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“Nunca vi tanto futebol no nosso feriado”: a “invasão do soccer" no aniversário da América

Os EUA celebraram mais um 4 de Julho, mas desta vez a festa foi partilhada com os adeptos do Mundial. Em Dallas, as celebrações dos 250 anos mostraram uma simbiose com o futebol fora do comum.

Miguel Cordeiro
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Nos Estados Unidos da América há uma regra: o 4 de julho faz-se com fogo de artificio. É feriado, é o dia nacional, é dia de vestir a bandeira e, acima de tudo, é dia de “soltar os fogos”. Durante a noite vê-se pirotecnia por toda a parte. Há fogos mais elaborados, e há pessoas que acendem apenas pequenos foguetes.

Além desta regra, há outros aspetos que compõem a festividade. Bandeiras e as cores do país a decorar a indumentárias, cadeiras de campismo para assistir aos espectáculos públicos, geleiras com latas de cerveja e refrigerantes e um forte cheiro a grelhados e a fritos. Mas este ano, há um factor generalizado que se acrescenta: camisolas de futebol.

Em Dallas, nas celebrações dos 250 anos dos Estados Unidos da América, encontrámos camisolas de vários países. Algumas vestidas por imigrantes orgulhosos — sobretudo mexicanos e colombianos — outras por adeptos do Campeonato do Mundo e, invariavelmente, também há camisolas vestidas por norte-americanos. A expressão “febre do Mundial” entra no léxico de quatro em quatro anos, mas nos EUA, é talvez a primeira vez que se estão a sentir os efeitos do contágio em massa.

Em pleno Klyde Warren Park, um grupo de crianças brinca com uma bola de futebol americano. O pai de uma das crianças repara nas credenciais FIFA que usamos durante todo o dia e pergunta ao grupo de jornalistas que estavam nesse jardim: “Estão aqui por causa do Mundial?”. É uma pergunta comum por estes dias, mas com ela vai quase sempre um interesse genuíno em saber mais sobre o desporto e muitas vezes é também acompanhada com a vontade de se mostrar que o desconhecimento da América do Norte em relação ao futebol não é tão grande como se julga.

Junto às crianças, Jeffrey, o pai, diz que os filhos gostam cada vez mais de ver futebol e que “faz-lhes bem ter o Mundial à porta”. Aponta para o filho e diz que é fã da Suécia e que gosta de Gyökeres enquanto faz o festejo do antigo jogador do Sporting. “Agora estou a torcer pela Inglaterra” diz logo a seguir. Jeffrey Cunnings explica que em Dallas já existe uma comunidade forte ligada ao futebol, principalmente nos escalões de formação, mas lamenta que a nível profissional ainda não estejam “ao nível da Europa”. Conta que jogou e que tenta ensinar os filhos a jogar, mas garante que “o Mundial é a melhor escola que podem ter”.

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A “febre do Mundial”, mistura-se com a celebração mais importante do Estados Unidos da América. Assinalam-se os 250 anos do país. A Declaração de Independência foi assinada a 4 de julho de 1776, quando as Treze Colónias declararam a separação formal do Império Britânico. Tradicionalmente, é a maior celebração do país. Este ano, a festa acontece em pleno Campeonato do Mundo no território norte-americano e isso acaba por moldar a tradição.

É horas antes da celebração no Klyde Warren Park que chegam dois dos maiores pontos de atração deste 4 de Julho em Dallas: Ronaldo e a Seleção Nacional portuguesa. Centenas de pessoas dedicaram a tarde a esse momento. Em frente ao hotel Adolphos, no centro da cidade e a apenas 15 minutos a pé do Klyde Warren Park, há uma rua que está completamente cortada. São quase 80 metros de estradas, com 3 vias, em que nenhum carro circula. Há barreiras colocadas pelas autoridades em cada uma das entradas. Quanto aos passeios, um está completamente livre e no outro, é dificil encontrar espaço para circular e para permanecer à espera.

A Seleção voltou a contar com uma enchente no momento de chegada a uma cidade que acolhe jogos do Campeonato do Mundo. Aconteceu em Palm Beach, em Houston, em Toronto — com uma dimensão impressionante — e agora acontece em Dallas. O Observador encontrou pessoas à espera da Seleção ainda antes da polícia chegar. Uma família de 5 pessoas — 3 crianças e 2 adultos — esperou desde as duas da tarde até às 19h para poderem ver de perto Cristiano Ronaldo. Não conseguiram. Ficaram mal posicionados face ao local em que o autocarro estacionou e por isso não conseguiram ver os jogadores. Ainda assim, esperaram mais uma horas depois da entrada da equipa, na esperança que Ronaldo pudesse surgir à janela — não há varanda neste hotel.

À hora em que o autocarro chegou, além desta família, estavam centenas de pessoas a aplaudir a seleção portuguesa. A larga maioria não falava português e notou-se novamente uma “Ronaldomania”, tal como já se tinha sentido em Houston, também no Texas. Quando o capitão da seleção portuguesa deixou o autocarro escutámos uma ruidosa gritaria acompanhada de telemóveis em riste para registar o momento.

Nessa mesma rua, o controlo policial fez-se sentir. Contámos 16 carros da polícia, 12 motas e 4 veículos descaracterizados, mas que tinham as sirenes ligadas. Na estrada que estava cortada ao trânsito, os policias circulavam lentamente com os olhos na multidão e nas varandas dos prédios que também acumulavam alguns curiosos. Depois da seleção entrar no hotel, a rua continuou cortadas por largos minutos, dificultando assim o trânsito que já se estava a tornar caótico devido às celebrações do 4 de Julho.

Durante o dia, seja pelo calor ou pela vontade de descansar no feriado, encontrámos ruas praticamente desertas no centro de Dallas, no dia de aniversário dos Estados Unidos da América. As poucas pessoas que circulavam seguiam quase todas para o mesmo sítio — o Main Street Garden. É neste jardim na avenida principal que acontecem, durante o dia, as principais festividades do 4 de Julho. Para lá chegar, é preciso atravessar vários cruzamentos que contam com um forte controlo policial. A Main Street está cortada ao trânsito e as ruas que a cruzam têm todas polícia. É assim até 500 metros desta celebração.

É a partir desse primeiro ponto de controlo das autoridades que se começam a ver pessoas em maior número. Há bandeiras dos EUA por toda a parte e também algumas do Texas. Nesse percurso, encontram-se mercados de rua, esplanadas com música, marcas que distribuem bebidas frescas e várias carrinhas de street food. Em todos estes locais, para lá das bandeiras dos EUA, encontramos também futebol. Está sempre no nosso campo de visão. Balões em forma de bola futebol, bandeiras dos países que participam no Campeonato do Mmundo, camisolas das seleções à venda, brindes alusivos aos Mundial, pequenos campos de futebol para as crianças, e colunas com o som das transmissões televisivas que se podem assistir dentro de alguns espaços comerciais.

A nível comercial, há poucos países com maior capacidade para aproveitar as modas. Se existe uma “febre do Mundial”, os Estados Unidos da América querem lucrar com isso. “Nunca vi tanto futebol no nosso feriado” diz-nos um polícia quando vê a credencial da FIFA que carregamos ao peito. “Habitualmente vêm com bandeiras e vestidos com as nossas cores. Hoje já vi camisolas de países que nem conheço”, explica este agente enquanto nos indica o caminho para o jardim que concentra as celebrações durante o dia. Nesse percurso, identificam-se produtos alusivos ao Campeonato do Mundo em todos os pontos de passagem. Percebe-se que há um sentido de oportunidade. Há procura por produtos do Mundial, seja pelos visitantes que viajaram para acompanhar a competição, ou pelos norte-americanos que não gostam de ficar de fora da grande festa.

No Main Street Garden, logo à entrada do jardim, está um grande pórtico do Mundial 2026 ao lado de uma pequena estátua da liberdade que se faz acompanhar do número 250. É o espelho de tudo o que vimos até chegar a este parque. No relvado, as crianças correm atrás de uma bola e as marcas que fazem ativações neste jardim, aproveitam para instalar balizas com jogos para os mais novos. Lucile, que vê os filhos a chutar a uma baliza, mostra-se surpreendida por gostarem tanto de futebol: “Não sei se é uma coisas passageira, ou se vão continuar a gostar, mas agora querem sempre sair de casa com uma bola de futebol. Antes só queriam futebol americano, mas acho que não é tão fácil de jogar, não sei”. Preocupada com tanta correria no calor da tarde de Dallas, Lucile chamas os filhos e pede que digam os jogadores favoritos. “Pulisic” grita um, “Messi, Messi, Messi” responde outro. Lucile diz que nem sabe quem são e que é o pai que lhes “deixa ver alguns jogos”.

Mais à frente, há um jovem que compra uma camisola de futebol num pequeno mercado de rua. É uma réplica da camisola que a seleção francesa utilizou no mundial de 98. Enquanto procura na carteira o cartão de crédito, Derick, conversa com o vendedor e refere que sempre viu futebol e que jogou durante a faculdade, nos EUA. Depois, diz ao Observador que há que aproveitar este Campeonato do Mundo para mudar algumas mentalidades: “É preciso mostrar aos norte-americanos mais conservadores que o futebol é um grande desporto, provavelmente o maior em todo o mundo. Mas nós que gostamos de futebol e que vivemos aqui na América também temos de provar ao resto do mundo que há interesse por este desporto no nosso país. Sempre que posso, ando com uma camisola dos meus clubes favoritos”. Logo depois, Derick pergunta para que país está a falar. “Portugal” respondemos. “Nunca lá fui, mas tenho uma camisola do Ronaldo, claro. Agora tenho de comprar de algum clube”, responde Derick, que confessa que comprar camisolas de futebol “é sempre um bom investimento”.

O factor comercial está sempre presente. A tentativa de alienação do futebol justifica-se em grande parte devido ao lucro que pode gerar. Ron Patel, um dos vendedores do pequeno mercado de rua que está ao lado do Main Street Garden, explica que sempre teve camisolas de futebol à venda, mas “costumavam ser poucas”. “Era algumas do Messi, do Maradona e do Ronaldo.” Explica que também tinha algumas não oficiais apenas com bandeiras de alguns países. “Agora tento ter muito mais. Nestas semanas quase tudo o que vendo é dedicado ao futebol. Camisolas, calções, chapéus, garrafas.” Ron explica que antes do Mundial, vendia essencialmente produtos dos Dallas Mavericks — da NBA — e dos Dallas Cowboys — da NFL. Continua a ter esse produtos na mesa, “tenho sempre, mas agora que tenho tantas de futebol, vendo menos dos clubes de Dallas”.

Tentámos também verificar os preços de alguns produtos. Numa banca com pequenas lembranças de Dallas, há porta-chaves, pulseiras, chapéus e até pequenas ventoinhas. Alguns têm o logo do Mundial 2026 ou as bandeiras dos países organizadores. A diferença de preços é gritante. Um porta chaves onde se pode ler Dallas em prateado custa 3.99 dólares, mas um em que se lê o nome da cidade com logótipo do Mundial no fundo, já custa 7.90 dólares. A diferença de preços também se regista nos outros produtos.

Emma conversa com o Observador enquanto desmonta um pequeno balcão que servia de expositor para algumas velas e incensos. “Sou eu que faço. Já me reformei e agora faço isto. Depois vendo onde consigo”. Sobre a integração do Mundial 2026 nas celebrações do 4 de Julho, Emma confessa que não se surpreende com isso, mas assume que não esperava tanto interesse: “Já vivo em Dallas há quase 30 anos e nunca vi tanta coisa ligada a futebol. Mas talvez seja só uma moda. Se calhar isto depois passa. Para mim não me interessa tanto. Não vou fazer velas com bandeiras por causa disto, se calhar devia, mas gosto de fazer as minhas coisas”.

Seja uma moda passageira, ou algo que veio para ficar, ou até um desporto que sempre esteve escondido na cultura americana, certo é que o futebol esteve presente no aniversário da América. Houve até grandes celebrações que tiveram de ser reagendadas devido aos jogos do Campeonato do Mundo. As dificuldades logísticas para organizar, jogos, viagens, treinos e celebrações do feriado nacional dos EUA fizeram-se sentir, mas em Dallas, testemunhámos também que foram os americanos que se deixaram 4 de Julho contagiar pelo futebol “que se joga com os pés”.