Uma viagem de cinco horas trouxe alívio a quem viu as casas ameaçadas pelas chamas em Tondela, para onde se espalhou o fogo com início em Vouzela. Na madrugada de sábado, 118 militares e 25 meios da espanhola UME (Unidade Militar de Emergências) vindos de León entraram em São João do Monte ao abrigo do mecanismo de Proteção Civil da União Europeia. Horas depois, eram elogiados pela eficiência, pela organização, mas também pela autossuficiência. “Se vir o método de trabalho deles, é impressionante. Eles são muitos, mas descansam mais. Quando entram, entram a matar, enquanto que os nossos [operacionais] trabalham até cair para o lado”, atira um homem tondelense, habituado a ver fogos perto de casa.
“Não há maior satisfação do que sentir que o dever foi cumprido”, frisa ao Observador o capitão Daniel Salsón. “No final de contas, é a nossa razão de ser e a verdade é que não há nada melhor que sentir o agradecimento das pessoas que foram ajudadas.”
“Até comida trazem”, assinala o homem de Tondela. Além de alimentação e bebida, os espanhóis chegaram também com combustível. Entre as pausas no combate às chamas, é comum ver a equipa da UME a chegar ao Parque de Merendas de São João do Monte — perto do quartel dos bombeiros onde está um centro logístico que reúne bombeiros portugueses — para abastecer os carros num camião cisterna.

“Tratamos de ser autossuficientes para não trazer mais problemas às pessoas. Trazemos comida, bebida e combustível. As pessoas aqui já têm muito trabalho e não queremos incomodar mais”, acrescenta Daniel Salsón. Mas os espanhóis já usufruíram da generosidade dos portugueses: “Mesmo assim, as pessoas têm dado muitas coisas, estão sempre a dar comida, sem nós pedirmos. Têm sido muito amáveis”.
É Daniel Salsón quem tem a função de coordenar no terreno os meios e a equipa da UME. Entre os operacionais fardados de vermelho, há muitos repetentes em território nacional — onde já estiveram em 2017 e em 2024, sempre para combater incêndios e, na última vez, também “perto desta zona”.
Ao final do dia, numa fase em que o combate às chamas estava mais calmo, uma carrinha da UME levou alguns militares para o pavilhão, a menos de dez minutos de São João do Monte. Quando passaram em frente ao café Ponte Nova, ouviram aplausos de alguns populares que aproveitavam a esplanada do estabelecimento para descansar.
Dos incêndios em Portugal ao sismo na Venezuela, UME chega a todo o lado. A Tondela vieram com camiões, drones e máquinas pesadas
Entre os carros estacionados perto do Parque de Merendas, numa pausa antes e depois da ida dos espanhóis para a frente de incêndio, Daniel Salsón, há mais de três anos na UME, explica a origem desta equipa.
“É uma unidade militar que está especializada para atuar em todos os cenários de emergência. Podemos atuar em incêndios, como estamos a ver aqui, mas também temos capacidade de combater tempestades de inverno severas, inundações — como aconteceu com a DANA em Valência — e apoiar operações pós-terramotos, como está a acontecer agora mesmo na Venezuela”.
Os militares que estão por estes dias a combater o incêndio que deflagrou na madrugada de quinta-feira em Vouzela fazem parte do subgrupo tático 51 do quinto batalhão da UME, que tem sede na Base Militar Conde de Gazola, na pequena localidade de Ferral del Bernesga, perto de León. Os restantes quatro batalhões estão espalhados pelo território continental espanhol (Madrid, Sevilha, Valência e Saragoça).
Depois de Espanha ter enfrentado fortes incêndios em 2005, a autoridade política de então entendeu que a criação deste organismo seria a melhor forma de organizar o combate a catástrofes. A ideia foi acompanhada de um grande investimento de largas centenas de milhões de euros. Mas a aposta neste braço das Forças Armadas é contínua: em setembro do ano passado, o Conselho de Ministros aprovou um investimento de 121 milhões de euros em máquinas de apoio ao combate aos incêndios.

“A UME atua quando é convocada para intervir em situações de emergência que superem as capacidades das autoridades civis ou quando a sua presença é indispensável para apoiar as ações em território nacional ou internacional. A sua mobilização responde a uma ordem direta do Governo espanhol e a sua atuação está orientada para proteger os cidadãos, restaurar a ordem e salvaguardar infraestruturas críticas”, lê-se no site do Ministério da Defesa de Espanha.
Em caso de emergência, e se a UME for acionada, cada batalhão é o “primeiro responsável” pela resposta operacional no seu território geográfico. “Ainda assim, se a magnitude da emergência supera as capacidades ou requer mais meios e pessoas, o resto dos batalhões pode participar e ajudar”, detalha Daniel Salsón.
Através de acordos bilaterais ou do mecanismo de apoio da UE, pode ser pedido o apoio da UME em diferentes países — como, além da região Centro de Portugal, acontece neste momento na Venezuela. “Ainda há outras vias, como através da ONU ou da NATO”.
O apoio pode traduzir-se tanto em máquinas como em pessoas. A Tondela, chegaram os clássicos camiões de bombeiros e maquinaria pesada, como uma máquina de rasto. “Ainda trouxemos drones para reconhecimento aéreo, incluindo noturno, e todos os mantimentos logísticos para apoiar a operação, desde material de saúde a comida”.

UME “portuguesa” é debate antigo. Daniel Salsón reconhece organização como mais-valia na coordenação
Quando acionou esta sexta-feira o mecanismo europeu de Proteção Civil, o Governo português frisou que ainda não estavam esgotadas as capacidades operacionais nacionais. Mesmo assim, o batalhão de León não perdeu tempo. Arrancaram nessa tarde e chegaram de noite à zona do incêndio. “Assim que chegámos, começámos a ajudar”, assume o capitão espanhol.
Quem olha para os meios estacionados em São João do Monte — onde ainda faltam os vários carros que estão nas frentes dos incêndios — compreende quando Daniel Salsón assume que a viagem foi mais longa do que o habitual “porque a comitiva escoltada era muito grande”.
Uma vez em território nacional, a coordenação com os meios portugueses é “bastante fluida”. Para isso, contribuiu a experiência antiga de grande parte dos membros desta equipa nos incêndios de 2017 e 2024. “Conseguimos integrar-nos nos dispositivos mobilizados, sobretudo graças à ajuda das pessoas e dos intervenientes locais”.
O debate sobre a criação de um ramo semelhante à UME em Portugal é antigo e reacende-se à boleia das catástrofes naturais, sejam elas incêndios ou tempestades como as vividas no início do ano na região Centro. Se é verdade que em Portugal existe um ramo das Forças Armadas inspiradas na UME — o RAME (Regimento de Apoio Militar de Emergência) — também é verdade que o investimento não tem comparação com o realizado no país vizinho.
Em 2017, no relatório independente aos incêndios de junho, a comissão técnica pediu um reforço do papel das Forças Armadas no apoio ao sistema de Proteção Civil, e traduziu essa ineficácia do RAME. “O Regimento de Apoio Militar de Emergência (RAME), criado no âmbito da reforma Defesa 2020, materializou-se, porém, numa versão minimalista da intenção inicial, pois acabou por não se constituir como uma unidade militar com capacidades, meios e processos dos diferentes ramos das Forças Armadas. O atual RAME, na situação atual, não tem condições nem capacidade para ser verdadeiramente útil em operações de emergência”, lia-se no documento. “O exemplo espanhol, embora com outra escala, permite ampliar o papel das Forças Armadas como agente de proteção civil em Portugal”.
Este ano é a primeira vez que dois helicópteros da Força Aérea intervêm no combate direto às chamas, assinalou o ministro da Defesa Nuno Melo.

Daniel Salsón não se coloca no papel de dar conselhos políticos e admite que “cada país tem a sua idiossincrasia”, pelo que as “organizações e infraestruturas” se adaptam à sociedade. Mas, com a experiência que tem no terreno, pode atestar a importância, em Espanha, desta força. “A UME acrescenta uma série de valores — espírito de sacrifício, abnegação, capacidade de luta em todo o tipo de terrenos. E isso é algo que dá valor a qualquer unidade”.
Se em Portugal é muitas vezes questionada a falta de coordenação no teatro de operações — onde se envolvem várias entidades, desde a Proteção Civil, a bombeiros ou GNR —, Daniel defende que a coordenação da UME “com os outros organismos está muito bem trabalhada”, sobretudo com as comunidades autónomas, responsáveis em Espanha pela proteção civil e resposta em emergências. “Quando elas nos pedem para entrar no terreno, essa coordenação já está trabalhada previamente. E se já nos conhecem e se já trabalhamos com eles, essa coordenação é mais simples”.
Entre os militares espanhóis mobilizados neste momento em território nacional, há alguns que sabem falar português. Os que não sabem, desenrascam-se, tanto nas conversas com os bombeiros como com os populares que tentam ajudar. Se a barreira linguística é um problema? “Bom, no final de contas há que tentar solucionar todo o tipo de problemas e eu acredito que quando há vontade, entendemo-nos todos”.
O conhecimento dos procedimentos para atuar em Portugal e do terreno — fruto das passagens recentes — também configura uma “vantagem” que tem sido amplamente reconhecida pelos moradores de Tondela.

UME fulcral no controlo das chamas em Daires. “É para dar tudo o que temos”
Os moradores de Daires já desesperam com os incêndios. O cenário repete-se ano após ano e desde que as chamas que começaram em Vouzela chegaram a esta localidade, poucos têm conseguido dormir. Entre a aflição, surgem reações extremadas. “Porque é que têm que ser os espanhóis a vir apagar o fogo? Tiveram que ser os espanhóis a apagar as chamas”.
Aos gritos, enquanto vê as chamas a caminho das casas, um morador reclama com os bombeiros portugueses enquanto elogia os militares vizinhos. Mas foi com o apoio de todos — bombeiros, sapadores florestais, UME e Proteção Civil — que o fogo não chegou às habitações.
“Ontem [sexta-feira] de noite estivemos aqui em grupo até às 5h15, porque estávamos com receio que o fogo chegasse. O fogo estagnou até às 10h [de sábado]. Entretanto chegaram alguns Canadair que deram muito jeito”, relata Teresa Clemente, enquanto entra na Associação Amigos Daires para encher copos com água e distribuir pelos operacionais.
“Depois das 13h começou a preocupar mais. Só agora [pelas 16h] é que os bombeiros estão a chegar, mas eles não podem estar em todo o lado. De certeza que os outros lados estavam pior e a nossa povoação só agora começou a ficar mais em perigo. Por isso só estão a chegar agora e em força, com muitos meios”.
No terraço da associação, onde costumam conviver os vizinhos, o movimento é diferente do habitual. Dezenas de pessoas apreensivas olham para o fumo que entra pelas narinas e se vê cada vez mais perto. Teresa tenta salvar os montes de palha que juntou para a festa da “recriação da malha de centeio”, que costuma realizar-se em julho, mas que não sabem ainda se se manterá.

Ali perto, e num local onde já se vê o fogo, António desespera. “Os bombeiros vão fazer o quê? Vão apagar o fogo quando ele já estiver aqui?”. Teresa tenta acalmar o homem e pede-lhe para se afastar das chamas.
Antes do trajeto que separa o fogo das casas, além de muitos eucaliptos, há pequenas quintas de gado que os donos tentam resgatar. “Tenho aqui os meus animais. Ia tirá-los se os bombeiros não se aproximassem para eles não arderem. Entretanto os bombeiros chegaram e não foi preciso, estão todos bem”, explica Fátima Henriques.
O marido abana com a cabeça e confirma o relato. “Se não fossem os bombeiros aquilo ia arder tudo. Os bombeiros chegaram rapidamente e foram incansáveis”, acrescenta Arlindo. A mulher retoma o discurso para dizer que ainda estão a equacionar a necessidade de retirar os “dez frangos, seis galinhas e nove coelhos”. “Eu não gosto de ver queimar pessoas, mas também não gosto de ver queimar os meus bichinhos”, lamenta.
“Os bombeiros espanhóis foram impecáveis. São incansáveis”, elogia Arlindo. Os aplausos aos operacionais estrangeiros surgem naturalmente nas conversas. “Os que acudiram aqui foram os espanhóis, sem margem de dúvida. Estavam três camiões em frente à minha casa”, diz Elsa Martins.
Daniel Salsón olha com orgulho para estas palavras. “Essas pessoas conseguiram salvar as suas vidas, os seus bens materiais, a sua casa, e no final de tudo ainda nos agradecem… acho que não há maior satisfação do que ver o dever cumprido”. Além do carinho que vão sentindo através da comida que os portugueses vão oferecendo, o capitão assume que sentem esse carinho quando estão no terreno. “É uma Unidade que claramente onde vai é para acrescentar e para ajudar nas emergências. Para dar tudo o que temos e todas as pessoas recebem isso de forma recíproca”.

Bombeiros combatiam chamas junto às casas quando fogo começou numa encosta contrária
Além dos espanhóis vindos de León, os operacionais no terreno completam-se com bombeiros vindos de todo o País. Há corporações do Porto, Algés, Queluz, Vila do Conde, Matosinhos ou Valadares, entre muitos outros.
Num momento em que populares e operacionais se concentravam nas traseiras das casas, onde estão as quintas de gado, perto dos eucaliptos, o alarme surgiu do outro lado. Em frente às habitações, numa encosta acentuada, começou a arder de repente. Ricardo Miguel foi um dos rostos do desespero. Estava à procura de mangueira, quando viu o fumo a chegar do outro lado.
Sem tempo para pensar, correu rapidamente para subir até ao local onde surgia este novo foco. Os gritos dos moradores mobilizaram mais pessoas para uma zona onde os carros dos bombeiros não conseguiriam chegar com tanta rapidez. “Como é que começou ali?”, questiona uma vizinha. Assim que conseguiram abafar as chamas com recurso a ramos de árvores, as suspeitas começaram a surgir.
“No meio do fogo tudo é possível. A gente não pode afirmar nada, mas seria um bocado estranho uma projeção com 100 metros, sem vento, ir bater num sítio com árvores secas, mais a altitude. Se começasse a arder ali chegava ao Caramulo e varria tudo”, resume Ricardo, já a descansar do sprint até ao fogo.
As suspeitas não confirmadas são suportadas pela afirmação do ministro da Administração Interna, que admitiu fortes indícios de mão criminosa no fogo que deflagrou na madrugada de quinta-feira. “Não é de noite que há condições para o surgimento de ignições e logo duas ignições por volta das 2h, 3h da manhã. (…) Tudo indicia que houve, de facto, um comportamento de mão humana, um comportamento criminoso”, disse Luís Neves.
Enquanto Elsa Martins reconhece que “hoje [sábado] foi o pior dia” do incêndio na localidade de Daires, Lélia Alves arregaça as mangas e, de balde na mão, corre de um lado para o outro para tentar salvar o gado. “Tem vindo a arder lentamente. Isto começou a meter mais medo de manhã, mas andou aí um canadair e quatro avionetas que abafaram [as chamas]. Mas não fizeram o rescaldo e pegou numa zona de muitos eucaliptos e aí piorou tudo”.
Como os bombeiros garantiram que o incêndio não chegaria à quinta, Lélia e Armindo não chegaram a retirar os animais, mas admitem que se fosse necessário, teriam que soltar o gado na rua, porque não tinham local para guardar os galos, galinhas, coelhos e um porco.
Armindo tem os olhos raiados de há tanto tempo estar no meio do fogo. “Agora isto está tranquilo. Tenho uma mangueira de água para quando [os bombeiros] forem embora, eu consiga apagar algum reacendimento”. Apesar da aparente acalmia, não deverão dormir tranquilamente nos próximos dias. “Pelo menos estamos tranquilos com os animais, descansar não [conseguimos]. Mas se virmos que as nossas coisas estão em segurança, já é uma mais-valia”.
Proteção Civil acredita que, em breve, conseguirá dar uma “boa notícia” ao País
O cair da noite trouxe alguma tranquilidade a São João do Monte, mas sempre com atenção à imprevisibilidade do vento. Ao Observador, Simão Velez, do Comando Sub-Regional de Emergência e Proteção Civil de Viseu Dão Lafões, admitiu que ainda estavam ativas duas frentes. Uma em direção à A25 (mas ainda longe da autoestrada) e outra, “que traz mais preocupação”, em direção ao Caramulo. “Estamos a empenhar todos os esforços para que não” chegue à serra.
“Estamos a redefinir a estratégia e estamos confiantes que amanhã [domingo] conseguimos ter uma boa notícia para o País”, disse ao Observador.
Na manhã deste domingo, o comandante voltou a fazer um balanço, ainda sem a tão desejada “boa notícia”, mas com prognósticos favoráveis. Depois de “uma noite de algum trabalho”, Simão Velez disse que o trabalho feito permitiu chegar “a uma situação, neste momento, relativamente calma”, e com atenção a reacendimentos “que possam escapar”.

Continua a ser em São João do Monte que, esta manhã, continuam concentrados “a maior parte dos operacionais”. “Temos nessa frente 800 homens”, de um total de 1.221 mobilizados para todo o incêndio. “É a principal preocupação neste momento”, disse o comandante à CNN Portugal.
A acalmia registada esta manhã “pode ser alterada com as condições climatéricas”, sobretudo com o “vento que em termos de direção não nos é favorável”. “Tudo estamos a fazer para manter alguma tranquilidade. Temos alguma confiança que iremos manter o incêndio no perímetro atual”, com expectativa de, na manhã de segunda-feira, “passar o incêndio para uma fase dominada”.
As chamas começaram pelas 3h de quinta-feira em Vouzela, no distrito de Viseu, e depois de se propagarem a Oliveira de Frades e Tondela (no mesmo distrito), chegaram a Águeda, no distrito de Aveiro. O fogo já queimou mais de 10 mil hectares e fez dois feridos graves, nove feridos ligeiros e obrigou à assistência de 24 pessoas.

