamado “German Driving School”, composto por oito homens, no qual os membros utilizavam linguagem codificada para debater a administração de drogas às vítimas, planear violações, partilhar vídeos dos crimes e trocar mensagens de incentivo.
De acordo com o juiz do tribunal berlinense, a palavra “combustível” era utilizada para designar anestésicos e sedativos, enquanto “carro” era a palavra para designar as vítimas.
Até agora, para além de Tong Z, também já foram detidos mais dois homens: Dapeng Z, engenheiro informático de 44 anos e administrador do grupo (foi condenado a 14 anos de prisão por violação agravada e tentativa de homicídio), e Zhongyi J, estudante chinês de 28 anos (recebeu uma pena superior a 11 anos pelos mesmos crimes).
A investigação sobre esta rede online começou a ganhar forma em 2024, altura em que as autoridades começaram a receber várias denúncias das alegadas vítimas de Dapeng Z. A análise dos telemóveis apreendidos permitiu descobrir o grupo no Telegram e identificar os outros sete homens residentes na Alemanha ligados ao “German Driving School”.
No mandado de busca à casa de Tong Z, as autoridades alemãs encontraram roupa interior feminina, seringas, medicamentos sedativos sujeitos a receita médica escondidos debaixo da cama e discos rígidos que continham mais de dois terabytes de fotografias e vídeos. De acordo com os tribunais, Tong Z tinha criado uma pasta individual para cada vítima.
As mensagens trocadas no Telegram revelaram, também, a forma como os membros do grupo aperfeiçoavam os métodos utilizados para cometer os crimes. Por exemplo, Tong Z, que no grupo tinha a alcunha de “God by day, devil by night” (“Deus de dia, diabo de noite“), aconselhou Dapeng Z a melhorar a forma de filmar as agressões sexuais. “Podes levar uma GoPro e um telemóvel, caso tenhas as mãos ocupadas”, escreveu.
Os dois homens trocaram mais de 2.000 mensagens em menos de um ano. Segundo os documentos judiciais, Tong Z afirmou, nas conversas, que esperava um ou dois anos antes de utilizar os vídeos para chantagear as vítimas. “[Elas] choravam e imploravam para eu apagar os vídeos, mas nunca lhes ocorria ir à polícia”, escreveu. Noutra mensagem, descreveu o abuso de uma mulher coagida a manter relações sexuais e afirmou que o facto de ela chorar o deixava “extremamente excitado“.
Os tribunais concluíram que a motivação do estudante chinês assentava numa “misoginia desumanizante”.
A confissão perante as autoridades e a fantasia pelas “imagens digitais”
Perante o tribunal, Tong Z confessou todas as acusações e afirmou sentir “profunda vergonha“. No seu discurso, o chinês descreveu as dificuldades que sentiu em estabelecer relações pessoais, sobretudo com alemães.
Tong Z chegou à Alemanha em 2015, aos 15 anos, para frequentar um colégio interno. Mudou várias vezes de cidade ao longo dos anos seguintes. No final de 2024, quando foi detido, ainda não tinha concluído o curso universitário, não tinha amigos próximos e passava grande parte do tempo sozinho (e em frente ao computador).
“Fiquei absorvido pelas imagens digitais, vídeos e fantasias, sem reconhecer que isso podia magoar pessoas reais”, explicou.
O caso provocou um grande impacto entre os cidadãos chineses que vivem na Alemanha. Para Ivy, porém, o caso continua a ser difícil de compreender. Na sua memória, Tong Z era um namorado “atencioso, organizado e empático” e que gostava de cozinhar.
Agora, a jovem chinesa questiona se estes gestos eram genuínos ou faziam parte de uma estratégia para conquistar a sua confiança. “Estaria ele a cozinhar para mim para me poder drogar? Continuo a perguntar-me: ‘Deixei escapar algum sinal?’ Como é que acabei por namorar com uma pessoa assim?”, questionou.
Desde que soube dos crimes, Ivy sofre de sintomas de depressão e de perturbação de stresse pós-traumático e é acompanhada por um psiquiatra para recuperar algum controlo sobre a própria vida. “Gostava mesmo de lhe perguntar qual a razão para me ter feito estas coisas”, disse.