Hoje, em Dallas, Portugal defronta a Espanha nos oitavos de final do Mundial. É a conversa do dia desde os cafés aos grupos de WhatsApp, e por noventa minutos e mais uns trocos, o país inteiro vai parar para saber quem ganha. O Estado inteiro já mostrou como leva isto quase tão seriamente como a cobrança de impostos: o primeiro-ministro esteve em Houston a ver o Uzbequistão, com quem presumo termos relações estratégicas profundíssimas, depois voou a Toronto para a Croácia, o presidente da Assembleia da República foi a Houston ver a estreia frente à RD Congo, e o Presidente Seguro marcou presença em Miami contra a Colômbia. Foram, aliás, pesarosamente, porque todos sabemos que as suas verdadeiras prioridades são a saúde, a educação e a justiça. Tão prioritária, de resto, que esta última ainda arranjou tempo para indemnizar José Sócrates em quinze mil euros.
A verdade é que, muito antes de haver clássicos ibéricos no futebol, Portugal e Espanha disputavam algo bem mais importante: a própria existência de Portugal. No século XVI, Portugal impressionou a Europa inteira tendo D. Manuel I enviado a Roma, para o Papa Leão X, um rinoceronte vivo, o primeiro que a Europa via desde a Antiguidade. Reza a lenda que o Papa ficou tão embasbacado que decretou entrada gratuita para portugueses nos espectáculos romanos, privilégio que italianos espertos passaram a explorar fingindo-se portugueses, e que sobrevive ainda hoje na expressão italiana fare il portoghese. Porém, sobrevive o boato, mas não a grandeza que o motivou. Fomos encolhendo. Deixámos de pensar como império para nos habituarmos a pensar como rectângulo, e de rectângulo passámos à província periférica da Europa, incapaz de definir com verdadeira autonomia a sua política externa. Ninguém nos tirou o rei desta vez, nem foi preciso invadir fronteiras. Mas o instinto de ceder em vez de negociar, de seguir em vez de liderar, é desconfortavelmente semelhante. Ao menos não somos espanhóis…
Não foi noticiado como merecia, e não é difícil perceber porquê: não tinha bola, para o povo, nem cobrança de impostos, para o Estado, os dois únicos assuntos a que este país e as suas instituições ainda reagem a sério. Aconteceu, ainda assim, em Janeiro, e foi o mesmo reflexo de ceder que agora nos leva a Dallas. A 17 desse mês, no Grande Teatro José Asunción Flores, o mesmo onde em 1991 nasceu o Mercosul, assinou-se o maior acordo comercial de sempre entre a Europa e as Américas. À mesa europeia, a presidir, estava um português. António Costa, presidente do Conselho Europeu, deu a cara à cerimónia, num papel protocolar, não decisório, o mesmo que a diplomacia portuguesa desempenha nesta região há gerações. A assinatura formal, pela Comissão, coube a Ursula von der Leyen. Costa recebeu por ofício de Bruxelas, não por desígnio de Lisboa, e Portugal não moveu uma palha para merecer aquela fotografia. Calhou, como quase tudo o que ultimamente nos acontece.
Se procurássemos um ponto de partida, 1703 seria o candidato óbvio. Seria também uma data cómoda de mais: o vício é mais antigo do que o próprio Methuen. Foi nesse ano que o Tratado de Methuen abriu as portas portuguesas aos lanifícios ingleses e as portas inglesas ao vinho português, e Adam Smith, no Livro IV da Riqueza das Nações, tratou o acordo sem qualquer reverência. Nuno Palma evidenciou, em As Causas do Atraso Português, que a divergência começou antes, na perda de poder das Cortes ao longo do século XVIII. Ironicamente, foi um economista de família sefardita portuguesa, David Ricardo, quem usou este mesmo par, pano e vinho, para explicar ao mundo a vantagem comparativa. Bonita teoria. Convenientemente cega para a diferença entre um negócio e o destino de uma nação. Um pequeno grupo de mercadores do vinho do Porto escolheu Methuen e lucrou bem com ele, a nação inteira nunca chegou a escolher nada.
Avancemos do Marquês de Pombal ao século XX: um império inteiro perdido pelo caminho, e a entrada, mais tarde, na Comunidade Europeia. Depois da adesão em 1986, Portugal e Espanha entraram na mesma sala com as mesmas chaves. A diferença é que a Espanha nunca deixou de se pensar como um país com peso no mundo, económico e político, e continuou a agir em conformidade, ao passo que Portugal se instalou na subserviência. O Instituto Cervantes tem hoje sedes em Nova Iorque, Chicago, Albuquerque e Seattle, o Santander e o BBVA compraram a espinha financeira da América Latina nos anos 90, a Zara veste meio centro comercial americano sem que ninguém pense duas vezes que é espanhola, e atrás dos grandes seguem centenas de pequenas e médias empresas espanholas hoje instaladas nos Estados Unidos, no Canadá e em toda a América Latina.
Nem sempre foi assim. O Abade José Correia da Serra, embaixador de Portugal em Washington entre 1816 e 1820, era tão próximo de Thomas Jefferson que este lhe reservava, em Monticello, um quarto só seu, ainda hoje conhecido como o quarto do abade. Chegaram a esboçar juntos a ideia de um sistema americano, uma aliança entre os Estados Unidos, Portugal e o Brasil que a diplomacia americana da época achou fantasiosa e que a história nunca chegou a testar. É curiosamente pouco conhecido em Portugal: fosse espanhol ou inglês, já teria dado um filme.
Bastam os episódios. Voltemos ao presente: ninguém pede a Portugal o volume de exportação da Alemanha, isso seria pedir escala a mais a um mercado deste tamanho. Pede-se-lhe apenas a presença que já provou ser capaz de ter, e essa nunca dependeu de dimensão nenhuma. A diferença entre Portugal e Espanha nunca foi de escala, foi sempre de método, e já tivemos o método. Perdemo-lo, e esquecemo-lo tão bem que até esquecemos que o tivemos. E assim chegamos ao dia de hoje: Portugal, aluno aplicado de Bruxelas, ocupa-se do resto, anfitrião de recepções, fornecedor de líderes para instituições alheias, sem nunca organizar nada que lhe sobreviva. No papel, somos uma das raízes da comunidade lusófona nas Américas, na prática fomos o catering, do Brasil ao Canadá. Mesmo no Brasil, é a Iberdrola, através da Neoenergia, quem distribui electricidade a quarenta milhões de brasileiros, e é o Rei de Espanha quem entrega, desde 1983, um prémio de jornalismo que já premiou mais brasileiros do que espanhóis. Nos Estados Unidos e no Canadá, onde vivem milhões de luso-descendentes de Massachusetts a Toronto, a presença portuguesa continua comunitária e afectiva, igrejas, ranchos folclóricos, festas de Junho, nunca comercial ou diplomática ao nível que a comunidade justificaria.
O mesmo reflexo explica o Mercosul agora. O acordo continua em ratificação, com parte do texto remetida pelo Parlamento Europeu para o Tribunal de Justiça. E esta semana, em Assunção, o Mercosul lembrou que não espera por ninguém: o Uruguai assumiu a presidência do bloco, o Brasil e a Argentina chocaram sobre quotas, e o bloco abriu negociações com o Japão como seguro contra a demora europeia. Política comercial é competência exclusiva de Bruxelas por tratado, ninguém sugere o contrário. Mas diplomacia económica e investimento bilateral não são política comercial, são política externa, e essa nunca deixou de ser nacional. Pedro Sánchez, cujas políticas internas eu dificilmente aplaudo, ao menos não abdicou da política externa própria: foi a Pequim fechar negócios em nome de Espanha sem pedir licença a ninguém. Nós dizemos que sim antes de sequer sabermos qual foi a pergunta, seja ela feita em Bruxelas ou em Washington.
No entanto, não está escrito nas estrelas que temos de delegar até ao mais elementar do nosso peso no mundo, económico, político e diplomático, dependentes eternamente dos humores de Bruxelas ou das agendas de Washington. Isso foi escolha, e o que foi escolhido pode ser escolhido de novo, de outra maneira. Já provámos que sabemos ganhar quando nos apetece: ninguém no país escapa ao Fisco, prova de que Portugal organiza bem aquilo que decide levar a sério. Hoje, em Dallas, o país inteiro vai gastar noventa minutos a acreditar, com toda a razão, que Portugal vale a pena. Só está a jogar no tabuleiro errado. Pessoa escreveu que tudo vale a pena se a alma não é pequena, e a nossa alma nunca o foi, somente é mal gerida: inteira dentro das quatro linhas, ausente em tudo o que fica de fora delas. Em 1640 tirámos a coroa aos Filipes à força. Desta vez nem força faz falta, basta jogarmos, fora do relvado, o único jogo que ainda temos por ganhar. Já agora, boa sorte a todos esta noite. Vai continuar a ser a única coisa de que falamos amanhã.