Sou de uma geração que não foi a tempo de cumprir o serviço militar. Mas joguei futebol. A comparação é disparatada? Talvez seja. Mas a verdade é que também no futebol há uma escola de valores. Também no futebol há camaradagem, sentido de pertença, disciplina, sacrifício e companheiros que ficam para a vida. Numa equipa há vanguarda e rectaguarda, tácticas, planos de ataque, sistemas de forças, linhas recuadas, capacidade de sofrimento e uma ideia muito concreta de missão comum.
Se o imaginário do futebol é metáfora para a vida, o imaginário da guerra é metáfora para o futebol: o cerco à baliza adversária, as bolas bombardeadas para a área, dar o corpo às balas, o jogador-general e, claro, o capitão. Os exemplos são quase infinitos. O que faz sentido: em tempos de paz, o futebol ocupou uma parte do lugar simbólico da guerra. O palco dos sonhos substituiu o teatro de operações.
Enquadrado assim, parece ainda mais natural que seja no futebol que muitas pessoas encontrem a válvula de escape que lhes permite serem patrióticos sem pedir autorização aos guardiões dos costumes. Que possam cantar A Portuguesa como quem cumpre o Juramento de Bandeira. E quando digo muitos, digo quase todos: os que só descobrem o futebol quando joga a selecção, os que vivem o futebol todos os dias, os que desconfiam do patriotismo, e até aqueles que fingem que não querem saber da selecção para nada, quando no fundo não conseguem deixar de querer que Portugal vença contra o Congo, contra o Uzbequistão, contra a Croácia, contra a Espanha, contra quem vier.
Há qualquer coisa de profundamente saudável nisto. A selecção portuguesa permite a um país desconfiado de si próprio e habituado a falar mal de si mesmo, reencontrar, numa espécie de suspensão do quotidiano, uma linguagem comum. Não é pouco. Num tempo em que quase tudo se fragmenta, a selecção ainda consegue reunir famílias, cafés, ruas, praças, emigrantes, velhos, jovens, sportinguistas, benfiquistas, portistas, gente que discute táctica e gente que só quer saber se a bola entrou. Durante noventa minutos, ou durante cento e tal, somos obrigados a conjugar a primeira pessoa do plural. Nós sofremos. Nós marcámos. Nós passámos. Nós ganhámos. É obra.
É claro que a selecção pode não estar a jogar o seu melhor futebol. Isso faz parte. o patriotismo não é uma classificação estética, nem se afere pela pontuação na fantasy. Não se apoia Portugal só quando Portugal joga bem. Para todos os efeitos, isso chega a ser secundário. Quando aqueles onze entram em campo, levam consigo mais do que uma camisola de poliéster. Levam, literalmente, Portugal: as quinas, a cruz da Ordem de Cristo, a história de um país antigo, exíguo em território, mas enorme na sua memória.
E, quando chega o Verão, é admirável ver o modo como os nossos emigrantes tomaram posse desta iconografia. Para eles, o emblema da Federação Portuguesa de Futebol é o grande emblema de pertença. Vemo-lo nas aldeias, nos BMW brancos vindos da Europa Central, nas bombas de gasolina, nas tatuagens, nas camisolas usadas por crianças que falam melhor francês do que português, mas que sabem perfeitamente quem são.
Viram, na Quinta-feira, as ruas de Toronto? Foi extraordinário: uma comunidade a dizer que existe, numa completa ausência de vergonha. O folclore nacional, que por cá parece embaraçar tanta gente, aparece na emigração com uma força comovente.
Talvez devêssemos aprender alguma coisa com os emigrantes. Em Portugal, onde os portugueses ainda não sentem a necessidade diária de provar que existem, há uma peculiar parcimónia no uso dos símbolos nacionais. Como se fosse necessário pedir desculpa por uma manifestação pública de pertença. Chama-se a isso patriotismo elementar: a consciência de que precisamos de sinais, rituais e momentos comuns. A política que o despreza acaba sempre por se tornar fria e incapaz de compreender a vida concreta das pessoas.
Por isso, sim, vale a pena aderir ao entusiasmo pela selecção. Vale a pena ver os jogos, sofrer, discutir, acreditar, festejar, criticar e voltar a acreditar a seguir. Vale a pena desejar que Portugal vá mais longe, mesmo quando não joga como gostaríamos. Vale a pena perceber que, em certos momentos, o futebol nos oferece a alegria comum que a vida pública nos retira.
Há quem ache tudo isto excessivo. Mas não é apenas isso. Nunca foi apenas isso. A selecção portuguesa é uma das poucas ocasiões em que Portugal se vê a si próprio como uma comunidade inteira. Num país que tantas vezes duvida de si próprio, isso já é uma vitória.