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(A) :: “Olhei para a porta e vi logo pessoas no chão.” O dia em que o autocarro 1222 matou duas passageiras no terminal de Agualva-Cacém

“Olhei para a porta e vi logo pessoas no chão.” O dia em que o autocarro 1222 matou duas passageiras no terminal de Agualva-Cacém

PSP abriu investigação sobre o acidente que matou duas mulheres na estação rodoviária. "Podia ter sido qualquer um", lamentou passageiro. Mais de 20 pessoas foram assistidas em vários hospitais.

Martim Andrade
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João Porfírio
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Todos os dias, Fátima apanha o autocarro no terminal rodoviário de Agualva-Cacém, freguesia de Sintra. Esta terça-feira, chegou apressada à paragem, mas “a camioneta estava atrasada”, relata ao Observador. “Logo hoje que tinha de começar mais cedo.” Foi enquanto esperava pelo autocarro da Carris Metropolitana, que devia ter passado pelo terminal pelas 9h30, que ouviu “o estrondo”. Virou-se com o barulho e viu outro autocarro que seguia na sua direção, desenfreado. Fátima pôde entrar pelas portas de vidro da estação e protegeu-se, mas nem todos conseguiram.

“Olhei para a porta e vi logo pessoas no chão. Vi duas pessoas sem vida — até fui lá ver e já não respiravam —, outra estava entalada entre o autocarro e um poste. Fiquei sem reação”, lamenta. O acidente que acabara de ver matou duas mulheres, e fez mais de 20 feridos.

“Nunca vi uma coisa destas, foi a primeira vez. Aquele estrondo não me sai da cabeça”, frisa. É que “havia muita gente” à espera daquela carreira da Carris Metropolitana, continuou Fátima, admitindo que “muitos foram atingidos” e que chegou a ver algumas pessoas que foram colhidas pelo autocarro ainda debaixo do veículo amarelo e preto.

Além das duas vítimas mortais cujo óbito foi declarado no local, foram assistidas em vários hospitais pelo menos 25 pessoas, apurou o Observador. Seis pessoas receberam apoio psicológico a poucos metros do autocarro desfeito. De acordo com o Comandante dos Bombeiros de Agualva-Cacém, “o autocarro, ao chegar ao terminal, não travou”. A razão para tal ainda não foi apurada, mas a condutora daquele serviço estava entre os feridos ligeiros e foi assistida por psicólogos do INEM, acrescentou João Raminhos. Estava “num estado mais alterado” após o embate.

De acordo com a CNN Portugal, à Polícia Judiciária, a motorista relatou que terá pisado inadvertidamente o acelerador do autocarro enquanto corrigia o letreiro digital que indica a carreira, quando estava parada a recolher passageiros. Este terá sido o testemunho recolhido pela equipa de investigação de homicídios no local.

“Quem perdeu a vida era gente de trabalho”, assinalou, emocionado, Marco Almeida. O presidente da Câmara de Sintra manifestou um voto de pesar pelas vítimas e garantiu que as famílias afetadas “podem contar com a Câmara nos dias agora que se seguem e que têm pela frente”. Também o Presidente da República, António José Seguro, e o primeiro-ministro, Luís Montenegro, lamentaram o sucedido junto do autarca, que o confirmou num vídeo publicado no final da tarde desta terça-feira.

Junto ao local do acidente, horas depois, ainda se mantinham centenas de pessoas. Entre os só de passagem, familiares preocupados ou meros curiosos, uma coisa era clara: foi um “grave acidente” que “podia ter apanhado qualquer um”.

“Acordei com um grande estrondo e fui ver o que tinha acontecido”

Todos os dias, milhares de pessoas passam pela entrada na Rua Elias Garcia que dá acesso aos autocarros, no piso térreo, e aos comboios, aonde se chega de escadas rolantes. “As duas senhoras que foram atropeladas estavam à espera onde nós normalmente costumamos esperar”, ouve-se dizer, a passar, um passageiro.

Quando se deu o acidente, já não era hora de ponta, mas os comboios vermelhos que ligam Sintra e Lisboa são regulares. Esta terça-feira, já quem tentasse viajar de autocarro deparava-se com dezenas de pessoas concentradas nas vias de acesso, sem poder ir para as várias paragens. Pelas 11h, a multidão juntava-se em cima das linhas colocadas pela PSP, a procurar saber mais sobre o que aconteceu e quem eram as vítimas.

Antes do embate, a carreira 1222 da Carris Metropolitana partiu daquele mesmo terminal pelas 9h10, e completou o seu percurso circular poucos minutos após as 9h40. Foi por esta altura que Lucas (nome fictício) se assustou com o barulho. “Eu acordei com um grande estrondo e fui logo ver o que tinha acontecido”, relata o menino, que vive num prédio que fica do outro lado da estrada de acesso ao túnel por onde passam os autocarros, ao Observador. Ao longo da manhã, acompanhou todos os noticiários para saber mais sobre o que se tinha passado.

Já André (nome fictício) ia para o trabalho quando ouviu uma grande sequência de sirenes em uníssono a deslocar-se na mesma direção. Estacou e encaminhou-se para o túnel, que foi vedado pela PSP. No interior da estação, a polícia pediu múltiplas vezes que “os curiosos” se afastassem do teatro de operações. O alerta foi lançado a todos, mas uma mulher respondeu ao agente que estava na fila da frente para perceber se do outro lado estava alguém que conhecesse.

Ao Observador, outra mulher garantiu estar à espera da mãe, que ficou ferida enquanto esperava pelo autocarro. Encontrava-se estável, com “um grande corte na cara”, e a ser assistida pelos socorristas enquanto os dois filhos, visivelmente nervosos, esperavam novidades. As dezenas de feridos resultantes deste acidente acabaram por ser encaminhados para diferentes hospitais na área metropolitana de Lisboa: Cascais, Amadora-Sintra, São Francisco Xavier e Santa Maria.

Pelas 17h, 15 vítimas tinham chegado ao Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (Amadora-Sintra), mas cerca de duas horas depois, 12 tiveram alta hospitalar. Fonte oficial das unidades hospitalares confirmou que, esta tarde, tanto o Hospital de Santa Maria e o Hospital de Cascais receberam cada um dois feridos ligeiros — e os de Santa Maria receberam alta pelas 18h.

O Observador apurou ainda que, esta manhã, seis feridos foram assistidos no Hospital São Francisco Xavier. Ao todo, foram pelo menos 25 as vítimas que receberam assistência hospitalar, sendo que três procuraram-na depois do acidente: a PSP deu conta de 22 feridos transferidos para hospitais nos primeiros momentos.

Porém, a Câmara Municipal de Sintra dá conta de 16 feridos decorrentes do acidente, e prestou, a par do INEM, apoio psicológico no local. O Observador questionou a autarquia liderada por Marco Almeida sobre o apoio que será dado daqui para a frente pela câmara às vítimas, mas não obteve resposta.

A “surpresa” da população, a “falta de visibilidade” e a investigação aberta pela PSP

Apesar de o acesso ao terminal ter estado limitado à polícia e aos familiares de vítimas durante várias horas, o serviço rodoviário da Carris Metropolitana não parou. Os autocarros amarelos, em vez de entrarem no terminal, faziam filas na Rua Elias Garcia, explicando aos utentes que as entradas no terminal continuavam condicionadas.

João é taxista em Agualva há “várias décadas”. Além de autocarros, táxis também circulam pelo terminal rodoviário. “Há uma grande falta de visibilidade”, conta o motorista, que indica que muitas pessoas entram nesta estação pelo acesso que é exclusivo a automóveis — e que está devidamente sinalizado à entrada. Aponta, ainda, para uma falta de luminosidade na entrada que, por vezes, chegou a criar “sustos” e “quase colisões” entre autocarros.

Um morador surpreendeu-se quando descobriu que o acidente tinha sido dentro do terminal e não na via pública. “Os semáforos estão sempre avariados”, refere, exaltado. À comunicação social, o intendente da PSP Francisco Alves afirmou que a Brigada de Investigação de Acidentes do Comando Metropolitano de Lisboa estava a “tirar todos os dados para investigar e perceber as causas que resultaram neste acidente”, garantindo ter aberto uma investigação sobre os factos. O Observador contactou a Carris Metropolitana sobre o estado do autocarro e a manutenção a que era sujeito, mas não obteve resposta em tempo útil.

O autocarro, com o vidro dianteiro e os painéis laterais a demonstrar as marcas do forte embate, só foi rebocado pelas 15h. Cerca de uma hora depois, os autocarros já entravam como de costume no terminal de Agualva-Cacém, mas, no pilar junto à paragem do 1222 e que susteve o veículo acidentado, permaneceram as marcas.