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(A) :: Jogador pouco hábil que chegou a selecionador, jornalista e voluntário da "causa": quem foi Robert Guérin, o primeiro presidente da FIFA

Jogador pouco hábil que chegou a selecionador, jornalista e voluntário da "causa": quem foi Robert Guérin, o primeiro presidente da FIFA

Esteve em Inglaterra mas "era como cortar água com uma faca". Aí, juntou três amigos, fez um plano e reuniu em Paris sete nações para criar a FIFA, que liderou aos 28 anos. Polémicas? Só com o nome.

Bruno Roseiro
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Ficou conhecida como uma reunião, “a” reunião, podia ser também um mero encontro entre quatro amigos para falar sobre a vida. Como as suas vidas estavam basicamente centradas à volta do mesmo, falaram todos do mesmo – futebol. E havia um capítulo anterior a promover essas diligências, que tinha a ver com a recusa da Football Association, a Associação de futebol de Inglaterra, em dar o passo para internacionalizar o jogo. Tinham o monopólio, não queriam perder o monopólio e tudo o que existisse resumia-se a uma cópia do que ali faziam. Robert Guérin, com os sonhos de quem tinha menos de 30 anos mas a maturidade de quem podia apresentar 50 ou 60 anos no Bilhete de Identidade, não se conformou. Foi essa atitude que, há mais de 120 anos, esteve na génese da criação da Fédération Internationale de Football Association, a FIFA.

https://twitter.com/CliveKyazze/status/1792799299081842763

Jornalista francês no Le Matin, Robert Guérin, que era também o secretário do Departamento de Futebol da Union des Sociétés Françaises de Sports Athlétiques (USFSA), chamou nesse momentos três amigos para, em conjunto, pensarem numa forma de contornarem o “boicote” inglês e internacionalizarem o futebol tal como já acontecia em tantas outras áreas da socidade. À sua frente e aos seus lados estavam C. A. W. Hirschman, um banqueiro neerlandês, Henry Delaunay, outro dirigente francês que tinha como grande ideia a criação de um Campeonato da Europa de seleções, e Jules Rimet, advogado e também dirigente francês que mais tarde conseguiria corporizar a ideia de fazer um Mundial de seleções. Foi o penúltimo passo antes da FIFA.

Não são muitas as informações sobre os primeiros anos de vida de Robert Guérin. Nascido em Reims, a 28 de abril de 1876, era filho de um fabricante e comerciante de tecidos, crescendo numa família que esteve sempre ligada ao comércio têxtil na região antes de se mudar para Paris. No final da adolescência mudou-se para uma rua no famoso bairro de Montmartre, o coração dos artistas da capital francesa, começando a trabalhar também no comércio antes de entrar na Socidade para a Propagação de Línguas Estrangeiras. Foi aí que aprendeu inglês, que seria uma das chaves para todas as negociações que estavam em curso. Fez muito mais e das mais variadas formas mas não voltaria a mudar de casa, ficando até à sua morte em Montmartre.

https://twitter.com/HistoireSav/status/2075641386435760521

Tal como tantos outros rapazes da sua idade, queria ser jogador de futebol mas a habilidade com os pés não foi propriamente uma ajuda, apesa de ainda ter estado na Union Sportive Parisienne, em 1896. Não teve problemas em olhar para outras formas de estar ligado ao jogo, paassando em 1900 para secretário do clube. Foi isso que lhe permitiu ir conhecendo cada vez mais pessoas e ver abertas outras oportunidades de trabalho, neste caso com a contratação para a publicação Le Matin como jornalista antes de chegar a secretário do Departamento de Futebol da Union des Sociétés Françaises de Sports Athlétiques (USFSA). Já tinha todas as ferramentas para colocar em prática a sua ideia, faltava chegar a outros “amigos” de fora.

Foi aí que começou a enviar cartas para convocar outros países para uma reunião (sim, agora já não era só um encontro) em Paris, que viria mesmo a realizar-se a 21 de maio de 1904 na Rua Saint-Honoré. Marcaram presença a França, a Espanha, a Bélgica, os Países Baixos, a Suíça, a Dinamarca e a Suécia. Após discussão de vários pontos dentro de uma ideia comum que era transversal a todos, decidiram fundar a Fédération Internationale of Football Association (FIFA), com a assinatura da ata que ainda hoje se encontra no Museu do órgão e que está colocada junto a um documento histórico anterior mas de igual importância: a ata da International Football Association Board (IFAB), de 1886, com as primeiras regras do futebol moderno.

https://twitter.com/WahabStatsHub/status/2058087246650032393

A perspetiva de criar um torneio de futebol que conseguisse colocar as nações a jogar entre si sem qualquer influência por parte dos britânicos estava consolidada, faltava ainda um presidente para a FIFA. Quase por exclusão de partes, Robert Guérin, que tinha apenas 28 anos, foi eleito no dia a seguir como o número 1 da organização, já depois de terem sido escritos e aprovados os primeiros estatutos da FIFA. Durante dois anos, e até 1906, o francês comandou o órgão e foi tentando juntar o máximo de países à “causa”, chegando ao final do primeiro e único mandato com mais oito países, o dobro do arranque, incluindo a Inglaterra. Em paralelo, e durante esse período, Guérin foi também selecionador de França, orientando três jogos até 1906 após suceder a Eugène Fraysse, que tinha conquistado o bronze nos Jogos Olímpicos de 1900, em Paris, e árbitro, em mais uma “missão” assumida antes de ser substituído na liderança por Daniel Burley Woolfall.

“Não foi difícil prever, em 1903, que o futebol se tornaria mais popular em todo o mundo. Decidi fundar a Fédération Internationale of Football Association (FIFA), com a colaboração de bons amigos. Fiquei bastante surpreendido por a iniciativa não ter sido tomada pela Inglaterra, onde o futebol estava a triunfar. Pensei que, por direito, a presidência pertencia à Associação de Futebol de Inglaterra”, apontou num livro editado pela FIFA em 1929, por altura do seu 25.º aniversário. Foi aí também que recordou a reunião em Londres com Frederick Wall, secretário da Football Association, e uma nova reunião com Lord Kinnaird, que não teve igualmente resposta. “Era como cortar água com uma faca”, lamentou Robert Guérin nesse livro.

https://twitter.com/DavidMorales911/status/1636373436019638272

O francês, que trabalhava em regime de voluntariado tendo em conta que a própria FIFA praticamente não tinha rendimentos nessa altura a não ser as quotas pequenas que os países pagavam para pertencerem ao grupo e que tinha como única forma de sustento o que recebia do Le Matin (até as viagens que tinha de fazer eram pagas pelo próprio), não teve propriamente “casos” durante o seu mandato mas acabou por sair mais fragilizado em 1905, ano em que finalmente convenceu a Inglaterra a integrar a FIFA. Razão: falhou na tentativa de criar um primeiro grande torneio internacional entre as nações integrantes, com todos os países a recusarem inscrever-se tendo em conta os custos, a logística complicada e até o desinteresse que ainda existia na maioria das federações. Com isso Guérin acabou por perder o apoio mais importante que tinha, que era do da Union des Sociétés Françaises de Sports Athlétiques (USFSA), e não se recandidatou.

https://twitter.com/XavBarretFoot/status/1793177820488782167

Ainda assim, há uma história pouco conhecida em torno do primeiro presidente da FIFA que tem a ver com… o seu nome. Robert Guérin, que em alguns documentos surge como Robert-Guérin, nasceu como Clément Auguste Maurice Robert. No entanto, e no início do século XX, decidiu aproveitar a tradição que existia entre os jornalistas de criar um pseudónimo para consolidar a identidade para o exterior e recuperou o apelido da mãe, Guérin, que não tinha no nome. Foi assim que Robert, o seu verdadeiro apelido, se tornou no primeiro nome, com o Guérin da mãe a funcionar como apelido. A troca resultou de tal forma que só mesmo com consultas a registos históricos franceses foi possível encontrar o “verdadeiro” nome de Robert Guérin, que viria a morrer em 1952 quando ainda morava na mesma rua estreita do bairro de Montmartre.