A urgência regional de Ginecologia/Obstetrícia da Península de Setúbal — que deveria estar a funcionar em pleno a receber grávidas que façam contacto prévio com a linha SNS Grávida depois da concentração de recursos operada em abril — tem vindo a registar vários constrangimentos ao longo dos últimos dias. Desde domingo à tarde e até segunda-feira de manhã, o polo principal da urgência regional, que se situa no hospital Garcia de Orta (em Almada), esteve apenas a receber grávidas encaminhadas pelo Centro de Orientação de Doentes Urgentes do INEM. Uma situação que se repetiu na madrugada desta terça-feira. Em causa, confirma o hospital, está a falta de médicos para completar as escalas.
“A Unidade Local de Saúde Almada-Seixal (ULSAS) confirma a informação pública que consta do portal das urgências. Entre as 16h30 de domingo, 5 de julho, e as 8h30 desta segunda-feira, 6 de julho, a Urgência de Ginecologia e Obstetrícia esteve referenciada ao CODU/INEM. A referenciação ao CODU/INEM deveu-se a constrangimentos imprevistos na escala de urgência“, referiu a ULS em resposta enviada ao Observador ao final da tarde desta segunda-feira. Consultando o portal dos serviços de urgência do SNS, percebe-se que a urgência voltou a estar limitada (com referenciação ao CODU) entre as 00h e as 8h desta terça-feira, dia 7 de julho.
Contactada para se pronunciar sobre os constrangimentos da urgência centralizada de Ginecologia/Obstetrícia da Península de Setúbal, a Direção Executiva do SNS não respondeu.
Na madrugada de segunda-feira, entre as 00h e as 8h, nenhum serviço de urgência de Ginecologia/Obstetrícia da Península de Setúbal esteve a funcionar em pleno. Com a urgência externa do hospital do Barreiro fechada desde abril, o outro polo da urgência regional — o hospital de São Bernardo, em Setúbal — esteve também apenas com referenciação para grávidas encaminhadas pelo CODU nesse período. Ou seja, entre as 00h e as 8h de segunda-feira nenhuma urgência da Península de Setúbal esteve a funcionar sem limitações, o que obrigou ao encaminhamento de grávidas para Lisboa, confirma fonte hospitalar da Península de Setúbal.
Constrangimentos obrigam a encaminhar grávidas para Lisboa
“O hospital Garcia de Orta tem tido vários constrangimentos e, nestas situações, as grávidas são enviadas ou para Lisboa ou para a privada“, diz a mesma fonte. Também o presidente do Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar (STEPH), Rui Lázaro, confirma que “o encaminhamento de grávidas para hospitais de Lisboa tem acontecido nos últimos dias”, sublinhando que a concentração de urgências foi feita sem um reforço efetivo no número de ambulâncias na região.
Em resposta ao Observador, o INEM sublinha que durante o primeiro período em que houve constrangimentos no polo da urgência regional localizado no Garcia de Orta, ou seja, entre domingo e segunda-feira, “as grávidas foram assistidas e encaminhadas, caso a caso, para a unidade hospitalar da rede do SNS que, em cada momento, apresentava as melhores condições para assegurar a resposta clínica adequada, após avaliação realizada pelo CODU/INEM e em articulação com a rede hospitalar”. Embora o INEM não o refira expressamente, quando não há disponibilidade na Península de Setúbal, as grávidas são, na maioria das vezes, encaminhadas para as maternidades da cidade de Lisboa.
https://observador.pt/especiais/urgencia-centralizada-no-garcia-de-orta-com-quatro-obstetras-e-seis-enfermeiros-do-barreiro-escalas-estao-no-limite/
A urgência centralizada de Ginecologia/Obstetrícia na Península de Setúbal arrancou a 15 de abril, concentrando a resposta em dois polos: no hospital Garcia de Orta (que conta com um serviço de apoio perinatal diferenciado e que se prevê que dê também resposta às utentes da área de influência da ULS do Arco Ribeirinho, que abarca o hospital do Barreiro) e no hospital de São Bernardo (que se previa poder dar resposta a toda a população da sua área de influência e ainda ao litoral alentejano, até Sines).
À data, o diretor-executivo do SNS justificava a medida com a falta de profissionais. “Devido à escassez de profissionais especializados, situação que tem vindo a comprometer o funcionamento dos serviços de urgência na região da Península de Setúbal, foi necessário cimentar uma solução integrada que permita garantir, não só, a atividade assistencial, mas também assegurar uma maior previsibilidade às utentes”, explicava Álvaro Almeida, sublinhando que a concentração de urgências iria acabar com a instabilidade no atendimento às utentes na península. “Com a centralização da urgência em Ginecologia e Obstetrícia, elimina‑se a anterior instabilidade no funcionamento destes serviços na região“, assegurava o responsável.
No entanto, menos de três meses depois do início de funcionamento da urgência regional, os problemas que afetaram as urgências obstétricas na Península de Setúbal estão de regresso, mesmo depois da transferência de alguns dos profissionais do hospital do Barreiro para reforçarem as escalas no Garcia de Orta. No entanto, ao mesmo tempo que há um reforço de profissionais, a urgência centralizada depara-se também com o reverso da medalha: o aumento do número de partos.
A 14 de abril, fonte hospitalar avançava ao Observador que seriam quatro os médicos do Hospital do Barreiro e seis os enfermeiros especialistas em Saúde Materna e Obstétrica a reforçarem as escalas, mas que, ainda assim, estas estavam elaboradas “no limite”. Com o início do verão, a fragilidade das escalas fica à vista. Por cada turno, a nova urgência regional tem de ter escalados pelo menos dois especialistas e três médicos internos de Ginecologia/Obstetrícia (o mínimo exigido pela Ordem dos Médicos). Quando apenas tem um especialista, o que aconteceu nos últimos três dias em determinados períodos, a ULS vê-se obrigada a acionar a referenciação ao CODU, recebendo apenas os casos mais graves.
https://observador.pt/especiais/incentivos-para-medicos-obstetras-tardam-a-chegar-ao-terreno-ministerio-das-financas-atrasa-criacao-dos-centros-de-elevado-desempenho/
Polo de Setúbal da urgência regional só recebe grávidas via CODU na maior parte dos dias
Segundo fonte hospitalar contactada pelo Observador, no último domingo foi o próprio diretor de serviço de Ginecologia/Obstetrícia do hospital Garcia de Orta, Pedro Rocha, a assegurar um turno (com o apoio de médicos internos), evitando o encerramento da urgência externa. De acordo com a mesma fonte, uma das médicas que integra as escalas da urgência regional foi em missão para a Venezuela nos últimos dias e pelo menos duas outras médicas saíram do Garcia de Orta nas últimas semanas, tornando a elaboração das escalas ainda mais complexa. Recorde-se que, no que diz respeito à atratividade do SNS para os médicos obstetras, o Ministério da Saúde prepara há largos meses a criação dos chamados centros de elevado desempenho — que preveem a atribuição de uma majoração salarial às equipas da área da Ginecologia/Obstetrícia, tendo como objetivo, entre outros, atrair e fixar obstetras — mas o plano tarda em chegar ao terreno.
A somar à instabilidade vivida nos últimos dias no polo de Almada da urgência centralizada da Península de Setúbal, o polo de Setúbal tem estado também referenciado ao CODU na maior parte dos dias — uma realidade que já se verificava antes da criação da urgência regional e que está relacionada também com a falta de médicos. O serviço de Ginecologia/Obstetrícia do hospital de São Bernardo perdeu quatro médicos entre agosto de 2025 e março deste ano devido à instabilidade dos cuidados de saúde obstétricos na península, disse ao Observador o diretor do serviço, José Pinto de Almeida, sublinhando que o serviço tinha ficado reduzido apenas a sete especialistas.
https://observador.pt/2026/03/11/servico-de-obstetricia-do-hospital-de-setubal-perdeu-quatro-medicos-desde-o-verao-com-instabilidade-as-pessoas-vao-embora-diz-diretor/
Desta forma, e estando o polo de Setúbal a receber apenas os casos referenciados pelo CODU, as situações não urgentes da área de influência da ULS da Arrábida (que abarca o hospital de Setúbal) são encaminhadas para o Garcia de Orta na maior parte dos dias, tal como os casos da área de influência do hospital do Barreiro, o que tem sobrecarregado também o bloco de partos.
Apesar de, na resposta enviada ao Observador, a ULS Almada-Seixal não fazer referência a dificuldades de disponibilidade do bloco de partos, a informação que constava esta segunda-feira do portal das urgências do SNS apontava nesse sentido. Já em setembro de 2025, a ministra da Saúde reconhecia que as 10 salas de blocos de parto do Garcia de Orta seriam insuficientes para responder ao aumento do número de nascimentos quando fosse criada a urgência regional.