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(A) :: Foi aos Jogos de Hitler, levou o futebol a África, não escapou ao escândalo: João Havelange, o homem que tornou a FIFA no que é hoje

Foi aos Jogos de Hitler, levou o futebol a África, não escapou ao escândalo: João Havelange, o homem que tornou a FIFA no que é hoje

Foi presidente da FIFA durante 24 anos e pegou numa organização falida e amadora para a tornar profissional e multimilionária. A história de João Havelange, um dos mais poderosos do seu tempo.

Mariana Fernandes
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A história do futebol mundial confunde-se com a história de João Havelange. Mais: a história do século XX confunde-se com a história de João Havelange. Nascido no Rio de Janeiro, um de três filhos de uma família belga que emigrou para o Brasil, foi presidente da FIFA durante 24 anos e o grande responsável pela transformação de uma organização falida e amadora numa multinacional milionária com poder ilimitado.

https://observador.pt/2016/08/16/morreu-joao-havelange-ex-presidente-da-fifa/

Começou por jogar futebol, mudou-se para a natação por ordem do pai e foi nas piscinas que foi aos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936, aqueles que Adolf Hitler utilizou como uma gigantesca ferramenta de propaganda do Terceiro Reich. Licenciou-se em Direito, foi presidente de uma empresa rodoviária durante décadas e chegou a presidente da Confederação Brasileira dos Desportos antes dos 40 anos. Daí, já como membro vitalício do Comité Olímpico Internacional, saltou para presidente da FIFA – à boleia de uma campanha de anos, com centenas de viagens e o apoio financeiro e político da ditadura militar brasileira.

João Havelange teve o segundo mandato mais longo da história da FIFA, apenas atrás dos 33 anos de liderança de Jules Rimet, e revolucionou a organização. Tornou-a verdadeiramente global, criou os Mundiais de Sub-17, Sub-20 e feminino, integrou África, Ásia e América Central e usou o marketing, os patrocínios e a publicidade para tornar o organismo num dos mais poderosos do mundo. Viveu 100 anos e morreu durante os Jogos Olímpicos do Rio que ajudou a levar para o Brasil – já depois de traído por si mesmo, graças a um escândalo de corrupção que o levou a abdicar de todos os cargos honorários ainda em vida.

O brasileiro filho de belgas que trocou o futebol pela natação

João, na verdade, era Jean-Marie Faustin Godefroid de Havelange. Natural do Rio de Janeiro, onde nasceu em maio de 1916, era filho de ricos emigrantes da Bélgica e acabou por aportuguesar o nome à boleia dos amigos da escola, que depressa trocaram o francófono Jean-Marie pelo muito mais leve João. Foi como João Havelange, um nome que não tinha, que se tornou um dos homens mais poderosos do século XX.

Para explicar a história de João Havelange, porém, é preciso explicar a história do pai de João Havelange. Faustin Havelange nasceu em Liège e era engenheiro de minas, tendo passado uma década a dar aulas na Universidade de São Marcos em Lima, a capital do Peru. Quando regressou à Bélgica, onde já tinha sido um dos sócios fundadores do Standard Liège, conheceu e casou com Juliette, a mãe dos três filhos que acabaria por ter. Quando teve de voltar em trabalho à América do Sul, o destino tocou-lhe: por minutos, falhou a partida no Titanic, o navio que acabaria por naufragar em pleno Atlântico.

Ainda assim, não perdeu a vontade. Depois de trabalhar para a United States Steel no Rio de Janeiro, construiu uma carreira impressionante a colaborar com a Société Française des Munitions, entrando no mercado das armas em plena Primeira Guerra Mundial, e acabou por decidir levar a mulher para o Brasil. Já rico, comprou um terreno que ia das Laranjeiras a Santa Teresa, ocupando também parte de Cosme Velho, e tornou-se uma figura da alta sociedade carioca. Quando nasceu, anos depois de os pais deixarem a Bélgica para abraçarem o Brasil, João Havelange já era parte de uma verdadeira elite da Cidade Maravilhosa.

Cresceu a poucos metros do recém-fundado Fluminense Futebol Clube, que o pai tinha ajudado a erguer depois de já ter feito o mesmo com o Standard Liège na Bélgica. De forma natural, começou a jogar futebol naquele que acabaria por se tornar um dos principais clubes do Rio de Janeiro, sendo central e capitão de várias equipas das camadas jovens. Quando se colocou a possibilidade de subir à equipa principal, porém, o futebol brasileiro estava a debruçar-se na óbvia necessidade de profissionalizar a classe – algo que não só permitia um claro elevador social como apagava as discrepâncias de direitos e deveres entre dirigentes e jogadores, ou seja, entre proprietários e trabalhadores. Nessa altura, Faustin proibiu João de continuar a jogar futebol. Estava na hora de se dedicar a um desporto de classe alta.

Quando regressou à Bélgica, onde já tinha sido um dos sócios fundadores do Standard Liège, conheceu e casou com Juliette, a mãe dos três filhos que acabaria por ter. Quando teve de voltar em trabalho à América do Sul, o destino tocou-lhe: por minutos, falhou a partida no Titanic, o navio que acabaria por naufragar em pleno Atlântico.

A modalidade eleita foi a natação. “Não sei como é que aconteceu, mas de repente houve algo que explodiu dentro de mim. Comecei a ganhar. Ganhava as competições todas. Queria completar os desejos do meu pai e houve um dia em que as minhas capacidades explodiram e comecei a ganhar”, contou décadas mais tarde. Venceu três vezes a travessia a nado do rio Tietê, que atravessa praticamente todo o Estado de São Paulo, e nadava cerca de 10 mil metros por dia para se manter em forma e não acrescentar peso ao mais de metro e oitenta que teve até ao final da vida.

Por tudo isto, foi com naturalidade que em 1936 e com apenas 20 anos viajou para a Alemanha para participar nos Jogos Olímpicos de Berlim – aqueles que serviram como uma brutal manobra de propaganda de Adolf Hitler, mas onde o norte-americano negro Jesse Owens acabou por chocar o Terceiro Reich. Não passou das eliminatórias tanto nos 400 como nos 1.500 metros livres e ficou encantado com a sociedade alemã, desde as óperas à arte e passando por toda a organização dos Jogos Olímpicos.

Em sentido contrário, ficou chocado com a ausência de apoio que os atletas brasileiros tiveram por parte do Comité Olímpico Brasileiro. Na verdade, nunca negou um mito que se tornou uma lenda urbana: os atletas olímpicos brasileiros teriam sido deixados à mercê da própria sorte na Alemanha, sem dinheiro suficiente para comer e para os transportes, e acabaram por reunir fundos ao entrar em combates de boxe a dinheiro. Segundo relatos, João Havelange entrou no ringue, perdeu por K.O., mas ficou com o dinheiro.

Depois dos Jogos Olímpicos e até por sempre ter sido um aluno acima da média, dedicou-se aos estudos e licenciou-se em Direito na Universidade Federal Fluminense. Mudou-se para São Paulo depois de terminar o curso e começou a trabalhar na Auto Viação Jabaquara, uma empresa rodoviária, tornando-se também sócio da Orwec Química e Metallurgia. Mas foi quando assumiu a presidência da Viação Cometa, cargo que ocupou durante mais de 60 anos, que tudo mudou.

Com a construção de uma auto-estrada entre São Paulo e o Rio de Janeiro, João Havelange tornou-se precisamente o responsável por essa ligação dentro da Viação Cometa e conseguiu voltar a viver na cidade em que nasceu. Em São Paulo, já se tinha apaixonado pelo pólo aquático, que começou a praticar no Esperia, e não demorou a assumir a secção de Desportos Aquáticos do Botafogo, primeiro, e até a Federação Nacional de Desportos Aquáticos, depois. Em 1952, 16 anos depois de ter estado na Berlim de Hitler, voltou aos Jogos Olímpicos como membro da equipa brasileira de pólo aquático que ficou em 13.º em Helsínquia. Quatro anos depois, em Melbourne, foi o chefe da missão olímpica do Brasil.

Foi nesta fase, em plena década de 50, que João Havelange percebeu que poderia fazer a diferença enquanto agente ativo do desporto brasileiro – e, quem sabe, internacional. Entrou na Confederação Brasileira de Desportos como vice-presidente de Sílvio Pacheco e em 1957, quando o presidente apresentou a demissão, subiu ao lugar mais importante do desporto do Brasil. Tinha pouco mais de 40 anos e, como acabou por mostrar, um mundo inteiro de planos para pôr em prática.

O tricampeonato do Brasil de Pelé e o all in para chegar à FIFA

Na altura, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) reunia todas as federações de todas as modalidades – só em 1979, quase 20 anos depois de João Havelange assumir a presidência do organismo, é que a Confederação foi desmantelada e deu origem às federações independentes de cada modalidade, incluindo a atual Confederação Brasileira de Futebol. Nos anos 50, porém, Havelange já era o homem-forte do futebol brasileiro ao ser o presidente da Confederação Brasileira de Desportos.

Na antecâmara do Campeonato do Mundo de 1958, que seria disputado na Suécia, a ideia era simples: construir uma seleção forte, organizada, bem liderada e com recurso às plataformas mais avançadas para poder realmente competir pelo troféu. Para tudo isso, contou com as amizades que tinha feito ao longo da vida, principalmente durante os tempos em que viveu em São Paulo, com empresários, banqueiros e magnatas que estavam prontos para investir dinheiro no futebol. Mais tarde, quando quis candidatar-se à presidência da FIFA, João Havelange telefonou exatamente às mesmas pessoas.

Foi nesta fase, em plena década de 50, que João Havelange percebeu que poderia fazer a diferença enquanto agente ativo do desporto brasileiro – e, quem sabe, internacional. Entrou na Confederação Brasileira de Desportos como vice-presidente de Sílvio Pacheco e em 1957, quando o presidente apresentou a demissão, subiu ao lugar mais importante do desporto do Brasil.

“Os meus pais lembraram-me sempre do valor dos amigos. Enquanto cresci, os meus pais lembraram-me sempre de que a amizade era algo para ser respeitado e mantido. E esse valor, o respeito, foi outro princípio que também aprendi desde muito jovem. Fosse a pessoa mais importante no topo do escadote ou a pessoa mais abaixo que precisa de ajuda com os seus problemas… A honestidade é algo que sempre respeitei ao longo da vida e em tudo aquilo que fiz”, destacou numa entrevista à Folha de S. Paulo.

Para 1958, montou uma verdadeira operação de guerra – que ficou conhecida como Plano Paulo Machado de Carvalho, o diretor de futebol da CBD. Conseguiu um financimento junto de Nélson Vaz Moreira, o presidente do Banco Comercial do Estado de São Paulo, e contratou dentistas, médicos e psicólogos para acompanharem a comitiva na Suécia. Organizou um estágio em Minas Gerais que durou praticamente um mês e, no Campeonato do Mundo, Pelé, Garrincha, Vavá e o futuro selecionador Mário Zagallo, orientados por Vicente Feola, tornaram o Brasil campeão do mundo pela primeira de cinco vezes.

Quatro anos depois, o feito repetiu-se no Chile – com direito à que ficou conhecida como “uma das cartolagens mais festejadas da história do futebol brasileiro”. Num episódio muito recordado nos últimos dias pelas semelhanças com o que aconteceu entre Donald Trump e Gianni Infantino relativamente à suspensão do norte-americano Folarin Balogun, Paulo Machado de Carvalho interveio diretamente junto da FIFA para que Garrincha, que tinha sido expulso na meia-final precisamente contra os chilenos, pudesse jogar a final. Com a ajuda de Tancredo Neves, primeiro-ministro brasileiro, e o inexplicável “desaparecimento” do árbitro assistente Esteban Marino que era a única testemunha da expulsão, Garrinha jogou mesmo a final de Santiago contra a Checoslováquia. O Brasil ganhou e sagrou-se bicampeão mundial.

No ano seguinte, João Havelange alcançou aquela que descreveu sempre como uma das maiores honras da sua vida e foi eleito membro vitalício do Comité Olímpico Internacional. Em 1968, dois anos antes de levar o Brasil à conquista do terceiro Campeonato do Mundo no México, começou a posicionar-se para se candidatar à presidência da FIFA. Ao longo dos seis anos seguintes, até ser finalmente eleito em 1974, juntou apoios, viajou mais do que qualquer outro e percebeu algo simples: o mundo tinha mudado, mas o organismo que regulava o futebol internacional parecia ter parado no tempo pré-Segunda Guerra Mundial.

Nos últimos dias da Segunda Guerra, a Europa tinha mais de metade dos assentos da FIFA. Em 1974, quando João Havelange foi eleito, tinha menos de um terço. O fim de muitos regimes imperialistas, a descolonização e as independências em catadupa tanto em África como na Ásia criaram novas nações, novos países e novas identidades – algo a que Stanley Rous, o britânico que era o presidente da FIFA desde 1961, parecia incapaz de reagir.

Para ser eleito, o brasileiro percebeu que tinha de reunir o apoio dos países africanos e asiáticos – que, no Mundial de 1966, tiveram direito a uma única vaga, ocupada pela Coreia do Norte. Começou por condenar oficial e publicamente o apartheid da África do Sul, que Stanley Rous continuava a ratificar, defendeu o regresso da China à FIFA e prometeu o aumento da representatividade de nações da América Central, de África e da Ásia.

Visitou cerca de 100 países entre 1971 e 1974, focando-se essencialmente em África e no forte movimento da descolonização do continente, e tornou-se o primeiro líder ocidental a dar relevância diplomática a países acabados de fundar. No pico da campanha eleitoral, na antecâmara das eleições que aconteceram em Frankfurt, chegou a visitar 86 países em apenas dez semanas. Ao seu lado, estava quase sempre Pelé, que funcionava como autêntico embaixador do futebol brasileiro e espalhava autógrafos e sorrisos que colavam o então melhor jogador de sempre ao homem que queria ser o dono do futebol mundial.

Tudo isto, contudo, custava muito dinheiro – mais especificamente, de acordo com contas da ESPN, 500 mil libras, uma autêntica fortuna no início dos anos 60. Sempre bem relacionado, João Havelange convenceu a então ditadura militar do Brasil de que a sua eleição seria uma verdadeira vitória geopolítica do país e contou com o apoio oficial do regime, que financiou voos e logística e usou o corpo diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros para abrir todas as portas necessárias.

Em 1968, dois anos antes de levar o Brasil à conquista do terceiro Campeonato do Mundo no México, começou a posicionar-se para se candidatar à presidência da FIFA. Ao longo dos seis anos seguintes, até ser finalmente eleito em 1974, juntou apoios, viajou mais do que qualquer outro e percebeu algo simples: o mundo tinha mudado, mas o organismo que regulava o futebol internacional parecia ter parado no tempo pré-Segunda Guerra Mundial.

Nesta altura, reapareceram os amigos: incluindo Ney Carvalho, corretor e acionista de várias empresas, que o acompanhou em viagens à Austrália, ao Líbano e a Israel, e também António Carlos de Almeida Braga, futuro presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Na verdade, toda a elite empresarial brasileira colocou todos os recursos possíveis na campanha de João Havelange, passando a ideia de que a vitória seria um triunfo coletivo e de que o investimento iria ter retorno em forma de prestígio, poder e orgulho.

Com o pretexto dos 150 anos da independência do Brasil, João Havelange organizou ainda a chamada Minicopa, um pequeno torneio com várias seleções estrangeiras, estendendo convites aos países africanos e asiáticos que eram ignorados pela FIFA. Levou dirigentes à novíssima Brasília, apresentou-os ao então ministro da Educação e Cultura e desenvolveu uma autêntica operação de charme que lhe garantiu os votos necessários para ser eleito. Para o ajudar, tinha uma cábula: no escritório, tinha uma parede totalmente coberta com as fotografias de todos os presidentes de todas as federações de futebol do mundo. Passava horas a memorizar os rostos para que, quando e se os encontrasse em aeroportos, eventos ou noutro sítio qualquer, pudesse tratá-los imediatamente pelo primeiro nome e perguntando pela família.

Em 1974, venceu Stanley Rous por 16 votos e foi eleito o sétimo presidente da FIFA – o primeiro e ainda único não europeu a ocupar o cargo de dono e senhor do futebol mundial.

24 anos que tornaram uma organização falida numa multinacional milionária

Quando foi eleito presidente da FIFA, João Havelange fez três promessas principais: aumentar o número de países que participavam no Campeonato do Mundo, criando mais vagas para África, Ásia e América Central; fundar Campeonatos do Mundo de Sub-17 e Sub-20, que podiam ser organizados precisamente nesses países em desenvolvimento; e “vender um produto chamado futebol”, distribuindo depois todas as receitas por todos os países.

Ao longo dos 24 anos que passou à frente do organismo que regula o futebol mundial, de 1974 a 1998, cumpriu as promessas. E conseguiu superá-las, criando também o Campeonato do Mundo de futebol feminino, alargando o Mundial de 16 para 24 países, chegando aos 32 em 1998 e com o que está já a decorrer, nos EUA, no México e no Canadá, a contar com 48, e tornando o que era uma federação amadora e quase exclusivamente europeia numa multinacional multimilionária, abrindo portas ao marketing global e à necessária geopolítica que era um meio para atingir fins.

Quando chegou à liderança da FIFA, a meio dos anos 70, João Havelange conhecia profundamente o mundo que o rodeava: ainda ferido pela Segunda Guerra Mundial, com países novos em praticamente todos os continentes e uma Guerra Fria latente entre o bloco ocidental e o bloco de leste. Habituado a contornar as restrições impostas pela ditadura militar no Brasil e a utilizá-la para benefício próprio, tornou-se um mestre a fechar os olhos ao que se passava dentro das fronteiras de cada país para manipular os líderes e contar com os apoios necessários para alcançar tudo o que pretendia.

Um dos casos mais paradigmáticos, naturalmente, é o facto de o primeiro Campeonato do Mundo sob o comando do brasileiro ter acontecido na Argentina – numa Argentina que, em 1978, levava dois anos de uma ditadura militar imposta pelo general Jorge Rafael Videla. Enquanto todas as organizações internacionais de direitos humanos denunciavam os milhares de desaparecidos e torturados pelo regime e pediam o boicote ou até a mudança de país-anfitrião do Mundial, João Havelange foi tentando defender Videla e as sombras da ditadura para proteger o plano inicial.

O então presidente da FIFA chegou mesmo a dizer que a Argentina era “um país de paz” e que o mundo teria a oportunidade de “ver finalmente a verdadeira imagem do país”. No fim do Campeonato do Mundo, que os próprios argentinos conquistaram em casa e à boleia dos seis golos de Mario Kempes, João Havelange foi condecorado pelo próprio Jorge Videla. Anos mais tarde, confrontado com a autêntica lavagem política que fez e permitiu, foi objetivo: “Videla cumpriu tudo o que prometeu”.

O exemplo da Argentina serve para ilustrar toda a abordagem geopolítica que o brasileiro teve durante mais de duas décadas à frente da FIFA. Criou uma espécie de ONU privada, entendendo que o futebol tinha mais poder de mobilização, união e globalização de massas do que qualquer ideologia política. Se existisse a garantia de estádios cheios, seguranças para os investidores e patrocinadores e o voto, era indiferente se a promessa partia de um rei, de um presidente, de um ditador ou de um primeiro-ministro.

Quando chegou à liderança da FIFA, a meio dos anos 70, João Havelange conhecia profundamente o mundo que o rodeava: ainda ferido pela Segunda Guerra Mundial, com países novos em praticamente todos os continentes e uma Guerra Fria latente entre o bloco ocidental e o bloco de leste.

Tornou-se íntimo da família real da Arábia Saudita, onde era recebido com honras protocolares de chefe de Estado, escoltas militares e banquetes palacianos, e convenceu os monarcas a financiar do próprio bolso tanto as primeiras Taças das Confederações como os primeiros Mundiais Sub-20 – um deles conquistado por Portugal, em Riade, em 1989. Defendeu sempre a reintegração da China na FIFA, negociando diretamente com Pequim e acabando por expulsar Taiwan. Foi mantendo a África do Sul suspensa de todas as competições devido ao apartheid, garantindo o respeito eterno dos restantes países africanos. E em 1998, já perto de sair do cargo, ainda conseguiu que a Palestina se tornasse membro-oficial da FIFA, algo que ainda se mantém.

Pelo meio, fez amizades poderosas e influentes, chegando a trocar cartas com Henry Kissinger ou com o próprio Papa João Paulo II, com quem se encontrou em mais do que uma ocasião. Visitou todos os 186 países que faziam parte da FIFA durante os seus mandatos, passando cerca de 27 mil horas, o equivalente a três anos inteiros, no ar. Aproveitava o tempo para responder às milhares de cartas que recebia, desde ilustres políticos, atletas e celebridades a completos anónimos, garantindo que ninguém ficava sem resposta.

“Se alguém me escreve deve ser por uma razão. O mínimo que posso fazer é demonstrar o meu respeito com essa pessoa e sempre fiz assim. Enquanto estive na CBD e na FIFA escrevia mais ou menos seis mil cartas por ano. Escrevessem de onde escrevessem, fossem pessoas do desporto ou não. A cada ano, no Natal, envio mais ou menos duas mil cartas de resposta. Mas não é aquela carta pronta, protocolar. Faço um texto para cada pessoa e assino, para demonstrar respeito. E não é batido à máquina, é à mão”, explicou numa entrevista à Folha de S. Paulo.

Era uma questão de educação, dizia, utilizando a mesma justificação para o facto de nunca “perder a compostura”. “Procurei sempre disciplinar-me e colocar-me dentro da responsabilidade que tinha. Era uma forma de manter o respeito e a dignidade do cargo. Há uma história: na abertura do Mundial de 1994, em Chicago, fazia um calor imenso. Na tribuna estávamos eu, o [Bill] Clinton, o Helmut Kohl e o presidente da Bolívia, porque o jogo era entre a Alemanha e a Bolívia. Tiraram todos os casacos, arregaçaram as mangas. Eu estava de fato e de fato fiquei. Ao intervalo perguntaram-me se não tinha calor. Respondi: ‘Habituei-me a não sentir nem frio nem calor'”, contou na mesma entrevista, onde também revelou que nunca fumou e que só bebia um copo de vinho por cortesia, em jantares protocolares ou em casa de alguém.

Mas a revolução de João Havelange foi muito além do xadrez da geopolítica internacional. Quando chegou à FIFA, encontrou uma organização falida, que funcionava a partir de um prédio na Suíça e tinha 12 trabalhadores, numa estrutura absolutamente amadora. Mal venceu as eleições, percebeu que precisava de um parceiro que o ajudasse a dar credibilidade à FIFA – ou seja, que o ajudasse a angariar os milhões necessários para cumprir tudo aquilo que tinha prometido aos países que lhe garantiram a eleição.

O homem escolhido acabou por ser mais óbvio do que o expectável: Horst Dassler, filho mais velho de Adolf Dassler, o fundador da Adidas, e o verdadeiro estratega da marca alemã. Partilhavam a mesma visão comercial e algo amoral do mundo e, juntos, perceberam que a independência da FIFA passava por deixar de depender do dinheiro dos governos ou da bilhética dos jogos e passar a ser financiada por grandes empresas privadas multinacionais. Para lá chegarem, precisavam de um cérebro do marketing.

Bateram à porta de Patrick Nally, considerado o pai do marketing desportivo moderno que na altura era apenas o dono da West Nally, uma agência de comunicação com sede em Londres. Havelange, Dassler e Nally, o triângulo responsável pela revolução que modernizou o futebol mundial, alcançaram o primeiro passo nesse sentido através da Coca-Cola. A ideia proposta à marca foi simples: ao invés de patrocinar apenas uma competição ou colocar publicidade estática num estádio, assinaria o primeiro grande contrato de patrocínio global e exclusivo da história do desporto.

A Coca-Cola aceitou e investiu um valor sem precedentes, cerca de oito milhões de dólares, para financiar o recém-criado programa de desenvolvimento juvenil da FIFA, o “Projeto Goal!”. Em contrapartida, garantia o monopólio absoluto das bebidas em qualquer evento da FIFA em qualquer país do mundo. Havelange usou o dinheiro para enviar treinadores, médicos e equipamentos para os países em desenvolvimento, cimentando a dívida de gratidão e lealdade que o mantiveram no poder durante mais de duas décadas, e Nally inventou o conceito de “patrocinador oficial”, que esvaziou os estádios de anúncios pequenos, dispersos e não rentáveis e que, naturalmente, também se estendeu à Adidas até aos dias de hoje.

Quando chegou à FIFA, encontrou uma organização falida, que funcionava a partir de um prédio na Suíça e tinha 12 trabalhadores, numa estrutura absolutamente amadora. Mal venceu as eleições, percebeu que precisava de um parceiro que o ajudasse a dar credibilidade à FIFA – ou seja, que o ajudasse a angariar os milhões necessários para cumprir tudo aquilo que tinha prometido aos países que lhe garantiram a eleição.

Ao mesmo tempo, numa decisão natural e óbvia que era o espelho físico e literal do crescimento da FIFA, João Havelange ordenou a criação de uma verdadeira e digna sede em Zurique – deixando Joseph Blatter, então secretário-geral e futuro sucessor, como responsável pelo projeto. O novo complexo apareceu no topo da colina de Sonnenberg, já com condições para receber chefes de Estado, presidentes de federações e diretores de multinacionais, e foi a antecâmara da chamada “Home of FIFA”, a sede atual que também fica em Zurique e que foi inaugurada já sob a liderança de Blatter, em 2008.

“O Havelange viu o futuro. Ele sabia que ao tornar-se presidente da única federação que já tinha um Campeonato do Mundo ‘high profile’ iria ter um poder económico brutal. O dinheiro que apareceu na FIFA por causa da Coca-Cola mudou a cara do organismo. Ele começou a construir a nova sede em Zurique, contratou profissionais de relações públicas, pessoas para as finanças. A FIFA estava a mostrar o caminho e as outras federações estavam a assistir”, destacou Patrick Nally há alguns anos.

Em 1987, os direitos televisivos europeus dos três Mundiais seguintes foram vendidos por 440 milhões de dólares; em 1998, os direitos televisivos europeus dos três Mundiais seguintes foram vendidos por 2,2 mil milhões de dólares. Nas mais de duas décadas em que esteve à frente da FIFA, colocou competições de Sub-17, Sub-20 e femininas em países em desenvolvimento, garantiu a realização do primeiro Campeonato do Mundo na Ásia com o Coreia-Japão de 2002 e tornou o futebol numa verdadeira potência económica, financeira e social em praticamente todo o mundo.

João Havelange acabou por deixar a FIFA em 1998, aos 82 anos e depois de 24 como presidente do organismo, entregando a sucessão pacífica e de continuidade a Joseph Blatter, o seu verdadeiro braço-direito. Usou toda a influência que ainda tinha para garantir a eleição de Blatter contra Lennart Johansson, então presidente da UEFA, e há relatos de delegados africanos que receberam 50 mil dólares dentro de envelopes nos corredores dos hotéis de Paris na véspera do sufrágio. Blatter ganhou, Havelange protegeu o legado e ficou como presidente honorário e perpétuo da FIFA. O pior, porém, ainda estava por chegar.

Os escândalos que mancharam um legado – e abriram a porta à derrocada do herdeiro

No início dos anos 80, João Havelange e Horst Dassler acabaram por rasgar o triângulo com Patrick Nally, afastando o britânico e fundando a International Sport and Leisure (ISL) em parceria com a Dentsu, uma empresa de publicidade japonesa. A ISL era tecnicamente externa à FIFA, mas operava em total simbiose com o organismo e era completamente controlada por Havelange e Dassler: funcionava como uma espécie de intermédiária poderosa, com uma estrutura jurídica privada e aparentemente independente para gerir o dinheiro que estava a entrar como uma cascata no futebol, longe dos olhos dos comités e das auditorias oficiais da organização.

Basicamente, a ISL comprava à FIFA os direitos globais dos Campeonatos do Mundo, tanto os direitos televisivos como os pacotes de publicidade nos estádios, por um valor fixo. Depois, revendia esses mesmos direitos a canais de televisão ou multinacionais, como a Coca-Cola e a McDonald’s, por valores brutalmente mais altos. O lucro gigantesco da operação ficava nos cofres da FIFA, naturalmente, e nas mãos dos principais parceiros do organismo.

Foi a partir da ISL que o castelo de cartas que João Havelange tinha construído ao longo de mais de 20 anos na FIFA acabou por ruir. Em maio de 2001, a ISL declarou falência e assumiu dívidas acumuladas que superavam os 300 milhões de dólares, justificando o buraco financeiro com maus investimentos noutras modalidades, como ténis e automobilismo, e também enormes desvios de dinheiro.

A ISL era tecnicamente externa à FIFA, mas operava em total simbiose com o organismo e era completamente controlada por Havelange e Dassler: funcionava como uma espécie de intermédiária poderosa, com uma estrutura jurídica privada e aparentemente independente para gerir o dinheiro que estava a entrar como uma cascata no futebol, longe dos olhos dos comités e das auditorias oficiais da organização.

Em maio de 2006, o jornalista Andrew Jennings lançou o livro “Foul! The Secret World of FIFA: Bribes, Vote-Rigging and Ticket Scandals”, onde implicava João Havelange no colapso da ISL e alegava que o presidente da FIFA, assim como o genro Ricardo Teixeira que tinha sido presidente da Confederação Brasileira de Futebol, tinha recebido mais de 40 milhões de dólares em subornos para atribuir contratos de publicidade exclusivos e direitos televisivos preferenciais. As acusações não eram novas e até já tinham causado um arrufo entre Havelange e Pelé nos anos 90, quando o antigo jogador defendeu que Ricardo Teixeira era corrupto, mas nunca tinham tido tanto sustento de provas e justificações.

Em 2011 e depois de o programa “Panorama”, da BBC One, dedicar um episódio inteiro às acusações de corrupção feitas a João Havelange, o Comité de Ética do Comité Olímpico Internacional anunciou que iria lançar uma investigação ao caso. Ciente de que iria ser afastado do organismo de que fazia parte desde os anos 60, o brasileiro demitiu-se do cargo de membro vitalício, alegando motivos de saúde. Dois anos depois, quando o Comité de Ética da FIFA publicou o Relatório Eckert, que concluía oficialmente que o antigo presidente tinha recebido subornos milionários, numa conduta “moral e eticamente reprovável”, Havelange poupou-se à humilhação de ser expulso do organismo a que dedicou a vida e demitiu-se da posição de presidente honorário.

O esquema de corrupção que deixou como legado, uma espécie de normalização do suborno, tem sido recorrentemente utilizado para explicar o que acabou por ficar conhecido como “FIFAgate”, o escândalo que rebentou em 2015 e que culminou na detenção de sete dirigentes da FIFA e na demissão de Joseph Blatter do cargo de presidente. Quanto a João Havelange, morreu aos 100 anos, em agosto de 2016 e durante os Jogos Olímpicos do Rio que ele próprio ajudou a levar para o Brasil – e com mais de mil condecorações de Estado guardadas na primeira gaveta da secretária, incluindo a Ordem do Infante D. Henrique.

[Já saiu o segundo episódio de “O Candidato Perfeito”. Em “Câmara Lenta”, José Valbom acorda num armazém, vigiado por homens que falam russo. Os inspetores seguem o rasto de um carro preto. A polícia aperta o cerco, mas o tempo está a esgotar-se. Este novo podcast de ficção do Observador, em parceria com a Coyote Vadio, é a continuação da história de “O Zé faz 25”. Conta com as vozes de José Raposo, Tiago Teotónio Pereira, Madalena Almeida, Vera Moura, Paulo Calatré, Susana Brandão, Sara Matos, Fábio Baptista, Pedro Laginha e Carla Andrino. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]