Os Megadeth cancelaram o concerto deste domingo na Meo Arena, em Lisboa, mas a informação só foi disponibilizada pela Prime Artists, a promotora do espetáculo, quando o público já estava há meia hora na sala à espera da banda norte-americana de thrash metal. Um elemento da organização comunicou à plateia que o concerto já não se ia realizar, remetendo explicações para mais tarde e através das redes sociais.
Depois de assobios esporádicos durante o período de espera para que os Megadeth se apresentassem, os ânimos exaltaram-se assim que o cancelamento foi anunciado. Não só irrompeu uma enorme vaia como foram atirados vários copos para o palco e muita gente começou a abandonar a sala de espetáculos ou a dirigir-se a elementos da Meo Arena a pedir explicações e a exigir um reembolso.
A banda tinha sido anunciada no início deste ano como um dos cabeças de cartaz do EVILLIVƎ Festival, mas acabou por não aparecer no concerto — o Observador tinha a informação de que, pelo menos antes da hora do concerto, a banda esteve no recinto. A Prime Artists não adiantou explicações sobre este cancelamento, quando o confirmou. No texto que divulgou, apenas informou que “o concerto de Megadeth no EVILLIVƎ Festival não se realizará” e que “o espetáculo de Marilyn Manson terá início às 22h30”, remetendo mais informações para “brevemente”.
A banda emitiu um comunicado mais tarde, oferecendo uma explicação para o sucedido. Numa mensagem divulgada através da conta oficial dos Megadeth no Instagram, o grupo justificou o cancelamento com “questões técnicas” que “fugiram” ao seu controlo — não explicitando de que problemas se tratava nem quando surgiram, visto que o palco já estava montado com o seu equipamento e com uma lona com o logo do conjunto.
— Megadeth (@Megadeth) July 5, 2026
Os Megadeth escreveram ainda estarem “consternados e frustrados” com o sucedido, dirigindo-se diretamente aos fãs para prometerem um regresso: “Estamos tão desapontados com esta situação como vocês. Esperamos regressar para vos darmos o espetáculo que merecem”.
A promessa de regresso é particularmente significativa dado que os Megadeth lançaram em fevereiro um álbum autointitulado, o 17.º e anunciado como o último da histórica carreira da banda, dando azo a uma digressão de despedida. A razão pela qual o grupo vai abandonar os palcos deve-se à condição médica do seu fundador e único membro fixo, o vocalista e guitarrista Dave Mustaine, que foi diagnosticado com contratura de Dupuytren, doença que afeta a mobilidade das mãos e vai impedi-lo de continuar a tocar.
Quando o cancelamento do concerto foi anunciado no palco, várias pessoas gritaram a exigir o dinheiro do bilhete de volta, não existindo ainda uma resposta oficial da promotora sobre essa situação. Tratando-se de um festival, a ausência de uma banda pode não dar direito a reembolso. Ainda assim, muitas pessoas saíram da sala insatisfeitas com a mudança de última hora. Na página de Instagram da Meo Arena, muitos fãs expressaram o seu desagrado e exigiram o dinheiro de volta, situação idêntica à conta oficial do EVILLIVƎ até ao momento em que foram desligados os comentários.
Depois de anunciado o cancelamento, o recinto perdeu uma parte significativa do público, encontrando-se a meia casa para o último concerto da noite, de Marilyn Manson. Antes tinham já atuado os Mastodon, os Converge, os The Gathering e os Imminence — sem registo de problemas técnicos de maior.
Marilyn Manson: o salvador?
Shock rocker na esteira de figuras como Alice Cooper e Iggy Pop, atreito a temáticas tabu e a incomodar as consciências mais puritanas, Marilyn Manson tornou-se nos anos 90 e 2000 como um dos grandes bodes expiatórios da cultura pop para os males sociais — especialmente no que concerne a violência cometida por jovens, sendo o mais infame de todos os exemplos o massacre de Columbine. Todavia, o cantor de 57 anos deixou de ser apenas uma figura artisticamente controversa a partir de 2021, momento em que foi acusado por diversas mulheres — entre elas, a sua ex-companheira e atriz Evan Rachel Wood — de instâncias de abuso sexual e violência doméstica. Uma investigação criminal de quatro anos não resultou em acusações formais, mas muito em parte porque uma porção significativa das queixas já tinha passado o prazo de prescrição.
https://observador.pt/2016/10/08/quem-tem-medo-de-marylin-manson/
Parece, portanto, inacreditável que, em 2026, tenha sido Brian Warner a figura a salvar “a honra do convento” para um festival, mas foi o que aconteceu nesta noite, com o artista e a sua banda a dar um excelente concerto. E é ainda mais notável que o cantor tenha sido recebido tão entusiasticamente pelo público que ainda se encontrava na Meo Arena, dado esteve em Portugal em novembro para um concerto no âmbito desta mesma digressão de apoio ao disco One Assassination Under God.

Não obstante a irritação ainda patente fruto do cancelamento dos Megadeth, esse mau ambiente dissipou-se no momento em que Bela Lugosi is Dead dos Bauhaus deixou de se ouvir e iniciou-se um espetáculo dantesco de holofotes vermelhos e cruzes a piscar no palco. Com Nod If You Understand, Manson surge em palco e puxa pelo público, que reage em conformidade. Pondo de parte as circunstâncias pessoais do cantor, é fácil perceber a razão do seu sucesso dado o magnetismo que exulta e o cariz simples mas eficaz da sua mescla de rock industrial e gótico cheia de groove. A esses factores junta-se o facto de ter deixado de beber e ter recuperado a voz a um nível considerável, apresentando-se no Meo Arena em muito melhor forma do que talvez fosse expectável, sendo ainda auxiliado pelas melhores condições sonoras da noite.
Entre repetidos apelos ao público e declarações de amor a Lisboa, Manson dedicou larga parte da hora de concerto que tinha à disposição para recuperar o catálogo dos anos 90 e do início dos 2000, puxando pela nostalgia com temas como Disposable Teens, The Nobodies, mObscene ou Angel With the Scabbed Wings. No entanto, aproveitou ainda tanto para sacar do baú um deep cut de Antichrist Superstar como Dried Up, Tied and Dead to the World como para apresentar um tema como Exit Wound do álbum vindouro a sair em agosto.
Sem surpresas, foi quando recorreu a duas das suas famosas versões que as vozes mais se fizeram ouvir na sala lisboeta: primeiro com Sweet Dreams (Are Made of This), dos Eurythmics, e depois, já no encore e a encerrar, com Personal Jesus dos Depeche Mode. Pelo meio ainda o vimos a recuperar os icónicos andarilhos de pintor para cantar Tourniquet e a lembrar porque é que, durante alguns anos, The Beautiful People foi um hino tão mórbido quanto inescapável.
De regressos e perdas
Antes de Manson e da debacle provocada pela ausência dos Megadeth, tudo apontava para que esta edição do Evil Live deixasse todos os presentes satisfeitos, já que, não obstante o downgrade face à edição de 2025 (que teve três dias, no Estádio do Restelo), todas as bandas se apresentaram em bom plano este domingo.
Depois do violincore dos Imminence — banda sueca que alia ao seu metalcore uma componente sinfónica com o violino do vocalista Eddie Berg —, a Meo Arena preparava-se para o regresso dos The Gathering ao nosso país. Banda de culto nas lides do metal com pendor mais gótico e atmosférico, este retorno dos neerlandeses coroava-se de expectativa por tratar-se da reunião de Anneke van Giersbergen no âmbito da celebração dos 30 anos do seu disco Mandylion — a última vez que tal tinha acontecido foi num concerto de 2006 no Rock in Rio, antes de abandonar a banda para seguir uma carreira a solo. “Já passou um milhão de anos desde que viemos para cá”, admitiu ao público. Tanto quanto sabemos, a cantora só regressou para as datas ao vivo, não estando garantida a sua continuidade para lá disso, mas pelo que vimos durante a tarde, só um grupo de loucos a rejeitaria.
Apesar do som estar bastante deficiente quando a banda atacou Eleanor, isso não demoveu o sexteto nem impediu Anneke de esbanjar simpatia e entrega vocal, mesmo quando tinha de se esforçar para ascender sobre a cacofonia instrumental. A partir de In Motion 1, o som melhorou e lá conseguimos apreciar de outra forma os arranjos dos The Gathering, principalmente os teclados. Depois de recordar temas como Strange Machines — com um riffzão que começou a preparar o público para o que se seguiria — e Saturnine, que arrancou coros do público, a banda despediu-se sob uma enorme ovação, sinal de que talvez deveriam cá voltar em nome próprio.
O mesmo poderíamos dizer de uma das melhores bandas em atividade — e certamente uma das mais influentes e consistentes da história da música pesada. É trágico que os Converge tenham passado tantos anos arredados de Portugal, sendo que na última passagem foi também em festival, em 2018. Não estamos a falar de um grupo qualquer, mas sim de um quarteto que, não obstante mais de 30 anos de carreira em cima, mostra a mesma ferocidade e qualidade de sempre, ou não tivessem lançado em 2026 não um, mas dois — Love Is Not Enough e Hum of Hurt — discos candidatos a álbum do ano.
Tratando-se de uma banda com um tipo de som extremamente ruidoso e espástico e tendo em Jacob Bannon um vocalista tão visceral quanto impercetível — com o baixista Nate Newton a ser o dr. Jeckyll para o seu mr. Hyde —, havia o medo de que, na Meo Arena, o seu concerto descambasse em ruído. Felizmente, os Converge apresentaram a dose certa de caos e controlo — exceto quando o baterista Ben Koller aviolentava os pratos de tal maneira que os fazia colapsar. Além dos temas mais recentes e com um formato mais apurado de canção como Bad Faith, Amon Amok, We Were Never the Same ou Doom in Bloom, o quarteto de Salem trouxe clássicos do género como Eagles Become Vultures, Dark Horse e uma estupenda Concubine. Voltem, por favor, a solo e numa sala onde quem assiste ao concerto tema pela vida.




Por fim, ainda antes do período alocado aos Megadeth, assistimos ao regresso dos Mastodon a Portugal e, pela primeira vez, sem Brent Hinds na formação. O guitarrista tinha saído de forma acrimoniosa do conjunto que ajudou a fundar em 2025 e nunca chegou a ser possível que ele e os outros três — o baixista Troy Sanders, o (outro) guitarrista Bill Kelliher e o baterista Brann Dailor — fizessem as pazes já que morreu num acidente de viação em agosto do ano passado. A morte, todavia, tem o condão de fazer esquecer quezílias e a banda — com Nick Johnston na guitarra e o brasileiro João Nogueira nos teclados — recordou o camarada caído em Your Ghost Again, canção composta em sua memória e que faz recordar a fase mais pesadona da banda.
Sendo uma das bandas mais populares do metal contemporâneo, seria provável por si só que os Mastodon fossem recebidos em festa onde passam, mas Portugal é um país particularmente fã dos rapazes de Atlanta. Portanto, quando Tread Lightly começou a soar, o público irrompeu logo em gritos. Com um alinhamento que percorreu quase todos os discos da banda — exceção feita à omissão imperdoável de Crack the Skye, provavelmente cortada por falta de tempo — fomos dos primórdios mais sludge e violentos com Mother Puncher até à atual fase mais devedora do rock progressivo (e, arriscamos dizer, de menor qualidade) em Steambreather. Os destaques, no entanto, foram mesmo as canções de Leviathan, que continuam a provocar acessos de loucura cada vez que são despejadas sobre as massas insuspeitas, seja o breakdown thrash de Megalodon, seja os arremedos insanos do capitão Ahab em Blood and Thunder.