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Sob pressão, Ministério da Educação vai monitorizar classificadores e dá aos alunos acesso gratuito aos exames. Duas plataformas falharam

Até esta segunda, 30% das provas estavam por distribuir face a erros que tiveram de ser corrigidos. Ministério explica passo a passo da digitalização e diz que será criada nova plataforma de correção.

Mariana Marques Tiago
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Quem passa em frente a um dos armazéns da Estrada de Mem Martins mal suspeita que, no seu interior, cerca de 40 pessoas trabalham por turnos entre as 8h e as 22h todos os dias. Dedicam-se à receção, digitalização e posterior distribuição dos exames nacionais, num espaço do Ministério da Educação que pertence à INCM – Imprensa Nacional Casa da Moeda, e que pela primeira vez abriu as portas a pessoal não autorizado. Foi nesta visita que o ministro da Educação anunciou que, também pela primeira vez, os alunos que realizaram provas de acesso ao ensino superior vão ter acesso ao seu exame de forma gratuita.

Este ano “os alunos vão poder aceder a um link, no dia em que saírem as classificações, onde vão ver o seu exame digitalizado e as classificações que tiveram”, anunciou o ministro Fernando Alexandre no âmbito desta visita. A novidade surge num ano marcado pelo adiamento da divulgação das notas e da 2.ª fase dos exames nacionais do Ensino Secundário, que se seguiu a vários percalços. Primeiro, atrasou-se a distribuição dos itens aos professores que, quando os tiveram em sua posse, deram conta de respostas cortadas a meio. Os docentes tiveram ainda dificuldades a aceder à plataforma de classificação desenvolvida por uma empresa externa ao Ministério da Educação e, esta segunda-feira, a mesma esteve inacessível devido a uma falha de segurança.

O governante apresentou o acesso gratuito dos alunos ao exame como “uma condição essencial para garantir a credibilidade do sistema” que está a ser aplicado este ano a todos os exames nacionais: os alunos “vão poder ver que aquele é o seu exame, que foi classificado desta maneira”. No fundo, quem realizou um exame vai poder “saber exatamente o que é que fez e não haverá dúvidas”, afirmou.

Contudo, este acesso gratuito às provas realizadas, ressalva Fernando Alexandre, “não tem nada a ver com a reapreciação da prova”. “Os alunos vão ter acesso à prova independentemente da reapreciação. Ou seja, não vai ser condição pedir a reapreciação para obter a prova. No fundo, vai reduzir-se substancialmente — na nossa expetativa — os pedidos de reapreciação, porque o aluno vai ter que ter capacidade de dizer: neste critério, falhei aqui, falhei ali…”. Caso um aluno peça reapreciação do seu exame, a nova nota só será divulgada a 7 de agosto (de acordo com os novos prazos estabelecidos).

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Desempenho dos professores na correção de exames será monitorizado

A hipótese de aceder aos exames não estava prevista inicialmente, assume Fernando Alexandre. O ministro anunciou ainda uma segunda ferramenta relacionada com monitorização do desempenho dos professores no que toca à classificação dos exames nacionais. “Vamos conseguir dizer quantos exames é que um professor tem [para corrigir], quantos é que já corrigiu e vamos ter essa informação toda. Vai ser possível monitorizar, no fundo, a correção de todos os exames e isso vai permitir-nos ver onde é que estão estrangulamentos, se há professores que precisam de ajuda, que não corrigiram com a velocidade que era esperada, seja o que for.”

Na prática, explicou o responsável pela Educação, será criada uma “base de dados onde está a lista de professores classificadores” e todo o seu progresso, permitindo “acompanhar [a classificação] para termos a certeza que chegamos a dia 14 com os resultados”.

Fernando Alexandre conduz a visita a este centro de exames quando as queixas e relatos de falhas associados à classificação ultrapassam as 400 na plataforma MetaPROF, um site onde os docentes têm partilhado as várias situações com que se deparam. Os últimos dias têm sido conturbados: os primeiros problemas foram assinalados logo no dia 23 de junho, o dia em que as provas deviam começar a ser distribuídas pelos docentes — e nada aconteceu. O adiamento desta distribuição levou movimentos como a Missão Escola Pública a lançar um alerta para a situação e o seu possível impacto nos prazos definidos para a correção.

Primeiro, a data da publicação e a data para o envio das notas dos agrupamentos para o Júri Nacional de Exames (JNE) mantinham-se as mesmas (14 de julho e 10 de julho, respetivamente), sendo apenas alterado o cronograma interno da correção. Depois, numa segunda fase e contrariando a garantia dada por Fernando Alexandre 48 horas antes no Parlamento em como os prazos seriam cumpridos, a 3 de julho o Ministério da Educação anunciou uma alteração: as notas passam a ser afixadas a 17 (3 dias depois do previsto). A reboque disto, a 2.ª fase dos exames nacionais sofre obrigatoriamente uma alteração: em vez de começar a 16 de julho, tem início a 20 de julho.

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Da sala de aula à plataforma de correção: assim se digitaliza um exame

Mas afinal, como funciona todo o processo de digitalização e correção dos exames nacionais? O local está constantemente vigiado e só pode passar as grades exteriores quem tem a devida autorização. Aliás, mesmo quem tem permissão para se deslocar no interior do edifício, só o pode fazer se tiver consigo um cartão de identificação que serve para desbloquear portas e regista todos os movimentos. Os jornalistas são recebidos pelo responsável pela pasta da Educação e pelo secretário de Estado Alexandre Homem Cristo, assim como pelo presidente do EduQA, Luís Santos, mas antes recebem indicações para deixar numa sala fechada à chave todos os dispositivos tecnológicos que permitam a captação de imagem ou som.

Foi neste edifício, na zona do rés-do-chão, que a PSP e a GNR entregaram os exames nacionais momentos depois de os alunos os realizarem. Os primeiros a realizar-se foram os exames de Português, Português Língua Segunda e Português Língua Não Materna, sendo que a prova de Português foi aquela que mais alunos realizaram — e foi também com esta prova que se registou o maior atraso no processo.

Depois de os exames entrarem neste armazém em Mem Martins, os professores do JNE recebem os pacotes de provas devidamente verificados. Estas provas já vêm anonimizadas, uma vez que esse processo é feito nas várias escolas, pelo secretariado de exames, que tem a missão de retirar o nome de cada estudante e deixar apenas um QR Code como forma de identificação.

O passo seguinte é dividir os cadernos pelas várias estantes organizadas por regiões e separar estes cadernos de prova em folhas A4 individuais. Contudo, realça o Ministério da Educação, é assegurada “a ordem e a integridade das provas” para depois ser possível passar à fase seguinte: a digitalização. Foi neste passo que surgiu um dos primeiros problemas e que, segundo o presidente do EduQA revelou, roubou “demasiado tempo” ao processo: “As instruções [dadas aos professores] eram deixar as provas assim e empacotá-las”, para depois serem levadas. No entanto, alguns docentes optaram por agrafar as páginas e isto obrigou a que houvesse pelo menos uma pessoa no armazém só dedicada a tirar os agrafos.

A este processo segue-se, finalmente, a digitalização das provas, passo que é feito exclusivamente por professores do JNE. Para isto, foram compradas 70 máquinas de digitalização com recurso a financiamento do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência). São máquinas “de grande capacidade” capazes de digitalizar cerca de 20 mil páginas por hora e com alta qualidade, diz Fernando Alexandre. Já o presidente do EduQA detalha que o processo de digitalização se dividiu por quatro salas, de acordo com a região onde se realizou o exame: Norte, Lisboa e Vale do Tejo, Centro e Alentejo e Algarve. As ilhas têm o seu próprio centro de digitalização de exames nacionais.

Cada sala de digitalização tem uma dimensão diferente, de acordo com o número de exames feitos nessa região. A sala correspondente ao Norte, por exemplo, tinha 12 computadores e 12 digitalizadoras.

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À medida que a digitalização é realizada, no computador associado a cada máquina vão surgindo as várias folhas que compõem a prova, sendo produzidos ficheiros PDF organizados por escola e código de prova. E é também nesta fase que a digitalização da prova é cortada por item. Este ano, a classificação é feita numa espécie de “linha de montagem”: cada professor classificador recebe um item concreto de um determinado exame para corrigir, ao invés de classificar uma prova inteira.

É este passo que se segue à digitalização: os ficheiros PDF são carregados na plataforma de distribuição, assegurando uma associação entre escola, prova e item digitalizado. É neste suporte que os professores vão depois entrar, com as suas próprias credenciais, e proceder à correção.

Duas plataformas, vários problemas

O Ministério da Educação diz que para realizar este processo são necessárias duas plataformas: uma onde é feita a digitalização das provas e outra onde esta digitalização é divulgada (e acedida pelos professores corretores).

A primeira — a plataforma de Processamento e Tratamento — explica Fernando Alexandre, foi desenvolvida pelo EduQA. E foi também aqui que se registaram as principais falhas do processo, como por exemplo “erros de programação no processamento da distribuição das respostas” e também “distribuição incorreta de respostas”, lê-se no documento de apoio fornecido pelo Ministério da Educação.

Um dos casos foi, por exemplo, a falta de folhas de continuação (ou seja, situações em que as respostas a determinados itens ficavam cortadas a meio). “Quando faltava uma folha de continuação o sistema devia ter dito que esta [prova] não estava em condições de seguir” para correção, explica o secretário de Estado, acrescentando que “houve uma questão de programação que não teve a capacidade de impedir que algumas respostas saíssem assim”. Tratava-se concretamente de um “problema mesmo no software”, e isso tem sido um dos focos que, “nos últimos dias, as equipas têm estado a corrigir”.

Neste momento, a correção destes erros e verificação de outras falhas possíveis está a ser feita pela consultora Deloitte, adianta o ministro da Educação. Até este momento, “todo o processo [de digitalização] foi feito por entidades públicas”. Apenas “professores, forças de segurança e entidades públicas” se envolveram no transporte e digitalização das provas, garante. Mas a Deloitte foi chamada a apoiar depois de o próprio EduQA admitir ao Ministério da Educação que precisava de mais recursos para este processo.

A par desta plataforma existe um segundo site, esse sim com a missão de Distribuição e Classificação das provas nacionais. E só neste ponto do processo há uma empresa externa envolvida. Trata-se da Blat – Creative Powerhouse, que colabora com o Ministério da Educação desde 2018 e foi responsável por criar a plataforma onde os professores têm acesso e corrigem os itens que lhes foram atribuídos. Este site “também teve algumas questões de programação, que também estão a ser corrigidas”, explicou Alexandre Homem Cristo. Uma dessas falhas, exemplifica, teve que ver com problemas no acesso dos professores através do número de contribuinte.

Segundo Alexandre Homem Cristo, o passado fim de semana foi passado a “fazer o varrimento do código” em ambas as plataformas, “para identificar já riscos que possam ainda não se ter manifestado” e para corrigir erros já detetados. “Está a ser complexo”, admite. Quando há problemas na plataforma do EduQA, a Deloitte auxilia na sua resolução. Mas quando há problemas com a plataforma criada pela Blat, é a própria empresa que os resolve. Um dos problemas registados nesta plataforma levou a que, esta segunda-feira, os professores não pudessem corrigir exames.

O sistema estava “em manutenção” até às 15h, em virtude de uma “falha de segurança” detetada. Tratou-se apenas de uma “fragilidade” e não de um “ataque” ou “intrusão” no sistema, garantiu o Ministério da Educação.

Um milhão e meio para substituir plataforma que registou mais falhas

Tal como o seu secretário de Estado, o ministro da Educação também considera que esta é uma “operação nova e complexa”. E diz ser “absurdo” algumas posições assumidas publicamente, como é o caso de um grupo de encarregados de educação, que lançaram uma petição pública a pedir a anulação destes exames. “Quero mostrar que os exames estão aqui, guardados em locais seguros. Há um alarmismo que põe em causa um processo crítico.”

De acordo com o governante, já todos os professores classificadores têm itens para corrigir, mas nem todas as provas foram ainda distribuídas. Há ainda “cerca de 30%” de provas por distribuir, trata-se de exames “que sobraram”, algo que “teve que ver com erros que foram identificados” antes da distribuição. Fernando Alexandre adiantou ainda que “está previsto que seja tudo entregue hoje”.

“Isto é um processo em massa. As correções têm vindo a ser feitas. Acho que há todas as condições” para cumprir o prazo estipulado, afirmou, referindo-se à nova data de 17 de julho.

Relativamente à plataforma do EduQA — aquela que tem originado mais falhas até ao momento — o ministro da Educação adianta que “há uma nova plataforma em desenvolvimento com verbas do PRR, que irá substituir esta”. Vincando que ainda não está pronto este novo site, Fernando Alexandre diz tratar-se de um investimento de um milhão e meio de euros e acrescenta que era algo já programado e que “não resulta da experiência” deste ano.

https://observador.pt/2026/07/06/plataforma-para-correcao-de-exames-nacionais-em-manutencao/

PCP, Chega, Bloco e PS: pressão sobre Fernando Alexandre aumenta

Nos últimos dias a pressão sobre Fernando Alexandre tem-se feito sentir cada vez mais. Se, até ao momento, as únicas vozes críticas eram de movimentos e sindicatos de professores, agora encarregados de educação lançaram uma petição que pede a anulação dos exames nacionais. Mais: há ainda pais preocupados com os possíveis impactos da nova calendarização nas férias que as famílias já tinham planeado.

A estes últimos, o ministro da Educação diz apenas que primeiro é preciso esperar pelas notas. E depois, “se alguma família sentir que foi prejudicada — e que demonstre que foi efetivamente prejudicada por esta situação —, obviamente deve apresentar esta situação ao Estado português”.

A CONFAP (Confederação Nacional das Associações de Pais) optou também por pedir serenidade aos encarregados de educação. Descartando impactos nos alunos, a dirigente Mariana Carvalho diz não ter recebido até ao momento qualquer contacto por parte de pais ou alunos preocupados.

Por outro lado, esta segunda-feira, o PCP anunciou que vai chamar ao Parlamento, num debate potestativo, o ministro da Educação. Já o Chega vai propor um debate de urgência. Além disto, na passada sexta-feira o Bloco de Esquerda avançou que vai propor uma Comissão Parlamentar de Inquérito àquilo que diz ser o “caos” na correção dos exames, medida que o PS não descarta (mas admite que antes há outros “passos” a dar).