Enquanto muitos portugueses correm para comprar aparelhos de ar condicionado, ventoinhas (verdadeiras) ou aquelas de pescoço e itens semelhantes que parecem inventados pelo “professor Pardal” (o famoso inventor dos livros do Tio Patinhas), em Espanha, nos EUA e no Japão há quem esteja a apostar noutra tecnologia, esta mesmo a sério, ainda que inspirada também num passarito: uma pulseira que avisa quem a usa antes de sofrer um golpe de calor.
Parece uma pulseira desportiva banal, um relógio digital — os atuais ainda não têm tal função — mas não conta passos nem mede calorias. O objetivo é detetar os primeiros sinais de stress térmico e alertar o utilizador antes de o corpo entrar numa situação de perigo.
A ideia não é nova, vem do Japão, mas está agora a ganhar adeptos aqui ao lado, em Espanha, que a partir desta segunda-feira ligou os alertas máximos para a onda de calor que nos atravessa desde quinta-feira. Já começou a ser utilizada por trabalhadores espanhóis da limpeza urbana, jardineiros, bombeiros, polícias e equipas de manutenção expostas ao calor extremo. Barcelona distribuiu recentemente cerca de 1.400 pulseiras a trabalhadores municipais e prepara-se para alargar o programa a outros funcionários.
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Como funciona?
A maioria destes dispositivos mede vários parâmetros relacionados com o calor: temperatura corporal, temperatura ambiente, humidade, frequência cardíaca ou alterações fisiológicas associadas ao aumento da temperatura interna do corpo. Quando o algoritmo conclui que a pessoa está a entrar numa situação de risco, a pulseira emite um sinal sonoro, vibra e, em alguns modelos, acende uma luz vermelha. O conselho é simples: parar, procurar sombra e hidratar-se.
Pep Llimona, coordenador de prevenção dos parques e jardins de Barcelona, explicou à Reuters que a pulseira “apita antes de a pessoa entrar em perigo” e que, em alguns casos, os trabalhadores nem sequer tinham consciência de que a sua temperatura corporal estava a subir.
O “canário” do século XXI
Um dos modelos mais utilizados em Espanha chama-se CANARIA+, e o nome não é por acaso. A empresa japonesa Biodata Bank inspirou-se nos antigos canários utilizados nas minas de carvão, em que as aves eram levadas para o interior das galerias porque eram mais sensíveis aos gases tóxicos e davam o alerta antes de os mineiros começarem a sentir os efeitos.
A pulseira pretende fazer exatamente o mesmo, mas com o calor. Segundo a empresa, já foram distribuídas mais de um milhão de unidades em países como o Japão, Espanha e Estados Unidos e o dispositivo é utilizado em setores como a construção, energia, transportes e indústria, conta o El País.
Funciona mesmo?
Vários estudos publicados na revista científica Sensors demonstraram que dispositivos deste género conseguem identificar padrões fisiológicos associados ao stress térmico e antecipar situações de risco de golpe de calor, tanto em trabalhadores como em atletas. Uma revisão científica publicada em 2024 na ScienceDirect concluiu que os sistemas de monitorização em tempo real estão a tornar-se uma ferramenta importante para proteger trabalhadores expostos ao calor, embora os investigadores alertem que a sua eficácia depende da precisão dos sensores e de uma utilização adequada.
A pulseira não substitui a água, nem a proteção, mas pode funcionar como um aviso adicional, sobretudo para pessoas que nem sempre se apercebem de que o corpo está a entrar em sobreaquecimento.
Uma tecnologia cada vez mais necessária
A aposta surge numa altura em que as ondas de calor se tornam mais frequentes, mais intensas e mais mortais. Só em junho, Espanha registou mais de mil mortes em excesso associadas ao calor, segundo dados citados pela Reuters. E França, Bélgica e Países Baixos somaram pelo menos 3.700 mortes em excesso, um número que ainda está a ser consolidado.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as temperaturas extremas agravam doenças cardiovasculares, respiratórias e renais, aumentam o risco de desidratação e podem desencadear enfartes e acidentes vasculares cerebrais. O calor extremo é hoje uma das principais causas de morte relacionadas com o estado do tempo e provoca, em média, mais de 175 mil mortes por ano na região europeia da OMS.
O golpe de calor é a forma mais grave de doença relacionada com o calor. Ocorre quando o corpo perde a capacidade de regular a sua própria temperatura e deixa de conseguir arrefecer através da transpiração. A temperatura corporal pode ultrapassar os 40ºC e vários órgãos começam a entrar em falência. Entre os sintomas estão a confusão, a desorientação, a pele muito quente, as convulsões e a perda de consciência. Sem tratamento imediato, pode provocar incapacidade permanente ou a morte.
Os números europeus mostram a dimensão do problema. Um estudo publicado na revista Nature Medicine sobre as mortes por calor em 2022 na Europa estimou que 61.672 pessoas morreram devido ao calor no verão de 2022. Outro estudo da mesma revista concluiu que 47.690 pessoas morreram por causas relacionadas com o calor em 2023. E um trabalho mais recente aponta para 62.775 mortes associadas ao calor em 2024.
Por isso, uma pulseira que consiga detetar os primeiros sinais de stress térmico pode parecer um gadget curioso, mas para algumas pessoas pode funcionar como um aviso precoce para procurar sombra, hidratar-se ou interromper uma atividade física antes de o corpo entrar numa situação de perigo.