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(A) :: Depois de fazer o mais difícil, Martínez inventou. E perdeu (a crónica do Portugal-Espanha)

Depois de fazer o mais difícil, Martínez inventou. E perdeu (a crónica do Portugal-Espanha)

Portugal foi aguentando o embate mesmo perdendo aos pontos, caiu sempre mais um bocado quando mexia e acabou mesmo no chão já no último round quando a Espanha só atacava no erro e pela certa (0-1).

Bruno Roseiro
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Sofrer, sofrer, sofrer mais um bocado, sorrir depois do sofrimento. A passagem de Portugal aos oitavos teve o condão de lançar uma festa em Toronto como há muito não se via, com milhares e milhares de adeptos nas ruas e junto ao hotel onde estava a Seleção. “Pareces o Papa, mano”, dizia a certa altura Diogo Dalot para Cristiano Ronaldo, que no topo de uma varanda ia acenando a todos aqueles que comemoravam como se o último passo estivesse dado. Longe disso. E se o duelo com a Croácia foi uma batalha só para duros, a guerra tinha apenas começado. Seguia-se um dos exércitos mais fortes, mais rodados e com maiores ambições neste Mundial, a Espanha. E se a memória da última final da Liga das Nações trazia as melhores recordações pela vitória nas grandes penalidades, percebia-se que do outro lado havia muito mais confiança na passagem.

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Roberto Martínez, polido como nunca mas correto como sempre, esvaziava tudo o que pudesse fazer crescer uma pressão extra dentro da pressão que um duelo de oitavos do Mundial acarretava. “A ideia quando nós chegámos ao Mundial era tentar crescer e utilizar os encontros para preparar todos os jogadores. É tentar melhorar, experimentar, alinhar conceitos e o caminho. É preciso estar ao melhor nível dentro do caminho em si”, comentava, antes de apontar para um jogo com parecenças face ao que existira em Munique no ano passado. “O adversário é uma equipa muito boa, com uma ideia muito clara. As duas equipas são melhores com bola, utilizamos a bola para acentuar a qualidade individual dos jogadores. Agora é importante ter desempenhos completos, sermos bons com bola, ajustar, defender rápido. Vimos na final da Liga das Nações que, com bola, as duas equipas conseguem chegar à baliza e criar oportunidades. O 2-2 foi curto. O jogo vai ser igual. Precisamos de personalidade para manter o nível e intensidade alta”, vaticinava o selecionador.

“Não será só um jogo exigente para os nossos médios, será para todas as linhas. Teremos de defender muito bem o 1×1, de tomar decisões muito boas. Acredito que o meio-campo será, para as duas equipas, a zona onde se vão viver momentos importantes. Estamos a falar dos oitavos, será exigente para todos. Vejo os jogadores tranquilos. Estão confiantes mas também concentrados. E esse é o cenário perfeito para um selecionador. A força vem das vitórias. Num Mundial assim, medimos sempre o compromisso, a capacidade de autocrítica, de estarmos preparados em momentos difíceis… Ninguém chega campeão ao Mundial. Já tivemos momentos difíceis, de autocrítica. A equipa nunca se encolhe, tem sempre uma reação positiva. Continuamos a crescer e ganhar amanhã [segunda-feira] será a melhor forma de continuar a crescer”, frisara Martínez.

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Foi também nesse contexto que Ronaldo marcou presença na conferência de imprensa, na antecâmara do jogo que provavelmente lhe diz mais nesta fase tendo em conta as ligações a Espanha (da família a uma das casas, passando pelo passado desportivo e pelos negócios empresariais). Várias questões depois, o avançado lá deixou cair que este será mesmo o seu último Mundial mas, pelo meio, foi respondendo de forma frontal a todas as críticas de que tem sido alvo sobretudo nos últimos tempos. “Há 23 anos que me tentam matar mas já perceberam que não vale a pena, é waste of time. Tentam, tentam, mas não vale a pena. Os que estão do meu lado e fiéis, não falham, tudo o resto é garbage, não conta para nada”, comentou. “Não sou o jogador que era, mas nada mudou. Continuo a fazer golos e espero fazer mais. Acredito que não estou assim tão mal, fiz três golos. Há outros que fizeram mais porque estão muito bem mas eu não estou mal…”, acrescentou.

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“Gosto muito de jogar frente à seleção espanhola. Joguei várias vezes, foi muito equilibrado, agora será igual. Quem acertar nos detalhes, ganhará. Espero que seja Portugal, tenho esse feeling. Se não acreditássemos que era possível, não estávamos aqui. Estamos a melhorar. É uma competição onde é impossível jogar bem em todos os jogos, não está fácil para ninguém e basta ver quem já foi eliminado. Desde os 18 anos quando cá cheguei que tem sido assim e a minha influência não vai mudar. Estou sempre de corpo e alma com a minha Seleção. Jogando ou não, terei sempre um papel importante. Terminarei, como disse há uns anos, quando eu quiser, não quando vocês quiserem. Não vou ser mais Cristiano por ganhar o Mundial nem menos Cristiano por não ganhar”, salientou também, antes de mostrar de novo a fé que não fosse o último jogo.

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Os dados estavam lançados frente a uma Espanha em crescendo que voltou a ser fiel aos seus princípios no “atropelo” à Áustria nos 16 avos de final. E se com a Croácia houve um chip, aquele que está na bola Trionda, que foi ativado para carimbar a passagem de Portugal à próxima fase, agora teria de ser o próprio chip da Seleção a ser ativado sobretudo num ponto: não perder a identidade de jogo, manter-se fiel ao seu plano e nunca se deixar cair naquilo que o adversário queria na partida, como aconteceu em algumas partes dos duelos com RD Congo, Colômbia e Croácia. Com a aposta em João Félix justificada antes do jogo pelo selecionador pela “frescura, capacidade de executar e qualidade no jogo interior”, esse era o maior desafio. Com grandes dificuldades à mistura, adensadas pela saída de Nuno Mendes por lesão, Portugal conseguiu o mais complicado e chegou à zona decisiva do encontro a poder jogar também com o tempo extra. Contudo, e por cada alteração, Portugal caía. Caía, recuava, caía mais um bocado. Quando o corredor central pedia um todo-o-terreno, Martínez optou pela vontade de ter posse quando já não era tempo para isso. “Inventou”. E, com isso, acabou por perder numa fase em que a Espanha também já só atacava pela certa e no erro.

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Os minutos iniciais não demoraram a mostrar o que cada equipa queria do jogo, com dois erros iniciais de Portugal a aumentarem a perceção de uma Espanha a dominar o encontro entre um roubo de bola a Vitinha que terminou com um remate de Oyarzabal para defesa de Diogo Costa (3′) e uma perda de Nuno Mendes na saída pela esquerda a dar origem a um cruzamento rasteiro que não encontrou qualquer desvio na área (4′). João Cancelo ainda teve uma tentativa por cima mas, na sequência de mais um erro posicional na linha do meio-campo face à defesa, Dani Olmo isolou Oyarzabal na área para um tiro de pé esquerdo que saiu por cima (8′). Depois, e aos poucos, Portugal foi serenando, contando com um remate de Ronaldo depois de uma recuperação em zona alta com passe de Bruno Fernandes para defesa de Unai Simón (12′) para reforçar essa postura de paciência na partida, não tendo problemas com a maior posse da Espanha, adaptando as linhas de pressão ao centro do jogo e procurando depois encontrar o espaço para chegar à baliza contrária.

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Havia um problema nessa “lógica”: quando Nuno Mendes, um dos maiores desequilibradores que Portugal tem (neste jogo e em qualquer um), subia pela esquerda, a Espanha colocava logo as transições pelo seu lado direito para explorar a velocidade de Lamine Yamal. Só mesmo assim, sem a oposição do lateral esquerdo do PSG que o próprio assumiu ser o adversário mais complicado de bater, o ala do Barcelona apareceu, com um remate em arco defendido por Diogo Costa antes da recarga de Álex Baena para nova intervenção agora para canto (18′). A paragem para hidratação fazia bem à Seleção, sobretudo para baixar os índices de ansiedade e melhorar a eficácia de todas as ações – o drible, o passe, os duelos 1×1, o movimento no último terço. Havia dados mais específicos partilhados por Martínez através de um iPad com imagens reais do jogo mas a parte mental era tão ou mais relevante nessa fase. Renato Veiga teve ainda um fantástico corte a evitar uma bola na profundidade pelo meio de Dani Olmo para Lamine Yamal e a meia hora chegava com um nulo.

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A Espanha teve por essa altura um lance que voltou a criar perigo na área, com um cruzamento para Cubarsí entrar de surpresa a ser cortado de forma menos ortodoxa por Diogo Costa (31′), mas, ao contrário do que é habitual neste Mundial, a tendência do encontro não mudou com a paragem. Mais: a Roja percebia todas as dificuldades na primeira fase de construção nacional e pressionava cada vez mais alto, num período em que as três unidades da frente não cheiravam sequer a bola. Quando isso aconteceu, houve perigo: com passes de Cancelo para Vitinha e de João Félix para Bruno Fernandes que queimaram linhas pela primeira vez, Pedro Neto cruzou para o desvio de Félix ao segundo poste defendido por Unai Simón, que travou ainda a recarga acrobática de Ronaldo (37′). Portugal aparecia e não ficava por aí, com Nuno Mendes a combinar com Félix num canto à direita para um remate forte que desviou em Pedro Porro e bateu na trave (42′). O intervalo chegava sem golos, com Espanha superior em todos os capítulos mas com Portugal a perceber o “caminho”.

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A segunda parte começou sem alterações, naquilo que foi quase um reconhecimento daquilo que as equipas conseguiram fazer contra um adversário que merecia todo o “reconhecimento”, mas tendo a Seleção ainda com mais personalidade, a forçar o erro espanhol e com Vitinha a recuperar mais bolas no meio-campo contrário. No entanto, e nessa fase de maior equilíbrio na partida, a estratégia de Martínez sofreu um rombo: Nuno Mendes, que estava a colocar Lamine Yamal no “bolso”, saiu por lesão trocando de forma direta com Nelson Semedo. Apesar disso, os contornos do jogo mantinham-se, neste caso com 20 minutos iniciais sem oportunidades para nenhum dos lados mas com mais posse de Portugal e outra capacidade de gerir o jogo. Álex Baena, aproveitando uma bola não aliviada da Seleção no primeiro terço, teve um remate fraco (65′).

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A qualidade do encontro tinha caído. A Espanha, apesar de estar a tentar subir linhas para um novo ataque mais consistente à baliza, não deixava cair aquela ideia de que uma transição que fosse bem metida no lado contrário podia acabar com as contas. Portugal, apesar do bom início de segundo tempo, não descurava esse revés que seria sofrer primeiro. Por mais que as equipas quisessem marcar, não disfarçavam a vontade de não sofrer. Martínez começou a mexer, com Diogo Dalot e Rafael Leão a entrarem para os lugares de Cancelo e João Félix antes de Ferran Torres render Álex Baena na esquerda do ataque espanhol. Lamine Yamal teve um livre direto descaído sobre a direita para nova intervenção de Diogo Costa (73′), Bruno Fernandes atirou às malhas laterais numa segunda bola ganha na área ao segundo poste (76′) mas o nulo mantinha-se.

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A parte física começava também a ditar leis, com Martínez a ter uma alteração mais “arriscada” de Vitinha por Bernardo Silva pelo desgaste do médio do PSG (além da troca de Pedro Neto por Francisco Conceição) e Luis de la Fuente a lançar Mikel Merino e Fabián Ruíz por Dani Olmo e Pedri. Do nada, foi nessa fase quase morta do encontro onde a própria Espanha só ia pela certa à frente que aconteceu o descalabro de Portugal numa série de erros consecutivos que valeram o único golo: Bernardo Silva, já com amarelo, fez uma falta, os espanhóis colocaram a bola a rolar rápido sem que os médios tivessem capacidade de reação a essa aceleração, Rúben Dias saiu para o corte que não conseguiu e Ferran Torres aproveitou esse espaço para lançar Mikel Merino que, qual talismã, necessitou apenas de uma oportunidade para marcar (90+1′). Ainda houve um desvio de cabeça após livre de Bernardo Silva que saiu por cima mas o mal já estava feito…

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