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(A) :: A velha questão do populismo

A velha questão do populismo

Mesmo que não ganhem as eleições, porque a luta é desigual, os partidos exteriores ao sistema oligárquico-partidário, pela sua própria existência, já desempenham um papel fundamental na democracia.

Luiz Cabral de Moncada
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1.Neste país ninguém sabe ao certo o que é o «populismo». Quem utiliza o termo, ou seja, os partidos que mais tempo têm ocupado o poder, vêem no populismo uma ameaça à sua estabilidade. Habituados a ocupar as cadeiras do poder transformaram-se numa oligarquia de notáveis que defendem principalmente os seus próprios interesses. Qualquer partido que denuncie as obscuras «elites» que os dirigem os põe em choque e os irrita. Logo lhe chamam «populista», evidentemente, vendo nele o o iconoclasta de serviço, o inimigo da sagrada continuidade do sistema político, que vai dos corredores dos ministérios às direcções gerais, aos institutos públicos e às empresas públicas.

Logo passam ao ataque e apoiados na comunicação social servil que temos acusam os partidos iconoclastas de inimigos do povo, demagogos, antidemocráticos, fascistas, labregos, incitadores do ódio, etc…

2.É que a vida é difícil, os salários elevados são poucos, o sector privado não quer saber deles nem nele nunca triunfariam pelo que os beneficiários do sistema político oligárquico e fechado que temos tudo farão para que as coisas continuem como estão há cinquenta anos. Os partidos que ocupam o poder nada mais são do que associações de socorros mútuos.

«Populista» é, portanto, quem denuncia e incomoda o sistema de troca de favores e em que consiste hoje a política portuguesa.

Quem assim pensa devia interrogar-se sobre esta realidade: os partidos referidos adulteraram a democracia portuguesa. De tanto a quererem cavalgar, acabaram por a voltar contra ela própria desfigurando-a.

Ora, como a democracia não se reduz às jogatanas das «elites» partidárias é necessário volta a democratizá-la. É aqui que o chamado «populismo» pode ter um importante papel a desempenhar e acabar por melhorar a democracia.

Como? Impedindo a alienação da representação democrática nas chefias partidárias e devolvendo o poder eleitoral ao povo eleitor. O dito «populismo» serve quanto mais não seja para abanar as certezas dos partidos que estão habituados a partilhar o poder e à consequente sensação de irresponsabilidade e impunidade que isso gera.

3.Mesmo que não ganhem as eleições, porque a luta é desigual, os partidos exteriores ao sistema oligárquico-partidário que temos, pela sua própria existência, já desempenham um papel fundamental na democracia: incomodam, o que já é alguma coisa, e ao incomodar põem em causa a rotina deprimente a que os partidos do poder se tinham habituado, ao mesmo tem que devolvem voz política a muita gente que se abstinha ou pura e simplesmente se desinteressava da política à portuguesa tal como a que presenciavam nas últimas décadas.

4.Afinal, as coisas são mais complicadas do que parecem. É que, no fim de contas, os ditos «populistas» podem vir a ser os mais acesos defensores da democracia. Aperfeiçoam-na, dão voz a quem a nunca teve e agitam as águas do conformismo e do oportunismo dos partidos habituados a viver na calmaria de um sistema que nunca questionaram e cuja permanência convém às respectivas castas dirigentes.

Numa democracia incipiente os fenómenos populistas ou assim chamados podem ser perigosos. Há exemplos históricos disso, mas têm cerca de cem anos. Nos dias que correm e numa democracia avançada,  madura aberta e cosmopolita como a que temos, o verdadeiro populismo, o perigoso, nunca poderia ter os mesmo resultados que teve há cem anos.

E, ao mesmo tempo, os referidos «populistas» podem contribuir para denunciar o servilismo da comunicação social que temos, refém dos referidos partidos e acomodada a um discurso ideológico de há cinquenta anos, baseada em premissas ultrapassadas e hoje completamente caducas e até estúpidas. Era bom que a comunicação social portuguesa entendesse que pode ser-se socialista sem ver «fascistas» em toda a parte, que pode ser-se tolerante e evoluído nos códigos de conduta, sem querer impor aos outros uma ideologia fechada e destrutiva de consensos, que pode ser-se exigente em questões de moralidade pública sem vampirizar aqueles com que não concordamos e que pode ser-se culto sem querer destruir a cultura substituindo-a por uma palhaçada mista de desinformação, preconceito e ignorância.

Afinal, parece que ficamos a ganhar alguma coisa com aquilo a que os menos avisados chamam depreciativamente «populismo».