O que o livro diz antes de o lermos
Um livro do vice-presidente dos Estados Unidos da América já está lido antes de estar escrito. O mundo inteiro está habituado a saber e a deduzir o que ele pensa, a procurar nas entrelinhas significados ocultos que confirmem as impressões que querem ter do que ele diz, de tal maneira que o livro não precisa verdadeiramente de ser escrito. Antes de o ser, já todos sabem o que acharão dele.
JD Vance, que deve boa parte da sua fama a um livro – o Lamento por uma América em Ruínas, na tradução portuguesa de Léa Viveiros de Castro e Rita Süssekind para a Dom Quixote – sabe isto perfeitamente, e um dos grandes atrativos do livro está na forma como lida com essa montanha de informação que o parece impedir de ter voz própria. Vance não se queixa desta contingência e, em certa medida, aproveita-a, de um modo muito invulgar. Consegue, por um lado, corresponder às expectativas que a sua posição exige ao livro e, por outro, contrariá-las. O resultado é um livro surpreendente que, se não tem a força descritiva e aquela adrenalina do Lamento, consegue ainda assim ser um livro adequado ao trabalho de Vance, sem se tornar mais um aguadíssimo “livro de político”, cheio de generalidades.
O livro, é importante dizê-lo, trata da perda e recuperação da fé por parte de Vance. Ora, seria estranho que o vice-presidente dos Estados Unidos, a meio do seu mandato, se dedicasse a um interlúdio teológico, ou a um testemunho beato do seu crescimento religioso, alheio ao significado político do que escreve. Trata-se, obviamente, de um livro político, e mesmo o título – Communion – é escolhido com cuidado para realçar o lado mais público da religião. O sentido comunitário da religião é um dos focos do livro, e é isso que o torna mais do que um livro de exempla, como tantos que a História da Religião já deu, e em que a América mantém uma viva tradição, com muitos best-sellers de testemunhos de conversão (pensamos, por exemplo, em Rome Sweet Home, com uma estrutura relativamente semelhante ao livro de Vance).
Neste sentido, o livro de Vance procura corresponder às expectativas. Escolhe um modo oblíquo de falar sobre política, mas um modo, de certa maneira, esperado: Vance foi eleito numa plataforma que valoriza a religião, nunca escondeu a sua fé católica, e os valores cristãos são o pilar da sua ação política, pelo que este testemunho do seu regresso à fé não é um corpo estranho no seu percurso político. É invulgar – poucos políticos têm um livro tão direcionado e que revela de uma maneira tão clara a centralidade da religião na sua vida – mas, não sendo previsível, não é surpreendente.

Vance aparece na política como representante de um tempo marcado por uma espécie de revolta contra o secularismo, pela afirmação religiosa contra a decadência do Ocidente e por uma espécie de desassombro na defesa das causas religiosas que torna este livro necessário; Vance foi eleito por este mundo, e é natural que queira fazer um ponto de ordem desta América religiosa que o elegeu; no entanto, o livro só resulta porque, de facto, na proximidade com que escreve, e numa certa honestidade pouco política que se vê que é verdadeira, intuímos que este não é para ele um problema político – é, acima de tudo, um problema pessoal. Vance está mais interessado em ser bom católico do que bom político, não se importa de por o que considera como dever religioso à frente dos valores políticos, e é isso que torna o livro interessante, útil, e mais do que um genérico político.
Assim sendo, Vance também subverte as expectativas com que qualquer pessoa chega ao livro, e é mesmo capaz de avançar por caminhos pouco óbvios e de contrariar pistas claras que poderiam servir a sua causa política. Isto é, se Vance quisesse apenas aproveitar-se da religião e da vaga político-religiosa que grassa pela América, nunca escreveria este livro desta forma. É isso que torna o livro mais interessante, e isso só pode ser percebido depois de aberto.
A perda da fé
A história de Vance é relativamente simples de contar. Cresce numa família problemática – os problemas concretos, sensatamente, não são muito escarafunchados no livro, visto que já os conhecemos do seu livro anterior – mas religiosa, marcada sobretudo pelo cristianismo sui generis da avó, mas também pelo cristianismo da própria América. Isto é, a avó é uma pessoa piedosa, sim, mas piedosa no modo que só a América protestante permite. Sem grande apreço pela religião organizada, com frequência intermitente de cultos variados e sem estar ligada a uma Igreja concreta.
O modo como Vance organiza estes seus anos formativos é interessante porque dá, só por si, uma ideia do papel da religião na América ao longo da segunda metade do século XX. O que vemos é uma tradição religiosa marcada pelos valores cristãos, capaz de se embrenhar em discussões teológicas e com uma relação forte com a Bíblia, mas sem fazer grande caso das denominações e dos sentidos particulares de cada Igreja. A avó de Vance era capaz de frequentar – quando o fazia – denominações diferentes, sem grande apego às comunidades particulares, como se houvesse um sedimento comum que ligasse o povo americano, capaz de ultrapassar as células comunitárias mais estanques.
O que é curioso, porém, é que Vance relata também o ocaso de um fenómeno muito importante do ponto de vista religioso. A popularidade dos tele-evangelistas nos Estados Unidos é um fenómeno conhecido, e poderíamos dizer que terá servido para criar esta espécie de argamassa mentalmente religiosa, mas desligada de comunidades específicas; poderá ter havido um povo habitado quotidianamente pela religião, obrigado a um esforço sincero de cumprimento dos mandamentos e da moral cristã, sem grande apego a manifestações preceituais, para quem o convívio diário com a Palavra vinha da televisão; o curioso no livro de Vance, porém, é que este mostra o pouco apreço que a avó tinha pelos tele-evangelistas. Em certo sentido, a religião televisiva vem para ele associada a um empenho em causas políticas nacionais e a uma espécie de aliança entre grupos poderosos – media e congregações mediáticas – que causavam repulsa instintiva a sectores mais populares.
É, em primeiro lugar, um aviso interessante a todos os que veem nos grandes meios de comunicação um ovo de Colombo, capaz de ampliar simplesmente, sem as adulterar, as mensagens da fé; o que a história de Vance mostra é que, de alguma maneira, se torna difícil falar a pessoas com um quotidiano concreto sem uma proximidade real e física; a escala dos tele-evangelistas torna-os, para um hillbilly, mais próximos da elite descristianizada do que da religião verdadeiro.
Por outro lado, uma das forças mais curiosas dos primeiros capítulos do livro está no modo como Vance identifica a transformação progressiva do evangelismo mediático num veículo de causas políticas, e no afastamento que isso provoca nas pessoas cuja vida obedece a uma escala muito mais modesta. Vance cita o exemplo, que terá causado grande impressão nele, do mediatismo de um caso, o chamado caso Schiavo, amplamente debatido na televisão, que basicamente se tratava de um daqueles problemas delicados relacionados com a eutanásia e o sofrimento. O que impressiona Vance, ao contrário do que talvez fosse de esperar, é o modo como casos destes, que pedem um pudor e uma intimidade clara, se tornam casos nacionais e pretextos para guerras culturais, que pouco têm que ver com a vida concreta de jovens ou pobres a tentarem viver a sua fé.
O cristianismo de guerras culturais é, di-lo o próprio Vance, o grande motor do seu afastamento da fé. O cristianismo televisivo está interessado em grandes causas políticas, na eutanásia, no aborto, e o jovem Vance não encontra espaço para os problemas de uma vida mais comum. No fundo, o que ele sente é que o cristianismo não se interessa por vidas como a dele, porque está ocupado em guerras culturais.


Este lado, precisamente um daqueles em que se nota a sinceridade de um livro que, feito com propósitos mais cínicos, procuraria ganhar a simpatia de um cristianismo adversarial em crescimento, é explorado por Vance de várias formas. O desinteresse pelas vidas comuns leva a um problema interessante e muito verdadeiro: como Vance explica, muita gente não abandona a fé por julgar que a ressurreição de Cristo é uma mentira; abandona-a, primeiro e sobretudo, por julgá-la irrelevante; por as consequências que se tiram dessa ressurreição serem pouco interessantes para a vida de um miúdo pobre da América profunda, pouco interessado nos debates nacionais cheios de nuances éticas sobre casos-limite tão específicos, que se torna impossível alguém identificar-se com eles.
Outra das formas importantes tem a ver, não tanto com o lado do desinteresse, mas do antagonismo. Vance explica muito bem a mudança que se operou nesses anos em relação ao lado polítco do cristianismo. Como ele diz, a fé da sua avó era, basicamente, apolítica. Ao longo da sua adolescência, porém, Vance vai assistindo à colagem do cristianismo e de uma série de denominações ao GOP. Esta mudança não é exactamente natural, mas está bem sintetizada numa frase que Vance põe na boca da sua madrasta: “Republicanos não se interessam pela classe operária, ponto. Como o meu pai sempre disse, ser Republicano é para os ricos. Mas se me dás a escolher entre um partido que escolhe o lado dos ricos e um que se recusa a escolher o lado dos que ainda não nasceram, sei o que escolho”.
Isto é, Vance não tem ilusões sobre a relutância com que as fileiras religiosas apoiam o GOP. Ele vê claramente uma fissura entre as elites financeiras e o povo que vota nelas, motivado apenas pela consciência de que há um problema superior em que estas elites são as que estão do lado certo, mesmo que depois os explorem em tudo. Mas esta noção de que o cristianismo foi politicamente empurrado para um lado em que não está confortável é importante porque o atira para guerras culturais que, também elas, afastaram Vance da Igreja. O tempo adolescente de Vance é o tempo em que na Igreja se execra Harry Potter, Led Zeppelin e todas as manifestações profanas com um zelo puritano mal-direccionado.
O catolicismo e a tradição americana
De tudo isto, de uma Igreja que condena o que ele gosta e não fala sobre o que lhe interessa, Vance acaba por se afastar, não por causa de nenhuma destas coisas em concreto, mas, simplesmente, porque muda de companhia e, quando entra no exército, a cultura pura e simplesmente é outra. A compreensão deste mecanismo é muito interessante: uma pessoa está disposta a aguentar incompreensão e até uma ideia de inutilidade, e mesmo assim persistir numa prática enquanto estiver ligada à sua comunidade; no entanto, basta mudar de ambiente, para poder abandonar uma crença numa verdade, simplesmente porque ela, ali, não parece aplicável, deixa de ser relevante.
É este o ponto fundamental que permite perceber a ideia do livro. A conversão de Vance tem muito de intelectual, e é tributária de uma sofisticação que nem caberia num livro testemunhal como o que Vance escreveu, nem faria grande sentido se resumida: para se perceber o que Girard pode fazer pelo Cristianismo, é Girard que se tem de ler, não JD Vance; mas o importante no relato que Vance faz é, não tanto a reconversão propriamente dita — também ela um caminho que começa na Universidade e em que o vazio da cultura financeira a que Vance se dedicou depois não é alheio — mas a consequência dessa conversão e a particularidade do catolicismo dentro do modo de vida americano.
Ou seja, há no livro um apelo à ideia de comunidade que tem vários ramos; desde a ideia de que a comunidade religiosa corresponde, mais do que a um elo teológico, a uma ideia de América, embora o “onde dois ou três se reunirem em meu nome, eu estarei no meio deles” mantenha uma centralidade teológica; desde a ideia de que a prática comunitária enforma o espírito e é ela própria a garantia da ligação do Evangelho à própria vida; desde a ideia da dimensão pública como uma condição essencial para que a fé subsista, a uma ideia de que a comunhão, no sentido mais estrito, significa também uma relação com os outros, há muitas tentativas de ligar o Cristianismo à ideia de comunidade que podem ser vistas como políticas.
A mais interessante, no entanto, é também a mais complexa. Se a questão fosse apenas política, a conversão de Vance podia ater-se ao cristianismo como um todo, de um modo que o ligaria à tradição e à História americanas, maioritariamente protestantes, ou pelo menos, convictas de que o tal “mínimo denominador comum” é uma condição operativa suficiente para a formação da comunidade; a conversão de Vance, porém, é ao catolicismo, o que de certa forma contradiz o tal espírito protestante americano. O que Vance explica, porém, é que é precisamente no catolicismo que ele encontra a verdadeira ideia de comunhão. Não só no sentido litúrgico – da comunhão verdadeira do corpo de Cristo – mas é no catolicismo que o sentido de comunidade é mais vivo, porque determina o próprio sentido da ideia de Igreja. A fé católica é sempre uma fé pública – e, nesse sentido, política – porque não pode ater-se à consciência. Não existe crença em Deus se não existe crença na comunidade, e é esta mesma comunidade que impede a fé de se tornar irrelevante, porque é nela, na comunhão, que o católico acredita. Não num livro, numa Igreja. É nesse sentido que o catolicismo pode não ser o hábito americano, mas encarnar a verdadeira tradição americana, mesmo sem fazer tão claramente como outras denominações parte da sua história política.
Vance está genuinamente interessado em purgar a religião do seu lado confrontacional. Isto não significa abdicar do seu peso político, mas implica recentrar esse peso político na vida das comunidades, não nas grandes bandeiras retóricas que empurram a América para uma guerra de que se torna cada vez mais difícil sair.