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(A) :: O que justifica a crise de abastecimento de água em Almada? Autarquia fala em recorde de consumo, reguladora alerta para "consumos ilícitos"

O que justifica a crise de abastecimento de água em Almada? Autarquia fala em recorde de consumo, reguladora alerta para "consumos ilícitos"

Câmara de Almada criou gabinete de crise e garante estar a trabalhar em novos furos para restabelecer abastecimento a 100%. Várias localidades continuam sem água e sem previsão para a reposição.

Marina Ferreira
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No dia 2 de julho, os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada (SMAS de Almada) deixavam um pedido à população: “moderação das regas de jardins e espaços verdes privados” e a “prevenção de desperdícios em consumos não essenciais”. O comunicado ainda não dava conta de cortes no abastecimento, mas no dia seguinte, a água não corria das torneiras em várias localidades do município. A interrupção durou várias horas no dia 3 de julho, foi sendo pontual ao longo do fim de semana, com momentos em que a pressão reduzia significativamente, e repete-se com situações de corte geral esta segunda-feira em várias localidades de Almada, incluindo Lazarim e Charneca de Caparica, tal como confirmado ao Observador por moradores. Um conjunto de falhas que levou a Câmara de Almada e os SMAS a apresentarem, em comunicado já ao final desta segunda-feira, um pedido de desculpas “a todos os munícipes”.

Ao Observador, fonte oficial dos serviços municipais, através da assessoria da Câmara Municipal de Almada, confirma as interrupções de fornecimento e esclarece que as situações “estão relacionadas com o aumento acentuado das temperaturas a par do crescimento da população sazonal no concelho“. A acrescer a isso, uma rutura na localidade de Sobreda, este domingo, levou à interrupção do fornecimento de água naquela zona.

A Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR) diz estar a acompanhar a situação que tem afetado o abastecimento de água no concelho de Almada, tendo solicitado esclarecimentos ao SMAS de Almada. “De acordo com a informação disponibilizada até hoje [segunda-feira] pela entidade gestora, encontram-se em curso intervenções com vista ao restabelecimento do abastecimento de água (incluindo obras de reparação de condutas)”, garante fonte oficial da entidade ao Observador.

Esta segunda-feira, de acordo com fonte oficial do município, foi criado um gabinete de crise e ativado o plano de contingência dos serviços de abastecimento de água, bem como anunciada a redução da pressão da água na rede entre a meia-noite e as 6h00 em todo o concelho, tal como divulgado na reunião da autarquia pelo vice-presidente da Câmara de Almada, Filipe Pacheco. O objetivo é permitir, durante a noite, a recuperação das reservas nos depósitos. Ao Observador, fonte oficial da autarquia garante que mais medidas vão ser anunciadas nos próximos dias. O gabinete de crise está a ser liderado pelo presidente do SMAS de Almada, Luís Palma, cabendo a esta entidade “acompanhar permanentemente a evolução da situação, avaliar a eficácia das medidas e definir novas ações”.

Questionada sobre se o município pondera acionar mecanismos da Proteção Civil ou do Governo Central, a mesma fonte não respondeu até ao momento. Em comunicado, emitido já depois da publicação deste texto, a Câmara diz que “sempre” que seja necessário “serão posicionados camiões-cisterna nas zonas mais críticas e junto de clientes sensíveis”.

Os moradores afetados pelas interrupções queixam-se de falta de informação. Ana, moradora da localidade de Lazarim, diz ao Observador que não tem sido disponibilizada “qualquer informação oficial sobre esta falta de água, nem como irá ser resolvida”. Fonte oficial dos SMAS de Almada diz que “não é possível prever a redução do consumo, nem indicar o prazo de restabelecimento do abastecimento“, tendo em conta o procedimento interno de comunicação de interrupções programadas e não programadas destes serviços em que “estão definidas as responsabilidades, prazos e tipo de informação a divulgar à população de Almada sempre que ocorram interrupções no fornecimento de água”.

O cenário não é novo em Almada. Em 2025 já tinham sido registadas diversas interrupções de fornecimento de água, mas ao Observador, fonte oficial dos SMAS de Almada garante que as ocorrências do ano passado “estiveram relacionadas com diversas ruturas que ocorreram na rede adutora e que condicionaram o abastecimento à zona da Costa de Caparica” e que não estão relacionadas com as falhas atuais.

“Para minimizar a probabilidade de ocorrência destas anomalias, os SMAS de Almada promoveram a reabilitação de diversos acessórios da rede adutora. Até ao momento, não ocorreram anomalias nas condutas afetadas em 2025”, informam ainda os serviços de distribuição de água.

O cenário deste ano, garante a mesma fonte, explica-se principalmente por “determinados períodos de pico” em que “a procura está a ser superior à água que se consegue captar nos furos”. Isto porque, de acordo com informação divulgada pela autarquia, no primeiro semestre de 2026 “ocorreu um aumento, anormal, de 4,3% (em relação ao período homólogo de 2025)” da água distribuída em todo o concelho.

Volume de água distribuída em Almada é o maior de sempre, em mais de 75 anos de abastecimento público

De acordo com os dados enviados ao Observador por fonte oficial do município de Almada, nos últimos anos os SMAS distribuíram entre 17,5 e 18 milhões de metros cúbicos de água por ano, com o “crescimento do consumo a representar, em média, 2% ao ano”, o que contrasta com o aumento de mais de 4% nos primeiros seis meses de 2026 na generalidade do concelho.

De acordo com a mesma fonte, essa variação do consumo de água “não se verificou de forma homogénea em todo o concelho”. Nas localidades da Costa de Caparica, Sobreda e Lazarim o aumento é de mais de 14% e na Charneca de Caparica subiu para 15,21%.

“Com o muito significativo aumento na União de Freguesias da Charneca/Sobreda, de mais de 370 mil metros cúbicos nos primeiros seis meses, o consumo desta população já representa 32% do consumo total do concelho”, informa ainda a autarquia, que informa ainda que, pela primeira vez, o “consumo do Cassapo (Charneca de Caparica) ultrapassou o consumo do Pragal (Pragal/Almada/Cacilhas e parte da Piedade) e Brielas (Costa de Caparica)”.

"Não é possível prever a redução do consumo, nem indicar o prazo de restabelecimento do abastecimento"
Fonte oficial dos SMAS Almada

“Os consumos de 2026 representam o maior volume já distribuído no concelho de Almada em mais de 75 anos de abastecimento público“, acrescenta.

A Câmara fala, por isso, em “pressão sem precedentes sobre a rede de abastecimento”, colocando sempre a tónica na “situação verdadeiramente excecional”, assumindo que tal “exige uma resposta imediata, coordenada e articulada entre os diferentes serviços municipais”.

Ao Observador, fonte oficial do SMAS de Almada garante que estão a “implementar diversas soluções, urgentes, para mitigar os atuais constrangimentos”, incluindo a ativação de um “novo furo de captação que se encontra já em pleno funcionamento” e a “entrada ao serviço de outro novo furo até ao final de julho”.

Revela ainda que os serviços têm mais três furos em fase de licenciamento e outros três em fase de projeto, com o objetivo de “aumentar a capacidade de reserva e continuar a reabilitação da rede de abastecimento”. A autarquia garante estar em contacto com a Agência Portuguesa do Ambiente para autorizar novos furos com caráter de urgência. E ainda indica que foram iniciados “contactos com a Águas de Portugal para avaliar soluções que permitam reforçar a redundância do sistema de abastecimento, quer através da margem norte, quer através de interligações com sistemas dos municípios vizinhos que dispõem de maior disponibilidade de recursos hídricos subterrâneos”.

A Câmara liderada por Inês de Medeiros garante que no semestre foi possível reduzir, ainda assim, para “cerca de metade as perdas de água provocadas por ruturas, apesar da elevada antiguidade de uma parte significativa das infraestruturas”, tendo sido reforçada a monitorização da rede.

Habitantes descrevem cenário “de terceiro mundo” a depender de água engarrafada e a informar-se pelas redes sociais

“Os SMAS não atendem no piquete de avarias, as informações que temos advêm dos grupos de Facebook e Instagram”, diz ao Observador Ana, que reside na localidade  Lazarim. Esta sexta-feira, às 8h00, corria um pequeno fio de água da torneira de sua casa. A partir das 9h00, o corte ficou completo e dura até à hora da publicação deste artigo.

“Temos vivido à custa de água engarrafada e, para casas de banho, de baldes e garrafões que enchemos quando existia alguma água”, conta, revelando a “incerteza” que já vem de há alguns dias. Quem tem furos privados tem sido solidário e partilhado alguma água com quem vai precisando. Ana fala num cenário de “terceiro mundo”.

Depois de ter estado “quase 24 horas” sem água, na sexta-feira, o cenário da habitante do Lazarim repete-se esta segunda-feira. Ana diz que quando viu o anúncio na página dos SMAS de Almada a dar conta da reparação da rutura deste domingo, na Sobreda, julgou que o abastecimento “tenderia a melhorar”, mas foi surpreendida com mais um dia sem água da rede pública, acrescendo o facto de o país estar a atravessar uma onda de calor.

“Face ao período do ano em que nos encontramos, marcado por temperaturas elevadas e maior procura de água”, a ERSAR recomenda à população a “adoção de comportamentos que contribuam para um consumo mais eficiente e sustentável, evitando situações de rutura nos sistemas de abastecimento”, diz ao Observador.

Recomenda desde logo a “reparação célere de fugas em instalações prediais” que colocam muita pressão na rede de distribuição pública. Em casa, recomenda os “duches curtos em detrimento de banhos de imersão”, a “utilização racional de máquinas de lavar roupa e loiça, preferencialmente com carga completa”, “a redução da rega de jardins e espaços verdes, sobretudo nas horas de maior calor”, e a “não utilização de água potável para lavagem de pavimentos, passeios ou veículos, salvo quando estritamente necessário”.

A ERSAR garante ainda que vai continuar a acompanhar o caso de Almada “em estreita colaboração com a entidade gestora, atendendo, em qualquer caso, às reclamações que os consumidores afetados nos têm feito chegar”. Também a autarquia e o SMAS asseguram que será realizada “uma avaliação interna para verificar se todas as medidas de preparação para o período de verão foram adequadamente implementadas, retirando as conclusões necessárias”.