A decisão foi conhecida há mais de um ano: condenada por desvio de fundos europeus, Marine Le Pen estava impedida de se candidatar a cargos públicos durante cinco anos. Na teoria, a sentença matava a quarta candidatura presidencial da líder da União Nacional (Rassemblement National, RN, em francês), mas Le Pen não desistiu e levou o caso a recurso.
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À chegada ao tribunal de recurso esta terça-feira, duas vias legais pareciam afirmar-se como possíveis: o tribunal podia confirmar a pena de ineligibilidade e obrigar Marine Le Pen a escolher um sucessor ou revertê-la, permitindo que se candidatasse. A decisão foi outra. A pena de ineligibilidade foi reduzida para 15 meses de pena efetiva, permitindo a candidatura, mas foi aplicada uma pena de três anos de prisão (dois de pena suspensa e um com pulseira eletrónica). Ainda que, na teoria, a sentença deixasse aberta a porta para Le Pen voltar a concorrer ao Eliseu, impunha-se como obstáculo uma promessa feita pela própria deputada: não faria campanha se fosse sujeita a pulseira eletrónica.
Contudo, esta terça-feira à noite, horas depois da leitura da sentença, as palavras foram outras. “Esta noite, sou candidata“, anunciou, em entrevista ao canal TF1. Marine Le Pen assegurou não estar a ser incoerente. Pelo contrário, explicou que vai recorrer da decisão para o Supremo Tribunal, onde, acredita, irá finalmente provar a sua “inocência”.
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“Quero esgotar todas as vias legais para defender a minha inocência neste caso. Como tenho a opção de recorrer para o Supremo Tribunal, que não é necessariamente o caso noutros cenários, e como o recurso no Supremo Tribunal suspende os efeitos da decisão atual, eu vou fazer campanha sem uma pulseira eletrónica”, elaborou.
Apesar de insistir que será candidata, Le Pen voltou a provar que a liderança de facto do partido é agora partilhada — pela primeira vez na sua história — por um nome fora da família. A referência a Jordan Bardella não surgiu apenas como referência ao presidente do partido, mas como a metade de um par. “Jordan Bardella e eu vamos lançar esta campanha presidencial muito em breve. Juntos, vamos convencer o povo francês de que o que estamos a experienciar hoje não é inevitável”, elogiou. “Acho que este par é um par vencedor”, rematou. “Com Jordan Bardella, vamos estar juntos ao longo de toda esta campanha presidencial”, resumiu nas suas redes sociais.
Fazer campanha de pulseira eletrónica? “Seria apenas outra forma de me impedirem de ser candidata”
“É possível fazer campanha sem sair de casa à noite para um encontro com os eleitores em comícios? Sem sair aos fins-de-semana?” As questões foram colocadas por Marine Le Pen ainda em fevereiro, numa entrevista à BFM-TV, em que refletiu sobre as limitações de fazer uma campanha durante o cumprimento de uma pena de prisão com pulseira eletrónica. À data, a líder respondia às suas próprias questões de forma contundente — e negativa. “Seria apenas outra forma de me impedirem de ser candidata”, argumentou.
À medida que a leitura do recurso se aproximou, a posição de não se alterou: ou estaria “completamente livre para fazer campanha” ou não seria candidata. Na semana passada, em entrevista à LCI, Le Pen explicava que a pulseira eletrónica prejudicaria a campanha do ponto de vista político, mas também logístico. “Não posso estar sempre a depender de um juíz para me autorizar a ir a um comício em Romorantin ou a um mercado em Hénin-Beaumont”, exemplificava.
Porém, tomada a decisão do tribunal, o anúncio do passo seguinte não foi imediato. “Vamos refletir sobre a decisão e depois falaremos novamente”, afirmou o advogado de Le Pen à saída do tribunal, adiando declarações oficiais para a entrevista desta terça-feira à noite. As reações da oposição não se fizeram esperar. Para além do argumento de que uma pessoa condenada perante a justiça não devia, moralmente, candidatar-se à Presidência, os críticos e potenciais adversários de Le Pen exigiam também que a líder da bancada mais à direita honrasse as suas promessas dos últimos meses.

“A líder da RN prometeu que não poderia fazer campanha nestas condições. Vai manter a sua palavra?”, questionou Clémentine Autain, deputada da esquerda e candidata às eleições presidenciais. “As restrições impostas por uma pulseira eletrónica parecem, de facto, pouco compatíveis com uma campanha presidencial”, relembrou, por sua vez, a líder dos Ecologistas, Marine Tondelier.
Em entrevista à TF1, Marine Le Pen pareceu voltar atrás na sua palavra, ao declarar-se como candidata e garantir que “não vai mudar de ideias” sobre isso. Contudo, a líder insistiu que o faria sempre “sem pulseira eletrónica”, pois seria declarada “inocente” pelo Supremo Tribunal. É menos claro se essa candidatura se mantém se o Supremo confirmar a condenação e a pena.
O caminho até ao Eliseu é estreito, mas Marine Le Pen confirma candidatura. O resto “logo vemos”
Ao longo do último ano, a confirmação da pena por parte do tribunal de recurso foi tida quase como uma certeza, com base nos precedentes de outros casos semelhantes de desvio de fundos. “Não vou esconder que a decisão foi uma surpresa para a imprensa”, escrevia a jornalista do Le Monde Laura Motet por esse motivo.
A redução de pena é explicada pelo tribunal com a necessidade de ser proporcional. Num comunicado, citado pela imprensa francesa, o tribunal explica que é preciso considerar “a liberdade de candidaturas, mas também a liberdade de escolha dos eleitores, uma condição para a expressão do sufrágio democrático”. Mas o que significa isto na prática? A pena de ineligibilidade, ao ser reduzida para 15 meses efetivos, deixa de se aplicar ao dia 18 de abril de 2027, quando os franceses forem às urnas, uma vez que os 15 meses começaram a contar a partir do momento da sentença, a 31 de março de 2025.
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Marine Le Pen escolheu recorrer da pena para o Supremo Tribunal, uma decisão que tinha como prazo o dia 20 de julho, acreditando que será inocentada antes das eleições presidenciais. Na verdade, a imprensa francesa encontra outra estratégia: “Ganhar tempo“.
Tudo depende agora dos prazos para a apresentação do recurso — e da posterior decisão — no Supremo. Especialistas legais ouvidos pelo Le Monde afirmam que a decisão deverá ser tomada nunca antes do início do próximo ano. Porém, apesar do caminho ser estreito, Marine Le Pen avança a direito e aproveita o impulso para oficializar a campanha. “Apelo aos franceses para se juntarem à plataforma que criámos esta noite, Marinelepen.com, para apoiarem e participarem ativamente nesta campanha, que está a começar”, declarou, em entrevista esta terça-feira.
E se o Supremo confirmar a condenação? Le Pen pode escolher uma batalha com os tribunais, alegando que já está a fazer campanha e que a justiça está a ser utilizada como arma contra a sua candidatura, prevê o Le Monde, apontando numa linha argumentativa que a extrema-direita já tem utilizado. Ou, nas palavras de Le Pen: “Logo vemos“.
“É melhor se for o Jordan a concorrer”. Eleitores querem ver o herdeiro de Le Pen no boletim
O Parlamento Europeu está reunido em Estrasburgo, para assinalar a tomada de posse da Irlanda na presidência rotativa do Conselho da União Europeia. Mas, como já se tornou comum, o presidente da família europeia dos Patriotas não está presente no plenário. Jordan Bardella está a cerca de 400 quilómetros, na sede da RN. Marine Le Pen ter-lhe-á pedido que não o acompanhe a tribunal para assistir à decisão do recurso. Os dois encontram-se finalmente por volta das 14h45 (menos uma hora em Lisboa), quando a líder parlamentar do partido regressa à sede para uma reunião com os quadros mais altos.
A lealdade de Bardella à sua mentora política — que tantas vezes o leva a falhar plenários em Estrasburgo — é reivindicada pelo próprio. Esta segunda-feira, o presidente da RN recorreu às redes sociais para deixar uma longa mensagem de apoio à sua antecessora, lembrando o primeiro encontro, quando tinha apenas 16 anos. “Ao longo dos anos, sob o olhar dos franceses, a Marine concedeu-me a sua confiança, o seu apoio incondicional e, depois, a sua amizade. Permitiu-me assumir responsabilidades que nunca teria imaginado exercer quando, ainda adolescente, decidi atravessar pela primeira vez a porta de um partido político”, pode ler-se na mensagem. “Não esqueço a quem devo ter encontrado o caminho do compromisso. E não esqueço as lutas que prometemos travar juntos“, acrescenta.
Apesar das juras de lealdade eterna e de não de ter demonstrado, ao longo dos últimos 14 meses, qualquer pretensão ao Eliseu, a verdade é que Jordan Bardella já não é o jovem de 16 anos à procura de rumo ou um político de 25 anos, recém escolhido como presidente de um dos maiores partidos franceses. Bardella lidera a RN há já cinco anos e foi sob a sua liderança que a extrema-direita conseguiu os melhores resultados de sempre, quer na Assembleia Nacional, quer no Parlamento Europeu.
Para muitos eleitores mais à direita, as presidenciais do próximo ano assumem-se como o completar de um ciclo de transição entre a liderança de Le Pen (pai e filha) e uma nova geração. “É melhor se for Jordan a concorrer. O nome Le Pen ainda assusta muita gente. Jordan devia ser o plano A. O novo autarca aqui tem 25 anos e é muito bom. Temos de dar espaço à malta nova, não aos velhos como eu”, afirmava Alain, um dentista reformado de 80 anos e eleitor da RN num bastião do partido, ao Le Parisien, na véspera da decisão do tribunal. “Jordan Bardella está a começar o seu caminho até ao topo, [Marine Le Pen] sabe que pode contar com ele”, afirmava por sua vez Marie-Pierre, lojista reformada de 73 anos, habitante de um outro bastião, ao Le Figaro.
Uma sondagem publicada no dia 26 de junho pelo IFOP (Institut Français d’Opinion Publique) revelou que Alain e Marie-Pierre não são os únicos eleitores da extrema-direita prontos para ver uma passagem de testemunho. Entre os eleitores inquiridos, 32% escolheu Marine Le Pen e entre 35%-37% escolheu Bardella. “Isto assinala um grande ponto de viragem“, apontou o diretor do IFOP, Frédéric Dabi. Apesar da vontade dos eleitores, também abundam as razões para Le Pen não passar o testemunho no que toca ao Eliseu.

Bardella e Le Pen. O “par vencedor” que supera cisões internas e eleições fragmentadas
A reunião na sede da RN durava há mais de duas horas quando surgiram as primeiras movimentações, com a saída, em silêncio, dos advogados de Marine Le Pen. No interior do edifício, Marine Le Pen, Jordan Bardella, as respetivas equipas, assessores e conselheiros multiplicam-se em reuniões, relatam várias fontes do partido aos repórteres no local. Os dois líderes saem apenas meia hora antes da entrevista planeada para a noite desta terça-feira.
Marine Le Pen aparece à porta, Jordan Bardella logo atrás — uma frente unida. Chegam juntos aos estúdios da TF1. E é aí que Le Pen garante: chegará ao Eliseu e nomeará Bardella como primeiro-ministro. São “um par vencedor”, assegura. Apesar de os dois líderes sempre terem mantido esta mesma imagem publicamente, a verdade é que se rodeiam, no seio do partido, de aliados muito diferentes — o que pode fazer com que a concentração de poder em Bardella não seja tão fácil de aceitar entre os membros da RN como junto dos eleitores.
“Há algum tempo que há duas fações dentro do partido, que discordam tanto em política internacional como económica”, expõe Jean-Yves Camus, diretor do Observatório para Radicalismo Político, ao Courrier International. No que toca a política internacional, Le Pen representa uma fação mais nacionalista e conservadora, enquanto Bardella se mostra mais atlanticista e aberto à colaboração com partidos europeus no mesmo espectro político. Já no campo económico, enquano “Le Pen recorre por vezes à intervenção estatal, por exemplo para prevenir o encerramento de uma fábrica, Bardella prefere transmitir uma mensagem pró-empresas e promete desregulação económica”, elabora o especialista.
Mas, na prática, a liderança da RN continua a ser bicéfala, dividida entre o presidente, Bardella, e o nome Le Pen, que continua a carregar enorme peso no seio do partido. A insistência de Le Pen neste “par” pode ser também uma estratégia política. Afinal, o arrastar do caso na justiça atrasou a seleção de um candidato e, neste momento, faltam apenas oito meses para ida às urnas. Qualquer tentativa de assumir as rédeas totais do partido resultaria numa alienação dos aliados das outras fações — isto já seria prejudicial em qualquer eleição, mas ainda mais numas eleições tão fragmentadas como as presidenciais do próximo ano. Entre uma esquerda e um centro divididos e a apresentação de múltiplas candidaturas em todos os espectros políticos, a frente unida da RN torna-se o seu ponto forte para cumprir o objetivo de chegar ao Eliseu.
“Esta não é altura para se chatearem uns com os outros”, aponta Clément Guillou, jornalista do Le Monde, responsável pela cobertura da extrema-direita. “A RN não tem um banco de suplentes muito vasto, para dizer o mínimo”, rematou.
Le Pen quer encorajar emancipação política de Jordan Bardella. Mas apenas no futuro
Desde 1981 que o apelido Le Pen apareceu nos boletins de voto em todas as eleições presidenciais. A tradição foi iniciada por Jean-Marie Le Pen e mantida por Marine, ao longo dos últimos três ciclos eleitorais. Nunca um Le Pen conseguiu chegar ao Eliseu, mas as sondagens indicam que, apesar de uma preferência dos eleitores por Bardella, Marine Le Pen também está bem encaminhada nessa direção.

Apesar da longa história da UN, há tradições com as quais Marine Le Pen prometeu romper. Uma delas é a de continuar como uma sombra sobre a liderança de Bardella. “Nunca na minha vida achei estar na posição de uma guardiã. Eu deixo o Jordan total e absolutamente livre”, garantiu, na entrevista ao LCI na semana passada, em que admitiu que o oposto aconteceu com o pai que, depois de passar o testemunho, se manteve ainda assim, “extremamente presente nas [suas] decisões”. “Não vou fazer a mesma coisa ao Jordan“, rematou.
As promessas de Le Pen parecem depender, contudo, de jogos de palavras. Depois de prometer não fazer campanha com pulseira eletrónica, anuncia a candidatura, apoiando-se numa possível absolvição no Supremo. E depois de prometer que iria encorajar a emancipação política de Jordan Bardella, mantém agora a sua posição como um igual, um par.
Mas isso não quer dizer que Jordan Bardella no Palácio do Eliseu não seja o plano a longo prazo da RN. A própria Marine Le Pen já afirmou que encorajaria uma candidatura do seu protegido político à Presidência. Mas, aos 40, não aos 30 anos. E, nas entrelinhas, de preferência depois de ela própria já ter ocupado o mais alto de Estado. Primeiro, Bardella pode dedicar-se “apenas” a liderar um Governo, concedeu a agora oficialmente candidata à Presidência da República.